27/04/2014

Tratado dos vícios e pecados 72

 Questão 85: Dos efeitos do pecado e, primeiro, da corrupção do bem da natureza.

Art. 3 — Se a fraqueza, a ignorância, a malícia e a concupiscência são convenientemente consideradas lesões da natureza consequentes ao pecado.

(De Malo, q. 2 a. 11).

O terceiro discute-se assim. — Parece que a fraqueza, a ignorância, a malícia e a concupiscência são inconvenientemente consideradas le­sões da natureza consequentes ao pecado.

1. — Pois, o efeito não se identifica com a sua causa. Ora, essas lesões consideram-se causas dos pecados, como do sobredito resulta (q. 76, a.1; q. 77, a. 3, 5; q. 78, a. 1). Logo, não devem considerar-se efeitos do pecado.

2. Demais. — A malícia designa um pecado. Logo, não deve ser posta entre os seus efeitos.

3. Demais. — A concupiscência, sendo acto da potência concupiscível, é natural. Ora, o natural não pode ser considerado lesão da natureza. Logo, a concupiscência não deve ser assim considerada.

4. Demais. — Como já se disse (q. 77, a. 3), o mesmo é pecar por fraqueza que por paixão. Ora, a concupiscência é uma paixão. Logo, não se deve fazer distinção entre ela e a fraqueza.

5. Demais. — Agostinho estabelece duas penalidades para a alma pecadora: a ignorância e a dificuldade, donde nasce o erro e os padecimentos. Ora, essa quádrupla enumeração não concorda com a de que tratamos. Logo, uma delas há-de ser insuficiente.

Mas, em contrário, está a autoridade de Beda.

Pela justiça original, a razão continha perfeitamente as potências inferiores da alma, sendo ela própria aperfeiçoada por Deus, a quem estava sujeita. Ora, essa justiça original perdeu-se pelo pecado do primeiro pai, como já dissemos (q. 81, a. 2). Por isso, todas as potências da alma ficaram, de certo modo, destituídas da ordem própria, pela qual naturalmente se orientavam para a virtude. E a essa destituição chama-se lesão da natureza.

Ora, são quatro as potências da alma capazes de serem sujeitos das virtudes, como já se disse (q. 61, a. 2), e são as seguintes. A razão, sujeito da prudência; a vontade, da justiça; o irascível, da fortaleza; a concupiscência, da temperança. Donde, a lesão da ignorância consiste em a razão ter ficado privada de ordenar-se para a verdade. A da malícia, na vontade ter ficado privada de ordenar-se, para o bem. A da fraqueza em o ter o irascível ficado privado de ordenar-se para o árduo. E enfim, a da concupiscência em ter a concupiscência ficado privada de ordenar-se ao prazer moderado pela razão.

Por onde, são essas quatro as lesões infligidas a toda a natureza humana pelo pecado do primeiro pai. — Mas, como a nossa inclinação para o bem da virtude, fica diminuída pelo pecado actual, conforme do sobredito resulta, essas quatro lesões são consequências dos outros pecados. Pois a razão embota-se pelo pecado, sobretudo no agir; a vontade endurece-se para o bem; aumenta a dificuldade de agir bem; e a concupiscência mais se inflama.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — Nada impede que o efeito de um pecado seja causa de outro. Assim, o desordenar-se da alma, por um pecado, inclina mais facilmente para outro.

RESPOSTA À SEGUNDA. — No caso vertente não se considera a malícia como pecado; mas como uma inclinação da vontade para o mal, conforme a Escritura (Gn 8, 21): Os sentidos do homem são inclinados para o mal desde a sua mocidade.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Como já se disse (q. 82, a. 3 ad 1), a concupiscência é natural ao homem na medida em que lhe sujeita à razão. E se excede os limites desta, vai de encontro à natureza humana.

RESPOSTA À QUARTA. — Toda a paixão pode ser considerada em geral como fraqueza, por debilitar as forças da alma e se opor à razão. Ora, Beda toma a fraqueza em sentido estrito, enquanto oposta à fortaleza, residente no irascível.

RESPOSTA À QUINTA. — A dificuldade a que se refere Agostinho inclui estas três lesões, das potências apetitivas: a malícia, a fraqueza e a concupiscência. Pois, por causa delas não pode­mos praticar facilmente o bem. O erro, porém, e a dor são lesões consequentes; pois, sofre dor quem é fraco para alcançar o objecto da sua concupiscência.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


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