26/01/2017

Leitura espiritual


Leitura espiritual


A Cidade de Deus 

Vol. 1

LIVRO IV

CAPÍTULO XXIX

Falsidade do auspício que pareceu indicar aos Romanos a for­taleza e a estabilidade do Império.

Que é isso a que eles chamaram maravilhoso auspício e que eu recordei um pouco acima — que Marte, Término e Juventas se recusaram a ceder o seu lugar ao próprio Júpiter, rei dos deuses? É este o significado, dizem eles: a estirpe de M arte, isto é, a estirpe romana, a ninguém cederá o lugar que ocupa; ninguém, mercê do deus Término, alterará as fronteiras romanas; e, mercê da deusa Juventas, a juventude romana perante ninguém cederá. Vejamos lá: têm Júpiter como rei dos seus deuses e dispensador do seu império, ao passo que os auspícios o apresentam como adversário ao qual é belo não ceder! Mesmo que isto fosse verdade, nada têm a temer. Efectivamente, não chegarão a confessar que os deuses que não quiseram ceder o lugar a Júpiter, tiveram que ceder a Cristo. Estes deuses puderam, sem que aliás se tocasse nas fronteiras do Império, ceder a Cristo, abandonando-lhe a morada dos seus lugares santos e sobretudo dos corações dos crentes. Antes que Cristo chegasse em carne, antes mesmo que fossem escritas estas coisas que extraímos dos livros deles, mas depois, todavia, de este auspício ter sido proferido no tempo do rei Tarquínio, por diversas vezes foi o exército romano derrotado, isto é, posto em fuga. Revelou-se falso o auspício segundo o qual Juventas não cederia a Júpiter. A estirpe de M arte foi esmagada na própria Roma pelo ímpeto das vagas de Gauleses. As fronteiras do Império encolheram quando muitas cidades se renderam e se passaram para Aníbal. Assim se desvaneceu a beleza dos auspí­cios e se manteve contra Júpiter, não a contumácia dos deuses, mas dos de­mónios. Porque uma coisa é não ceder e outra é retomar o lugar cedido. Aliás, posteriormente, as fronteiras do Império Romano foram alteradas no Oriente por vontade de Adriano. Efectivamente, cedeu três magníficas províncias — a Arménia, a Mesopotâmia e a Assíria — ao Império dos Persas. Assim, esse deus Término — que, segundo diziam, protegia as fronteiras romanas e, segundo esse belíssimo auspício, não tinha cedido o seu lugar a Júpiter, — parece ter receado mais Adriano, rei dos homens, do que Júpiter, rei dos deuses. Recuperadas em outra ocasião estas províncias, novamente voltou o deus Término a retroceder, quase nos nossos tempos, quando Juliano, que se entregava aos oráculos dos deuses, ordenou, com imoderada ousadia, que fossem queimados os navios em que se transportavam os víveres. Quando, logo depois, ele foi m orto por uma flecha inimiga, o exército, privado de provisões, ficou reduzido a tamanha carência, que ninguém teria escapado, quando o exército, perturbado pela m orte do imperador, era acometido de todos os lados pelos inimigos, se se não fixassem por um tratado de paz as fronteiras do Império por onde ainda hoje perduram, por um preço não tão grande como o que Adriano pagou, mas sim mediante um compromisso.

A um falso augúrio deu origem o facto de não ter cedido a Júpiter o deus Término, que afinal cedeu à vontade de Adriano, à temeridade de Juliano e à necessidade de Joviano. Os mais perspicazes e respeitáveis romanos bem o notaram. Mas pouco podiam contra as tradições duma cidade obrigada aos ritos demoníacos. Porque, embora sentissem a falsidade desses ritos, não deixavam de acreditar que deviam prestar um culto religioso, próprio de Deus, à natureza criada e estabelecida sob o governo e a de pendencia do único Deus verdadeiro , com o diz o Apóstolo:

Servindo à criatura em vez de ao Criador que é bendito para sempre [i].

Era necessário o auxílio deste verdadeiro Deus pelo qual seriam enviados homens santos e verdadeiramente piedosos que morressem pela verdadeira religião, para que a falsa religião fosse extirpada da alma dos vivos.

CAPÍTULO XXX

Que é que confessam pensar dos deuses dos gentios os seus próprios adoradores.

O áugure Cícero mofa dos augúrios e mofa dos homens que pautam os passos da sua vida pelos gritos dos corvos e das gralhas. Mas este académico, que sustenta que tudo é incerto, não é digno de qualquer autoridade nestes assuntos. No livro segundo da sua obra De natura deorum [ii], aparece a discutir Q. Lucílio Balbo, que — embora admita algumas superstições, quer de ordem física quer de ordem filosófica, conforme a natureza das coisas — se indigna, todavia, contra a insti­tuição dos ídolos e contra a crença em fábulas. Diz ele:

Então não vedes como a razão se desviou das coisas boas e úteis por si descobertas, para os deuses inventados e fictícios? Este facto gerou falsas opiniões, erros turvos, e superstições próprias de velhotas. Pois conhecem-se as formas dos deuses, as suas idades, o seu vestuário e enfeites, e, além disso, as suas genealogias, os seus casamentos, os seus parentescos, — tudo isto à semelhança da humana fraqueza. Representam-no-los de alma perturbada. Dos deuses recebemos os desejos, os desgostos, as cóleras. Como nos referem as fábulas, não só os deuses tomaram parte em guerras e em combates; não somente, como no-lo conta Homero, defenderam dois exércitos inimigos, um dum lado e outro do outro, como até sustentaram guerras suas próprias (por exemplo, contra os Titãs e os Gigantes). Não só se conta mas também se crê insensatamente nestas coisas, plenas de frivolidades e de suma ligeireza [iii].

Vede, entretanto, o que confessam os que defendem os deuses dos gentios. Depois de ter afirmado que estas cren­ças se ligam à superstição, declara Cícero que a sua doutrina pessoal, inspirada nos estóicos, ao que parece, se liga à religião:

Não foram apenas os filósofos mas também os nossos antepas­sados que separaram a superstição da religião. Efectivamente, os que passavam os dias inteiros a orar e a imolar para que os seus filhos lhes sobrevivessem (essent superstites) foram alcunhados de supersticiosos [iv].

Quem não compreende os esforços que ele faz, com medo de ferir as tradições da cidade, para louvar a religião dos antepassados e separá-la da superstição, sem, todavia, encontrar a forma como fazê-lo? Porque, se os antepassados chamavam supersticiosos àqueles que
passavam os dias inteiros a orar e a imolar [v]

não serão também os que inventaram (o que ele reprova) essas estátuas dos deuses de diversas idades, de vestuário diferente, essas geneologias e casamentos e parentescos dos deuses? Na verdade, quando se inculpa tudo isto de superstição, esta culpa abrange os antepassados que instituíram e veneraram ídolos e abrange-o a ele também, que, apesar de toda a eloquência que emprega para se libertar dos ídolos, pregava, todavia, que era necessário venerá-los. Nem ousaria murmurar na assembleia do povo o que com retumbância proferia no seu eloquente discurso.

Por isso demos nós, cristãos, graças ao Senhor nosso Deus — não ao Céu e à Terra, como disserta este escritor, mas Àquele que criou o Céu e a T erra e que, pela profunda humildade de Cristo, pela pregação dos apóstolos, pela fé dos mártires que morreram pela verdade e vivem na verdade — a essas superstições que Balbo dificilmente, como que a balbuciar, repreende, não só as arrancou dos corações religiosos, mas até dos templos supersticiosos, pela livre submissão dos seus.


(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] Rom 1, 25
[ii] Acerca da Natureza dos deuses, Marco Túlio Cícero.
[iii] Cícero, De natura deorum, II, 28.
[iv] Ib., II, 28.
[v] Ib, II, 28.

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