01/12/2016

Leitura espiritual


DE MAGISTRO

(DO MESTRE)

CAPÍTULO XI

NÃO APRENDEMOS PELAS PALAVRAS QUE REPERCUTEM

EXTERIORMENTE, MAS PELA VERDADE QUE ENSINA INTERIORMENTE 

AGOSTINHO

– Limitado o valor das palavras, e delas direi, querendo valorizá-las, que apenas estimulam a procurar as coisas, sem, porém, mostrá-las para que as conheçamos.

No entanto, aquele que me apresenta alguma coisa, quer aos sentidos corporais, quer à mente, ensina-me de facto as coisas que quero conhecer.

Com as palavras não aprendemos senão palavras; de mais a mais, o som das palavras, pois se não for sinal tão pouco é palavra, não vejo como possa ser palavra, som que ouvi pronunciado como sendo palavra, até que lhe conheça o significado.

O sentido completo das palavras, se consegue apenas depois de conhecer as coisas; e ao contrário, ouvindo somente as palavras, não aprendemos nem sequer estas.

De facto, não tivemos conhecimento das palavras que aprendemos senão depois de perceber seu significado, o que acontece não ouvindo as vozes que as proferem, mas pelo conhecimento das coisas significadas.

Ao ouvirmos palavras, é perfeitamente razoável saber ou não o que significam; se o sabemos, não foram elas que no-lo ensinaram, apenas o recordaram; se não o sabemos, nem sequer o recordam, mas talvez nos estimulem a procurá-lo.

Ora, daqueles objectos que servem para cobrir a cabeça e dos quais apenas ouvimos o nome (coifas), só podemos adquirir a noção depois de vê-los; portanto, nem sequer o seu nome conhecemos completamente, não antes de conhecermos os próprios objectos.

Todavia, podes afirmar que de nenhum modo senão pelas palavras, aprendemos o que se narra a respeito dos três jovens, aqueles que com a sua fé e religião venceram o rei e as chamas, quais os hinos de louvor que cantaram a Deus; quais as honras que mereceram do próprio inimigo; responder-te-ei que já conhecíamos todas as coisas significadas por aquelas palavras.

Pois eu já tinha na minha mente o que significa três jovens, o que é forno, o que é fogo, o que é rei, o que quer dizer ser preservado do fogo, e por fim, as demais coisas significadas por aquelas palavras.
 Mas, como aquelas “saraballae” (coifas), ficam para mim desconhecidos os jovens Ananias, Azarias e Misael; nem os seus nomes me ajudaram a conhecê-los.

E confesso que, mais que saber, posso afirmar minha crença que tudo o que se lê naquela narração histórica tenha ocorrido naquele tempo assim como foi escrito; e os próprios historiadores a que emprestamos fé não ignoravam esta diferença.

Diz o profeta: “Se não credes, não entendereis”; e certamente não diria isto se não tivesse por necessário estabelecer uma diferença entre as duas coisas.

Por isso, creio tudo o que entendo, mas nem tudo o que creio entendo. Tudo o que compreendo conheço, mas nem tudo o que creio conheço. Eu sei quanto é útil crer também em muitas coisas que não conheço, utilidade que se aplica também na história dos três jovens.

Como não posso saber a maioria das coisas, sei, porém, que é útil acreditar nelas.

Quanto às coisas que compreendemos, não consultamos a voz de quem fala, que é exterior, mas a verdade que dentro de nós reside, em nossa mente, estimulados talvez pelas palavras a consultá-la.
Quem é consultado ensina em verdade, e este é o Cristo que habita, como foi dito, no homem interior, isto é, a virtude única de Deus e a eterna Sabedoria, que toda alma racional consulta, mas que se revela ao homem na medida da sua própria boa ou má vontade.
E se ocorre o erro, isto não acontece por falha da verdade consultada, como não é por erro da luz externa que os olhos se enganam; esta luz que consultamos a respeito das coisas visíveis, para que no-las torne claras na proporção em que nos é permitido distingui-las.


(Revisão de versão portuguesa por ama

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