26/04/2017

Leitura espiritual

A Cidade Deus
A CIDADE DE DEUS 

Vol. 2


LIVRO XII

CAPÍTULO X

Opinião segundo a qual o género humano, tal como o próprio Mundo, sempre existiu.

Omitamos, pois, as conjecturas dos homens que falam da natureza ou da instituição do género humano, sem saberem do que falam. Crêem ’uns que, tal como o próprio Mundo, sempre houve homens. Por isso é que Apuleio descreveu o género humano dos vivos:

Um por um são mortais, mas no seu conjunto esta raça é eterna.[i]


Se o género humano é eterno, até que ponto são verdadeiras as vossas narrativas, segundo as quais se assegura quem e de que coisas foram os inventores, quais os primeiros criadores das disciplinas liberais e de outras artes, quais os primeiros habitantes de tal região ou parte da Terra, quando é que tal ou tal ilha começou a ser povoada? Responderão: «dilúvios e conflagrações têm devastado, de tempos a tempos, se não todas, pelo menos a maior parte das terras, de tal forma que os homens ficam reduzidos a um pequeno número, de cuja descendência novamente se refaz a antiga multidão; desta forma tudo se descobria e criava com o se fosse pela primeira vez — quando, na realidade, o que se fazia era restaurar o que tinha sido interrompido e extinto pelas ditas imensas devastações. Aliás, o homem não pode provir senão do homem». Mas o que eles dizem é o que pensam e não o que sabem.


CAPÍTULO XI

Falsidade da história que atribui muitos milénios aos tempos passados.

Também alguns escritos eivados de mentira os enganam. Citam esses escritos em seu apoio e dizem que a história tem já muitos milhares de anos. Todavia, segundo a Sagrada Escritura, nem sequer contamos ainda com seis milénios completos desde a criação do homem. Sem me alongar em refutar o infundado desses escritos em que se mencionam milhares de anos, para arruinar a sua autoridade nesta questão, lembremos a carta de Alexandre Magno a Olímpia, sua mãe. Conta ela a história de um sacerdote egípcio, insinuando que foi extraída dos escritos sagrados daquele país. Contém também as monarquias bem conhecidas na história grega. Segundo essa carta, o império assírio ultrapassou cinco mil anos, ao passo que a história grega lhe atribui cerca de mil e trezentos anos a partir de Belo que o sacerdote egípcio reconhece também como primeiro rei da Assíria. Segundo este sacerdote os impérios persa e macedónio teriam durado até Alexandre, a quem ele se dirige, mais de oito mil anos. Mas, segundo os Gregos, o dos Macedónios contou, até à morte de Alexandre, quatrocentos e oitenta e cinco anos; e ó dos Persas, até à sua queda pela vitória do mesmo Alexandre, durou duzentos e trinta e três anos. Estes números de anos são, pois, bem menores que os dos egípcios. Nem multiplicados por três lhes ficariam iguais. De facto, conta-se que os egípcios tinham outrora anos tão curtos que acabavam em quatro meses. Daí que um ano pleno e real, como o que agora vigora tanto entre nós como entre eles, compreende três dos antigos anos deles. Mas nem mesmo assim, com o já disse, a história grega concorda com a do Egipto na contagem dos tempos. E, portanto, à dos Gregos que é preciso prestar fé, porque não excede o número de anos m arcados pelas nossas verídicas e Sagradas Escrituras.

Se esta carta de Alexandre, que tão célebre se tornou, se afasta tão exageradamente, no cálculo dos tempos, da provável fidelidade dos acontecimentos — muito menos dignos de fé são aqueles escritos cheios de velhas fábulas que eles pretenderam opor à autoridade dos tão conhecidos livros sagrados. Estes predisseram que se lhes havia de dar crédito em todo o Mundo e todo o Mundo, com o fora predito, neles acreditou. A veracidade das suas narrativas sobre factos passados fica bem demonstrada pela exactidão com que se cumprem as suas predições futuras.


CAPÍTULO XII

Dos que julgam que este Mundo não é efectivamente eterno, mas são de opinião de que, ou se tem de admitir inúmeros m undos, ou então que se trata do mesmo que, num ciclo de séculos sempre está a nascer e a extinguir-se.

Outros que não consideram este Mundo eterno, pensam que ele não é o único que existe mas que existem inúmeros mundos,

ou que há um só, mas passa por inúmeras alternativas de nascimentos e de mortes com determinados intervalos de séculos.


Estes têm que admitir que o género humano existiu no princípio sem ter havido homens que o gerassem. Não se trata, como julgam os anteriores, de dilúvios e incêndios da T erra que não atingiram o Mundo inteiro, mas pouparam alguns sobreviventes destinados a reconstituir o seu anterior número. Não podem admitir que, uma vez destruído o Mundo, no Mundo ainda fiquem alguns homens. Mas com o admitem que o Mundo renasce da sua matéria, assim, na sua opinião, o género hum ano renasceria dos elementos — e depois, com o nos outros animais, geração multiplicaria a raça dos mortais.


(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] Apuleio, De deo Socratis, VI, p. 10

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