19/12/2016

Leitura espiritual



JESUS CRISTO NOSSO SALVADOR

Iniciação à Cristologia


SEGUNDA PARTE

A OBRA REDENTORA DE JESUS CRISTO



Capítulo VII

JESUS CRISTO, MEDIADOR DA NOVA ALIANÇA E CABEÇA DO GÉNERO HUMANO


2. Cristo medeia entre Deus e os homens exercendo os ofícios de sacerdote, Mestre e Pastor

c) Jesus Cristo, Bom Pastor

Emprega-se figuradamente o nome de «pastor» para significar o que governa um povo ou tem uma especial autoridade numa comunidade. Assim o faz frequentemente a Bíblia quando, por exemplo, dá o título de pastor a David e a outros reis de Israel.

Cristo apresenta-se como o Bom Pastor prometido no Antigo Testamento (cf. Jo 10,1-18; Ez 34); Ele é o pastor que ama as suas ovelhas e dá a sua vida para as salvar; quem as conduz aos bons pastos, lhes dispensa o alimento espiritual, e as defende do inimigo.

Paralelamente a este título de «Pastor», a Igreja empregou também os de rei e Senhor, que figuradamente expressam a mesma realidade.

E segundo diferentes tarefas que estão compreendias no ofício pastoral, também apresentou Cristo como Legislador (pois nos dá a Lei nova da graça e da caridade), ou como Juiz (pois dispensa a graça e o perdão dos pecados, e premeia com a glória).


3. Cristo é o novo Adão e Cabeça da linhagem humana em ordem à graça

a) Cristo, novo Adão

Semelhança entre Adão e Cristo, enquanto princípios da humanidade.

Deus quis que a humanidade tivesse o seu princípio em Adão. E, além disso, concedeu ao nosso primeiro pai a justiça original que por ele passa-se aos seus descendentes. Todavia, Adão, pecou e toda a sua estirpe foi privada dessa santidade e ficou vulnerável com as sequelas desse pecado. Adão, pois, pecou não só como pessoa individual, mas também como cabeça do género humano, e a sua acção implicava toda a sua descendência (cf. Rom 5,12-19).
Por outro lado, Deus destinou a Encarnação do seu Filho para que Jesus Cristo fosse o princípio e a causa da vida sobrenatural de todos, o início de uma humanidade redimida. Daí que o Novo Testamento afirme o paralelismo – e a contraposição – entre Adão e Cristo, que é chamado o «novo» ou «segundo» Adão (cf. 1 Cor 15,21-22.45-47). «Como pela queda de um só a condenação afectou todos os homens, assim também pela justiça de um só a justificação, que dá a vida, alcança todos os homens. Pois como pela desobediência de um só homem todos foram constituídos pecadores, assim também pela obediência de um só todos serão constituídos justos» (Rom 5,18-19).

Também os Padres da Igreja, e em especial santo Agostinho, tratam frequentemente o tema dos dois «Adão» assinalando a semelhança entre eles: ambos são os princípios de todo o género humano, ainda que Adão o seja quanto à natureza e ao pecado, e Jesus Cristo enquanto á salvação.

Cristo é o homem novo e perfeito, superior a Adão e a todos os homens, o exemplar de todos os demais.

São Paulo afirma que «Adão é a figura do que havia de vir». De Cristo (Rom 5,14): Adão é só figura, isto é, semelhante mas a um nível inferior a Cristo, que é a realidade plena e perfeita. Adão, como simples figura, foi criado à imagem e semelhança d Cristo, que é o exemplar de todos os homens. E «Ele, que é imagem de Deus invisível (Col 1,15) é também o homem perfeito, que devolveu à descendência d Adão a semelhança divina, deformada pelo primeiro pecado»[1].

b) Cristo, Cabeça da linhagem humana em ordem á graça

O Novo Testamento diz-nos, nas «Epístolas do cativeiro», que Cristo foi constituído «Cabeça» do seu «Corpo» que é a Igreja e de todos os homens em ordem à graça.

Vejamos as relações existentes no homem entre a cabeça e o corpo, para ver que significa realmente esta expressão «cabeça» referida metaforicamente a Cristo[2].

Em primeiro lugar existe uma relação de união entre a cabeça e o corpo humano, pois ambos formam um todo e são da mesma espécie. Assim pois, Cristo enquanto Homem é cabeça do género humano porque tem a mesma natureza que os outros homens e é solidário com todos eles[3].

Em segundo lugar, há uma relação de distinção entre a cabeça e os outros membros, enquanto a primeira tem uma proeminência sobre o resto. Por isso se chama cabeça figuradamente ao que é superior ou que sobressai numa ordem (p. ex. o cume de um monte ou a «capital de uma nação). Assim, Cristo é Cabeça dos homens, porque tem uma proeminência sobre eles pela sua plenitude de graça, em virtude da qual é o mais perfeito e o exemplar de cada um dos homens.

E em terceiro lugar, há outra distinção entre a cabeça e o corpo, pois aquela tem um influxo directivo sobre o resto.

Por isso também se chama cabeça figuradamente a quem numa sociedade tem o poder de direcção e de governo (p. ex. o cabeça de família). Assim, Cristo é Cabeça do género humano porque é o princípio da graça de todos os homens, o salvador de todos eles: porque nos redimiu e agora nos comunica a vida sobrenatural. «Da sua plenitude todos recebemos graça sobre graça» (Jo 1,16)[4].

Cristo é Cabeça dos homens por todas essas razões mencionadas: «Ele tem a primazia em tudo» (Col 1,18). Mas principalmente é-o enquanto nos redime e santifica; isto é, enquanto comunica aos outros a vida da graça.

E já sabemos eu o fundamento ou raiz dessa plenitude de graça de Cristo homem que se comunica aos seus membros é a união hipostática; de modo que se Cristo não fosse Deus feito homem, não seria Cabeça do género humano.

4. Aspectos que comporta a capitalidade de Cristo

a) A solidariedade de Cristo com o género humano

Solidariedade física, do sangue, com toda a linhagem humana.

Cristo, por ser homem, comparte a nossa natureza, é filho de Adão como assinala São Lucas na genealogia do Senhor, e forma parte da família humana. Por isso, por isso todos nós fomos feitos irmãos do Filho de Deus (cf. Heb 2,11.17).

Solidariedade moral e intencional pelo amor.

Cristo não só comparte a natureza humana, como ainda toma sobre si tudo o nosso, a nossa história e as nossas penas. Esta solidariedade moral nasce da livre vontade de Jesus, do seu amor, que é a virtude que une e identifica o amante com o amado e que faz que as coisas do amado sejam como próprias.

Assim, pois, Cristo abraça amorosamente todos os homens, faz-se um com eles pelo amor e identifica-se com os seus sofrimentos, como se fossem seus. Precisamente movido por esse amor entregou-se por nós, para reparar o nosso mal e conseguir a nossa salvação: «Amou-me e entregou-se a si mesmo por mim» (Gal 2,20).

Por isso diz o concílio Vaticano II: «O Filho de Deus com a sua Encarnação uniu-se, de certo modo, com todo o homem»[5]. Mas advirtamos que ainda que se fale de uma certa união ou identificação de Cristo com a humanidade, não podemos esquecer a distinção que existe entre o Redentor e os homens redimidos: não há uma «encarnação colectiva». Há sempre uma distinção no ser entre o amante e o amado, entre Cristo e nós.

b) Jesus Cristo representa vicariamente todos os homens ante Deus

Deus destinou Cristo a ser o salvador de todos. Portanto a graça e as acções de Cristo não terminam n’Ele, mas sim estão ordenadas no desígnio divino da salvação do género humano: ante Deus a obra de Cristo termina em nós.
Assim, pois, Cristo, em virtude do desígnio divino da nossa salvação, representa os homens ante Deus e oferece-se por todos, para merecer e reparar o pecado dos homens. Nesta obra actua como Cabeça da humanidade, representando todos e conseguindo «para nós» o que não podíamos conseguir. Isto é o que expressa a fórmula habitual de representação «vigário» de Cristo: do «justo pelos injustos, para levá-los a Deus» (1 Pe 3,18), de um por todos, «em favor de» todos.

Há que assinalar que Jesus nos representa, mas propriamente não nos substitui, ou só em algum aspecto, pois, por exemplo, não decide por nós, uma vez que nós devemos arrepender-nos dos pecados e incorporar-nos voluntariamente n’Ele como seus membros; e tão pouco nesta vida nos poupa as penas do pecado, a morte incluída[6].

c) Cristo tem o poder de salvar os homens: Ele é o autor da salvação

Deus dispôs que Jesus seja o novo Adão, a Cabeça e o princípio da vida sobrenatural da linhagem humana. Por isso a sua humanidade, como instrumento do Verbo, tem o poder de salvar todos. De modo que Ele é o autor e o princípio da salvação: é «o autor da vida» (Act 3,15; cf. Jo 11,25); é como uma fonte inexaurível de vida divina no próprio seio da linhagem humana: «Ele, segundo a sua humanidade, é de alguma forma o princípio de toda a graça de modo semelhante a como Deus é princípio de todo o ser, (…) e por isto tem razão de cabeça»[7].

***



(cont)

Vicente Ferrer Barriendos

(Tradução do castelhano por ama)






[1] GS, 22.
[2] Cf. S. TOMÁS DE AQUINO, In III Sent. D 13, q 2 , a 1; S.Th. III,8,1; De Veritate, q 29, a 4.
[3] Todavia, Cristo enquanto Deus não tem essa conformidade connosco e por isso é nossa Cabeça segundo a sua divindade.
[4] A graça eminente de Cristo enquanto se comunica aos seus membros, enquanto é princípio da salvação dos seus membros, chama-se graça capital.
[5] GS, 22.
[6] Como podemos ver, a acção vicária de Cristo como nossa Cabeça não tem o sentido que lhe outorga a «substituição penal», que rejeitámos.
[7] S. TOMÁS DE AQUINO, De Veritate, q 29, a 5.

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