07/12/2016

Leitura espiritual



JESUS CRISTO NOSSO SALVADOR

Iniciação à Cristologia


PRIMEIRA PARTE


A PESSOA DE JESUS CRISTO


Capítulo II


A VINDA DO FILHO DE DEUS NA ECONOMIA DIVINA DA SALVAÇÃO


1. Para que veio o Filho de Deus ao mundo?


Para que quis Deus a Encarnação do seu Filho? A que o destinou? Que finalidade tem? Para responder a estas perguntas não temos outro caminho que acudir ao que o próprio Deus nos manifestou sobre os desígnios da sua vontade soberana. Portanto, vejamos o que nos diz a revelação.


a)   O Filho de Deus veio a mundo para salvar os homens.

O fim da Encarnação é a salvação dos homens. Assim o manifesta com clareza a Sagrada Escritura: o Filho de Deus veio «para que o mundo se salve por Ele» [i], «para ser salvador do mundo» [ii].


Isto é o que a Igreja confessa no Credo Niceno-Constatinopolitano: o Filho de Deus «por nós homens e pela nossa salvação baixou do céu, e por obra do Espírito Santo encarnou de Maria a Virgem e se fez homem».

Assim, pois, este é o amoroso desígnio divino: Deus, que «quer que todos os homens se salvem» [iii], decidiu que o seu Filho encarnasse para que, feito homem, fosse a causa da nossa salvação [iv].


Para entender um pouco mais este desígnio divino, convém recordar que depois do pecado original a natureza humana estava privada da vida divina e muito maltratada na sua condição; era preciso curá-la, repará-la, e comunicar-lhe a vida de Deus que tinha perdido. O homem precisava de ser salvo.

A salvação do homem, a libertação do mal, segundo o desígnio divino, compreende dois aspectos unidos: a libertação do pecado e a comunicação da vida divina. Estes dois aspectos são igualmente assinalados pela revelação e pela Tradição da Igreja como fins da vinda do Filho de Deus ao mundo. Vejamo-lo:


O Filho de Deus encarnou para nos livrar do pecado.

Assim o afirma a Sagrada Escritura: «Deus amou-nos e enviou-nos o seu Filho como propiciação dos nossos pecados» [v]; ou ainda, «Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores» [vi]; ou ainda, «O Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido» [vii].


De qualquer forma a Tradição e o Magistério da Igreja ensinam que o Verbo se fez homem para «libertar o homem do pecado mediante os mistérios da sua carne»» [viii]


O filho de Deus encarnou-se para nos conseguir a vida eterna.


Assim o expressa a revelação: Deus enviou o seu Filho ao mundo para que este «não pereça, mas que tenha a vida eterna» [ix]. Ou, com outras formas equivalentes: «para fazer-nos partícipes da natureza divina» [x], ou «para que recebêssemos a adopção de filhos» [xi].

E a Tradição afirma: «Tal é a razão pela qual o Verbo se fez homem; e o Filho de Deus, Filho do homem: para que o homem ao entrar em comunhão com o Verbo e ao receber assim a Filiação Divina, se convertesse em filho de Deus» [xii]. O Verbo encarnou para nos conseguir a vida eterna, plenamente no céu e agora já pela graça.


b) Há outras razões para a sua vinda ao mundo, mas todas elas estão compreendidas na salvação dos homens ou a ela se ordenam.


Deus Pai, segundo a sua imensa benevolência, quis, além disso, facultar-nos através da Encarnação do seu Filho todos os meios para que melhor e mais convenientemente pudéssemos alcançar a salvação. Por isso à vinda do Filho de Deus ao mundo se lhe podem atribuir muitos outros bens ou fins que estão compreendidos nessa finalidade principal, ou a ela se ordenam [xiii]. POR exemplo:

O Verbo divino veio comunicar-nos pessoalmente a verdade, revelar-nos em si mesmo a Deus.


Ele diz-nos: «Vim a este mundo para dar testemunho da verdade» [xiv]. Ele é o Mediador e a plenitude da revelação divina: é o Mestre que nos revela Deus, e Ele é a própria Verdade [xv].


Veio fortalecer a nossa esperança e a mover-nos ao amor de Deus, pois a própria Encarnação manifesta o imenso amor que Deus nos tem.


«Nisto se manifestou o amor que Deus nos tem: em que Deus enviou ao mundo o seu Filho único para que vivamos por meio d’Ele» [xvi].


Veio para que de modo visível tenhamos n’Ele exemplo de vida e modelo de santidade.

O próprio Jesus nos diz: «Aprendei de mim» [xvii]. «Ele é, com efeito, o modelo das bem-aventuranças e a norma da nova lei» [xviii]


2. A salvação é obra da misericórdia divina e dom de Deus.


a) O homem, só com as suas forças naturais, não pode alcançar a salvação.


A revelação diz-nos que, depois do pecado original, todos os homens, judeus e gentios, tinham ficado privados da glória de Deus [xix], da amizade de Deus, e escravos do pecado [xx]. E ninguém podia ser justificado senão pela graça de Jesus Cristo.


«O que a revelação divina nos diz coincide com a experiência. O homem, com efeito, quando examina o seu coração comprova a sua inclinação para o mal e sente-se inundado por muitos males (…) Toda a vida humana, a individual e a colectiva, apresenta-se como uma luta, e por certo dramática, entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas. Mas todavia, o homem sente-se incapaz de dominar com eficácia por si só os ataques do mal, até ao ponto de se sentir como que aferrolhado entre cadeias» [xxi]


E «ninguém, por si mesmo e com as suas próprias forças, consegue libertar-se do pecado e elevar-se ao alto; ninguém se livra totalmente da sua debilidade, (…) da sua escravidão» [xxii]


Podemos entender melhor esta realidade se nos damos conta que o pecado traz consigo a privação da graça sobrenatural juntamente com o afastamento e oposição da vontade humana no quem respeita a Deus. E unicamente Deus pode conceder de novo a graça que tira o pecado do homem [xxiii], convertendo o coração humano ao amor divino e voltando a dar-lhe a vida sobrenatural da graça.


b) A Encarnação é obra do amor e da misericórdia de Deus


Já sabemos que a única causa ou motivo do querer divino é a sua bondade. Assim, pois, Deus Pai, movido pelo seu amor benevolente e a sua infinita misericórdia, decidiu salvar o homem mediante o envio do seu Filho ao mundo: «Quando se manifestou a vontade de Deus nosso Salvador e o seu amor aos homens, salvou-nos, não por obras de justiça que nós tivéssemos feito, mas sim pela sua misericórdia (…) por meio de Jesus Cristo nosso salvador, para que, justificados pela sua graça, fossemos constituídos herdeiros da vida eterna que esperamos» [xxiv].

A Encarnação do Filho de Deus é fruto da misericórdia divina, isto é, de um amor de Deus que é maior que os nossos pecados e que procura remediar a miséria da humanidade, que se encontrava num estado muito penoso e desgraçado. Deus, que é clemente e compassivo [xxv] e «rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, ainda que estivéssemos mortos por causa dos nossos pecados, deu-nos a vida em Cristo» [xxvi]. «A Encarnação do Verbo é a demonstração por excelência da misericórdia de Deus para com os homen[xxvii].


Assim, pois, neste desígnio divino tudo é dom, tudo é dádiva, tudo é gratuito. A iniciativa é de Deus Pai; e, seguindo a compassiva disposição do Pai, o Filho de Deus rebaixa-se e vem a este mundo para curar a nossa doença, para iluminar a nossa cegueira, para nos libertar da escravidão, para nos dar a vida.


c) Liberdade divina na Encarnação


Deus, movido pelo seu amor misericordioso para connosco, quis salvar-nos e determinou o modo de o fazer: mediante a Encarnação do seu Filho. Esta decisão do beneplácito da vontade divina é absolutamente livre e gratuita, não é exigida por nada, pois Deus é sempre Senhor de tudo e não pode ter nenhum tipo de necessidade ou de condicionamento no seu actuar.


A vinda do Filho de Deus ao mundo não era necessária para a salvação do homem uma vez que Deus nos poderia ter salvado de muitas outras formas. Por exemplo, podia ter-nos libertado dos pecados infundindo directamente a sua graça nos homens sem que mediasse a Encarnação, pois a justiça divina não tem necessidade de exigir uma reparação do pecado para poder perdoar; nesse caso o perdão não seria injusto, pois a ninguém faria injúria, mas sim somente misericordioso [xxviii]


O caminho que Deus elegeu para nos salvar, a Encarnação do Verbo, é na verdade muito conveniente para o homem, como vimos ao falar dos bens que nos consegue, e é coerente com a sabedoria e o amor divinos, mas não podemos dizer que fosse necessário para Deus.


3. O nome de «Jesus»


O nome quer dizer em hebreu «Deus salva» ou «Salvador». O próprio Deus o impôs ao seu Filho feito homem como nome próprio: assim o anunciou a Maria [xxix], e depois a José [xxx]. Este nome expressa ao mesmo tempo a sua identidade e a sua missão: Ele é Deus, E Ele «salvará o seu povo dos seus pecados» [xxxi].


Sabemos que o título de «salvador» se deu na antiguidade a deuses pagãos e a reis ou imperadores. Ao invés, na Bíblia atribui-se a Deus que salva o seu povo da escravidão do Egipto, liberta-o do cativeiro da Babilónia e de outros males.


Mas também temos de dizer que não era raro pôr o nome de Jesus aos israelitas, como vemos no caço de Josué, ou no caso de Jesus o filho de Sirah, que foi o compilador do livro da Sirácida (Eclesiástico), ou outros mais. Este nome, todavia, não possuiu nunca a plenitude de significado que teve em Jesus de Nazaré, pois Ele trouxe a liberdade definitiva do domínio do pecado e da morte, e a salvação eterna a todos os homens de todos os tempos.


Este é o nome que enche de esperança os homens de todos os tempos; que enche de doçura o pensamento e de alegria o coração de cada um dos mortais. «O nome de Jesus está no coração da prece cristã Todas as orações litúrgicas acabam com a fórmula ‘Per Dominum Nostrum Iesum Christum…’ (‘Por Nosso Senhor Jesus Cristo…’) (…) Numerosos cristãos morem, como santa Joana d’Arc, tendo nos seus lábios uma única palavra: ‘Jesus’» [xxxii].

Vicente Ferrer Barriendos

(Tradução do castelhano por ama)




[i] (Jo 3,17)
[ii] (1 Jo 3,17)
[iii] (1 Tim 2,5)
[iv] (cf. Heb 5,9)
[v] (1 Jo 4,10)
[vi] (1 Tim 1,15)
[vii] (Lc 19,10)
[viii] LG, 55; entre muitos outros testemunhos.
[ix] (Jo 3,16)
[x] (2 Pd 1,4)
[xi] (Gal 4,5)
[xii] S. IRENEU, Adversus haereses, 3,19,1. Cf. CCE, 460.
[xiii] C. S. TOMÁS DE AQUINO, Summa theologiae, (S. TH.) III,1,2.
[xiv] (Jo 18,37)
[xv] (cf. Jo 14,6)
[xvi] (1 Jo 4,9)
[xvii] (Mt 11,29)
[xviii] CCE, 459.
[xix] (cf. Rom 3,9.23)
[xx] (cf. Rom 6,20)
[xxi] GS 13.
[xxii] CONC. VATIXCANO II, Ad gentes, 8.
[xxiii] (cf. Mc 2,5-12)
[xxiv] (Tit 3,4-7)
[xxv] (cf. Sal 111/110,4)
[xxvi] (Ef 2,4)
[xxvii] (cf. Jo 3,16)
[xxviii] Cf. S. Th. III, 46,2 ad 3.
[xxix] (cf. Lc 1,31)
[xxx] (cf. Mt 12-21)
[xxxi] (Mt 1,21)
[xxxii] CCE, 435.

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