28/03/2017

Leitura espiritual

A Cidade Deus
A CIDADE DE DEUS


Vol. 2

LIVRO XI

CAPÍTULO IV

Criação do Mundo: ela não é intemporal nem foi estabelecida segundo um plano novo de Deus, com o se Deus tivesse querido depois o que antes não quisera.

De todos os seres visíveis o maior é o Mundo; de todos os invisíveis o maior é Deus. Mas que o Mundo exjste — vemo-lo nós; que Deus existe — cremo-lo. De que Deus fez o Mundo não temos mais segura garantia para o crer do que o próprio Deus. Onde o ouvimos? Em parte alguma melhor, com certeza, do que nas Santas Escrituras onde um seu profeta disse:

No princípio fez Deus o Céu e a Terra.
[i]

Então este profeta estava lá quando Deus criou o Céu e a Terra? Não. Mas esteve lá a Sabedoria de Deus pela qual se fizeram todas as coisas, que se transmite também às almas santas, faz delas os amigos e profetas de Deus, e, no seu íntimo, silenciosamente, lhes conta as suas obras.

Também lhes falam os anjos de Deus que vêem sempre a face do Pai e anunciam a sua vontade a quem é preciso. Era um deles o profeta que disse e escreveu:

No princípio fez Deus o Céu e a Terra.[ii]

é tal a autoridade que tem, como testemunho, para que acreditemos em Deus, que, pelo mesmo Espírito de Deus (que por revelação lhe deu a conhecer estas coisas) predisse com tanta antecedência a nossa fé.

E porque é que ao Deus eterno aprouve criar, então, o Céu e a Terra que antes não tinha criado? Se os que isto perguntam pretendem que o Mundo é eterno, sem princípio e, portanto, parece que não foi feito por Deus, estão muito afastados da verdade e deliram atingidos da enfermidade mortal de impiedade. Porque, além das vozes proféticas, o próprio Mundo pelas suas mudanças e revoluções tão bem ordenadas, com o pelo esplendor de todas as coisas visíveis, proclama silenciosamente, a bem dizer, não só que foi feito, mas também que não pôde ser feito senão por Deus inefável e invisivelmente grande, inefável e invisivelmente belo.

Outros há que confessam que o Mundo foi feito por Deus; todavia, não admitem que ele tenha tido começo no tempo, mas sim começo na sua criação: de uma maneira difícil de compreender, foi feito desde sempre. Julgam estes que, com tal maneira de dizer, defendem Deus de certa temeridade fortuita, não se vá crer que lhe veio de repente ao espírito a ideia, jamais antes concebida, de fazer o Mundo, e que foi determinado por uma vontade nova — Ele até então absolutamente imutável. Não vejo como, em outras questões, poderão sustentar esta opinião, sobretudo acerca da alma. Se pretendem que ela é co-etema com Deus, torna-se-lhes impossível explicar donde lhe adveio um a infelicidade nova, nunca antes por ela experimentada na eternidade. Se disserem que ela sofreu sempre alternativas de infelicidade e de felicidade, terão, então, de afirmar esta alternativa também para sempre — mas, então, seguir-se-ia o absurdo de, nos momentos em que se diz feliz, mesmo neles não poder sê-lo, se prevê a sua infelicidade e torpeza futura. E se não prevê, mas crê que será sempre feliz, e essa falsa crença a torna nesse caso feliz — nada se pode afirmar de mais insensato.

E, se se pensar que sempre, no decurso dos séculos infinitos, ela suportou alternativas de infelicidade e de felicidade, mas que agora, finalmente libertada, não voltará a cair na infelicidade, fica-se, pelo menos, obrigado a admitir que ela nunca foi verdadeiramente feliz, mas vai apenas começar a sê-lo de um a felicidade nova que não engana. Confessar-se-á, então, que qualquer coisa de novo lhe aconteceu, qualquer coisa de grande e de magnífico que ela jamais antes conhecera durante a sua eternidade. Se negarem que Deus, por um desígnio eterno, foi a causa desta novidade, terão também que negar que Ele é o autor da felicidade — o que é um a abominável impiedade. Se disserem que o próprio Deus, por um novo desígnio decidiu que a alma será doravante feliz para sempre — como é que o mostrarão então alheio à mutabilidade que nem mesmo eles querem admitir? Mas, se se confessar que a alma foi criada no tempo e que em nenhum momento do futuro ela perecerá, à maneira de um número que tem começo, mas não tem fim, de maneira que, depois de ter experimentado um a vez a infelicidade e desta se ter libertado, ela não voltará a conhecê-la, ninguém duvidará de que isso acontecerá sem prejuízo para a imutabilidade dos desígnios de Deus. Creia-se, pois, também que o Mundo pôde ser feito no tempo sem que, ao fazê-lo, Deus tenha mudado o seu desígnio e a sua vontade eterna.

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] Gen., I, 1.
[ii] Gen., I, 1.

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