19/03/2017

Leitura espiritual

A Cidade Deus
A CIDADE DE DEUS 


Vol. 2

LIVRO X


CAPÍTULO XVI

Para se merecer a vida eterna tem que se acreditar nos anjos que para si exigem honras divinas ou nos que mandam servir em santa religião, não a si, mas ao único Deus?

Mas em que anjos elevemos acreditar a propósito da vida eterna? Nos que pretendem que sejam eles próprios honrados com ritos religiosos, pedindo aos mortais que lhes prestem culto e sacrifícios? Ou nos que declaram que esse culto é todo ele devido ao único Deus criador do universo e deve, com o eles próprios dizem, ser prestado com autêntica piedade. Àquele cuja contemplação faz a felicidade deles e, conforme prometem, fará a nossa? Realmente, a visão de Deus é visão de uma tal beleza, digna de um tão grande amor que, sem ela, o homem dotado e cumulado de todos os bens nem por isso deixa de ser, como Plotino não hesita em afirmar, o maior desgraçado. Quando, pois, diversos anjos, com sinais prodigiosos nos convidam a prestarmos culto de latria, uns ao Deus único, outros a eles próprios, proibindo, todavia, os primeiros que se adorem os segundos, não ousando estes proibir que se adore aquele — a quais de uns e outros se deve prestar crédito? Respondam os platónicos, respondam os filósofos de qualquer escola, respondam os teurgos ou antes os periurgos — já que esta é a palavra que mais convém a todas estas práticas. Enfim, respondam os homens, se neles existe, um a parte que seja, daquele sentido da sua natureza que os torna racionais; respondam, digo eu:

Deve-se sacrificar a estes anjos ou deuses que o exigem para si próprios, ou só Aquele ao qual nos ordenam que o fa­çamos os que no-lo proíbem quer em sua honra quer em honra dos outros?

E se nem uns nem outros fizessem milagres, limitando-se uns a prescrever sacrifícios em sua própria honra, e outros a prescrevê-los para os reservarem ao único Deus — a piedade deveria bastar para distinguir o que provém de um orgulho insolente do que deriva dum espírito autenticam ente religioso. Direi mais: Se os que reclamam para si sacrifícios fossem os únicos a abalar as almas humanas pelos seus prodígios, e aqueles que as prescrevem para os reservarem ao Deus único não se dignassem fazer esses milagres visíveis, — seguramente que a autoridade destes últimos deveria prevalecer, não aos olhos do corpo, mas ao juízo da razão. Mas Deus, para dar maior credibilidade às suas palavras de verdade, fez, por intermédio destes imortais mensageiros que proclamam, não o seu orgulho, mas a majestade de Deus, milagres maiores, mais autênticos, mais brilhantes, para que não tivessem qualquer facilidade de persuadir os piedosos débeis da sua falsa religião os que, com a ostentação dos prodígios sensíveis, exigem para si próprios sacrifícios. Quem é que gostará de ser louco ao ponto de não escolher a verdade que deve seguir precisamente onde encontra os maiores sinais a admirar?

A história refere, realmente, alguns milagres dos deuses dos gentios. (Não me refiro aos fenómenos estranhos que, uma vez por outra, acontecem devido a causas ocultas da natureza, sempre estabelecidas e ordenadas pela providência divina; inusitados partos de animais, espectá­culos insólitos no Céu e na Terra, simplesmente terríficos mas às vezes também nocivos, que, a crer na astúcia enganadora dos demónios, são pelos seus ritos conjurados e mitigados. Falo antes desses prodígios que apresentam com bastante evidência como um efeito da sua força e poderio, tais como: as imagens dos deuses Penates, que Eneias levou consigo ao fugir de Tróia, andarem, ao que se diz, por si próprias de um lugar para o outro; Tarquínio cortar um penhasco com uma navalha; a serpente de Epidauro acompanhar Esculápio enquanto ele navegou até Roma; uma mulherzinha, para provar a sua castidade, conseguir mover e arrastar, atada a um cinto, a nau em que era transportada a imagem da Mãe — Frigia que se tinha mantido imóvel apesar dos esforços de tantos homens e bois; uma virgem Vestal cuja integridade era contestada, pôr fim à discussão enchendo um crivo de água do Tibre sem ela se derramar). Estes prodígios e outros quejandos em nada se comparam com o poder e a grandeza dos operados, como lemos, entre o povo de Deus. Muito menos com estes se com param ainda aquelas práticas, mágicas e teúrgicas, tidas por dignas de serem proibidas e castigadas pela lei dos próprios povos que adoravam esses deuses! A maior parte de tais prodígios eram puras aparências com que enganavam os sentidos dos mortais utilizando um hábil jogo de imagens — como era o caso de, como diz Lucano, se fazer descer a Lua:

A té que, de perto derrame a sua baba sobre as ervas
rasteiras
[i].

Se alguns destes factos parecem igualar materialmente algumas das obras dos santos, o fim que as distingue manifesta a incomparável superioridade destas. No primeiro caso trata-se de uma multidão de deuses que merecem as honras dos sa­crifícios tanto menos quanto mais as reclamam; no outro caso, é o Deus único que nos é recomendado: mas que — com o no-lo atestam as suas Escrituras e com o no-lo mostra, mais tarde, a abolição desses sacrifícios — não tem necessidade de semelhantes homenagens.

Se, portanto, alguns anjos reivindicam para si o sacrifício, é necessário preferir-lhes aqueles que o não reclamam para si mas sim para o Deus que servem, Criador de todas as coisas. É por aí, realmente, que eles mostram com que sincero amor nos amam , pois querem pelo sacrifício fazer de nós, não súbditos seus mas antes súbditos d’Aquele cuja contemplação faz a sua felicidade, e querem ainda ajudar-nos a chegar até Àquele que jamais abandonaram . E se os anjos reclamam sacrifícios — não apenas para um mas para vários, não para eles próprios mas para os deuses de quem são anjos — mesmo, então, é necessá­rio preferir-lhes os que são anjos do único Deus dos deuses: estes anjos com tal força ordenam que só a Deus único se ofereçam sacrifícios, que chegam a proibir se ofereçam a qualquer outro — ao passo que nenhum dos outros anjos proíbe que se ofereçam sacrifícios Àquele ao qual estes ordenam que se ofereçam. Mas se, como o indica a sua soberba falácia, aqueles que reclamam sacrifícios, não para o único Deus Soberano, mas para si próprios, não são nem bons anjos nem anjos dos deuses bons, mas maus demónios — que protecção mais poderosa poderem os escolher contra eles do que a do Deus único de quem são servidores os anjos bons que nos prescrevem que ofereçam os sacrifícios não a eles, mas Àquele de quem nós próprios devemos ser o sacrifício?


CAPÍTULO XVII

Da Arca do Testamento e dos milagres que Deus operou para recomendar a autoridade da sua lei e das suas promessas.

Por isso é que a lei de Deus promulgada pelo ministério dos anjos, prescrevendo que se prestasse culto religioso ao único Deus dos deu­ses e proibindo que se prestasse a qualquer outro, foi colocada numa arca chamada Arca do Testemunho. Com este nome se significa suficientemente que Deus, objecto de todo o culto, não costuma estar encerrado nem contido num lugar: embora as suas respostas e certos sinais perceptíveis aos sentidos saíssem do lugar em que se encontrava a Arca, mais não eram do que testemunhos da sua vontade. Como já disse, a pró­pria lei escrita em tábuas de pedra estava colocada na Arca; durante a viagem pelo deserto os sacerdotes transportavam-na com o respeito que lhe era devido, juntamente com um a tenda também chamada Tenda do Testemunho. Havia um sinal que aparecia durante o dia como uma nuvem e durante a noite brilhava como o fogo; quando esta nuvem se movia, levantava-se o acampamento quando ela parava, acampava-se. Grandes milagres — além dos factos já referidos e das vozes que saíam do lugar onde estava a Arca — prestavam testemunho a essa lei. A entrada da Terra Prometida, quando a Arca passou o Jordão, o rio reteve as suas águas a montante e deixou-as correr a jusante, permitindo que tanto o povo como ela o atravessassem a pé enxuto. Depois a Arca foi passeada, sete vezes à volta da primeira cidade inimiga, que adorava, conforme era costume dos gentios, um grande número de deuses — e, repentinamente, as muralhas esboroaram-se sem qualquer exército as ter atacado, sem qualquer embate do aríete. Quando, ainda mais tarde, os hebreus já habitavam na Terra Prometida, foi a Arca tomada pelos inimigos em consequência dos seus pecados. Os que a tomaram colocaram-na com todas as honras no templo do deus que adoravam acima de todos, e aí a deixaram fe­chada. No dia seguinte, ao abrirem o templo, encontraram derrubado e vergonhosamente despedaçado, o ídolo a que dirigiam as suas preces. Depois, emocionados pelos prodígios e ainda mais vergonhosamente castigados, restituíram a Arca do divino Testemunho ao povo ao qual a tinham tomado. E vejam como é que foi essa restituição! Colocaram a Arca sobre um a carroça jungida a duas novilhas às quais retiraram os vitelos que amamentavam, e deixaram-nas ir para onde quisessem, procurando desta forma pôr à prova o poder divino. E elas, sem condutor, sem guia, seguiram direitinhas em direcção aos hebreus, surdas aos mugidos das crias esfomeadas, e levaram este grande mistério (sacramentum) aos que o veneravam.

Estes prodígios e outros que tais são pequenos aos olhos de Deus, mas grandes pelos ensinamentos que devem prestar e pelo salutar temor que devem inspirar aos mortais. Se alguns filósofos, sobretudo os platónicos, são glorificados por serem mais sá­bios do que os outros ao ensinarem, como um pouco atrás recordei, que a Divina Providência se ocupa dos mais pequeninos seres da Terra, como o com provam as belezas harmoniosas que revestem os corpos dos vivos, mesmo das plantas e até das ervas do campo — quão mais evidente é o testemunho prestado à divindade por todos estes prodígios realizados à hora em
que é proclamada, no lugar em que é recomendada, uma religião que proíbe se ofereçam sacrifícios a qualquer criatura do Céu, da Terra, dos Infernos, e estabelece que eles sejam reservados ao único Deus que é o único que ama e
que, amado, nos faz felizes! É Ele que, de antemão, delimita os tempos em que esses sacrifícios serão prescritos e anuncia que eles tomarão uma nova e melhor forma nas mãos de um sacerdote mais perfeito, atestando assim que não os desejava, mas que eles eram a figura de melhores realidades: por eles queria, não ser exaltado por tais honras, mas mo­ver-nos a adorá-lo para felicidade nossa e não sua, e unir-nos a Ele inflamados pelo fogo do seu amor.


(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] Luciano, Farsália, VI, 506.

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