29/01/2017

Leitura espiritual


Leitura espiritual



A Cidade de Deus 


Vol. 1

LIVRO V

CAPÍTULO V

Como é que os astrólogos foram levados a professar uma ciên­cia vã.

Porque é que o exemplo dos indivíduos, cujas doenças surgiam em ambos ao mesmo tempo, ora mais graves, ora mais leves, e levaram Hipócrates, ao examiná-los como médico, a suspeitar de que se tratava de gémeos, não bastaram para rebater os que pretendem atribuir aos astros o que provém de uma semelhante compleição dos corpos? Porque é que foram atingidos na mesma ocasião por idêntica doença e não um depois do outro, tal como nasceram, pois, naturalmente não podiam nascer ao mesmo tempo?

Ou então, se o facto de terem nascido em diversos momentos nada tem a ver com o facto de adoecerem em momentos diferentes — porque é que se pretende que esta diferença, quando se verifica no nascimento, comporta a diversidade dos outros acontecimentos? Porque é que eles puderam viajar em momentos diferentes, casar em momentos diferentes, procriar filhos em momentos diferentes e muitas coisas mais, porque nasceram em momentos diferentes — e não puderam pela mesma razão estar doentes em momentos diferentes? Porque, se a diferente hora de nascimento mudou o horóscopo e tomou diferentes os outros acontecimentos, porque é que se mantém nas doenças um efeito da simultaneidade das concepções? Mas, se os destinos das doenças estão na concepção e os dos outros acontecimentos estão no nascimento — não se deveria dizer nada acerca da saúde segundo o estado das constelações à nascença se não se tem os indícios requeri dos acerca da hora da concepção. Se se predizem as doenças sem se conhecer, o horóscopo da concepção, porque o instante do nascimento é indicado — como predizer a um dos gémeos, pela hora do seu nascimento, quando é que estava doente, ao passo que outro, que não teve a mesma hora de nascimento, deveria estar necessariamente doente da mesma forma?

Pergunto ainda: se no nascimento dos gémeos é de tão grande importância o intervalo de tempo para que seja necessário assinalar-lhes constelações diferentes já que diferente é o horóscopo e diferentes são, portanto, as linhas celestes de demarcação (Cardines), nas quais eles põem tanta ênfase, até ao ponto de dizerem que elas originam diversos destinos — como pôde isso acontecer quando é impossível uma diferença de tempo na concepção? Ou então, se dois concebidos no mesmo tempo puderam ter, para nascer, destinos diferentes — porque é que dois nascidos no mesmo momento não poderiam ter, para viver e para morrer, destinos diferentes? De facto, se um só momento, em que ambos foram concebidos, não os impediu de nascerem um depois do outro — porque é que, se os dois nasceram no mesmo momento, isso os impedirá de morrer um depois do outro? Se a concepção num só momento permite aos gémeos uma sorte diferente no ventre materno — porque é que um nascimento no mesmo momento não lhes permite que tenha qualquer dos dois uma sorte diferente na Terra, desvanecendo-se assim todas as invencionices desta arte, ou melhor, desta vacuidade? Como é isso? Porque é que os concebidos na mesma ocasião, no mesmo instante, sob uma única e mesma posição dos astros, têm um diferente destino que os faz nascer a horas diferentes, e os nascidos de mães diferentes, no mesmo momento e sob uma única e mesma posição do céu, não podem ter destinos diferentes que os levem a fatal diversidade de vida e de morte? Será que os concebidos ainda não têm destino e não o poderão ter senão quando nascem? Para que é que se diz, então, que, se fosse possível descobrir a hora da concepção, os astrólogos poderiam, como os adivinhos, predizer muitas coisas? Daí o que muitos dizem: que certo sábio escolheu a hora em que se uniria a sua mulher para gerar um filho maravilhoso. Daí, por fim, o parecer do grande astrólogo Posidónio, também filósofo, acerca de dois gémeos que padeciam no mesmo momento da mesma doença: isso, respondia ele, é devido a terem sido concebidos e nascidos na mesma ocasião. E acrescentava a «concepção» para que se não dissesse: não é evidente que tenham nascido no mesmo momento os que incontestavelmente foram conce­bidos no mesmo momento. O facto de sofrerem na mesma ocasião da mesma doença, não o atribuía à compleição corporal, em ambos muito semelhante, mas ligava esta semelhança de saúde à influência dos astros. Se, portanto, a concepção é bastante, tem força tamanha para determinar a igualdade dos destinos — o nascimento não deveria alterar destinos idênticos. Ou então, se os destinos dos gémeos se diferenciam porque nascem em momentos diferentes — porque não havemos antes de entender que eles já estavam mudados para nascerem em tempos diferentes? Será que a vontade dos vivos não altera os destinos da natividade, ao passo que a ordem do nascimento altera os destinos da concepção?

CAPÍTULO VI

Os gémeos de sexo diferente.

De resto, nas concepções dos gémeos em que, sem dúvida, são os mesmos os momentos dos dois, como é que acontece que sob a mesma constelação fatal seja concebido um varão e uma fêmea?

Conhecemos gémeos de sexo diferente. Ambos ainda vivos, ambos na força da idade. Tanto quanto o permite a diferença de sexo, muito se parecem um com o outro. Mas já são tão diferentes quanto ao género de vida e aos gostos que, além dos actos que são necessariamente diferentes no homem e na mulher (ele é funcionário nos servi­ços de um conde e anda quase sempre fora de casa a viajar, enquanto ela nunca abandona a terra dos pais nem a sua propriedade) e ainda por cima (o que mais custa a acreditar se se crê na fatalidade astral, mas não é de admirar, se se pensar na vontade dos homens e nos benefícios de Deus), ele é casado, e ela é uma virgem consagrada; ele gerou numerosa prole, ela nem sequer casou. Não há dúvida de que é enorme a força do horóscopo! Já demonstrei à saciedade até que ponto é nula. Mas, qualquer que ela seja, é, segundo dizem, no nascimento que ela influi. Não influi também na concepção? É manifesto que esta resulta de uma só união carnal. A aptidão da natureza é tal que, quando uma mulher concebe, deixa de estar apta para outra concepção. Conclui-se daí que o momento da concepção dos gémeos é necessariamente o mesmo. Será que por terem por acaso nascido sob a influência de di­ferente horóscopo, ao nascerem, ele se transformou em varão e ela em mulher? Não é absolutamente absurdo admitir que mudanças, mas apenas quanto às diferenças do corpo, sejam devidas à influência sideral: vemos assim que o Sol pela sua aproximação ou pelo seu afastamento provoca as estações do ano; a Lua, conforme vai para crescente ou para minguante, assim faz crescer ou minguar certas categorias de seres, tais como os ouriços do mar e as conchas, e ainda as maravilhosas marés do oceano. Mas a vontade, faculdade do espírito, não depende da posição dos astros. E quando eles tentam ligar aos astros os nossos actos, estão a convidar-nos a que procuremos as razões por que não se pode manter a sua teoria mesmo no mundo corporal. Que mais pertence ao corpo do que o sexo do corpo? E todavia, gémeos de sexo diferente puderam ser concebidos sob a mesma posição dos astros. Que é que se pode dizer de mais insensato do que querer que a posição dos astros, idêntica para ambos no instante da concepção, não pôde impedir que a irmã, tendo a mesma constelação, tenha um sexo diferente do irmão — e que a posição dos astros no momento do nascimento pôde fazer com que ela dele tanto se distinga pela santidade virginal?

CAPÍTULO VII

Escolha do dia em que se casa, em que se planta alguma coisa no campo, em que se semeia.

Quem poderá admitir que pela escolha do dia cada um fabrique com os seus próprios actos novos destinos? O tal homem douto sem dúvida que não tinha nascido para ter um filho maravilhoso mas antes para gerar um desprezível — e por isso escolheu a hora em que se uniria a sua mulher. Criou, pois, um destino que não tinha e pelo seu próprio acto começou a cair numa fatalidade que não se verificava na sua natividade, ó que singular estultícia! Escolhe-se um dia para casar, porque, creio eu, se pode, se se não escolher, cair num dia mau e fazer um casamento infeliz. Onde pára, então, o que os astros decretaram ao que nasce? Pode um homem mudar, por escolha do dia, o destino que lhe foi determinado — e o que ele próprio fixou pela escolha de um dia não poderá ser alterado por um outro poder? Depois, se só os ho­mens, e não tudo o que está abaixo do Sol, estão submetidos às constelações, porque é que se escolhem certos dias como mais acomodados, para o plantio das vides ou das árvores ou para as sementeiras, e outros dias para domar ou cobrir o gado ou para se fecundarem as récuas de éguas e as manadas de vacas e outras coisas que tais? Mas, se os dias escolhidos valem para esses casos porque todos os seres terrenos inanimados ou vivos estão submetidos, segundo a diversidade dos momentos, à influência da -posição dos astros — considerem então quão inumeráveis seres nascem, se ori- ginam e começam no mesmo instante, e têm destinos tão diferentes que estas observações astrais fariam rir uma criança.

Quem será, na verdade, tão insensato que ouse afirmar que todas as árvores, todas as ervas, todas as feras, todas as serpentes, aves, peixes, vermes, têm, cada um, um diferente momento para nascer? Todavia, homens há que, para provarem o talento dos astrólogos, lhes costumam apresentar as constelações de animais mudos cujo nascimento observaram cuidadosamente em casa na mira de esta consulta — e preferem aos demais os astrólogos que, pelo exame das suas constelações, declaram que não foi um homem mas um animal que acabou de nascer. Atrevem- -se mesmo a afirmar de que espécie de animal se trata — se de um animal de tiro ou lanígero, apto para o arado ou para guardar a casa. Consultam-nos até acerca do destino dos cães e as suas respostas levantam grandes aclamações dos seus admiradores. De tal maneira enlouquecem os homens que chegam a pensar que, quando um homem nasce, se suspendem todos os demais nascimentos, e que sob a mesma zona do céu nem mesmo uma mosca pode nascer ao mesmo tempo que ele. De facto, se isto admitiram para uma mosca, o raciocínio levar-nos-á gradualmente das moscas aos camelos e aos elefantes. Não querem notar que, uma vez escolhido o dia para semear o campo, muitos grãos caem ao mesmo tempo na terra, germinam ao mesmo tempo, despontam ao mesmo tempo e ao mesmo tempo crescem e se douram; e, todavia, destas espigas da mesma idade e a bem dizer do mesmo género, umas são destruídas pela alforra, outras devoradas pelas aves e outras arrancadas pelos homens. Como é que poderão afirmar que estes grãos com tão diversos destinos tiveram constelações diferentes? Será que lhes pesa terem escolhido datas para estas coisas e declaram que essas datas não implicam com as decisões do céu para não submeterem aos astros senão os homens, únicos seres a quem Deus deu na Terra uma vontade livre?

Bem consideradas todas estas coisas, há motivos para crer que, se os astrólogos dão tantas respostas surpreendentemente verdadeiras, isso acontece devido a uma oculta inspiração dos maus espíritos que põem todo o cuidado em infundir e firmar nos espíritos humanos essas falsas e nocivas opiniões acerca das fatalidades astrais, e de forma nenhuma devido à arte de estabelecer e de examinar os horóscopos: — tal arte não existe.

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)


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