26/12/2016

Leitura espiritual

Leitura espiritual




A Cidade de Deus 


Vol. 1

CAPÍTULO XIV
No seu cativeiro nunca aos santos faltaram as consolações divinas.

Mas dirão que também muitos cristãos foram conduzidos ao cativeiro. Muito de lamentar seria que os levassem para onde não encontrassem o seu Deus. Há nas Escrituras Santas um grande lenitivo mesmo no infortúnio. Cativos estiveram os três jovens; cativo esteve Daniel; cativos estiveram outros profetas. Nunca Deus lhes faltou como consolador. Não iria abandonar os seus fiéis ao domínio de um povo, bárbaro sim, mas humano, Aquele que não abandonou o profeta no ventre do monstro.
Aqueles com quem discutimos preferem zombar destas coisas a crer nelas. Todavia, também eles nos seus escritos crêem que Arion de Metimna, célebre tocador de cítara, quando foi arrojado de um navio, foi recebido no dorso de um golfinho e chegou assim a terra. É certo que o que narramos acerca do profeta Jonas é mais incrível. Mais incrível na verdade porque mais maravilhoso — mais maravilhoso porque mais portentoso.

CAPÍTULO XV

Régulo, que deu um exemplo ao suportar o cativeiro espontaneamente por motivos religiosos, nunca foi socorrido pelos deuses que adorava.

Têm eles, entre os seus mais ilustres varões, o notabilíssimo exemplo de um cativeiro voluntariamente suportado por motivos religiosos. Marco Régulo, general romano, esteve cativo entre os Cartagineses. Como estes preferiam que aqueles lhes devolvessem os seus prisioneiros a reterem em seu poder os romanos, enviaram Régulo com os seus embaixadores a Roma com o fim primordial de obterem a permuta. Mas antes fizeram-no jurar que voltaria para Cartago se nada conseguisse. Para lá se dirigiu, mas exortou o Senado a não realizar a troca dos cativos por estar convencido da sua desvantagem para o Estado Romano. Depois desta exortação, nenhum dos seus o obrigou a voltar para o inimigo. Mas ele cumpriu o que voluntariamente tinha jurado. Os cartagineses entregaram-no então a horríveis e requintadas torturas, dando-lhe a morte. Com efeito, meteram-no dentro de um apertado caixão dentro do qual tinha forçosamente de se manter de pé; pregaram nele agudíssimos pregos, de maneira que a parte nenhuma se podia encostar sem sofrer atrocíssimas dores e aniquilaram-no à força de vigílias. Sem dúvida que é justificadamente que se louva tamanha virtude, maior ainda que a sua infelicidade.
Ele jurou pelos deuses cujo culto foi objecto de uma proibição que, segundo eles, nos valeu as actuais desgraças infligidas ao género humano. Pois bem, se estes deuses, aos quais se prestava culto na mira de se obter a prosperidade na vida presente, quiseram ou permitiram a imposição de tais penas a quem se lhes manteve fiel sob juramento — que castigos, mais duros ainda, não teriam na sua irritação infligido o seu perjúrio? Mas porque é que do meu raciocínio não hei-de tirar antes uma dupla conclusão? Certamente que ele de tal forma prestava culto aos deuses que, devido ao seu juramento, nem podia deixar-se ficar na sua pátria nem ir para qualquer outra parte; mas, sem a menor hesitação, voltou para junto dos seus encarniçados inimigos. Não há dúvida de que estava totalmente enganado se julgava útil a esta vida o que lhe acarretou tão horrível morte. Com o seu exemplo elucidou-nos de que os deuses de nada servem aos seus devotos relativamente à felicidade temporal. Com efeito, apesar de devotado ao seu culto, foi vencido e levado cativo; e, porque não quis agir contra o juramento feito em nome deles, depois de o terem torturado por um novo género de suplícios, até então inaudito e horrível em excesso, suprimiram-no. Se, porém, o culto dos deuses concede como recompensa a felicidade depois desta vida — porque é que contra o Cristianismo levantam a calúnia de que a desgraça de Roma resultou do abandono do culto dos deuses? Mesmo adorando-os com toda a fidelidade, não poderia ela vir a ser tão desgraçada como Régulo? A não ser talvez que a esta evidente verdade se oponha a loucura de uma surpreendente cegueira, a ponto de se ousar pretender que uma cidade inteira não pode ser infeliz quando venera os deuses, mas que um indivíduo pode sê-lo. Como se o poder dos deuses fosse mais capaz de proteger a multidão do que o indivíduo, sendo certo que são os indivíduos que constituem a multidão.

Mas, dirão: M. Régulo, mesmo no cativeiro e no meio de tais tormentos físicos, pôde conservar a sua felicidade graças à virtude do seu espírito. Procurem então uma virtude que possa tornar feliz toda uma cidade. É certo que a felicidade da cidade e a felicidade do homem não têm origem diversa, pois que a cidade mais não é que a multidão dos homens em concórdia. Não discuto agora a natureza da virtude de Régulo. Para já, basta que este nobilíssimo exemplo os obrigue a reconhecerem que o culto dos deuses não deve ser prestado na mira dos bens corporais ou das coisas externas ao homem. Ele preferiu
carecer de todas elas a ofender os deuses pelos quais jurara.
Mas que havemos de fazer com homens que se gabam de terem tido tal cidadão e receiam ter tal cidade? Então, se isso não temem, confessem que desgraça semelhante à de Régulo pode cair mesmo sobre uma cidade tão diligente como ele em honrar os deuses, e deixem de caluniar os templos cristãos.

Mas voltemos à questão já levantada acerca dos cristãos submetidos ao cativeiro. Pois calem-se, quando a este facto se referem, os que dele se valem impudente e imprudentemente, para zombarem da mais salutar das religiões. Se não constituiu uma vergonha para os seus deuses o facto de o seu mais zeloso adorador, por ser fiel ao juramento, ter renunciado à única pátria que tinha e, cativo de seus inimigos, ter perdido a vida em torturas de inaudita crueldade após uma longa agonia, muito menos há que incriminar o nome cristão por causa do cativeiro dos seus santos que esperam, com verdadeira fé, a pátria celeste e se reconhecem peregrinos nas suas próprias moradas.

CAPÍTULO XVI

Se a violação das virgens santas, suportada sem consentimento da sua vontade durante o cativeiro, poderá manchar a virtude de espírito.

Julgam que lançam à cara dos cristãos um grande crime quando, exagerando o seu cativeiro, aludem às violações cometidas não só com as casadas e com as donzelas núbeis, mas também com religiosas. Aqui já não é a fé, nem a piedade, nem mesmo a virtude chamada castidade, mas a nossa própria discussão que se encontra constrangida entre o pudor e a razão. Não nos preocupamos aqui somente em dar uma resposta aos estranhos, mas em proporcionar um lenitivo aos nossos irmãos na fé.

Fique bem assente, antes de mais, que a virtude, norma de vida recta, dá as suas ordens aos membros do corpo a partir da sua sede, a alma, e que o corpo se santifica sendo o instrumento de uma vontade santa. Se esta permanece inquebrantável e firme, mesmo que um estranho opere com ou no corpo acções que não poderia evitar sem pecado próprio, não há culpa na vítima. Todavia, a violência cometida sobre o corpo de outrem pode não somente produzir a dor mas excitar a volúpia. Quando isto acontecer, nem por isso se arrancou da alma a sua pureza valentemente defendida, embora o pudor fique perturbado. Não se julgue consentido pela vontade do espírito o que talvez tenha acontecido com algum deleite da carne.

CAPÍTULO XVII

A morte voluntária por medo à dor ou à desonra.

Que sensibilidade humana se recusará a desculpar as que se suicidaram para evitarem tal ultraje? E se alguém acusar as que se não quiseram suicidar para evitarem com este pecado o delito alheio — esse mesmo não se livrará da acusação de estupidez. Sabemos que não há rei que consinta que se tire a vida, inclusive ao culpado, por iniciativa privada e, portanto, quem a si próprio se mata é homicida.
E é tanto mais culpado ao suicidar-se quanto mais inocente era a causa que o levou à morte. Se justificadamente detestamos o caso de Judas; se a Verdade decide que, ao suspender-se do laço, ele, longe de expiar, mais agravou a vilania da sua traição, pois que, desesperando da misericórdia de Deus, fechou com um funesto remorso todo o caminho a uma salutar penitência — muito mais se deve abster do suicídio quem nenhuma culpa teve a expiar com tal suplício. Porque Judas, ao matar-se, matou um celerado e, todavia, acabou a sua vida réu não somente da morte de Cristo, mas também da sua própria morte.
Suicidou-se por causa do seu crime e ao seu crime juntou mais outro crime. Porque é, pois, que o homem que nenhum mal causou, contra si o vai causar? Porque é que com a sua própria morte vai ele executar um inocente para não suportar um culpado? Porque é que vai cometer na sua própria pessoa um pecado próprio para evitar que nela se cometa um pecado alheio?

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)


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