14/04/2017

Leitura espiritual

A Cidade Deus
A CIDADE DE DEUS


Vol. 2

LIVRO X

CAPÍTULO XVIII

A oposição dos contrários torna mais patente a beleza do Mundo na ordem que Deus lhe conferiu.

Deus não teria criado nenhum, já não digo dos anjos, mas mesmo nenhum dos homens, cuja malícia futura previra, se igualmente não tivesse conhecido os meios de os mudar em proveito dos bons, e assim embelezar a ordem dos séculos, com o um formosíssimo poema de variadas antíteses. Realmente, aquilo a que se chama antítese é um dos mais graciosos ornamentos do discurso que em latim se poderia   chamar oposição ou, mais expressivamente, contraste. Embora este termo não esteja em uso entre nós, a figura é um dos ornamentos de estilo de que o latim, ou antes, as línguas de todos os povos, também faz uso. Na segundo Epístola aos Coríntios é por antíteses que o apóstolo Paulo rodeia com suavidade aquela passagem em que diz:

Com as armas da justiça combatemos à direita e à esquerda: gloriosos e obscuros desacreditados e honrados, como sedutores e verídicos, como se nos ignorassem e nos conhecessem, quase moribundos e, todavia, pujantes de vida, castigados, mas não exterminados, tristes, mas sempre alegres, pobres mas a muitos enriquecendo, nada tendo e tudo possuindo. [i]

Ora, assim com o a oposição dos contrários em beleza o discurso, assim também um a espécie de eloquência, não das palavras, mas das coisas, põe em relevo, por uma semelhante oposição, a beleza do Mundo. Isto no-lo manifesta com toda a clareza o livro do Eclesiástico desta maneira:

Em frente do mal está o bem; em face da morte está a vida. Da mesma forma em frente do justo está o pecador.

E assim contempla todas as obras do Altíssimo: todas, duas a duas, uma oposta à outra.
[ii]


CAPÍTULO XIX

Como é que parece que se deve entender o que está escrito Deus separou a luz das trevas.

A própria obscuridade da palavra divina tem esta vantagem: suscita e esclarece várias explicações verdadeiras quando uns a entendem de uma forma e outros de outra forma (contanto que o que numa passagem se entende com dificuldade se confirme com o testemunho de factos manifestos ou com outras passagens bem claras;
— quer se acabe, enquanto se esclarecem muitas questões, por encontrar o pensamento do escritor, quer, embora continue oculto, se manifestem outras verdades durante o aprofundar dessa obscuridade). Parece-me que não é uma opinião em desacordo com as obras de Deus ver a criação dos anjos na criação da luz primitiva e a separação dos anjos santos dos anjos impuros nesta frase:

E Deus separou a luz das trevas e à luz chamou dia e
noite às trevas,
[iii]

— pois só pôde separar estas coisas Aquele que antecipadamente pôde saber, antes da queda, quais viriam a cair e, privados da luz da verdade, permaneceriam nas trevas do orgulho. Quanto ao dia e à noite que conhecemos, isto é, a nossa luz e as nossas trevas, Deus ordenou a esses luzeiros do Céu que ferem os nossos sentidos que estabelecessem a separação, ao dizer:

Façam-se luzeiros no firmamento do céu para que brilhem sobre a terra e separem o dia da noite;[iv]

e pouco depois:

E Deus fez dois grandes luzeiros o maior para presidir ao dia e o menor para presidir à noite; e fez também as estrelas. E colocou-os Deus no firmamento do céu para brilharem sobre a terra e presidirem ao dia e à noite e separarem a luz das trevas.[v]

Mas entre esta luz que é a sociedade santa dos anjos aos quais o brilho da verdade dá um esplendor inteligível, e as trevas contrárias, isto é, os sombrios espíritos dos maus anjos desviados da luz da justiça só pode estabelecer a divisão Aquele para quem o mal futuro (mal não da natureza mas da vontade) não pode estar escondido ou obscuro.


CAPÍTULO XX

Acerca das palavras E viu Deus que a luz era boa, proferidas logo a seguir à separação da luz das trevas.

Convém, por fim, não esquecer que, quando Deus disse:

Faça-se a luz e a luz foi feita [vi]

logo acrescenta:

E Deus viu que a luz era boa [vii]

— e isto, antes de Deus ter separado a luz das trevas e de ter chamado dia à luz e noite às trevas, para que não parecesse que lhe agradavam as tais trevas misturadas com a luz. De facto, sendo inimputáveis as trevas (entre as quais e esta luz visível aos nossos olhos os luzeiros do Céu estabeleceram a separação), não foi antes, mas depois desta separação que se disse:

E Deus viu que isso era bom.[viii]

O que se disse foi:

E pô-los no firmamento do céu para brilharem sobre a terra e presidirem ao dia e à noite e separarem a luz das trevas. E Deus viu que isso era bom.[ix]

Ambas — luz e trevas — lhe agradavam porque ambas eram sem pecado. Mas quando Deus diz:

Faça-se a luz e a luz foi feita
E Deus viu que a luz era boa,

e em seguida se lê:

E separou Deus a luz das trevas e Deus chamou dia à
luz e noite às trevas,

não acrescenta:

E Deus viu que isso era bom

para evitar chamar a um a e outra conjuntamente quando uma das duas era má, aliás não por natureza, mas por seu próprio vício. Foi por isso que apenas a luz agradou ao Criador. Quanto às trevas angélicas, embora tivessem de ser submetidas a uma ordem, não tinham, porém, de ser destinadas a ser aprovadas.



(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] II Cor., VI, 7-10.
[ii] Ecles., XXXIII, 15.
[iii] Gen., I, 4-6.
[iv] Gen., I, 14.
[v] Gen., I, 16-18.
[vi] Gen., I, 3.
[vii] Ibid.
[viii] Ibid.
[ix] Ibid.

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