28/07/2013

Tratado das paixões da alma 95

Questão 42: Do objecto do temor

Em seguida devemos tratar do objecto do temor. E sobre esta questão seis artigos se discutem:

Art. 1 — Se o bem é objecto do temor.
Art. 2 — Se há temor do mal natural.
Art. 3 — Se pode haver temor do mal da culpa.
Art. 4 — Se o temor pode ser temido.
Art. 5 — Se os males insólitos e os repentinos sejam mais de se temerem.
Art. 6 — Se é mais para temer aquilo que não tem remédio.

Art. 1 — Se o bem é objecto do temor.

(IIª IIªe, q. 19, a . 1, 2).

O primeiro discute-se assim. — Parece que o bem é objecto do temor. 
1. — Pois, como diz Agostinho, não tememos senão perder o objecto amado quando possuído, ou não possuí-lo quando esperado 1. Ora, o que amamos é bom. Logo, o temor tem o bem como objecto próprio.

2. Demais — O Filósofo diz, que é terrível o poder, e o governar outrem 2. Ora, o poder é um bem. Logo, o bem é o objecto do temor.

3. Demais — Em Deus não pode haver nenhum mal. Ora, é-nos ordenado temê-lo, conforme a Escritura (Sl 33, 10): Temei ao Senhor todos vós, os seus santos. Logo, também há temor do bem.

Mas, em contrário, diz Damasceno, que o temor é relativo ao mal futuro 3.

O temor é um movimento da potência apetitiva, da qual é próprio buscar e evitar um dado objecto, como diz Aristóteles 4. Ora, o que ela busca é o bem, e o que evita é o mal. Por onde, qualquer movimento dessa potência que importe em buscar um objecto, há de sempre tê-lo por bom, e qualquer que implique a fuga, há de tê-lo por mau. Por onde, como o temor implica a fuga, há de primariamente e em si mesmo ter o mal como seu objecto próprio.

Mas, também pode visar o bem, na medida em que este tiver relação com o mal. — E isto pode dar-se de dois modos. De um, enquanto o mal priva do bem, pois é por ser privativo deste que é mal. Por onde, quando fugimos do mal como tal, necessariamente o fazemos porque ele nos priva do bem-amado, que buscamos. E por isso, disse Agostinho antes 5, que a causa única de temermos é não querermos perder o bem-amado. — De outro modo, o bem está para o mal, como a causa deste, a saber, enquanto um determinado bem tem a virtude de produzir qualquer mal no bem amado. Por onde, como a esperança visa, segundo já dissemos 6, dois termos, a saber, o bem para o qual tende, e aquilo pelo que espera haver de alcançar o bem desejado, assim também o temor visa, dois termos, a saber, o mal de que foge e o bem que, pela sua virtude, pode infligir o mal.

E é deste modo que Deus é temido pelo homem, enquanto pode infligir uma pena, espiritual ou corpórea. E também do mesmo modo é temido o poder de um homem, sobretudo quando lesado, ou injusto, porque então é levado imediatamente a causar um mal. Assim, tememos ainda quem tem poder sobre nós, i. é, tememos depender de outrem, de maneira que isso lhe dê o poder de nos fazer mal, tal é o caso de quem, sendo cônscio de um crime, teme que outrem revele.

E daqui se deduzem claras as RESPOSTAS ÀS OBJECÇÕES.

Nota: Revisão da tradução portuguesa por ama.
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Notas:
1. Lib. LXXXIII Quaestion. (quaestion. XXXIII).
2. II Rhetoric. (cap. V).
3. II libro (cap. XII).
4. VI Ethic. (lect. II).
5. Ubi supra.

6. Q. 40 a. 7.

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