20/02/2017

Leitura espiritual


A CIDADE DE DEUS

Vol. 1

LIVRO VII
CAPÍTULO XXIV

Os apelidos de Telure e sua explicação: designam sem dúvida várias virtudes, mas não podem justificar a crença em vários deuses.




A Terra, sendo uma só, devia, portanto, por causa destas quatro «virtudes», receber quatro apelidos e não constituir quatro deuses — como o único Júpiter e a única Juno receberam tantos apelidos que exprimem o aspecto multiforme da virtude pertencente a um só deus ou a uma só deusa, sem constituir, pela sua multiplicidade, uma igual multiplicidade de deuses. Mas, assim como, por vezes, as mulheres mais degradadas sentem remorsos e desgosto pela multidão daqueles que traíram pela paixão, assim também a alma aviltada é prostituída pelos espíritos imundos, apesar de se comprazer em criar uma multidão de deuses e em se prostrar diante deles para que a poluam, sente por vezes tédio de tais deuses. Realmente, até o pró­prio Varrão, como que envergonhado desta caterva de deuses, não quis senão uma deusa — Telure. Diz ele:

E a ela que chamam a Grande-Mãe. Ela tem um tambor, para significar que é o disco da Terra. As torres que traz na cabeça, são as cidades. Representam-na sentada, porque se mantém parada enquanto à sua volta tudo se move. Puseram «galos» [i] ao serviço desta deusa, querendo-se assim significar que devem cultivar a Terra os que buscam as sementes, pois que é nela que tudo se encontra. Se se agitam diante dela, é porque se exortam os que cultivam a terra a não se sentarem, porque têm sempre que fazer. O ruído dos címbalos simboliza o bater das armas de ferro e o estrépito das mãos e do bronze que se provoca ao cultivar o campo. (Os címbalos) são de cobre porque os antigos trabalhavam com uma relha de cobre antes de o ferro ter sido descoberto. Põem junto (de Telure) um leão solto, domesticado, para demonstrar que não há qualquer qualidade de terra, por mais distante e maninha que seja, que se não preste a ser trabalhada e cultivada

Depois, acrescenta que foi a abundância de nomes e apelidos dados à Mãe Telure que fez admitir nela igual abundância de deuses. Diz ele:

Tomam-na por Ope, porque o trabalho melhora-a; por Mãe, porque gera muitos filhos; por Grande, porque produz alimentos; por Prosérpina, porque dela provêm (proserpant) os frutos; por Vesta, porque se veste de ervas. E desta forma a ela se reduzem acertadamente as outras deusas.

Mas, se ela é uma só deusa (na verdade nem uma é), porque é que se chega a esta multidão? Que não constituam, portanto, senão uma, estas múltiplas divindades! Que não haja tantas deusas quantos os nomes! Mas a autoridade dos antepassados caídos em erro pesa sobre Varrão e, como ele diz, leva-o a titubear. Efectivamente, acrescenta:

Com isto não briga a opinião dos antepassados acerca destes deuses, cuja pluralidade admitem.
Como é que não briga? Ter vários nomes não é muito diferente de ser várias deusas?
Mas pode acontecer que uma e a mesma coisa contenham em si várias coisas,
responde ele. Concordo que num só homem haja várias coisas: segue-se daí que há nele vários homens? Concordo também que numa só deusa haja várias coisas: segue-se daí que nela há várias deusas? Pois então, não se privem de dividir, combinar, multiplicar, dobrar, complicar, como quiserem!

São estes os sublimes mistérios de Telure e da Grande-Mãe de quem procede tudo o que se refere às sementes perecíveis e à prática da agricultura! Será possí­vel que, adaptados a estes mistérios e empregados para este fim, o tambor, as torres, os galos, a doentia agitação dos membros, o ruído dos címbalos, os leões imaginários, a alguém prometam a vida eterna? Será possível que os galos castrados sirvam esta Grande Deusa para significarem aos homens carentes de sémen a obrigação de cultivarem a terra, já que precisamente o seu serviço acarreta a priva­ ção do sémen? Adquire-se, pelo apego a esta deusa, o sémen que se não tem — ou pelo contrário, pelo apego a esta deusa, perde-se o sémen que se tem? Isto é dar interpretações, ou mostrar execrações? Não se repara como subiu a malícia dos demónios, que, não se atrevendo a prometer aos homens grandes bens por estes ritos sagrados, conseguiram, todavia, exigir deles tão cruéis sacrifí­cios. Se a Terra não fosse uma deusa, os homens poriam nela as mãos, trabalhando para obterem sementes, em vez de, ferindo-se por causa dela perderem o sémen. Se não fosse deusa, tomar-se-ia fecunda graças a mãos alheias, sem que para isso se obrigasse um homem a tomar-se estéril por suas próprias mãos. Que, quando das festas de Líbero, uma honesta matrona tenha de coroar as regiões pudendas do homem sob os olhares de uma multidão onde talvez se encontre também o seu marido com rubor e suor na fronte, se é que os homens são susceptíveis de pudor; que, na celebração das suas bodas, uma jovem noiva seja constrangida a sentar-se sobre o membro viril de Príapo: — são torpezas muito menos detestáveis e muito menos graves do que a cruel infâmia ou a crueldade infame da mutilação dos galos. Porque, nesses actos, os ritos demoníacos ferem o pudor dos dois sexos sem que nem um nem outro sejam por tal ferida destruídos. Num caso, receia-se a maldição lançada sobre os campos; noutro caso, não se receia a amputação dos membros; num caso, profana-se o pudor duma noiva, sem, todavia, se lhe tirar nem a fecundidade nem a virgindade; noutro caso, amputa-se a virilidade, sem que a vítima se possa tomar mulher ou permanecer varão.

CAPÍTULO XXV

Interpretação dos sábios da Grécia acerca da mutilação de Átis.

Não se faz menção de Átis, em memória de cujo amor se mutila o galo, nem Varrão apresentou dele uma interpretação. Mas os eruditos e os sábios da Grécia não se calaram acerca de tão santa e admirável história. Porque o aspecto da terra na Primavera é mais belo que nas outras estações, o célebre filósofo Porfírio pensou que Átis era o símbolo das flores — e que ele se castrou porque a flor cai antes do fruto. Não foi, pois, propriamente um homem ou quase homem, chamado Átis, mas sim o seu órgão viril, que se comparou a uma flor. Átis estava bem vivo quando este órgão caiu; melhor — não caiu nem foi colhido, foi antes completamente esquartejado. Após a perda desta flor, ninguém viu mais tarde qualquer fruto, mas sim a esterilidade. Que é então este resto de homem? Que ficou dele depois da mutilação? Que significação dar a isto? A que é que isto se refere? Que interpretação lhe dar? Não deverão persuadir-nos os vãos esforços despendidos de que o que devemos crer é o que sobre o homem mutilado nos legou a fama e os documentos consignaram? Não há dúvida de que o nosso Varrão tem toda a razão para recusar esta história e nada querer dela referir: efectivamente, ela não podia ser ignorada de tão douto homem.

CAPÍTULO XXVI

A torpeza dos mistérios da Grande-Mãe.

Não me recordo de ter lido em parte alguma nem Varrão faz qualquer referência acerca dos invertidos consagrados à Grande-Mãe com tal desprezo de tudo o que, para um homem e uma mulher, constitui o pudor, os quais se viam, ainda ontem, de cabelos encharcados de perfume, cara pintada, membros lânguidos, andar efeminado, a deambularem pelas praças e ruas de Cartago, chegando mesmo a exigir ao público com que possam manter a sua vergonhosa existência. A compreensão falha, a razão ruboriza-se, emudece a palavra! A Grande-Mãe superou todos os outros deuses, seus filhos, não pela grandeza da sua majestade, mas pelo crime. A este monstro nem a monstruosidade de Jano se compara. A monstruosidade de Jano estava apenas nas imagens, mas aquela mostra a crueldade da sua deformidade nos seus próprios mistérios. Ele acrescentava membros aos seus ídolos: ela suprimia membros aos homens. Nem os tão numerosos e tão graves estupros de Júpiter superam esta ignomínia. Este, no meio dos seus atentados contra as mulheres, só com Ganimedes desonrou o Céu; mas ela, com tantos invertidos profissionais e públicos, profanou a Terra e ultraja o Céu.

Em crueldade tão obscena, talvez se lhe compare ou lhe passe à frente Saturno, que, diz-se, castrou o próprio pai. Mas, nos mistérios de Saturno, os homens podiam morrer às mãos dos outros, mas não se mutilavam com as suas próprias mãos. Saturno, contam os poetas, devorou seus filhos, e os físicos explicam este acto como lhes apetece — mas a história ensina-nos que ele os matou. Também os Cartagineses lhe imolavam seus filhos; mas os Romanos não permitiram este sacrifício. Pelo contrário, a Grande-Mãe dos deuses impôs a castração mesmo nos templos de Roma e neles manteve esta cruel prática, fazendo crer que, castrando os Romanos, lhes reforçava a virilidade. Ao lado deste mal, que são os latrocínios de Mercúrio, a lascívia de Vénus, os estupros e obscenidades dos outros deuses, que nós poderíamos apresentar, tirados dos livros, se não fossem todos os dias cantados e celebrados nos teatros? Que são eles, ao lado de um tão grande mal, cuja grandeza só à Grande-Mãe poderia convir? Diz-se: tal qual como outras, estas coisas são ficções dos poetas; como se os poetas tivessem inventado também que tudo isso é aceite e agradável aos deuses. Que os tenham cantado ou por escrito os tenham contado, talvez tenha sido audácia e petulância dos poetas; mas que os tenham ligado às coisas divinas e às honras religiosas por ordem e sob pressão destas divindades — que é isto senão um crime dos deuses, ou, melhor talvez, uma confissão dos demónios e uma armadilha aos desgraçados? Que a mãe dos deuses tenha sido considerada digna de ser honrada pela consagração de homens mutilados — isso não é uma invenção dos poetas: eles preferiram mostrar o seu horror, a cantá-lo.

Quem estará disposto a consagrar-se a estes deuses escolhidos, para, após a morte, conseguir a vida bem- -aventurada, se aqueles que se lhes consagram não podem viver honradamente antes da morte, submetidos a tão repugnantes superstições e vinculados a tão obscenos demónios?

Mas tudo isto, diz Varrão, se refere ao Mundo. Ao imundo, deveria antes dizer. Como é que, na verdade, se não há-de referir ao mundo o que (como está demonstrado), se encontra no mundo? Quanto a nós, o que nós buscamos é uma alma que, cheia de fé na verdadeira religião, não adore o mundo como seu deus, mas o admire como obra de Deus e por causa de Deus; uma alma que, purificada da imundícia do mundo, chegue sem nada de imundo ao Deus criador do Mundo.


(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] Galos (galli) eram eunucos que a si mesmo se impunham a castração ritual para poderem dedicar-se ao culto de certas divindades.

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