19/04/2017

Leitura espiritual

A Cidade Deus
A CIDADE DE DEUS 


Vol. 2

LIVRO X

CAPÍTULO XXXI

Sétimo dia — em que se põem em destaque o repouso e a perfeição.

No sétimo dia, isto é, no mesmo dia sete vezes repetido, Há também um número perfeito, mas por outra razão: ele anuncia o repouso de Deus em que, pela primeira vez, se fala de santificação. Não quis Deus santificar esse dia com a alguma das suas obras, mas com o seu repouso que não tem tarde. Não há criatura alguma que, conhecida de uma maneira no Verbo e de outra maneira em si mesma, subministre um conhecimento diurno e um conhecimento vespertino.

Certam ente que acerca da perfeição do número sete muitas considerações poderiam ser aventadas. Mas este livro já se vai alongando e receio, ao apresentar-se a oportunidade, parecer desejoso de alardear a minha cienciazinha (scientiola) com mais vaidade do que proveito. Deve, pois, ter-se em conta a regra da moderação e da gravidade para se evitar que, falando muito do número, me surpreenda a desprezar o peso e a medida. Basta, pois, recordar que três é o primeiro número ímpar completo, que quatro é o primeiro número par completo e que dos dois resulta o sete. Por isso muitas vezes se toma o sete pela universalidade, como nas frases:

Sete vezes o justo cairá e se levantará,[i]

isto é, por muitas vezes que caia, não perecerá; estas quedas não se referem à iniquidade, mas às tribulações que conduzem à humildade. E

louvar-te-ei sete vezes por dia,[ii]

que exprime o pensamento, já exposto, noutra passagem, nestes termos:

O seu louvor estará sempre na minha boca.[iii]

Há nos autores sagrados muitas passagens semelhantes em que o número sete é, como disse, usado para exprimir a universalidade de qualquer coisa. Por isso com o mesmo número se significa por vezes o Espírito Santo do qual disse o Senhor:

Ensinar-vos-á toda a verdade.[iv]

Aí está o repouso de Deus, graças ao qual se repousa em Deus. Na verdade, é no todo, isto é, na perfeição plena, que está o repouso: o trabalho está na parte. Por isso nos esforçamos enquanto conhecemos em parte; quando chega o que é perfeito, desvanecer-se-á o que é em parte. E por isso, também , que tão trabalhosamente examinamos estas Escrituras.

Mas os santos anjos (a cuja sociedade e congregação, neste tão laborioso peregrinar, aspiramos) esses têm eternidade de permanência, facilidade de conhecimento e felicidade de repouso — e por isso é que nos ajudam sem dificuldade porque não têm que se esforçar na simplicidade e liberdade dos seus movimentos espirituais.

CAPÍTULO XXXII

Opiniões dos que julgam que a criação dos anjos precedeu a do Mundo.

Que ninguém venha suscitar contendas dizendo que a frase:

Faça-se a luz e a luz fez-se ,[v]

não se refere aos santos anjos mas se refere à criação, desde os primórdios, de certa luz corpórea, e os anjos não só não foram criados antes do firmamento posto entre as águas e chamado céu, mas foram criados mesmo antes do facto a que se refere a frase:

No princípio fez Deus o céu e a terra,[vi]

e a frase:

No princípio [vii]

não designa o começo da criação (pois os anjos foram feitos antes) mas quer dizer que Deus tudo fez na sua Sabedoria, isto é, no seu Verbo, designado pela Escritura por «Princípio» (Ele próprio o declarou no Evangelho quando, à pergunta dos Judeus «quem era», respondeu que «era o Princípio»).

Nenhuma resposta darei em contrário, sobretudo porque me apraz ver no livro sagrado do Génesis, logo desde o exórdio, que a Trindade é evocada. Quando se diz:

No princípio fez Deus o céu e a terra2 [viii]

dá-se a entender que o Pai criou o Filho, como o testemunha o Salmo em que se lê:

Como são magníficas as tuas obras, Senhor!
A todas fizeste na Sabedoria,
[ix]

— pois, muito a propósito, o Espírito Santo é também mencionado pouco depois. Efectivamente, a Escritura — depois de declarar que a Terra tinha Deus feito no princípio, ou a que massa de matéria destinada à construção do Mundo tinha chamado céu e T erra, e depois de ter acrescentado:

A terra era invisível e desorganizada e as trevas estavam sobre o abismo,[x]

— então é que acrescenta, para completar a menção da Trindade:

E o Espírito de Deus pairava sobre a água.

Portanto, cada um escolha o sentido que quiser dar a estas palavras tão profundas que se pode, para exercício dos leitores, interpretá-las de diversas maneiras que não colidem com a regra de fé. Do que ninguém pode, porém, duvidar é de que os santos anjos estão nas moradas sublimes e, em bora não coeternos com Deus, estão, todavia, seguros e certos da sua verdadeira e eterna felicidade. Que é a esta sociedade que pertencem os pequeninos, ensinou-o o Senhor não só quando disse:

Serão iguais aos anjos de Deus [xi]

mas também mostrou de que contemplação gozam os mesmos anjos quando diz:

Cuidado! Não desprezeis um só destes pequeninos, pois eu vo-lo digo: os seus anjos nos Céus vêem sempre a face de meu Pai que está nos Céus.[xii]



(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] Prov., XXIV, 16.
[ii] Salmo CXVIII, 164.
[iii] Salmo XXXIII, 1.
[iv] Jo XVI, 13.
[v] Gen I, 3.
[vi] Salmo XXXIII, 1.
[vii] Gen I, 1.
[viii] Gen I, 1.
[ix] Salmo CIII, 24.
[x] Gen I, 1-2.
[xi] Mt XVII, 10.
[xii] Mt XVII, 10.

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