22/03/2017

Leitura espiritual

A Cidade Deus
A CIDADE DE DEUS


Vol. 2

LIVRO X

CAPÍTULO XXIV

Único verdadeiro princípio que purifica e renova a natureza humana.

Por isso nós, quando falamos de Deus, não afirmamos dois ou três princípios, tal como não nos é permitido afirmar dois ou três deuses. É certo que, quando falamos de cada uma das pessoas divinas — do Pai, do Filho ou do Espírito Santo —, confessamos que cada um é Deus; todavia não dizemos, como os heréticos Sabelianos, que o Pai é idêntico ao Filho, que o Espírito Santo é idêntico ao Pai e ao Filho. Mas dizemos que o Pai é o Pai do Filho, que o Filho é Filho do Pai e que o Espírito Santo, sem ser nem o Pai nem o Filho, é o Espírito do Pai e do Filho. E assim se diz com verdade que o homem não é purificado senão por um princípio embora entre eles (filósofos) se fale de princípios no plural.

Porfírio, porém, dominado pelas potestades ciosas, das quais sentia vergonha, mas que tinha medo de livremente rebater, não quis reconhecer o Cristo Senhor como o Princípio por cuja encarnação somos purificados. Desprezou-o nessa carne que Cristo assumiu para ser sacrifí­cio da nossa purificação. Não compreendeu este grande sacramento devido ao orgulho que o bom, o verdadeiro mediador abateu pela sua humildade, mostrando-se aos mortais nessa mortalidade que os maléficos e enganadores mediadores não tinham; e por isso com mais arrogância se envaideceram, prometendo, como imortais a mortais, uma ilusória aos infelizes homens. Mas como bom e verdadeiro mediador mostrou que o mal é o pecado e não a substancia ou a natureza da carne; Ele pôde, pois, assumir esta carne e com ela uma alma humana, e conservá-la sem pecado, como pôde depô-la com a sua morte e transformá-la para melhor com a sua ressurreição; mostrou que nem a própria morte — castigo do pecado que Ele, embora sem pecado, sofreu por nós — pode ser evitada ao que peca, mas deve sim ser suportada, quando a ocasião surgir, como coisa justa. Não morreu porque pecou, mas morreu porque, morrendo, pôde pagar os nossos pecados.

O citado platónico não soube que este é que era o Princípio pois, se o soubesse, tê-lo-ia reconhecido como purificador. Não é a carne que há n’Ele que é o princípio — nem a alma humana; é o Verbo por quem tudo foi feito. A carne não purifica, pois, por si própria, mas pelo Verbo por quem foi assumida quando

o Verbo se fe z came e habita entre nós.[i]

Também quando falava misticamente da sua carne que devia ser comida e os que o não compreenderam se retiraram ofendidos dizendo:

É dura esta palavra quem a pode ouvir? [ii]

respondeu Ele aos que ficaram:

É o espírito que vivifica, mas a came para nada serve.[iii]

O Princípio, portanto, tomando uma alma e uma carne, purifica a alma e a carne dos crentes. Por isso, aos judeus que lhe perguntavam quem era Ele, respondeu que era o Princípio. E nós — carnais, enfermos, sujeitos ao pecado, envolvidos nas trevas da ignorância — seríamostotalmente incapazes de compreender isso, se não fôssemos purificados e curados por Ele por meio do que éramos e do que não éramos. Realmente, éramos homens, mas não éramos justos e na sua encarnação Ele tinha uma natureza humana, mas justa e não pecadora. É esta a mediação pela qual foi estendida a mão aos que tinham caído e jaziam por terra; é esta a descendência preparada pelos anjos em cujas palavras se promulgava a lei que mandava prestar culto a um só Deus e prometia o mediador que havia de vir.

CAPÍTULO XXV

Todos os santos que viveram no tempo da lei e nos séculos anteriores foram justificados no ministério e na fé de Cristo.

Foi pela fé neste mistério (sacramentum) que, mesmo os antigos justos que viveram piedosamente, puderam ser purificados, não somente antes de a lei ter sido dada ao povo hebreu (porque nem Deus nem os anjos deixaram de os instruir), mas também no tempo da lei, embora, como figura de realidades espirituais, ela pareça conter promessas carnais — e por isso é que se chama Antigo Testamento. Realmente, existiam então Profetas que, como os anjos, anunciaram a mesma promessa e, entre eles, aquele de quem acima citei o pensamento tão profundo e tão divino acerca de soberano bem do homem:

Para mim estar unido a Deus é que é bom [iv].

Neste Salmo fica bem clara a distinção entre os dois Testamentos — o Antigo e o Novo. Por causa das promessas carnais e terrenas em que via abundar os ímpios, diz o Profeta que os seus pés tremeram e os seus passos estiveram prestes a fraquejar ao pensar que tinha servido a Deus em vão, pois, a felicidade que d’Ele esperava, via-a ele prosperar naqueles que O desprezavam. Querendo saber a razão porque era assim, teve muita dificuldade, diz, em explicá-lo até ao momento em que, entrando no santuário de Deus, compreendeu a sorte final dos que, no seu erro, ele julgava felizes. Reconheceu, então, que na sua elevação eles tinham sido, como diz, derrubados, tinham desaparecido e tinham perecido por causa das suas iniquidades. Este fastígio de felicidade temporal tornara-se para eles como o sonho de um homem que ao despertar se encontra de repente privado das alegrias enganosas do seu sonho. E como nesta Terra, na Cidade Terrestre, eles se imaginavam grandes, conclui:

Senhor, na tua cidade reduzirás a nada a sua imagem.[v]

Que a esta seja, porém, útil pedir mesmo os bens terrenos ao único Deus verdadeiro, em cujo poder estão todas as coisas, mostra-o bem quando diz:

Como um animal tenho estado diante de ti e estou sempre contigo .[vi]

«Como um animal», disse, isto é, como alguém que não compreende. Realmente, eu devia desejar de Ti as coisas que não podem ser comuns a mim e aos ímpios; mas quando os vi na abundância, pensei que Te servi em vão, pois que esses bens eram a parte dos que não puderam
servir-Te. Nem por isso deixarei de estar «sempre contigo» porque, mesmo em tais desejos, não recorri a outros deuses. Por isso continua:

Tomaste a minha mão direita, conduziste-me conforme a tua vontade e recebeste-me com glória,[vii]

como se ficassem à esquerda todas aquelas coisas cuja abundância viu nos ímpios e por elas esteve prestes a desfalecer:

Que há para mim no Céu e, fora de Ti, que é que quis sobre a Terra? [viii]

A si próprio se repreende e tem razão para não estar satisfeito consigo próprio, porque, quando tinha no Céu tamanho bem (mais tarde o compreendeu), pediu ao seu Deus bens transitórios, frágeis e, a bem dizer, uma felicidade de lama na Terra. Diz ele:

Desfaleceu a minha carne e o meu coração, Deus do
meu coração.
[ix]

Desfalecimento feliz, com certeza, que das coisas cá de baixo leva às do alto! Por isso diz noutro salmo:

Minha alma se consome e anela pelos átrios do Senhor.[x]

E noutra passagem:

Por tua salvação desfalece a minha alma.[xi]

Todavia, depois de ter falado de um e outro desfalecimento — o do coração e o da carne —, não acrescentou «Deus do meu coração e da minha came» mas apenas «Deus da minha carne.», porque, na verdade, é o coração que purifica a came. Daí esta palavra do Senhor:

Limpa o que está dentro que o que está por fora limpo
 será.
[xii]

Diz a seguir que o seu quinhão é o próprio Deus — nada que venha d’Ele mas Ele mesmo:

Deus do meu coração, Deus meu quinhão, Deus meu para sempre.[xiii]

Fala assim porque de tudo o que se oferece à escolha dos homens, é ao próprio Deus que lhe apraz escolher. E continua:

Porque eis que os que se afastaram de ti morrerão perdeste todos os que a infidelidade afastou de ti, [xiv]

isto é, aquele que deseja ser o lupanar de uma multidão de deuses.

Segue-se, finalmente, o que motivou as outras citações deste salmo:

Para mim estar unido a Deus é que é bom,[xv]

isto é, não me afastar d ’Ele, não me entregar a tantas fornicações. E esta união só será perfeita quando se tenha libertado de tudo aquilo de que se deve libertar. Mas agora é que se realiza o que se segue:

Pôr em Deus a minha esperança,[xvi]

porque, diz o Apóstolo:

Ver o que se espera já não é esperar. Quem vê como pode esperar? Mas se esperamos o que não vemos aguardemo-lo com constância.[xvii]

Situados agora nesta esperança, ponhamos em prática o que se segue e sejamos nós também, à nossa medida, anjos de Deus, isto é, seus mensageiros, anunciando a sua vontade e louvando a sua glória e a sua graça.

Por isso, tendo dito:

Pôr em Deus a minha esperança,[xviii]

acrescenta:

Para anunciar todas as tuas glórias às portas da filha de
Sião.
[xix]

esta a gloriosíssima Cidade de Deus, aquela que conhece e adora um só Deus, aquela que nos anunciaram os santos anjos, convidando-nos a fazermos parte dela e desejando que sejamos nela seus concidadãos. Eles, de facto, não pretendem que os honremos como deuses, mas que, com eles, adoremos o seu e nosso Deus; eles não pretendem que lhes ofereçamos sacrifícios, mas que, com eles, sejamos um sacrifício oferecido a Deus.

Assim, pois, quem, posta de parte toda a maligna obstinação, considera tudo isto, não pode pôr em dúvida que todos os bem-aventurados imortais que não nos invejam (não seriam felizes se nos invejassem) mas antes nos amam para que sejamos felizes com eles, são-nos bem
mais favoráveis, ajudam-nos muito mais se com eles adorarmos o Deus único — Pai, Filho e Espírito Santo — do que se a eles lhes prestássemos culto, oferecendo-lhes sacrifícios.


(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] Jo, 1, 14.
[ii] Jo, 6, 60.
[iii] Jo, 6, 63.
[iv] Salmo LXXII, 28.
[v] Salmo LXXII, 20.
[vi] Salmo LXXII, 23.
[vii] Salmo LXXII, 24.
[viii] Salmo LXXII, 25.
[ix] Salmo LXXII, 26.
[x] Salmo LXXX, 2.
[xi] Salmo CXVIII, 81.
[xii] Mt XXIII,26.
[xiii] Salmo LXXII, 26.
[xiv] Salmo LXXII, 27.
[xv] Salmo LXXII, 28.
[xvi] Salmo LXXII, 26.
[xvii] Rom. VIII, 24-26.
[xviii] Salmo LXXII, 26.
[xix] Salmo LXXII, 26.

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