03/12/2016

Leitura espiritual


DE MAGISTRO

(DO MESTRE)

CAPÍTULO XIII

A FORÇA DAS PALAVRAS NÃO CONSEGUE MOSTRAR SEQUER O 

PENSAMENTO DE QUEM FALA

AGOSTINHO

– E também no tocante às coisas que se contemplam com a mente, aquele que não entende, inutilmente ouve as palavras de quem as vê, a não ser porque é útil acreditar em tais coisas enquanto se ignoram.

Aquele, porém, que as pode ver interiormente, é discípulo da verdade; exteriormente, é juiz de quem fala, ou melhor, das suas palavras, pois muitas vezes sabe as coisas que foram ditas, enquanto quem as disse não as sabe.

Seria este o caso em que alguém, acreditando nos epicuristas e julgando a alma mortal, repetisse os argumentos já tratados pelos mais sábios sobre a sua imortalidade, na presença de quem pode intuir as coisas espirituais.

Este julgaria que aquele diz a verdade, ou antes considerar falácia o que diz.

Devemos, pois, acreditar que quem não sabe pode ensinar?

E, no entanto, usa as mesmas palavras que também usaria aquele que sabe.

Por isso tudo, nem sequer resta às palavras o papel de manifestar ao menos o pensamento de quem fala, pois é duvidoso se este sabe ou não o que diz.

Considera também os mentirosos e enganadores, e facilmente compreenderás que, com as palavras, eles não só não revelam, mas até ocultam o pensamento.

Jamais duvidaria que as palavras sinceras se esforcem e façam o melhor para manifestar o espírito de quem fala, o que conseguiriam, e seria ótimo para todos se não fosse permitido aos mentirosos falarem. Todavia, repetidamente percebemos em nós mesmos e nos outros que as palavras não expressam o pensamento; e isto pode acontecer de duas maneiras: ou quando as palavras que gravamos e repetimos saem da boca de quem está pensando em algo diferente, o que acontece amiúde quando cantamos um hino; ou quando, nos saem umas palavras em vez de outras, contra a nossa vontade, por um lapso da própria língua; também neste caso não são transmitidos os sinais das coisas que temos na mente.

Os mentirosos, sem dúvida, também pensam as coisas que dizem, e embora nós não saibamos se falam a verdade, sabemos, porém, que eles têm em mente o que dizem; a menos que lhes aconteça uma das coisas que mencionei; e se me objectarem que, às vezes, isto pode ocorrer, e que, quando ocorre, isto aparece, ainda que muitas vezes possa ficar oculto, e que eu, ao ouvir tais coisas, às vezes também possa ser enganado, não me oporei.

E há ainda outro caso, bastante frequente e origem de inúmeras controvérsias: quando quem fala exprime de facto seu pensamento, mas apenas para si e para uns poucos, e não para o interlocutor e para os demais.

Por exemplo, se alguém em nossa presença afirmasse que o homem é superado em valor por alguns animais, não o toleraríamos e logo refutaríamos com grande veemência esta falsa e perniciosa afirmação; e talvez por valor ele entenda a força física, e com tal palavra enuncie mesmo o que pensava, sem mentir, sem engano, sem ocultar as palavras gravadas na memória, agitando na mente alguma outra coisa, sem que por um lapso da língua fale algo diverso do que corresponde ao seu pensamento; estaria apenas chamando com um nome diverso do nosso a coisa que pensa, e nós teríamos concordado imediatamente com ele, se houvéssemos intuído o seu pensamento, o que não conseguiu explicar-nos com as palavras da sua afirmação.

Dizem que a definição pode sanar tal erro; assim, se nesta questão se definisse o que é valor (virtus), tornar-se-ia claro, dizem, que a controvérsia gira só em torno da palavra, e não da coisa.

Mas, mesmo concordando com isto, quantos bons definidores poderemos encontrar?

E isso embora se tenha discutido bastante sobre a arte de definir, o que não é oportuno tratarmos aqui, nem merece sempre a minha aprovação.

Nem considero o caso de não ouvirmos bem umas coisas e disputarmos longamente sobre elas como se as tivéssemos ouvido.

Quando, há pouco, quis dizer “misericórdia” com uma certa palavra púnica, afirmaste ter ouvido, daqueles que têm familiaridade com esta língua, que aquela palavra significa “piedade”.

Eu opunha-me, afirmando que tinhas esquecido de todo o que tinhas ouvido, pois me parecia teres dito não “piedade”, mas “fé”, embora tivéssemos sentados bem perto, e certamente estas duas palavras não podiam levar a um engano pela semelhança do som.

Por um bom lapso de tempo pensei, todavia, que não soubesses aquilo que te fora dito, e no entanto era eu que não sabia o que havias dito; ora, se eu tivesse ouvido claramente as tuas palavras, não teria recebido a impressão, nada absurda, que a língua púnica indicasse com o mesmo vocábulo “piedade” e “misericórdia”.

Tais coisas ocorrem com frequência, mas, como disse, vamos deixá-las de lado, para não dar a impressão que quero atribuir culpa às palavras pela negligência de quem ouve, ou até pela surdez dos homens.

 O que mais aflige é o que disse acima, isto é, o não conseguirmos conhecer o pensamento de quem fala, embora ouvindo claramente as palavras, e palavras latinas, e sendo nós da mesma língua.


(Revisão de versão portuguesa por ama

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