17/04/2017

Leitura espiritual

A Cidade Deus
A CIDADE DE DEUS


Vol. 2

LIVRO X

CAPÍTULO XXV

Divisão de toda a filosofia em três partes.

Tanto quanto nos é possível compreendê-lo, é daí que vem a divisão, pretendida pelos filósofos, do estudo da sabedoria, em três partes — ou antes: eles puderam observar que estava dividida em três partes (não foram eles que  determinaram que fosse assim, mas apenas descobriram que assim é). A uma parte chamou-se Física, à outra Lógica e à terceira Ética. (A estes nomes correspondem, nos escritos de muitos autores latinos, os de natural, racional e moral, como resumidamente já referimos no livro oitavo). Disto não se pode concluir que esses filósofos tenham tido, nestas três partes, alguma ideia da Trindade como Deus, embora Platão — o primeiro, diz-se, a descobrir e a recomendar esta divisão — tenha visto em Deus o único autor de todas as naturezas, o dador da inteligência, o imperador do amor pelo qual se vive virtuosa e felizmente. Mas há diversas opiniões quando há que tratar da natureza das oisas, dos meios de discernir a verdade, do fim do bem a que devemos referir tudo o que fazemos. Todavia, toda a sua pesquisa vem dar a estas três grandes e gerais questões. Assim, embora em cada uma destas questões cada um professe opiniões divergentes, nenhum, porém, hesita em reconhecer que existe uma causa para a natureza, um método para a ciência e um sentido para a vida.

Também são três as coisas que concorrem para o trabalho de um artífice: a natureza, a doutrina, o uso (prática). A natureza deve ser apreciada pelo engenho, a doutrina pela ciência e o uso (prática) pelos frutos (resultados). Não ignoro que o «fruto» se diz propriamente de alguém que frui e o «uso» (ou utilidade) de alguém que utiliza. A diferença parece consistir em que — «fruir» se diz de um a coisa que nos agrada por si mesma sem estar relacionada com outra, «utilizar» se diz de uma coisa que se procura para outra. (Por isso, mais que fruir, convém utilizar os bens temporais para se merecer o gozo dos bens eternos; não como os perversos que querem gozar do dinheiro e utilizar-se de Deus. Porque não é por causa de Deus que em pregam o seu dinheiro — é antes por causa do dinheiro que prestam culto a Deus). Todavia, conforme o modo de falar que o hábito fez prevalecer, «utilizam-se» os «frutos» e «frui-se» do «uso»: não se fala no sentido próprio de «frutos do campo», dos quais, na verdade, todos fazemos um uso temporal. E, pois, nesse sentido que eu talei de uso a propósito das três coisas que convinha considerar no homem: a natureza, a doutrina e o uso. Como disse, foi a partir delas que, tendo em mente a consecução da vida feliz, os filósofos dividiram em três partes a sua doutrina. Foi a partir delas que, tendo em mente a obtenção da vida bem-aventurada, deriva esta divisão em três da disciplina descoberta, como já disse,pelos filósofos: a natural por causa da natureza, a racional por causa da doutrina, a moral por causa do uso. Portanto, se a nossa natureza procedesse de nós, seríamos nós os autores da nossa sabedoria e não teríamos a preocupação de a adquirirmos da doutrina, isto é, de a aprendermos dos outros; e o nosso amor, de nós partindo e a nós referido, nos bastaria para vivermos felizes sem necessidade de qualquer outro bem de que gozássemos. Mas porque, de facto, a nossa natureza para existir tem Deus como autor, — sem dúvida que temos de tê-lo como mestre para conhecermos a Verdade e ainda com o dispensador das
nossas íntimas alegrias para sermos felizes.

CAPÍTULO XXVI

Imagem da soberana Trindade que, de certo modo, se encontra mesmo na natureza do homem ainda não bem-aventurado.

Também reconhecemos em nós uma imagem de Deus, isto é, daquela soberana Trindade. Claro que não é uma imagem igual, mas antes imensamente distante. Tão pouco é coeterna. Num a palavra: não é da mesma substância que Deus. Todavia, não conhecemos entre os seres por Ele criados nada que seja d’Ele mais próximo pela natureza do que essa imagem, — embora esta tenha ainda necessidade de uma reforma que a aperfeiçoe para ser também muito próxima pela semelhança.

Efectivamente, somos e sabemos que somos e amamos esse ser e esse conhecer. E nestas três coisas que acabo de referir nenhuma falsidade parecida com a verdade nos perturba. De facto, não as atingimos, como às realidades exteriores, por qualquer sentido corporal como as cores pela vista, os sons pelo ouvido, os perfumes pelo olfacto, os sabores pelo gosto, o duro e o mole pelo tacto. Destas coisas sensíveis temos também imagens que muito se lhes assemelham — mas são corporais: consideramo-las com o pensamento, conservamo-las na memória e somos por elas incitados a desejarmos as próprias coisas; mas sem qualquer imagem enganosa da fantasia ou da imaginação, é coisa absolutamente certa que sou, que conheço e que amo. Nestas verdades nenhum receio tenho dos argumentos dos académicos que dizem: Que será se te enganares? Pois se me enganar, existo. Realmente, quem não existe de modo nenhum se pode enganar. Por isso, se me engano é porque existo. Porque, portanto, existo se me engano, com o poderei enganar-me sobre se existo, quando é certo que existo quando me engano? Por conseguinte, com o seria eu quem se enganaria, mesmo que me engane não há dúvida de que não me engano nisto: — que conheço que existo. Mas a consequência é que não me engano mesmo nisto: — que conheço que me conheço. De facto, assim como conheço que existo, assim também conheço isso mesmo: — que me conheço.

E quando eu amo estas duas coisas, acrescento às coisas que conheço o amor com o terceiro elemento que não é de menor importância. Pois não me engano sobre se me amo, já que não me engano nas coisas que amo; mesmo que elas fossem falsas, seria verdade que amo as coisas falsas. Realmente, por que motivo eu havia de ser justam ente repreendido e justamente impedido de amar as coisas falsas se fosse falso que as amo? Com o, porém, essas coisas são verdadeiras e certas, quem duvida de que o próprio amor que as faz é também ele amor verdadeiro e certo? E tão verdadeiro que ninguém há que não queira existir com o nada existe que não queira ser feliz. E como poderá ser feliz se nada é?


CAPÍTULO XXVII

Do ser e do conhecimento — e do amor por um e outro.

A existência é, por um a inclinação natural, tão agradável, que, só por isso, nem os mais desgraçados querem morrer e quando se sentem desgraçados não querem que sejam eles a desaparecer, mas antes que desapareça a sua desgraça. Mesmo àqueles que se consideram os mais infelizes e de facto o são, assim julgados não só pelos sábios que os têm por insensatos, mas também pelos que, julgando-se felizes, os têm por pobres e indigentes, — se alguém lhes oferecesse a imortalidade em que nem mesmo a infelicidade morresse, de maneira que, se se recusassem a permanecer eternam ente infelizes, deixariam todos e para sempre de existir e seriam votados a total aniquilação, com certeza que rejubilariam de alegria e prefeririam continuar a ser eternam ente o que são a deixarem de todo de ser. Disto mesmo é testem unha o seu bem conhecido sentimento. Porque será que receiam morrer e preferem viver nos seus tormentos a acabar com eles na morte, senão porque é claramente evidente que à natureza repugna não ser? Também quando sabem que estão prestes a morrer, desejam que lhes seja concedida, como um grande benefício, a misericórdia de viverem durante mais algum tempo na mesma miséria e a morrerem mais tarde. Não há a menor dúvida de que mostram assim com que gratidão aceitariam a imortalidade mesmo que com ela não pusessem termo à sua indigência.

Pois quê? Todos os animais, mesmo os privados de razão, aos quais não é dado cogitar estas coisas, desde os dragões gigantes até aos mais pequenos vermezitos, não exprimem eles também por todos os movimentos possí­veis, o seu desejo de existir e, deste modo, de evitar a morte? Pois quê? Todas as árvores e plantas (sem sensibilidade para evitarem, com movimentos exteriores, a sua destruição), não é certo que, para lançarem para o ar os cimos dos ramos, mergulham no solo as extremidades das suas raízes para dele colherem o sustento e assim, à sua maneira, se esforçam por conservarem o ser? Enfim, os próprios corpos destituídos não só de sensibilidade, mas até de vida vegetativa, lançam-se para o alto, caem cá em baixo ou quedam-se suspensos no meio para conservarem  a sua essência num lugar onde, segundo a sua natureza, ela possa subsistir.

Pois bem: quanto se ama o conhecer e como repugna à natureza humana ser enganada, pode concluir-se do facto de que ninguém há que não prefira afligir-se em são juízo a alegrar-se na demência. Esta grande e admirável força não se encontra, fora do homem, em qualquer animal destinado à morte. É certo que alguns, para contemplarem a nossa luz, têm o sentido da vista mais agudo que o nosso; mas não podem atingir aquela luz incorpórea que na nossa m ente brilha de certo modo para que possamos emitir acerca de todas as coisas um juízo correcto; porque é na medida em que a possuímos que desse juízo somos
capazes. Todavia, se não há ciência nas sensações dos animais privados de razão, há neles, porém, pelo menos uma certa semelhança de ciência. Os outros seres corpóreos chamam -se sensíveis, não porque sintam, mas porque são sentidos. Entre eles os vegetais imitam a sensibilidade pelo acto de se nutrirem e se reproduzirem. Todavia, estes e todos os seres corporais têm na natureza as suas causas latentes. Quanto às suas formas, que embelezam a estrutura deste m undo visível, eles apresentam-nas aos nossos sentidos para serem percebidas, parece que com o se quisessem dar-se a conhecer para compensarem o conhecimento que não têm. Nós captamo-los com os sentidos do corpo, mas não é comesses sentidos do corpo que os julgamos. Com efeito, um outro sentido do homem interior, muito superior aos outros, permite-nos sentir não só o justo mas também o injusto: — o justo pela sua beleza inteligível, o injusto pela privação dessa beleza. Para o exercício deste sentido não chega nem a agudeza da pupila, nem a abertura dos ouvidos, nem os respiradouros do nariz, nem a abóbada do palatino, nem tacto algum corpóreo. E nesse sentido que encontro a certeza de que existo e de que conheço; é nesse sentido que encontro a certeza de que amo tudo isso e de que amo.



(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)


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