28/09/2016

Leitura espiritual

Leitura Espiritual


Amigos de Deus



São Josemaria Escrivá

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O sentido da liberdade

Nunca poderemos entender perfeitamente a liberdade de Jesus Cristo, imensa - infinita - como o Seu amor.

Mas o tesouro preciosíssimo do Seu generoso holocausto deve levar-nos a pensar: porque me deste, Senhor, este privilégio com que sou capaz de seguir os teus passos, mas também de Te ofender?
Acabamos, assim, por calibrar o recto uso da liberdade, se se inclina para o bem; e a sua errada orientação, quando, com essa faculdade, o homem se esquece, se afasta do Amor dos amores.
A liberdade pessoal - que defendo e defenderei sempre com todas as minhas forças - leva-me a perguntar com uma segurança convicta e também consciente da minha própria fraqueza: que esperas de mim, Senhor, para o fazer voluntariamente?

O próprio Cristo nos responde: Veritas liberabit vos; a verdade far-vos-á livres.

Que verdade é esta, que inicia e consuma o caminho da liberdade em toda a nossa vida?

Resumi-la-ei com a alegria e com a certeza que provêm da relação de Deus com as suas criaturas: saber que saímos das mãos de Deus, que somos objecto da predilecção da Santíssima Trindade, que somos filhos de um Pai tão grande.
Peço ao meu Senhor que nos decidamos a apercebermo-nos disso, a saboreá-lo dia após dia: assim actuaremos como pessoas livres.
Não esqueçamos: quem não sabe que é filho de Deus desconhece a sua verdade mais íntima e carece, na sua actuação, do domínio e do senhorio próprios dos que amam Nosso Senhor, sobre todas as coisas.

Persuadamo-nos de que para ganhar o Céu temos de nos empenhar livremente, com uma decisão plena, constante e voluntária.
Mas a liberdade não se basta a si mesma: necessita de um norte, de uma orientação.
A alma não pode andar sem ninguém que a dirija; e para isso foi redimida de modo que tenha por Rei Cristo, cujo jugo é suave e a carga leve (Mt 11, 30), e não o diabo, cujo jugo é pesado.

Não nos deixemos enganar pelos que se conformam com uma triste vozearia: liberdade! liberdade!

Muitas vezes, nesse mesmo clamor, esconde-se uma trágica servidão: porque a escolha que prefere o erro não liberta; o único que liberta é Cristo, pois só Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida.

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Perguntemo-nos de novo, na presença de Deus: Senhor, para que nos deste este poder?
Porque depositaste em nós esta faculdade de Te escolher ou de Te rejeitar?
Tu desejas que usemos acertadamente esta nossa capacidade. Senhor, que queres que eu faça?

A resposta é diáfana e precisa: amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua alma e com toda a tua mente.

Vêem?
A liberdade adquire o seu sentido autêntico quando se exerce ao serviço da verdade que resgata, quando se gasta a procurar o amor infinito de Deus, que nos desata de todas as escravidões. Aumentam cada vez mais os meus desejos de anunciar em altos brados esta insondável riqueza do cristão: a liberdade da glória dos filhos de Deus!
Nisso se resume a boa vontade que nos ensina a seguir o bem, depois de o distinguir do mal.

Gostaria que meditássemos num ponto fundamental que nos situa perante a responsabilidade da nossa consciência.
Ninguém pode escolher por nós: eis o grau supremo da dignidade dos homens: que, por si mesmos e não por outros, se dirijam para o bem.
Muitos de nós herdámos dos nossos pais a fé católica e, por graça de Deus, quando recém-nascidos recebemos o Baptismo, começou na alma a vida sobrenatural.
Mas temos de renovar ao longo da nossa existência - e mesmo ao longo de cada dia - a determinação de amar a Deus sobre todas as coisas.
É cristão, digo, verdadeiro cristão, aquele que se submete ao império do único Verbo de Deus, sem impor condições a esse acatamento, disposto a resistir à tentação diabólica com a mesma atitude de Cristo: Adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.

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Liberdade e entrega

O amor de Deus é ciumento; não fica satisfeito, se nos apresentarmos com condições no encontro marcado: espera com impaciência que nos entreguemos totalmente, que não guardemos no coração recantos escuros, onde o gozo e a alegria da graça e dos dons sobrenaturais não consigam chegar.

Talvez pensem: responder sim a esse Amor exclusivo não é, porventura, perder a liberdade?

Com a ajuda de Nosso Senhor, que preside à nossa oração, com a sua luz, espero que este tema fique ainda mais definido para vós e para mim.
Cada um de nós sabe por experiência que, algumas vezes, seguir Cristo Nosso Senhor implica dor e fadiga.
Negar esta realidade significaria não se ter encontrado com Deus.
A alma apaixonada sabe que essa dor é uma impressão passageira e bem depressa descobre que o seu peso é leve e a sua carga suave, porque Ele a leva às costas, tal como se abraçou ao madeiro quando estava em jogo a nossa felicidade eterna.
Mas há homens que não entendem, que se revoltam contra o Criador - uma rebelião impotente, mesquinha, triste -, que repetem cegamente a queixa inútil que o Salmo regista: Quebremos os seus laços! Para longe de nós o seu jugo.
Resistem a realizar, com silêncio heróico, com naturalidade, sem brilho e sem lamentações, o trabalho duro de cada dia.
Não compreendem que a Vontade divina, mesmo quando se apresenta com matizes de dor, de exigências que ferem, coincide exactamente com a liberdade, que só reside em Deus e nos seus desígnios.

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São almas que fazem barricadas com a liberdade.

A minha liberdade, a minha liberdade!

Têm-na e não a seguem; olham-na e põem-na como um ídolo de barro dentro do seu entendimento mesquinho.

É isso liberdade?

Que aproveitam dessa riqueza sem um compromisso sério, que oriente toda a existência?

Um tal comportamento opõe-se à categoria própria, à nobreza, da pessoa humana.
Falta a rota, o caminho claro que oriente os seus passos na terra; essas almas - decerto já as encontraram, como eu - depressa se deixarão arrastar pela vaidade pueril, pela presunção egoísta, pela sensualidade.

A sua liberdade mostra-se estéril ou produz frutos ridículos, mesmo do ponto de vista humano.
Quem não escolhe - com plena liberdade! - uma norma recta de conduta, ver-se-á manipulado por outros cedo ou tarde, viverá na indolência - como um parasita - sujeito ao que os outros determinarem. Prestar-se-á a ser cirandado por qualquer vento e outros resolverão sempre por ele.
São nuvens sem água que os ventos levam de um lado para o outro, árvores outonais, sem fruto; duas vezes mortas, sem raízes, ainda que se encubram, numa contínua tagarelice, com paliativos que tentam disfarçar a sua falta de carácter, de valentia e de honradez.

"Mas a mim ninguém me coage!", repetem obstinadamente.

Ninguém?

Todos coagem essa liberdade ilusória, que não se arrisca a aceitar com responsabilidade as consequências de actuações livres e pessoais.
Onde não há amor de Deus, produz-se um vazio do exercício individual e responsável da liberdade: apesar das aparências, tudo neles é coacção.
O indeciso, o irresoluto é como matéria plástica à mercê das circunstâncias; qualquer pessoa o molda de acordo com o seu capricho e moldam-no também, em primeiro lugar, as paixões e as piores tendências da natureza ferida pelo pecado.


(cont)

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