19/01/2017

Leitura espiritual


Leitura espiritual


A Cidade de Deus 



Vol. 1

LIVRO IV

CAPÍTULO II

Assuntos contidos nos livros segundo e terceiro.

Tínhamos pois prometido que havíamos de opor certos argumentos aos que atribuem à nossa religião os desastres da República Romana, e de relembrar (quaisquer que eles fossem e por muito grandes que fossem, à medida que eles se apresentassem ou tanto quanto fosse necessário) os males suportados por Roma e pelas províncias dependentes do Im­pério antes da proibição dos seus sacrifícios — males que eles nos atribuiriam sem dúvida se já então a nossa religião tivesse sobre eles difundido a sua luz ou se já lhes tivesse proibido as suas sacrílegas cerimónias.

Parece-me que desenvolvemos suficientemente estes assuntos no segundo e terceiro livros:
— no segundo, ao tratarmos dos males morais, que se devem considerar como os únicos verdadeiros males ou, pelo menos, como os maiores,
— no terceiro, ao tratarmos dos males ligados ao corpo e às coisas exteriores, únicos que os insensatos suportam com horror e que também os bons suportam. Aqueles males, não digo que os aceitam com paciência, mas antes com prazer; e, todavia, estes males é que os tornam maus.

E bem pouco disse acerca de Roma e do seu império — e muito menos até César Augusto. Se eu quisesse recordar e exagerar tais males — não já os males que os homens fazem uns aos outros, tais como as devastações e as destruições dos guerreiros, mas aqueles que surgem dos elementos terrenos do próprio mundo (Apuleio faz deles um breve relato numa passagem do seu livro DE MUNDO [i]. Refere que todas as coisas terrestres estão sujeitas a mutações, transformações, destruições: «tremores de terra sem medida» — utilizo as suas palavras — «abriram o solo e engoliram cidades com as suas populações»;
trombas de água inundaram regiões inteiras;
antigos continentes transformaram-se em ilhas pela invasão de estranhas ondas;
outras ilhas, devido ao recuo do mar, tomaram-se acessíveis a pé enxuto;
ventanias e procelas arrasaram cidades;
fogo caído das nuvens abrasou e consumiu regiões do Oriente;

no Ocidente, trombas de água e inundações causaram idênticas devastações. Assim, certo dia o Etna esvaziou a sua cratera e rios de fogo precipitaram-se, como um incêndio vindo do céu, do cume ao longo das encostas, como uma torrente de chamas) — se eu quisesse recolher, de onde pudesse, estes factos e outros semelhantes que a história refere, quando é que eu acabaria? E estas calamidades aconteceram nesses tempos em que o nome de Cristo não tinha reprimido qualquer dessas fúteis práticas, perniciosas à verdadeira salvação.

Também tinha prometido mostrar de que qualidade eram os hábitos morais dos Romanos, e por que razão o verdadeiro Deus, em cujo poder estão todos os reinos, se dignou ajudá-los a estender o seu império, e como aqueles, que consideram deuses, em nada os auxiliaram, mas antes inúmeros danos lhes têm causado com disfarces e enganos. Parece-me que agora devo, portanto, falar (e mais demoradamente) do incremento do Império Romano. De facto, acerca da nociva falácia dos demónios que eles adoram como deuses, já se disse, e não pouco, principalmente no livro segundo, quantos males introduziram nos seus costumes. No decurso dos três livros findos, assinalámos, quando nos pareceu oportuno, quantas consolações, mesmo nas desgraças da guerra, graças ao nome de Cristo, a quem os bárbaros testemunharam tanta honra, ao contrário dos costumes de guerra, Deus carreou para os bons e para os maus,

Ele que fez nascer o sol sobre os bons e sobre os maus e chover sobre os justos e os injustos [ii].

CAPÍTULO III

Se a dilatação do Império, que só por guerras se conseguiu, se deve considerar um dos bens dos sábios e dos felizes.

Vejamos então agora o que valem as suas razões para se atreverem a atribuir aos deuses tamanha extensão e duração do Império Romano, e afirmarem que se comportaram honestamente, venerando-os com jogos torpes representados por torpes comediantes.

Mas, antes, quereria averiguar brevemente se é razoável e sensato querer gabar-se da extensão e grandeza do Império — quando se não pode demonstrar a felicidade de homens sempre mergulhados em guerras, em calamidades, no sangue do concidadão ou do inimigo (mas sempre sangue humano) e sob tenebroso terror e cruenta cupidez. Essa «felicidade» brilhante como o vidro e como ele frágil, vive-se no terrível receio de que de repente se estilhace.

Para mais à-vontade sobre isto fazermos um juízo, não nos desvane­çamos com vãs jactâncias, nem enfraque­çamos a força do pensamento com palavras altissonantes como «povos», «reinos», «províncias». Imaginemos dois homens (porque cada homem, tal como uma letra na frase, é um elemento da cidade e do reino, por maior que seja a extensão do seu território) — pensemos que, destes dois homens, um é pobre ou antes de classe média, e o outro muito rico. O rico é atormentado de temores, consumido de desgostos, arde em cobiça, nunca seguro, sempre inquieto, ofegante em perpétuos conflitos de inimizades, aumentando sem dúvida o seu património sem limite à custa destas misérias, mas àqueles aumentos juntando também amaríssimos cuidados.

O de condição média, porém, está satisfeito com o seu pequeno e apertado património familiar, é dos seus muito querido, goza da mais doce paz com os parentes, vizinhos e amigos, é piedosamente religioso e dotado de grande afabilidade, tem o corpo sadio, na vida parco, casto nos costumes, sereno de consciência. Não sei se haverá alguém tão louco que duvide qual deverá preferir.


Ora, como nestes dois homens, assim é a regra da equidade a seguir em duas famílias, em dois povos, em dois reinos. Aplicando como deve ser e com a condição de rectificar o nosso pensamento, veremos facilmente onde estão as aparências e onde está a felicidade. É por isso que, se o verdadeiro Deus for adorado e for servido com verdadeiros sacrifícios e costumes puros, é útil que os bons estendam até muito longe e por muito tempo o seu poder, e isto não tanto por eles próprios mas por aqueles que eles governam. Porque, quanto a eles próprios, a sua piedade, a sua justiça, que são grandes dons de Deus, bastam-lhes para a verdadeira felicidade: a de viverem bem nesta vida e obterem depois a vida eterna. Nesta Terra, portanto, o reino dos bons é um benefício não tanto para eles próprios como para a humanidade. Porém, o reino dos maus é-lhes funesto principalmente a eles, pois arruínam as almas com a maior facilidade de cometerem crimes. Mas, àqueles que lhes estão submetidos, nada mais é prejudicial do que a iniquidade própria. Efectivamente, os sofrimentos que aos justos advêm dos senhores injustos não são o castigo de uma falta, mas a provação da virtude. Por conseguinte, o bom, mesmo que reduzido à escravidão, é livre; ao passo que o mau, mesmo que seja rei, é escravo — não de um homem mas, o que é mais grave, de tantos senhores quantos os vícios. A estes vícios se refere a Sagrada Escritura quando diz:

Quando alguém se deixa vencer por alguma coisa, toma-se dela escavo [iii].

CAPÍTULO IV

Os reinos sem justiça assemelham-se a uma quadrilha de la­drões.

Afastada a justiça, que são, na verdade, os reinos senão grandes quadrilhas de ladrões? Que é que são, na verdade, as quadrilhas de ladrões senão pequenos reinos? Estas são bandos de gente que se submete ao comando de um chefe, que se vincula por um pacto social e reparte a presa segundo a lei por ela aceite. Se este mal for engrossando pela afluência de numerosos homens perdidos, a ponto de ocuparem territórios, constituírem sedes, ocuparem cidades e subjugarem povos arroga-se então abertamente o título de reino, título que lhe confere aos olhos de todos, não a renúncia à cupidez, mas a garantia da impunidade. Foi o que com finura e verdade respondeu a Alexandre Magno certo pirata que tinha sido aprisionado. De facto, quando o rei perguntou ao homem que lhe parecia isso de infestar os mares, respondeu ele com franca audácia: «O mesmo que a ti parece isso de infestar todo o mundo; mas a mim, porque o faço com um pequeno navio, chamam-me ladrão; e a ti porque o fazes com uma grande armada, chamam-te imperador».

CAPÍTULO V

Os gladiadores fugitivos cujo poderio se assemelhou à dignidade régia.

Não me detenho a averiguar que tipo de gente congregou Rómulo. Muito fez por eles quando os admitiu na comunidade da cidade, pois desta maneira afastou-os daquela vida, impediu-os de pensarem nas devidas penas, cujo receio os arrastava para crimes ainda mais graves, e levou-os a que doravante se tomassem mais pacíficos na vida social.
Pois digo-vos que, quando o Império Romano já era grande pelo número de povos subjugados e temível para os demais, sofreu amargamente, teve grandes receios e não conseguiu senão à custa de grandes esforços evitar um ingente desastre, quando pouquíssimos gladiadores, fugidos da sua escola de exercícios na Campânia, forma­ram um grande exército, nomearam três chefes e devastaram cruelmente grande parte da Itália. Dirão: que Deus é que os terá ajudado de forma a chegarem, de um pequeno e desprezível bando de ladrões, a um poder capaz de meter medo às forças e fortalezas romanas tão imponentes? Teremos que lhes negar o auxílio divino porque duraram pouco tempo? Como se, na verdade, a vida de qualquer homem fosse longa! Deste modo, os deuses a ninguém ajudariam a reinar, pois que cedo cada um morrerá — nem poderia ser tomado como um benefício o que em cada homem, e, portanto, em todos, em pouco tempo se desvanece como fumo. Que importa, de facto, aos que veneraram os deuses no tempo de Rómulo e que morreram há muito tempo, que o Império Romano tanto se tenha dila-tado depois da sua morte, quando já enfrentam as suas causas nos infernos? Se são boas ou más, isso já não importa ao caso presente. O mesmo é de pensar de todos aqueles que passaram a correr através do próprio Império (mesmo que a sua duração se estenda por várias épocas, dado o desaparecimento e a sucessão dos mortais), transportando o fardo dos seus actos durante a curta vida. Mas, se mesmo as vantagens desses tempos efémeros se devem atribuir à ajuda dos deuses — em pouco não foram ajudados os gladiadores que quebraram os grilhões da condição servil, que fugiram, que escaparam, que se agruparam num enorme e fortíssimo exército, e que, obedecendo às directrizes e ordens dos seus reis, fizeram trem er a grandeza romana e, depois de se terem mantido invictos perante vários generais romanos, se apoderaram de muitos despojos, conseguiram inúmeras vitórias, deram satisfação aos prazeres por que ansiavam e fizeram tudo o que a paixão lhes sugeria. Por fim, até serem vencidos — o que mui dificilmente aconteceu — viveram gloriosos como reis. Mas passemos a assuntos mais importantes.

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] Acerca do Mundo. Tem-se hoje quase como ponto assente que o De Mundo é uma adaptação do tratado do pseudo-Aristóteles.
[ii] Mat., V, 45.
[iii] II Pedro, II, 19.

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