03/12/2014

Tratado do verbo encarnado 48

Questão 7: Da graça de Cristo como um homem particular

Art. 2 — Se em Cristo havia virtudes.

O segundo discute-se assim. — Parece que em Cristo não havia virtudes.

1 — Pois, Cristo tinha a abundância da graça. Ora, a graça basta para agirmos sempre rectamente, segundo o Apóstolo: Basta-te a minha graça. Logo, em Cristo não havia virtudes.

2. Demais. — Segundo o Filósofo, a virtude divide-se, por oposição, de um certo hábito heroico ou divino, atribuído aos homens divinos. Ora, isso convém sobremaneira a Cristo. Logo, Cristo não tinha virtudes, mas algo mais elevado que a virtude.

Demais. — Como na Segunda Parte se demonstrou, todas as virtudes são possuídas simultaneamente. Ora, a Cristo não convinha ter simultaneamente todas as virtudes, como é o caso da liberalidade e da magnificência, cujos actos recaem sobre as riquezas, que Cristo desprezava, segundo o Evangelho: O Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça. E também a temperança e a continência, que reprimem as concupiscências depravadas, que em Cristo não existiam. Logo, Cristo não tinha as virtudes.

Mas, em contrário, segundo a Escritura - A sua vontade está posta na lei do Senhor - diz a Glosa: Isto mostra que Cristo era rico de todos os bens. Ora, a virtude é uma boa qualidade da alma. Logo, Cristo teve a plenitude de todas as virtudes.

Como estabelecemos na Segunda Parte, assim como a graça respeita à essência da alma, assim a virtude lhe respeita a potência. Donde e necessariamente, assim: como a potências da alma lhe derivam da essência assim as virtudes são umas derivações da graça. Ora, quanto mais perfeito é um princípio tanto mais imprime os seus efeitos. Donde, tendo sido perfeitíssima a graça de Cristo, consequentemente dela procederam virtudes para aperfeiçoarem cada uma das potências da sua alma, quanto a todos os actos desta. É portanto Cristo teve todas as virtudes.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — A graça basta ao homem em relação a todas aquelas coisas pelas quais se ordena à bem-aventurança. Mas algumas delas a graça aperfeiçoa-as imediatamente por si mesma como o torná-lo agradável a Deus e outras semelhantes, e algumas outras mediante as virtudes procedentes da graça.

RESPOSTA À SEGUNDA. — Esse hábito heroico ou divino não difere da virtude em geral, senão pelo seu modo mais perfeito, isto é, quando alguém tem uma disposição para o bem, de um certo modo mais alto, que geralmente os homens têm. Donde, isso não demonstra que Cristo não tivesse as virtudes, mas que as tinha perfeitíssima e superiormente ao modo comum. Assim também Plotino admite um certo e sublime modo das virtudes, que dizia serem as da alma purificada.

RESPOSTA À TERCEIRA. — A liberdade e a magnificência exercem-se sobre as riquezas, porque quem é dotado dessas virtudes não aprecia as riquezas a ponto de querer conservá-las omitindo o que com elas devia fazer. Mas de nenhum modo aprecia as riquezas quem de todo as despreza e as rejeita, pela perfeição do amor. Donde, por isso mesmo que Cristo desprezou todas as riquezas mostrou possuir em sumo grau a liberalidade e a magnificência. Embora também exercesse actos de liberalidade, enquanto isso lhe era congruente, fazendo distribuir aos pobres os donativos que recebia. E assim, quando o Senhor disse a Judas — O que fazes, fá-lo depressa — os discípulos entenderam que lhe mandou desse alguma coisa aos pobres. Quanto às baixas concupiscências, Cristo não as teve de nenhum modo, como a seguir demonstraremos. Mas isso não o impedia do exercício da temperança, tanto mais perfeita no homem quanto mais ele carece dessas concupiscências depravadas. Por isso diz o Filósofo, que o temperado difere do continente, por não existirem naquele as concupiscências depravadas, cujo jugo este sofre. E portanto, entendendo assim a continência, como a entende o Filósofo, por isso mesmo que Cristo teve todas as virtudes não teve a continência que não é uma virtude mas algo menos que uma virtude.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


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