13/01/2017

Leitura espiritual


Leitura espiritual


A Cidade de Deus 


Vol. 1

LIVRO III

CAPÍTULO XIV

Guerra impiedosa dos Romanos contra os Albanos, e vitória al­cançada pela paixão de domínio.

Que aconteceu a seguir, depois de Numa, sob os outros reis? Quão grande mal foi, mesmo para os Romanos, a guerra que estes declararam aos Albanos! Com certeza que a longa paz de Numa se tinha deteriorado! Que incessantes carnificinas para os exércitos de Roma e de Alba até ao esgotamento das suas cidades! De facto foi provocada pelo rei Túlio Hostílio que aquela Alba, fundada por Ascânio, filho de Eneias, mãe de Roma mais chegada que a própria Tróia, entrou em guerra. Durante a luta, vibrou e recebeu duros golpes, até que de parte a parte se cansaram de tanta luta. Combinou-se então submeter a sorte da guerra a três irmãos de uma e outra parte. Apresentaram-se por parte dos Romanos os três Horácios e por parte dos Albanos os três Curiácios. Por três Curiácios foram vencidos e mortos dois Horários e depois por um Horácio os três Curiácios. E assim ficou Roma vitoriosa — mas, no combate final, com a desgraça de, a casa, só um dos seis ter voltado vivo. Para quem foi, de uma e outra parte, o prejuízo, para quem o luto, senão para a estirpe de Eneias, senão para os pósteros de Ascânio, senão para a prole de Vénus, senão para os netos de Júpiter? De facto, foi uma guerra mais que civil, esta em que a cidade-filha se bate contra a cidade-mãe.

Acresce a esta última pugna de três irmãos um mal atroz e horrível. Como ambos os povos eram antes amigos (pois eram vizinhos e parentes) a irmã dos Horácios estava noiva de um dos Curiácios. Porque ela chorava ao ver os despojos do seu noivo nas mãos do seu irmão vencedor, este matou-a.

Parece-me que o sentimento desta única mulher foi mais humano do que o de todo o povo romano. Chorando um homem a quem se mantinha fiel e talvez um irmão que matava aquele a quem prometera a irmã, não era ela, julgo eu, que derramava lágrimas culpáveis. Na verdade, porque é que, em Vergílio, o piedoso Eneias é louvado por ter chorado o inimigo morto às suas mãos? Porque é que Marcelo, ao recordar o prestígio e a glória de Siracusa, que, pouco depois, ia destruir com as suas próprias mãos, derramou lágrimas de piedade, comovido pela sorte comum dos mortais? Por favor, invoquemos o sentimento humano para vermos que uma mulher não comete crime por chorar o seu noivo assassinado pelo seu irmão — quando tantos homens foram louvados por chorarem os seus inimigos por si próprios vencidos. Mas quando esta mulher estava a chorar a morte do noivo perpetrada pelo irmão, regozijava-se então Roma por ter causado em batalha uma grande matança contra sua cidade mãe e por ter saído vitoriosa à custa do sangue fraterno derramado por ambas as partes.

 A que propósito me invocam a palavra louvor e a palavra glória? Removidos os obstáculos de uma louca opinião — vejamos os crimes na sua nudez, pesemo-los na sua nudez, julguemo-los na sua nudez! Proclama-se o crime de Alba como se proclamava o adultério de Tróia! Nada de tal, nada de semelhante se enxerga! foi apenas para despertar a coragem adormecida que
Tulo chama às armas e põe em pé de guerra as suas hostes desabituadas das vitórias [i]. Foi apenas este vício que perpetuou o tão grande crime de uma guerra entre associados e parentes. Foi a este enorme vício que Salústio de passagem se referiu, quando, depois de recordar, com fugidios louvores, os velhos tempos em que o homem vivia tranquilo, sem ambições, cada um satisfeito com o que tinha, acrescenta:
Mas, desde que começaram a submeter cidades e nações, — Ciro, na Ásia, os Lace demónios e os Atenienses, na Grécia— , declarava-se a guerra apenas por um motivo: a paixão do domínio, julgando-se que o máximo da glória estava no máximo do poder [ii] e o resto que se propunha dizer. A mim basta-me ter citado estas palavras. Esta paixão de domínio é que agita e esmaga o género humano com grandes males. Vencida então por esta paixão, Roma orgulhava-se por ter vencido Alba e dava ao seu crime o nome de glória. Diz a nossa Escritura:

O pecador é louvado pelos desejos da sua alma e o que pratica a iniquidade recebe bênçãos [iii].

Arranquemos pois aos factos as coberturas enganosas e o brilho ilusó­rio para os vermos num exame sincero. Ninguém me venha dizer: este ou aquele é grande porque combateu e venceu este ou aquele. Também os gladiadores lutam, também eles são vencedores, também essa crueldade tem o seu prémio de louvor. Mas julgo que é preferível ser punido por qualquer omissão, a buscar a glória daqueles combates. E, todavia, se na arena, um contra o outro, avançassem, para combaterem gladiadores, um dos quais fosse o pai e o outro o filho — quem suportaria tal espectáculo? Quem é que o não faria parar? 

Como é que então pode ser glorioso este conflito armado entre uma cidade mãe e uma cidade filha? Estará a diferença em que não havia arena mas largos campos, não com dois gladiadores mas cheios de cadáveres de numerosos filhos de dois povos? Ou estará em que esta luta se não desenrolou no recinto de um anfiteatro, mas no mundo inteiro e fornecendo um espectáculo ímpio aos vivos e aos vindouros em qualquer parte onde chegue a notícia do facto?

Todavia esses deuses protectores do Império Romano, contemplando estas lutas como espectadores de teatro, até ao momento em que a irmã dos Horácios foi atingida pelo ferro fraterno, sofriam contrariedade em seus desejos — porque, para três Curiácios mortos, era preciso, do lado dos Romanos, uma terceira vítima que se juntasse aos dois irmãos, para que Roma não contasse com menos mortos apesar de ter vencido. Seguidamente e como fruto da vitória, Alba foi destruída. Aí, depois de ílion, destruída pelos Gregos, depois de Lavínio, onde Eneias estabeleceu um reino de estrangeiros e de fugitivos, aí vieram habitar em terceiro lugar as divindades troianas. Mas talvez, segundo o seu costume, tenham já emigrado também de Alba — por isso, esta foi destruída. Tinham-se todos ido embora com certeza,    
abandonando altares e santuários, estes deuses [iv]
que mantinham de pé o Império! Já se tinham ido embora por três vezes para que, à quarta vez, Roma se encomendasse à sua grande providência! Na verdade, desagradava-lhes Alba, onde Amúlio reinava, depois de expulso o irmão; agradava-lhes Roma, onde Rómulo reinava, depois do assassínio do irmão. Dirão: mas antes que Alba fosse des­truída, o seu povo foi transferido para Roma, para que de uma e outra se fizesse uma só cidade.
Seja! Admito que assim tenha acontecido! Todavia aquela cidade, reino de Ascânio e terceiro domicílio dos deuses Troianos, foi cidade mãe, destruída pela cidade filha. E para fundir numa lamentável amálgama os restos dos dois povos poupados pela guerra, muito sangue se derramou de parte a parte. Para que hei-de eu contar em pormenor as demais guerras, sempre as mesmas, sob os restantes reis uma e outra vez repetidas? A vitória parecia que lhes punha cobro. Mas tantas vezes acabadas pelo preço de sangrentas carnificinas, depois da paz e de tratados, tantas e tantas vezes se reacenderam entre genros e sogros, entre filhos e netos! Não foi pequeno indício deste período calamitoso o facto de nenhum desses reis ter fechado as portas da guerra. Nenhum deles, portanto, reinou em paz sob a protecção de tantos deuses.

CAPÍTULO XV

O que foram a vida e a morte dos reis romanos.

Qual foi o fim destes reis? De Rómulo é testemunha a fábula aduladora que no-lo apresenta admitido no Céu. Mas alguns escritores relatam que, devido à sua ferocidade, foi esquartejado pelo Senado e que teriam subornado não sei que Júlio Próculo para dizer que ele lhe tinha aparecido e o tinha encarregado de avisar o Povo Romano de que era preciso que o venerassem entre os deuses. Deste modo se conteve e apaziguou o povo, que começava a insurgir-se contra o Senado. Verificou-se ainda um eclipse do Sol, que a multidão, ignorando que isso era devido a leis inalteráveis que regulam o seu curso, atribuiu aos méritos de Rómulo. Como se aquele suposto luto do Sol não indicasse antes que o rei tinha sido assassinado, denunciando a fuga da luz do dia a existência de um crime. Foi o que aconteceu, realmente, quando o Senhor foi crucificado pela crueldade e iniquidade dos Judeus. Esse obscurecimento do Sol não aconteceu conforme as leis normais do curso dos astros, pois era então a Páscoa judaica que se celebra na Lua cheia — e um eclipse regular do Sol só se produz na Lua nova.

Cícero dá mais ou menos a entender que a recepção de Rómulo entre os deuses é mais uma ficção do que uma realidade! Nos seus livros acerca da República louva-o com as palavras de Cipião:

Deixou de si um tão elevado conceito que, tendo desaparecido subitamente durante um eclipse do Sol, se julgou que ele tinha entrado na sociedade dos deuses — crença que jamais mortal algum conseguiu despertar sem uma alta fama de virtude [v].

(Com estas palavras eum subito non comparuisse— «tendo desapare­cido subitamente» — compreende-se na verdade que foi devido a tempestade violenta ou a morte criminosa secreta. Com efeito outros escritores acrescentam ao eclipse uma tempestade súbita que, sem dúvida, deu ocasião ao crime ou ela própria arrebatou Rómulo).

De Tulo Hostílio, terceiro rei de Roma, que foi fulminado por um raio, o citado Cícero refere, nos ditos livros, que não se acreditou na sua admissão entre os deuses a seguir a essa morte, com certeza porque essa honra legítima, isto é, geralmente reconhecida a Rómulo, não a quiseram os Romanos vulgarizar, aviltá-la, concedendo-a facilmente a outro. Cícero di-lo mesmo abertamente nas Catilinárias:

Ao fundador desta cidade, Rómulo, elevámo-lo nós de boa vontade à categoria dos deuses mortais, em face da fama adquirida [vi].

Estas palavras dão a entender que se trata não de um facto real, mas de uma opinião muito difundida por causa dos méritos da sua virtude. E Cícero no diálogo do Hortênsio, ao falar dos eclipses regulares do Sol, diz:

Para produzir as mesmas trevas que surgiram quando da morte de Rómulo, a qual se verificou durante um escurecimento do Sol [vii]

Pelo menos desta vez não teve o menor receio de falar da morte do homem, sendo então mais crítico do que panegirista.

E os restantes reis do Povo Romano, excepto Numa Pompílio e Anco Márcio, que morreram de doença, que horríveis fins tiveram! Tulo Hos­tílio, vencedor e destruidor de Alba, morreu queimado, como disse, por um raio, com toda a sua casa. Tarquínio Prisco foi assassinado pelos filhos do seu predecessor. Sérvio Túlio morreu devido a nefando crime de seu genro Tarquínio o Soberbo que lhe sucedeu no trono. E nem perante este parricídio cometido contra melhor rei daquele povo
depois de abandonados altares e santuários, se afastaram esses deuses [viii]
que, indignados com o adultério de Páris, abandonaram, diz-se, a mísera Tróia para permitirem aos Gregos que a destruíssem e a queimassem. Mais ainda: Tarquínio, depois de ter assassinado o sogro, sucedeu-lhe. E esses deuses viram este criminoso parricida reinar graças ao assassínio do sogro, gabar-se das suas numerosas guerras e vitórias, construir o Capitólio com os despojos dos vencidos, e não partiram; ficaram a ver Júpiter seu rei naquele altíssimo templo, isto é, na obra do parricida; e suportaram que Tarquínio os chefiasse e sobre eles reinasse! E não foi como homem inocente, ainda, que ele construiu o Capitólio, nem como um homem que só mais tarde seria expulso da Urbe pelos seus crimes. Foi devido ao cometimento do mais monstruoso dos crimes que chegou ao trono e construiu o Capitólio. Todavia, quando, posteriormente, os Romanos o destronaram e o expulsaram para fora dos muros da cidade, não foi por ter sido ele, mas seu filho quem violara Lucrécia na sua ausência e sem seu conhecimento. Nessa altura, sitiava ele a cidade de Árdea e conduzia a guerra pelo Povo Romano. Não sabemos o que ele faria se o crime de seu filho fosse levado ao seu conhecimento. E, contudo, sem conhecer o seu juízo, sem o aguardar, o povo tirou-lhe o poder, e quando o exército voltou, ordenou-lhe que o abandonasse, fechou-lhe as portas e proibiu-lhe a entrada. Seguiu-se uma guerra terrível em que ele, graças aos vizinhos que sublevou, esmagou os Romanos. Foi, porém, abandonado por aqueles com o concurso dos quais contava e não pôde reconquistar o poder. Retirou-se, segundo se conta, para Túsculo, perto de Roma, e aí viveu tranquilamente durante catorze anos, como simples cidadão, e lá envelheceu com sua mulher e teve uma morte sem dúvida mais invejável do que a do sogro que ele, seu genro, assassinou com a cumplicidade, conta-se, de sua filha. Todavia, os Romanos não chamaram a este Tarquínio «o cruel», ou «o cele­rado», mas «o soberbo», talvez porque a sua própria soberba não suportava a arrogância real. De facto, tiveram em tão pouca conta o homicídio por ele cometido contra o seu sogro — que tinham por um óptimo rei —, que dele fizeram seu rei. Fico assombrado ao pensar se recompensar um tão grande crime com tamanha honra não será crime maior ainda. E os deuses ainda desta vez não «abandonaram os seus santuários e os seus altares». A não ser que se alegue, em defesa destes deuses, que, se eles ficaram em Roma, foi mais para poderem punir com suplícios os Romanos do que para os socorrerem com benefícios, seduzindo-os com vãs vitórias e esmagando-os com terríveis guerras.

Foi esta a vida dos Romanos sob os reis, nos gloriosos tempos daquela república, até à expulsão de Tarquínio o Soberbo, durante cerca de duzentos e quarenta e três anos. Todas as vitórias foram alcançadas pelo preço de muito sangue e de grandes calamidades! E, todavia, com ela apenas se alargou o Império em vinte milhas à volta da Urbe — território que não se compara com o que hoje têm até algumas cidades da Getúlia.

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] Vergílio, Eneida, VI, 814-815.
[ii] Salústio, Catilina, II, 2.
[iii] Salmo X, 3.
[iv] Vergílio, Eneida, II, 351.
[v] Cícero, De Republica, II, 10.
[vi] Id., Catii, III, 1.
[vii] Acerca do Hortensius, obra perdida de Cícero, veja-se: V. Michel Ruch, L ’Hortensius de Ciceron, Histoire et reconstitution, Paris, 1958
[viii] Vergílio, Eneida, II, 351.

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