10/05/2017

Leitura espiritual

A CIDADE DE DEUS 

Vol. 2

LIVRO XIII

CAPÍTULO XVIII

Dizem os filósofos que os corpos terrestres não podem estar entre os celestes porque o seu peso natural os conduz à Terra.

Mas, dizem eles, pelo seu peso natural os corpos terrestres têm necessariamente de se manter na Terra ou a ela voltar; no Céu é que não podem estar. Os primeiros homens, é certo, viviam num a terra, coberta de bosques e de árvores de fruto, que recebeu o nome de Paraíso. Mas, como também a isto é preciso responder, quer por causa do corpo com que Cristo subiu ao Céu, quer por causa do que os santos terão na ressurreição — examinemos com um pouco mais de atenção a natureza desses pesos terrestres.

Com efeito, se a arte humana por certos processos faz boiar vasos feitos de metais que, se fossem postos na água, logo se afundariam — não será muito mais crível e muito mais eficaz o processo secreto de agir de Deus por cuja vontade omnipotente, diz Platão, pode não morrer o que nasceu, pode não se dissociar o que está unido? Todavia, não será a união do incorpóreo e do corpóreo muito mais admirável do que a união de qualquer corpo seja com que corpo for? Será que Deus não poderá conceder as massas terrestres que não caiam sob a pressão do seu peso e às almas perfeitamente felizes que coloquem onde quiserem e movam como quiserem, sem a menor dificuldade, o seu próprio corpo, terrestre, sem dúvida, mas doravante incorruptível? Quando os anjos tomam, onde lhes apraz, quaisquer animais terrestres e os colocam onde lhes apraz — teremos que pensar que eles não o fazem sem esforço ou que lhes sentem o peso? Porque não havemos então de acreditar que os espíritos dos santos, tornados felizes e perfeitos, são capazes, mercê de um dom divino, de transportar os seus corpos para onde quiserem e de os deter sem a menor dificuldade? De facto, os corpos terrestres, como normalmente sentimos quando transportamos fardos, quanto mais volumosos tanto mais pesados são; e o peso de muitos deles oprime-nos mais que o peso de poucos. Todavia, a alma transporta com mais facilidade os membros robustos da sua carne, quando gozam de boa saúde, do que os emagrecidos pela doença. Para o que transporta outro, é mais pesado o corpo são e vigoroso do que o fraco e enfermo, e para mover e transportar o seu próprio corpo, é-se mais ágil quando a boa saúde lhe dá mais volume do que quando se está extenuado pela peste ou pela fome. Não é o peso da quantidade, mas o equilí­brio do seu estado o que confere tal poder aos corpos terrestres, mesmo que sejam ainda corruptíveis e mortais. E quem será capaz de explicar com palavras a distância que separa aquilo a que chamamos saúde presente da imortalidade futura?

Não venham os filósofos argumentar com o peso dos corpos contra a nossa fé. Eu nem quero indagar porque é que eles rejeitam a possibilidade de um corpo terrestre estar no Céu, quando toda a Terra está suspensa no nada. Talvez se encontre um argumento mais ou menos verosí­mil recorrendo a esse centro do Mundo para o qual convergem todos os corpos pesados. Mas, pergunto eu, 
se os deuses menores, a quem Platão encarregou de fazerem, além dos outros animais terrestres, também o homem, puderam, com o ele diz, tirar ao fogo a qualidade de queimar, deixando-lhe a de brilhar que pode ser emitida pelos olhos, [i]

se Platão atribui à vontade e ao poder de Deus  Supremo que os nascidos não morram e que coisas tão diversas e dissemelhantes como são as corpóreas e as incorpóreas, unidas entre si, se não possam separar,

— porque havemos de ter dúvidas em reconhecer ao Deus Supremo o poder de subtrair à corrupção a carne do homem a quem confere a imortalidade, o poder de lhe conservar a sua natureza com a harmonia dos seus traços e dos seus membros e o poder de lhe tirar o estorvo do seu peso?

Mas da fé na ressurreição dos mortos e dos seus corpos imortais tratarei com mais cuidado, se Deus quiser, no fim desta obra.

CAPÍTULO XIX

Contra a doutrina dos que não crêem que os primeiros homens seriam imortais, caso não tivessem pecado, e afirmam a eternidade das almas separadas dos corpos.

Tratem os agora, conforme planeámos, dos corpos dos primeiros homens. A morte que não é boa senão para os bons, mas de todos é conhecida e não apenas de uns poucos inteligentes e crentes, e que consiste na separação da alma e do corpo em virtude da qual o corpo do ser animado que, como é evidente, vivia, com o é também evidente, morre — a morte podia ter sido poupada aos homens se eles pelo pecado a não tivessem merecido. Não é lícito duvidar de que as almas dos defuntos justos e piedosos vivem em descanso; seria, porém, preferível para eles viverem com seus corpos sãos. Até mesmo os que sustentam que a maior felicidade consiste em se viver sem corpo, são desta opinião, assim se contradizendo a si pró­prios. De facto, nenhum deles se atreveria a pôr acima dos deuses imortais homens sábios mas já mortos ou a morrer, isto é, privados dos seus corpos ou prestes a deixá-los; todavia, foi a esses deuses que, segundo Platão, o Deus Supremo prometeu, com o sendo o grande privilégio, uma vida indissolúvel, isto é, a eterna companhia dos seus corpos. Conforme entende o mesmo Platão, é para os homens um bem supremo (se tiverem passado esta vida piedosamente e como justos) o serem admitidos, após a separação 0s seus corpos, no seio dos próprios deuses que nunca deixarão os seus corpos, — mas de tal maneira que, como diz Vergílio, inspirando-se em Platão:

Olvidados do passado podem contemplar de novo a abóbada celeste. E de novo começam a desejar o regresso aos corpos.[ii]

(Efectivamente, Platão pensa que as almas dos mortais não podem ficar sempre nos seus corpos, mas são deles separadas necessariamente pela morte; mas também não podem viver sempre sem os corpos. Sem cessar os homens passam alternativamente da vida à morte e da morte à vida). Mas os sábios têm uma sorte diferente da dos outros homens: são transportados ao Céu após a morte para aí descansarem durante algum tempo, cada um no astro que lhe convém; depois, esquecidos das suas misérias passadas e vencidos pelo desejo de terem um corpo, voltam aos trabalhos e aos sofrimentos dos mortais. Quanto aos que levaram uma vida insensata, esses voltam imediatamente a corpos de homens ou de animais, conforme os seus méritos.

A condição tão dura submeteu Platão até as almas boas e sábias, às quais não foram atribuídos corpos com que tivessem que viver sempre na imortalidade, de maneira que não podem permanecer nos corpos nem viver sem eles em eterna pureza. Como referimos nos livros anteriores, Porfírio, já nos tempos cristãos, envergonhou-se desta doutrina platónica. Não só excluiu das almas humanas os corpos dos irracionais, mas também quis libertar dos vínculos corpóreos as almas dos sábios, de maneira que, «fugindo de todo o corpo», sejam retidas junto do Pai numa felicidade sem fim. Para que não parecesse que eravencido por Cristo, que promete aos santos um a vida perpétua, também ele colocou em eterna felicidade as almas purificadas sem qualquer regresso às antigas misérias; mas, para com bater a Cristo, negou a ressurreição de corpos incorruptíveis e sustentou que as almas viveriam eternamente sem corpos terrestres, mesmo sem qualquer corpo.

Mas esta opinião, valha o que valer, não o levou a proibir pelo menos que se prestasse culto religioso aos deuses corporais. Porque procedeu assim senão porque não considerou as almas, embora já desligados do corpo, como superiores aos deuses? Se, portanto, estes filósofos não ousam — julgo que jamais o ousarão — preferir as almas humanas aos deuses bem-aventurados, mas dotados de corpos eternos, porque considerarão eles absurda a nossa fé cristã que ensina que 
não só os primeiros homens, criados para não serem separados dos seus corpos pela morte, se não pecassem, deveriam, em recompensa da sua obediência, ser dotados de imortalidade de maneira a viverem eternam ente nos seus corpos, mas também que os santos hão-de ter na ressurreição os mesmos corpos com que aqui penaram, de modo que à sua carne não pode sobrevir corrupção ou dificuldade alguma, nem dor ou desventura alguma pode acontecer à sua felicidade?


(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] A teoria de que o olho emitia um raio luminoso era admitida não só por Santo Agostinho, mas também por muitos contemporâneos seus.
[ii] Vergílio, Eneida, VI, 750-751.

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