07/03/2017

Leitura espiritual

A CIDADE DE DEUS

Vol. 2

LIVRO IX

CAPÍTULO V

As paixões que afectam a alma dos cristãos não arrastam ao vício mas exercitam a virtude.

Por agora, não é preciso expor em pormenor e com precisão o que, a propósito destas paixões nos ensina a Escritura Sagrada, onde está contida a ciência cristã. Esta submete a inteligência a Deus, para que Ele a dirija e a ajude; e à inteligência submete as paixões, para que ela as modere, as refreie e as ponha ao serviço da justiça. Em
suma, na nossa doutrina não se pergunta à alma piedosa se se enco­leriza, mas porquê; nem se está triste, mas donde lhe vem a tristeza; nem se tem medo, mas porque é que teme.

De resto, irritar-se contra um pecador para o corrigir, entristecer-se com um aflito para o consolar, horrorizar-se à vista de um homem em perigo para o impedir de perecer — pensando bem, não vejo que isso seja repreensí­vel. É verdade que os estoicos costumam censurar a misericórdia. To­davia, quanto não seria mais louvável o nosso estoico comover-se com pena de um homem a salvar de um perigo, do que perturbar-se com o medo de um naufrágio. Muito mais belo, muito mais humano, muito mais conforme com os sentimentos de um a alma piedosa, foi o elogio que Cícero dirigiu a César:

Das tuas virtudes, nenhuma é mais admirável nem
mais agradável do que a misericórdia
[i].


Mas que é a misericórdia senão a com paixão do nosso coração para com a miséria alheia, que nos impele a socorrê-la, se pudermos? E este movimento serve a razão quando a misericórdia se manifesta sem com prometer a justiça, quer se exerça para com um necessitado, quer se
perdoe a um arrependido. Cícero, egrégio orador, não teve dúvidas em lhe chamar virtude, ao passo que os estoicos não se envergonham de a colocar entre os vícios, em bora admitindo, como o ensinou o livro de Epicteto, — ilustre estoico fiel aos princípios de Zenão e de Crisipo,
chefes dessa escola, que a alma do sábio está sujeita a tais paixões, embora isenta de todo o vício. Segue-se daí que não consideram estas paixões como vícios, desde que, quando surgem no sábio, não causem nenhum prejuízo à razão e ao vigor do espírito. Há, pois, identidade de opiniões entre os peripatéticos, os platónicos e os próprios estoicos. Mas, com o diz Túlio, há muito tempo que a controvérsia de palavras atormenta estes pequenos gregos (graeculi) mais ávidos de disputas do que de verdade.


Mas, a propósito, põe-se agora uma questão: terão de se considerar como fraquezas da vida presente os «afectos» (affectus) deste género que nós experimentamos na prática das boas acções? Os santos anjos punem sem cólera os que lhes são entregues pela eterna lei de Deus para serem punidos; socorrem os desgraçados, sem sentirem com  paixão para com a sua desgraça; prestam aos amigos em perigo a sua ajuda, sem experimentarem o menor receio; e, todavia, na linguagem humana empregam-se, mesmo a seu respeito, as palavras que designam estas paixões, devido a uma certa analogia nos actos e não devido à fraqueza das «afeições» (affectionum). Da mesma forma,
segundo a Escritura, o próprio Deus se irrita, e, todavia, não se erturba com qualquer paixão. A palavra «cólera» designa o efeito da vingança e não um alvoroçado afecto.


CAPÍTULO VI

Paixões que perturbam os demónios, segundo Apuleio, que afirma ser útil aos homens a sua ajuda junto dos deuses.

Por agora, ponhamos de parte a questão dos santos anjos e vejamos com o, segundo os platónicos, os demó­nios, colocados entre os deuses e os homens, são agitados pelas ferventes ondas d as' paixões. Se, efectivam ente, sofressem tais movimentos, mantendo a liberdade de espí­rito e dominando-as, Apuleio não teria dito dos demónios que, en­tregues, como nós, aos movimentos desordenados do coração e às agitações do espírito, flutuam à mercê do fervilhar das ondas do pensamento. E, pois, o seu espírito, isto é, a parte superior da alma, a parte que os to m a racionais, onde a virtude e a sabedoria (se é que algum a têm ) com andariam as paixões turbulentas das partes inferiores da alma, para as reger e moderar — é, pois, o seu
espírito, digo eu, com o confessa este platónico, que é sacudido pelas agitadas ondas das paixões. O seu espírito é, portanto, escravo das paixões torpes, dos medos, das cóleras e de outras que tais. Qual é, então, neles a parte que está livre e na posse da sabedoria pela qual poderão agradar aos deuses e, com o exemplo dos seus bons costumes, estimular os homens, — se o seu espírito, submetido e oprimido por pai­xões viciosas, aplica tudo o que a natureza lhes concedeu de razão para enganar e seduzir — com tanta maior sanha quanto mais possuído está pela avidez de prejudicar?


CAPÍTULO VII

Afirmam os platónicos que os deuses foram desacreditados pelas fantasias dos poetas, que os representam com o sujeitos a afeições contrárias,próprias dos demónios e não dos deuses.

Se alguém disser que não se refere a todos mas apenas ao grupo dos maus demónios aos quais os poetas, sem muito se afastarem da verdade, representam como deuses inimigos ou amigos do homem, e que é destes que Apuleio diz que «flutuam à mercê do fervilhar das ondas do seu pensamento» — com o poderemos compreender uma coisa dessas, quando, ao falar assim, ele (Apuleio) descreve o lugar que ocupam entre os deuses e os homens, não apenas os maus mas todos os demónios, devido ao seu corpo aéreo?

Realmente, diz ele, a ficção dos poetas consiste nisto: em colocarem alguns destes demónios entre os deuses, em darem-lhes nomes de deuses, em lhes distribuírem homens à sua vontade, como amigos ou inimigos, — e tudo graças à liberdade impune da ficção poética. Todavia, apresentam-nos os deuses muito distanciados, devido à sua morada celeste e à opulência da sua felicidade, destes costumes dos demónios. É, pois, uma ficção dos poetas chamar deuses a seres que o não são e, com o nome de deuses, pô-los abrigar entre si por causa dos homens que amam ou odeiam por paixão partidária. Mas esta fic­ção, diz ele, não está longe da verdade, porque os demónios, chamados deuses sem o serem, são, todavia, descritos tais quais são. Diz ser o caso dessa Minerva de Homero

que intervém em plena assembleia dos Gregos para acalmar a
cólera de Aquiles
[ii].
Essa Minerva é para ele um a ficção poética, porque Minerva, considera-a ele como uma deusa e coloca-a, longe de todo o contacto com os mortais, nas altas regiões do éter, entre os deuses, que ele a todos tem por bons e felizes. Mas que certo demónio tenha favorecido os Gregos contra os Troianos e outro tenha protegido os Troianos contra os Gregos (Vénus e Marte, como lhes chama o citado poeta (Homero) — mas que para ele (Apuleio) são deuses por ele colocados nas moradas celestes onde não praticam estas façanhas,
e que os demónios tenham lutado entre si a favor dos seus amigos contra os seus inimigos,
— é nisso que, confessa, os poetas pouco se afastam
da verdade. Realmente, contam estes factos de seres semelhantes aos homens nos movimentos do seu coração e que, como afirma (Apuleio), flutuam à mercê do fervilhar das ondas do seu pensamento, capazes de manifestarem a sua predilecção por uns e o seu ódio por outros, não por amor da justiça, mas por paixões partidárias, tal como o pú­blico que, no circo, tom a partido pelos caçadores ou aurigas da sua preferência. Parece, pois, que o filósofo platónico procurou fazer com que, quando os poetas cantam estes feitos, todos acreditem que eles foram cometidos, não pelos demónios intermediários, mas pelos próprios deuses cujos nomes os poetas introduzem nas suas ficções.


(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] Cícero, Pro Ligario, X II, 37.
[ii] Apuleio, De Deo Socratis, XI; ed. Thomas, p. 19.

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