07/04/2018

Fortes e pacientes: serenos

Se, por teres o olhar fixo em Deus, souberes manter-te sereno no meio das preocupações; se aprenderes a esquecer as ninharias, os rancores e as invejas; pouparás muitas energias, que te fazem falta para trabalhar com eficácia, em serviço dos homens. (Sulco, 856)

Quem sabe ser forte não se deixa invadir pela pressa de conquistar logo o fruto da sua virtude; é paciente. A fortaleza leva-nos realmente a saborear a virtude humana e divina da paciência. Mediante a vossa paciência, possuireis as vossas almas (Lc XXI, 19). A posse da alma exprime-se na paciência, que, na verdade, é raiz e custódia de todas as virtudes. Nós possuímos a alma com a paciência, porque, aprendendo a dominar-nos a nós mesmos, começamos a possuir aquilo que somos. E é esta paciência que nos leva também a ser compreensivos com os outros, persuadidos de que as almas, como o bom vinho, melhoram com o tempo.


Fortes e pacientes: serenos. Mas não com a serenidade daquele que compra a tranquilidade pessoal à custa de se desinteressar dos seus irmãos ou da grande tarefa, que corresponde a todos, de difundir ilimitadamente o bem por todo o mundo. Serenos, porque há sempre perdão, porque tudo tem remédio, menos a morte, e, para os filhos de Deus, a morte é vida. Serenos, ainda que seja só para poder actuar com inteligência: quem conserva a calma está em condições de reflectir, de estudar os prós e os contras de cada problema, de examinar judiciosamente os resultados das acções previstas. E depois, sossegadamente, pode intervir com decisão. (Amigos de Deus, 78–79).

Temas para meditar e reflectir

Tranquilidade


Não é primeira vez que o tema é objecto de reflexão e isto porque a situação que vivo me arrasta - sem eu querer e sem aviso - para consideração de factos, situações etc., que me inquietam e perturbam.

Tranquilidade tem obviamente que ver com a paz espírito pelo que, se o espírito está em paz a tranquilidade é consequente.

Não se trata de ignorar os problemas e muito menos de os adiar, mas sim a certeza que tudo na vida tem remédio porque nada é definitivo.

Paz, foi e é, a principal recomendação de Cristo, Ele próprio o Príncipe da Paz, porque Ele sabia muito bem - e disse-o claramente - que a Sua vinda a este mundo iria provocar lutas e dissensões um pouco por todo o lado e em todas as sociedades humanas.

Mas também afirmou que tinha vencido o mundo é que, portanto, nada teríamos a tremer.

«Tende paz em vós», disse.

É o que ambicionamos e lhe pedimos ajuda para a conseguir.

Tranquilos, pois, tudo tem solução e nada adianta preocupar-nos se ela tarda em concretizar-se.

Acontecerá, tenhamos a certeza, quando o Senhor quiser e achar conveniente.

Nunca nos abandonará!

Não é este um motivo mais que suficiente para estar tranquilos?



(ama, reflexões, 2016.11.21)

Evangelho e comentário

Tempo de Páscoa

Evangelho: Mc 16, 9-15

9 Tendo ressuscitado de manhã, no primeiro dia da semana, Jesus apareceu primeiramente a Maria de Magdala, da qual expulsara sete demónios. 10 Ela foi anunciá-lo aos que tinham sido seus companheiros, que viviam em luto e em pranto. 11 Mas eles, ouvindo dizer que Jesus estava vivo e fora visto por ela, não acreditaram. 12 Depois disto, Jesus apareceu com um aspecto diferente a dois deles que iam a caminho do campo. 13 Eles voltaram para trás a fim de o anunciar aos restantes. E também não acreditaram neles. 14 apareceu, finalmente, aos próprios Onze quando estavam à mesa, e censurou-lhes a incredulidade e a dureza de coração em não acreditarem naqueles que o tinham visto ressuscitado. 15 E disse-lhes: «Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura

Comentário:

O evangelista é parco nas palavras.

Realmente São Marcos - que escreve o que ouviu da boca de Pedro -  não foi testemunha directa dos acontecimentos após a ressurreição do Senhor e, portanto, toda a emoção e choque de sentimentos que outros deixam entrever não está presente no que escreve.

Mas, o deveras importante é reter as instruções e mandatos do Mestre, o que deseja que façam e como.

É isso que deve interessar aos Seus seguidores que somos todos nós os baptizados.


(ama, comentário sobre Mc 16 9-15, 22.04.2017)

Leitura espiritual

O HOMEM BOM

A BONDADE REAL

Retomemos uma ideia anterior. Bom, de verdade, é somente aquele que nos faz bem, e o bem é acima de tudo o valor moral e espiritual de uma pessoa. Portanto, bom mesmo é somente aquele que nos ajuda a ser melhores.
Quando já vivemos um bom pedaço da vida e olhamos para trás, contemplamos um vasto panorama de vicissitudes diversas, de erros e acertos, de perigos que nos ameaçaram, de dúvidas que nos paralisaram, de alegrias e tristezas. Mas, no meio dessas lembranças, todos nós podemos ver brilhar uns pontos de luz que jamais esqueceremos: pessoas que, no momento em que mais precisávamos, nos fizeram bem: “Fulano – dizemos – ajudou-me muito”, “significou muito para mim”; “graças a Sicrano, consegui superar um problema grave (ou uma crise ou um estado de ânimo) que poderia ter-me arrasado”...
Mesmo sem darmos por isso e sem dizê-lo explicitamente, estamos falando de “homens bons”. Inconscientemente, possuímos a convicção de que foram bons, para nós, aqueles que nos despertaram para ideais mais nobres, que nos deram a mão para levar-nos a encontrar um sentido mais alto da vida, que iluminaram as nossas escuridões interiores fazendo-nos compreender aquilo por que vale a pena viver.
Em suma, foram “bons” os que nos elevaram a um maior nível de dignidade moral e nos ajudaram a ser melhores, mesmo que para isso tivessem precisado, em algum momento, de fazer-nos sofrer. Contribuíram, em suma, para que descobríssemos e abraçássemos o bem, e não se contentaram com deixar que nos “sentíssemos bem”...
Se, para tanto, foi necessário que nos aplicassem uma enérgica e paciente “cirurgia”, não duvidaram em fazê-lo, mesmo sabendo que, de início, não os compreenderíamos. Souberam ter a coragem – pensemos, por exemplo, nos pais e educadores – de dizer-nos serenamente “não” e de manter essa sua posição, em defesa do nosso bem, ainda que nós a interpretássemos como teimosia prepotente e irracional. Passado o tempo, compreendemos e agradecemos o que essa energia
amorosa significou para nós.
O homem bom recusa-se a tomar como princípio de comportamento o infeliz ditado segundo o qual “aquele que diz as verdades perde as amizades”. Pratica a lealdade sincera quando o nosso bem está em jogo. Certamente, não confunde a sinceridade com a franqueza rude, que se limita a lançar-nos em rosto os nossos erros e defeitos em tom áspero e acusatório. Mas arrisca-se de bom grado a ser incompreendido, a ser tachado de moralista e de intrometido, quando percebe que precisa falar-nos claramente, caridosamente mas sem ambiguidades, e não hesita em praticar aquela excelente obra de misericórdia que consiste em “corrigir o que erra”, a fim de levá-lo a encontrar a retidão do caminho moral.
Calar-se, deixando o barco correr... e afundar-se é, sem dúvida, mais cômodo. Alhear-se, ou até mostrar-se conivente com os erros alheios, atrai benevolências e simpatias. Mas é uma forma covarde de omissão e uma triste colaboração com o mal.

ESBOÇO DO HOMEM BOM

Homem bom é, pois, aquele que exerce sobre nós uma influência benfazeja, uma influência que tem como efeito elevar-nos, ajudar-nos a alcançar uma maior altura moral.
Por isso, o homem bom tem, principalmente, uma qualidade: o dom de despertar-nos do sono espiritual, da letargia moral, da mediocridade e da acomodação. É alguém que nos impele a “olhar para cima” e nos ajuda – sobretudo com o seu exemplo – a ver a bondade como uma meta acessível.
O ambiente que nos cerca leva-nos facilmente a ser medíocres. Os idealistas são poucos, e não raro parecem ingênuos ou tolos, se os compararmos com muitos dos que vemos triunfar ou, pelo menos, singrar na vida: os egoístas, os espertos e os aproveitadores. Com efeito, aspirar a pautar a vida pela honestidade, pela fidelidade, pelo mérito, pelo desprendimento ou pela sinceridade – para falar apenas de algumas facetas do ideal moral – pode ser algo de muito belo na teoria, mas dá a impressão de ser muito pouco útil na prática, pouco eficaz na luta pela vida. Na “selva” do mundo, parecem apagar-se as fronteiras que separam o “bom” do “bobo”.
Daí que, lá no fundo, muitos prefiram ser “como todo o mundo”. E se um idealismo maior lhes bate às portas da alma, afastam-no com desconfiança: não vamos complicar a vida – dizem –, não vamos ser tolos, é mais garantido ficar na “média”, como todos fazem; os Ícaros que pretendem voar muito alto com asas de cera acabam despencando ao chão.
Até que, numa hora qualquer da vida, deparamos com um homem bom. O primeiro choque que experimentamos ao tomar contacto com ele é o desconcerto. Começamos a vislumbrar nessa pessoa algo de inexplicável – pois foge aos padrões habituais – e, ao mesmo tempo, de estranhamente atraente.
Percebemos que é alguém que pensa de maneira diferente, vive de maneira diferente.
Acredita em valores mais altos, abraça-os com serena convicção e não vacila em pautar por eles a sua vida. Prescinde tranquilamente do que a maioria considera imprescindível para ser feliz: o egoísmo interesseiro, o comodismo, o culto do prazer e do bem-estar, o jogo de pequenos e grandes enganos para obter vantagens... Abraça com firmeza a honestidade, a dedicação desinteressada, o sacrifício, o amor serviçal, a renúncia voluntária, para fazer felizes os outros... Parece estar a um milímetro da utopia, da loucura ou da estupidez. E, no entanto, deixa-nos a impressão indestrutível de ser infinitamente mais alegre, mais realizado e vitalmente mais rico do que a massa anódina sobre a qual, mesmo sem o pretender, ele se eleva.
É por isso que o homem bom nos obriga a olhar “para cima” e também “por cima” dos nossos esquemas mentais e das nossas opções rotineiras. É como que uma bandeira que incita a entrar por caminhos novos, caminhos que lá no fundo da alma nós desejaríamos trilhar para curar o coração cansado de sábias espertezas e de prudentes mediocridades. E, com o seu exemplo, vem a dizer-nos que esses caminhos são possíveis e mostra-nos o roteiro a seguir.
A limpa autenticidade do homem bom faz-nos descobrir o norte, o verdadeiro norte da vida, e para ele nos atrai. Dele irradia, sem palavras, um apelo que nos sugere: vale a pena viver assim e é possível viver assim; se nós o conseguíssemos, alcançaríamos a plenitude de paz e felicidade que sempre sonhamos e ainda não conquistamos.

BONDADE E COERÊNCIA

Mas o homem bom não se limita a despertar-nos para a bondade. Faz-nos acreditar nela.
Todos sabemos por experiência que tudo quanto tem “cheiro de falsidade”, de hipocrisia, inspira desconfiança; e, pelo contrário, tudo o que é autêntico desperta credibilidade.
A verdadeira bondade infunde confiança precisamente porque está marcada de modo simples, sem ostentações, pelo selo da verdade. Neste caso, da coerência. Um homem realmente bom possui uma harmonia habitual entre palavra e vida, entre interior e exterior, entre vida privada e vida profissional ou social. Não tem duas caras, não tem duas vidas, não é duplo. É sempre o mesmo.
O hipócrita bem-falante pode enfeitar-se de belas frases, gestos elevados e propostas sublimes. Mas todos se apercebem de que tudo isso não passa de um balão colorido, acobertando um imenso vazio. É uma pura encenação, é uma triste farsa. Cristo chamaria a tudo isso o brilho da cal branca sobre o sepulcro de um morto (cfr. Mt 23, 27).
O homem bom, pelo contrário, se fala de valores e de ideais, é porque os vive: as suas sugestões, os seus conselhos, as suas correções – quando se trata de corrigir – têm o frescor fecundo das águas vivas que brotam do manancial da alma. São sangue do seu sangue. Por isso movem, tocam, incentivam, atraem. Transmitem o calor da autenticidade. E despertam o desejo de imitação.
Nunca deixa de nos atingir positivamente, e de nos incitar a melhorar, o exemplo ou a palavra de um homem reto e coerente. Todos nos sentimos instintivamente dispostos a levar a sério a opinião, o juízo ou o conselho de uma pessoa que mantém tranquilamente a mesma altura moral e o mesmo grau de bondade em qualquer ambiente. Quer seja no lar, na rua, no escritório ou na roda de amigos, é sempre idêntico a si mesmo: aberto, dedicado, paciente, solícito, construtivo, alegre, cheio de fé. Não tem virtudes de ocasião ou qualidades de feira. Não é o camaleão que se adapta aos diversos ambientes com o afã de “ficar bem”. Possui um quilate moral que atravessa, sem distorcer-se, todas as vicissitudes e situações.
Seria bom que os pais pensassem nisto, pois a sua falta de coerência costuma destruir as mais belas falas. E os filhos têm um radar sensibilíssimo para captar o “fundo falso” de todos os sermões dos pais que dizem e não fazem (cfr. Mt 23, 3).

VITÓRIA SOBRE A MESQUINHEZ

Devemos acrescentar ainda mais alguns traços a essas qualidades que desenham o retrato do homem bom. É evidente que ser bom não significa ser impecável. Quando o jovem rico do Evangelho se atirou aos pés de Cristo, perguntando-lhe com os olhos a brilhar: Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?, Jesus respondeu-lhe: Por que me chamas bom? Ninguém bom senão só Deus (Mc 10, 17-18).
Somente Deus possui a perfeição sem defeito, em plenitude. Os homens somos todos falíveis, e os nossos melhores esforços e qualidades vão sempre acompanhados pelo contraponto dos erros, pecados e misérias. Seria, pois, uma ilusão imaginar que o homem de uma só peça que acabamos de retratar não tivesse fissuras nem brechas.
Mas, dentro deste quadro da inevitável debilidade humana, o homem verdadeiramente bom possui uma qualidade marcante: nunca o vemos dominado por fraquezas mesquinhas ou baixas. E este é um ponto importante.
O homem bom pode ter – e realmente tem – momentos de ira, de cansaço, de impaciência ou de preguiça. Mas não é escravo de sentimentos pequenos: no seu coração, nunca lançam raízes as paixões baixas do calculismo – não regateia, querendo baratear a sua doação –, da inveja, do melindre, da suscetibilidade, do ressentimento ou da vingança. É um homem fraco e pecador – como todos os homens –, mas ao mesmo tempo é um coração livre da triste teia de aranha que amesquinha muitas almas: o egoísmo e seu irmão gêmeo, o amor-próprio doentio. Tem um coração maior que essas misérias.
Este é outro dos motivos por que a sua bondade irradia, com um calor atraente. A mesquinhez ensombrece e degrada a bondade. Quando admiramos alguém, e inesperadamente descobrimos que está dominado por alguma dessas pequenas paixões que acabamos de mencionar, sentimos uma profunda decepção. É como se a luz divina, que até então iluminava nele ideais de grandeza, de repente se tivesse empanado.
Nobre pela sua coerência e livre de mesquinhez, o homem bom se nos revela assim em toda a sua riqueza espiritual. Só ele é capaz de harmonizar traços morais que, na maioria dos homens, apenas se encontram de forma parcial ou conflitante.
A verdadeira bondade sabe conjugar estavelmente a energia na atuação e a compreensão com as pessoas; o entusiasmo pelos ideais, trabalhos e objetivos, e o desprendimento; a firmeza de critério e a prudente flexibilidade; a equanimidade e o ardor; a serenidade e a paixão; a grandeza de alma, que não se conforma com a mediocridade, e a humildade de coração; a capacidade de ser, ao mesmo tempo, um grande despertador de inquietações – alguém que nos sacode a inércia e o comodismo – e um transmissor de paz.
Qualidades que parecem contrárias, e até incompatíveis, convivem em equilíbrio na alma do homem bom. São como as cores diversas, que se fundem numa única luz. Por isso, o homem bom deixa-nos sempre a impressão de ser um homem “completo”, em que as virtudes atingem a medida certa e compõem um conjunto de rara beleza e equilíbrio. É isso que as torna sugestivas e atraentes e incita à imitação.

Francisco Faus [i]




[i] Francisco Faus é licenciado em Direito pela Universidade de Barcelona e Doutor em Direito Canónico pela Universidade de São Tomás de Aquino de Roma. Ordenado sacerdote em 1955, reside em São Paulo, onde exerce uma intensa atividade de atenção espiritual entre estudantes universitários e profissionais. Autor de diversas obras literárias, algumas delas premiadas, já publicou na coleção Temas Cristãos, entre outros, os títulos O valor das dificuldades, O homem bom, Lágrimas de Cristo, lágrimas dos homens, Maria, a mãe de Jesus, A voz da consciência e A paz na família.

Se Deus está “no” céu, onde fica o céu?

Resultado de imagem para veritatis splendorO Pai-Nosso começa dizendo que Deus está "no" Céu. Isto não sugere que o Céu é um lugar? E se é um lugar, onde fica?
Céu é onde Deus está. Então, onde está Deus? Em todo lugar. Então por que dizemos que Deus está no Céu, como se esse fosse um lugar particular em oposição a todo lugar?

A resposta é que, quando falamos de Deus ou do Céu, devemos usar a linguagem das coisas criadas, mesmo que Deus seja, por natureza, infinitamente maior do que qualquer criatura.

Já que, por nossa experiência, as coisas criadas encontram-se em lugares, quando falamos que Deus está no Céu parece soar como se estivéssemos nos referindo a um lugar físico. Mas o Céu não é um lugar físico, muito embora os mórmons acreditem que o Pai Celestial viva em um planeta próximo de uma estrela chamada “Kolob”.

Dizer que Deus está no Céu é um modo de dizer que Ele não “preso” à Terra. Uma rápida reflexão nos diz que Ele também não está “preso” ao espaço. Caso contrário, Ele seria limitado, significando que seria imperfeito e, portando, não verdadeiramente Deus. O Criador do universo, em sua natureza divina, não pode ser parte do universo que Ele criou.

Ao mesmo tempo, os teólogos dizem que Deus é onipresente: Ele está em todo lugar. Como, então, podemos dizer que Ele não faz parte do universo? Se Deus está em todo lugar, parece que Ele deva estar também no universo e, por consequência, seja parte do universo.

Considere, no entanto, o que dissemos sobre Deus não ser limitado ou confinado a um lugar específico. Por definição, estar em todo lugar simultaneamente significa não estar apenas em um lugar particular. A onipresença de Deus não significa que Ele se espalha sobre o espaço do mesmo modo que a margarina se espalha sobre uma fatia de pão ou a água se encontra distribuída por todo o volume de uma piscina.

Este é o erro do movimento de Nova Era, quer na forma de panteísmo (que afirma que tudo é Deus), quer na forma de panenteísmo (que afirma que Deus está em tudo assim como o açúcar encontra-se no suco).

Deus está em todo lugar – dizem os teólogos e filósofos – por seu poder, sua essência e seu conhecimento. Por seu poder infinito, Ele está em todo lugar pois Ele dá existência a todas as coisas. Ele está em todo lugar por sua essência pois o que Deus é (sua essência) não é separável daquilo que Ele pode fazer (seu poder). Deus está em todo lugar por seu conhecimento pois Ele sabe de tudo em todos os tempos.

Uma outra forma de enxergar a onipresença de Deus é pensar na Criação como uma novela divina e Deus como roteirista. O autor de uma novela está, em certo sentido, em todas as páginas que ele escreve. Ele cria o conjunto, os personagens e os eventos da sua novela. Apesar disso, ele mesmo se encontra fora da novela. Seria igualmente verdade dizer que a novela está dentro de seu autor – isto é, em sua mente.

Deus está fora do universo que Ele criou e sustenta (eis a sua transcendência), e, ao mesmo tempo, dentro dele (eis a sua imanência), por seu poder, essência e conhecimento.

Veritatis Splendor, Set 05, 2017

Para um conhecimento mais aprofundado sobre o céu, sugerimos a leitura do livro “Everything You Ever Wanted to Know About Heaven” (“Tudo o que você sempre quis saber sobre o céu”), de Peter Kreeft, disponível no catálogo da Catholic Answers.


El reto del amor




VIVE DE CRISTO®Dominicas de Lerma

Pequena agenda do cristão

SÁBADO



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Honrar a Santíssima Virgem.

A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador, porque pôs os olhos na humildade da Sua serva, de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações. O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas, santo é o Seu nome. O Seu Amor se estende de geração em geração sobre os que O temem. Manifestou o poder do Seu braço, derrubou os poderosos do seu trono e exaltou os humildes, aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias. Acolheu a Israel Seu servo, lembrado da Sua misericórdia, como tinha prometido a Abraão e à sua descendência para sempre.

Lembrar-me:

Santíssima Virgem Mãe de Deus e minha Mãe.

Minha querida Mãe: Hoje queria oferecer-te um presente que te fosse agradável e que, de algum modo, significasse o amor e o carinho que sinto pela tua excelsa pessoa.
Não encontro, pobre de mim, nada mais que isto: O desejo profundo e sincero de me entregar nas tuas mãos de Mãe para que me leves a Teu Divino Filho Jesus. Sim, protegido pelo teu manto protector, guiado pela tua mão providencial, não me desviarei no caminho da salvação.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?





06/04/2018

Todos somos irmãos!

Escreveu também o Apóstolo que "não há distinção de gentio e judeu, de circunciso e incircunciso, de bárbaro e cita, de escravo e livre, mas Cristo que é tudo em todos". Estas palavras valem hoje como ontem: para o Senhor não existem diferenças de nação, de raça, de classe, de estado... Cada um de nós renasceu em Cristo para ser uma nova criatura, um filho de Deus; todos somos irmãos, e temos de conviver fraternalmente! (Sulco, 317)

Perante a fome de paz, teremos de repetir com S. Paulo: Cristo é a nossa paz, pax nostra. Os desejos de verdade hão-de levar-nos a recordar que Jesus é o caminho, a verdade e a vida. Aos que procuram a unidade, temos de colocá-los perante Cristo, que pede que estejamos consummati in unum, consumados na unidade. A fome de justiça deve conduzir-nos à fonte originária da concórdia entre os homens: ser e saber-se filhos do Pai, irmãos.


Paz, verdade, unidade, justiça. Que difícil parece por vezes o trabalho de superar as barreiras, que impedem o convívio entre os homens! E contudo nós, os cristãos somos chamados a realizar esse grande milagre da fraternidade: conseguir, com a graça de Deus, que os homens se tratem cristãmente, levando uns as cargas dos outros, vivendo o mandamento do Amor, que é o vínculo da perfeição e o resumo da lei. (Cristo que passa, 157).

Temas para meditar e reflectir

Tudo o que vem à rede é peixe


Este aforismo popular emprega-se muito quando se trata de conseguir chegar ao maior número de pessoas possível.

Nomeadamente, no apostolado, é um pouco assim, não se faz acepção de pessoas seja porque motivo for – a menos que o director espiritual o aconselhe – porque como dizia São Josemaria: de cem almas interessam-nos cem!

Mas, na verdade, é preciso uma orientação segura porque, nem todo o peixe, de facto interessa.

Jesus Cristo sabia muito de pesca e de peixe e descreve muito bem o que se passa [i].

Insisto pois na orientação segura e séria no trabalho de “pescadores de homens” em que todos os cristãos devem empenhar-se.

(AMA, reflexões, 03.08.2017




[i] Cfr. Mt 13,47-53

Evangelho e comentário

Tempo de Páscoa

Evangelho: Jo 21, 1-14

1 Algum tempo depois, Jesus apareceu outra vez aos discípulos, junto ao lago de Tiberíades, e manifestou-se deste modo: 2 estavam juntos Simão Pedro, Tomé, a quem chamavam o Gémeo, Natanael, de Caná da Galileia, os filhos de Zebedeu e outros dois discípulos. 3 Disse-lhes Simão Pedro: «Vou pescar.» Eles responderam-lhe: «Nós também vamos contigo.» Saíram e subiram para o barco, mas naquela noite não apanharam nada. 4 Ao romper do dia, Jesus apresentou-se na margem, mas os discípulos não sabiam que era Ele. 5 Jesus disse-lhes, então: «Rapazes, tendes alguma coisa para comer?» Eles responderam-lhe: «Não.» 6 Disse-lhes Ele: «Lançai a rede para o lado direito do barco e haveis de encontrar.» Lançaram-na e, devido à grande quantidade de peixes, já não tinham forças para a arrastar. 7 Então, o discípulo que Jesus amava disse a Pedro: «É o Senhor!» Simão Pedro, ao ouvir que era o Senhor, apertou a capa, porque estava sem mais roupa, e lançou-se à água. 8 Os outros discípulos vieram no barco, puxando a rede com os peixes; com efeito, não estavam longe da terra, mas apenas a uns noventa metros. 9 Ao saltarem para terra, viram umas brasas preparadas com peixe em cima e pão. 10 Jesus disse-lhes: «Trazei dos peixes que apanhastes agora.» 11 Simão Pedro subiu à barca e puxou a rede para terra, cheia de peixes grandes: cento e cinquenta e três. E, apesar de serem tantos, a rede não se rompeu. 12 Disse-lhes Jesus: «Vinde almoçar.» E nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar-lhe: «Quem és Tu?», porque bem sabiam que era o Senhor. 13 Jesus aproximou-se, tomou o pão e deu-lho, fazendo o mesmo com o peixe. 14 Esta já foi a terceira vez que Jesus apareceu aos seus discípulos, depois de ter ressuscitado dos mortos.

Comentário:

A rede nunca se rompe porque abarca toda a humanidade.

O Reino de Deus é, efectivamente, essa rede que recolhe todos os que dela se aproximam.
Muitos, talvez, por curiosidade, outros, a maior parte, porque alguém os levou.
Nós cristãos – pescadores de homens – não temos senão de lançar a rede uma e outra vez, sem descanso, com a perseverança dos verdadeiros pescadores.

Não tenhamos receio nem sintamos desânimo se, por vezes, não “pescamos” nada porque o “Patrão” da nossa barca – a nossa vida – sabe muito bem, porque nos conhece intimamente, que não desistimos, não queremos desistir esperando sempre as Suas instruções onde e como lançar a rede.


(AMA, comentário sobre Jo 21, 1-14, 21.04.2017)

Leitura espiritual

TEMA 36. O sexto mandamento do Decálogo

Deus é amor, e o seu amor é fecundo. Deus quis que a pessoa humana participasse desta fecundidade, associando a geração a um acto específico de amor entre o homem e a mulher.
 
1. Criou-os homem e mulher

A ordem de Deus ao homem e à mulher para «crescer e multiplicar-se», há-de ler-se na perspectiva da criação «à imagem e semelhança» da Trindade (cf. Gn 1). Isto faz com que a geração humana, no contexto mais vasto da sexualidade, não seja algo «puramente biológico», mas diga «respeito à pessoa humana como tal, no que ela tem de mais íntimo» (Catecismo, 2361); logo, é essencialmente diferente da própria vida animal. «Deus é amor» (1 Jo 4, 8) e o seu amor é fecundo. Nesta fecundidade, quis Deus que a pessoa humana participasse, associando à geração de cada nova pessoa um acto específico de amor entre um homem e uma mulher[1]. Por isso, «o sexo não é uma realidade vergonhosa; é uma dádiva divina que se orienta limpidamente para a vida, para o amor, para a fecundidade»[2]. Sendo o homem um indivíduo composto de corpo e alma, o acto amoroso generativo exige a participação de todas as dimensões da pessoa: a corporeidade, os afectos, o espírito[3].
O pecado original quebrou a harmonia do homem consigo mesmo e com os outros. Esta fractura teve particular repercussão na capacidade da pessoa viver racionalmente a sexualidade. Por um lado, obscurecendo na inteligência o nexo inseparável que existe entre as dimensões afectivas e generativas da união conjugal; por outro lado, dificultando o domínio que a vontade exerce sobre os dinamismos afectivos e corporais da sexualidade. A necessidade de purificação e maturidade que a sexualidade exige nestas condições não significa de modo algum a sua rejeição, ou uma consideração negativa deste dom que o homem e a mulher receberam de Deus. Significa, isso sim, a necessidade de que «o amor – o eros – possa amadurecer até à sua verdadeira grandeza»[4]. Nesta tarefa joga um papel fundamental a virtude da castidade.
2. A vocação para a castidade

O Catecismo da Doutrina Católica fala de vocação para a castidade, porque esta virtude é condição e parte essencial da vocação para o amor, para o dom de si, ao qual Deus chama cada pessoa. A castidade torna possível o amor na corporeidade e através dela[5]. De algum modo, pode-se dizer que a castidade é a virtude que possibilita e conduz a pessoa humana na arte de viver bem, na benevolência e na paz interior com os outros homens e mulheres e consigo mesmo; visto que a sexualidade humana atravessa todas as potências, do mais físico e material ao mais espiritual, colorindo as diversas faculdades no masculino e feminino. A virtude da castidade não é simplesmente um remédio contra a desordem que o pecado origina na esfera sexual, mas uma afirmação gozosa, porque permite amar a Deus e, através d’Ele, os outros homens, com todo o coração, com toda a alma, com toda a mente e com todas as forças (cf. Mc 12, 30)[6]. «A virtude da castidade gira na órbita da virtude cardeal da temperança» (Catecismo, 2341) e «significa a integração conseguida da sexualidade na pessoa, e daí a unidade interior do homem no seu ser corporal e espiritual» (Catecismo, 2337). É muito importante na formação das pessoas, sobretudo dos jovens, falar da castidade, explicando a profunda e estreita relação entre a capacidade de amar, a sexualidade e a procriação. Se não for assim, pode parecer que se trata duma virtude negativa, já que boa parte da luta por viver a castidade caracteriza-se pela tentativa de dominar as paixões, que nalgumas circunstâncias se orientam para bens particulares que não são ordenáveis racionalmente em função do bem da pessoa considerada como um todo[7].
No estado actual, o homem não pode viver a lei moral, e por conseguinte a castidade, sem a ajuda da graça. Isto não significa a impossibilidade da virtude humana ser incapaz de conseguir um certo controlo das paixões nesta área, mas sim a constatação da magnitude da ferida produzida pelo pecado, a qual exige o auxílio divino para a perfeita reintegração da pessoa[8].
3. A educação da castidade

A castidade exige o domínio da concupiscência, que é parte integrante do domínio de si. Este domínio é uma tarefa que dura a vida inteira e supõe esforço reiterado que pode ser especialmente intenso nalgumas épocas. A castidade deve crescer sempre, com a graça de Deus e a luta ascética (cf. Catecismo, 2342)[9]. «A caridade é a forma de todas as virtudes. Sob a sua influência, a castidade aparece como uma escola de doação da pessoa. O domínio de si ordena-se para o dom de si» (Catecismo, 2346). A educação da castidade é muito mais do que alguns denominam “educação sexual”, que se ocupa fundamentalmente de proporcionar informação sobre os aspectos fisiológicos da reprodução humana e os métodos contraceptivos. A verdadeira educação da castidade não se limita a informar sobre aspectos biológicos, mas ajuda a reflectir sobre os valores pessoais e morais que entram em jogo em tudo o que se relaciona com o nascimento da vida humana e a maturidade pessoal. Por outro lado, fomenta grandes ideais de amor a Deus e aos outros através do exercício das virtudes da generosidade, do dom de si, do pudor que protege a intimidade, etc., os quais ajudam a pessoa a superar o egoísmo e a tentação de se fechar sobre si mesma. Neste empenho, os pais têm grande responsabilidade, visto que são os primeiros e principais mestres na formação da castidade dos seus filhos[10]. Meios importantes na luta por viver esta virtude: a) a oração: pedir a Deus a virtude da santa pureza[11] e a frequência dos sacramentos são os remédios para a nossa debilidade; b) trabalho intenso, evitar o ócio; c) moderação na comida e na bebida; d) cuidado dos pormenores de pudor e modéstia no vestuário, etc.; e) rejeitar as leituras de livros, revistas e jornais inconvenientes; e evitar os espectáculos imorais; f) muita sinceridade na direcção espiritual; g) esquecer-se de si próprio; h) ter uma grande devoção a Maria Santíssima, Mater pulchrae dilectionis (Mãe do Amor formoso). A castidade é uma virtude eminentemente pessoal que «implica também um esforço cultural» (Catecismo, 2344), visto que o «progresso da pessoa humana e o desenvolvimento da própria sociedade estão em mútua dependência»[12]. O respeito pelos direitos da pessoa reclama o respeito pela castidade, particularmente o direito a «receber uma informação e educação que respeitem as dimensões morais e espirituais da vida humana» (Catecismo, 2344)[13]. As manifestações concretas como se configura e cresce esta virtude são diferentes dependendo da vocação recebida. «As pessoas casadas são chamadas a viver a castidade conjugal; as outras praticam a castidade na continência» (Catecismo, 2349).
4. A castidade no matrimónio

A união sexual «ordena-se para o amor conjugal do homem e da mulher» (Catecismo, 2360): quer dizer, quando se «realiza de maneira verdadeiramente humana, somente se é parte integral do amor com o qual homem e mulher se empenham totalmente um para com o outro até à morte»[14]. A grandeza do acto pelo qual o homem e a mulher cooperam livremente com a acção criadora de Deus exige estritas condições morais, justamente devido à importância antropológica que possui: a capacidade de gerar uma nova vida humana chamada à eternidade. É este o motivo pelo qual o homem não deve separar voluntariamente as dimensões unitiva e procriativa do referido acto, como é o caso da contracepção[15]. Os esposos castos saberão descobrir os momentos mais adequados para viver a união corporal, de modo que reflicta sempre, em cada acto, o que o dom de si significa[16]. Diferentemente da dimensão procriadora, que se pode actualizar de modo verdadeiramente humano somente através do acto conjugal, a dimensão afectiva e unitiva própria desse acto pode e deve manifestar-se de muitos outros modos. Isto explica que, se devido a determinadas condições de saúde ou de outro tipo, os esposos não podem realizar união conjugal, ou decidem que é preferível abster-se temporariamente (ou definitivamente em situações especialmente graves) do acto próprio do matrimónio, podem e devem continuar a actualizar esse dom de si, que faz crescer o amor verdadeiramente pessoal, do qual a união dos corpos é manifestação.
5. A castidade e o celibato

Deus chama alguns a que vivam a sua vocação de amor de modo particular no celibato apostólico[17]. O modo de viver a vocação cristã no celibato apostólico exige a continência[18]. Esta exclusão do uso da capacidade generativa não significa de nenhum modo a exclusão do amor e da afectividade[19]. Pelo contrário, a doação que se faz livremente a Deus de uma possível vida conjugal, capacita a pessoa para amar e dar-se ao serviço muitos outros homens e mulheres, ajudando-os a encontrar Deus, que é a razão do celibato[20]. Este modo de vida há-de ser considerado e vivido sempre como um dom, pois ninguém se pode arrogar da capacidade de ser fiel ao Senhor neste caminho sem o auxílio da graça.
6. Pecados contra a castidade

A castidade opõe-se à luxúria que «é um desejo desordenado ou um gozo desregrado de prazer venéreo. O prazer sexual é moralmente desordenado quando procurado por si mesmo, isolado das finalidades da procriação e da união» (Catecismo 2351). Dado que a sexualidade ocupa uma dimensão central na vida humana, os pecados contra a castidade são sempre graves devido à sua matéria e, portanto, fazem perder a herança do Reino de Deus (cf. Ef 5, 5). No entanto, podem ser leves, quando falta advertência plena ou perfeito consentimento. O vício da luxúria tem muitas e graves consequências: a cegueira da mente que obscurece o nosso fim e o nosso bem; a debilitação da vontade, que se torna quase incapaz de qualquer esforço, conduzindo à passividade, à apatia no trabalho, nas tarefas, etc., o apego aos bens terrenos que faz esquecer os eternos e, finalmente, pode-se chegar ao ódio a Deus, que aparece ao luxurioso como o maior obstáculo para satisfazer a sua sensualidade. A masturbação é a «excitação voluntária dos órgão genitais, para daí retirar um prazer venéreo» (Catecismo, 2352). «Tanto o Magistério da Igreja, de acordo com a tradição constante, como o sentido moral dos fiéis, têm afirmado sem nenhuma dúvida que a masturbação é um acto intrínseca e gravemente desordenado»[21]. Pela sua própria natureza, a masturbação contradiz o sentido cristão da sexualidade que está ao serviço do amor. Ao ser um exercício solitário e egoísta da sexualidade, privado da verdade do amor, deixa insatisfação e conduz ao vazio e ao desgosto. «A fornicação é a união carnal fora do matrimónio entre um homem e uma mulher livres. É gravemente contrária à dignidade das pessoas e da sexualidade humana, naturalmente ordenada para o bem dos esposos, assim como para a geração e educação dos filhos» (Catecismo, 2353)[22]. O adultério «designa a infidelidade conjugal. Quando dois parceiros, dos quais pelo menos um é casado, estabelecem entre si uma relação sexual, mesmo efémera, cometem adultério» (Catecismo 2380)[23]. Do igual modo, são contrárias à castidade as conversas, os olhares, as manifestações de afecto para com outra pessoa, mesmo entre noivos, realizadas com desejo libidinoso, ou que constituem ocasião próxima de pecado caso se procurem ou não se rejeitem[24]. A pornografia – exibição do corpo humano como simples objecto de concupiscência – e a prostituição – transformação do próprio corpo em objecto de transacção financeira e de desfruto carnal – são faltas graves de desordem sexual, que, além de atentarem contra a dignidade das pessoas que as praticam, constituem uma chaga social (cf. Catecismo, 2355). «A violação designa a entrada na intimidade sexual duma pessoa à força, com violência. É um atentado contra a justiça e a caridade. A violação ofende profundamente o direito de cada um ao respeito, à liberdade e à integridade física e moral. Causa um prejuízo grave, que pode marcar a vítima para toda a vida. É sempre um acto intrinsecamente mau. É mais grave ainda, se cometido por parentes próximos (incesto) ou por educadores contra crianças que lhes estão confiadas» (Catecismo, 2356). «Os actos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados» como tem declarado a Tradição da Igreja[25]. Esta nítida valorização moral das acções não devem prejudicar minimamente as pessoas que apresentem tendências homossexuais[26], já que não poucas vezes a sua situação representa uma difícil prova[27]. Estas pessoas são também «chamadas à castidade. Pelas virtudes do autodomínio, educadoras da liberdade interior, e, às vezes, pelo apoio duma amizade desinteressada, pela oração e pela graça sacramental, podem e devem aproximar-se, gradual e resolutamente, da perfeição cristã» (Catecismo, 2359).

PABLO REQUENA

Bibliografia básica
- Catecismo da Igreja Católica, 2331-2400. - Bento XVI, Enc. Deus Caritas est, 25-XII-2005, 1-18. - S. João Paulo II, Ex. Ap. Familiaris Consortio, 22-XI-1981.
Leituras recomendadas
- S. Josemaria, Homilia «Porque verão a Deus», em Amigos de Deus, 175-189; «O matrimonio, vocação cristã», em Cristo que Passa, 22-30. - Congregação para a Doutrina da Fé, Decl. Persona Humana, 29-XII-1975. Congregação para a Educação Católica, Orientações educativas sobre o amor humano, 1-XI-1983. - Conselho Pontifício para a Família, Sexualidade Humana: Verdade e Significado, 8XII-1995. - Conselho Pontifício para a Família, Lexicon de términos ambiguos y discutidos sobre familia, vida y cuestiones éticas (2003). (Tem especial interesse para os pais e educadores a entrada «Educación sexual» de Aquilino Polaino-Lorente).

Notas

[1] Cada um dos dois sexos é, com igual dignidade, embora de modo diferente, imagem do poder e da ternura de Deus. A união do homem e da mulher no matrimónio é um modo de imitar na carne a generosidade e a fecundidade do Criador: “O homem deixará o seu pai e a sua mãe para se unir à sua mulher; e os dois serão uma só carne” (Gn 2, 24). Desta união procedem todas as gerações humanas (cf. Gn 4, 1-2.25-26; 5, 1)» (Catecismo, 2335). [2]S. Josemaria, Cristo que Passa, 24. [3]Se o homem aspira a ser somente espírito e quer rejeitar a carne como uma herança apenas animalesca, então espírito e corpo perdem a sua dignidade. E se ele, por outro lado, renega o espírito e consequentemente considera a matéria, o corpo, como realidade exclusiva, perde igualmente a sua grandeza» (Bento XVI, Enc. Deus Caritas Est, 25-XII-2005, 5). [4]Certamente «o eros quer elevar-nos “em êxtase” para o Divino, conduzir-nos para além de nós próprios, mas por isso mesmo requer um caminho de ascese, renúncias, purificações e saneamentos» (Ibidem) [5]Deus é amor e vive em si mesmo um mistério de comunhão pessoal de amor. Criando-a à sua imagem e conservando-a continuamente no ser, Deus inscreve na humanidade do homem e da mulher a vocação, e, assim, a capacidade e a responsabilidade do amor e da comunhão» (S. João Paulo II, Ex. Ap. Familiaris Consortio, 22-XI-1981, 11). [6]A castidade é a afirmação gozosa de quem sabe viver o dom de si, livre de toda a escravidão egoísta» (Conselho Pontifício para a Família, Sexualidade humana: verdade e siGnificado, 8-XII-1995, 17). «A pureza é consequência do amor com que entregámos ao Senhor a alma e o corpo, as potências e os sentidos. Não é uma negação; é uma alegre afirmação». (S. Josemaria, Cristo que Passa, 5). [7]«A castidade implica uma aprendizagem do domínio de si, que é uma pedagogia da liberdade humana. A alternativa é clara: ou o homem comanda as suas paixões e alcança a paz, ou se deixa dominar por elas e torna-se infeliz (cf. Sir 1, 22.). “A dignidade do homem exige que ele proceda segundo uma opção consciente e livre, isto é, movido e determinado por uma convicção pessoal e não sob a pressão de um cego impulso interior ou da mera coacção externa. O homem atinge esta dignidade quando, libertando-se de toda a escravidão das paixões, prossegue o seu fim na livre escolha do bem e se procura de modo eficaz e com diligente iniciativa os meios adequados” (Gaudium et Spes, 17)» (Catecismo, 2339). [8]«A castidade é uma virtude moral. Mas é também um dom de Deus, uma graça, um fruto do trabalho espiritual (cf. Gl 5, 22). O Espírito Santo concede a graça de imitar a pureza de Cristo (cf. 1 Jo 3, 3) àquele que regenerou pela água do Baptismo» (Catecismo, 2345). [9]A maturidade da pessoa humana inclui o domínio de si, que supõe o pudor, a temperança, o respeito e abertura aos outros (cf. Congregação para a Educação Católica, Orientações educativas sobre o amor humano, 1-XI-1983, 35). [10]Este aspecto da educação tem hoje maior importância do que no passado, já que são muitos os modelos negativos que a sociedade actual apresenta (cf. Conselho Pontifício para a Família, Sexualidade humana: verdade e significado, 8-XII-1995, 47). «Diante de uma cultura que «banaliza» em grande parte a sexualidade humana, porque a interpreta e a vive de maneira limitada e empobrecida coligando-a unicamente ao corpo e ao prazer egoístico, o serviço educativo dos pais deve dirigir-se com firmeza para uma cultura sexual que seja verdadeira e plenamente pessoal» (S. João Paulo II, Ex. Ap. Familiaris Consortio, 37). [11]«Deus concede a santa pureza aos que Lha pedem com humildade» (S. Josemaria, Caminho, 118). [12]Concílio Vaticano II, Const. Gaudium et Spes, 25. [13]Em diversas ocasiões, o Papa S. João Paulo II referiu-se à necessidade de promover uma autêntica «ecologia humana» no sentido de conseguir um ambiente moral são que facilite o desenvolvimento da pessoa (cf. por exemplo, Enc. Centesimus Annus, 1-V-1991, 38). Parece evidente que parte do «esforço cultural» a que se fez referência consiste em mostrar que existe o dever de respeitar normas morais nos meios de comunicação social, especialmente na televisão, como exigência da dignidade das pessoas. «Nestes momentos de violência, de sexualidade brutal, selvagem, temos de ser rebeldes. Tu e eu somos rebeldes: não nos dá na real gana deixar-nos levar pela corrente, e ser uns animais. Queremos portar-nos como filhos de Deus, como homens ou mulheres que se dão com o seu Pai, que está nos Céus e quer estar muito perto – dentro! – de cada um de nós» (S. Josemaria, Forja, 15). [14]S. João Paulo II, Familiaris Consortio, 11. [15]Na fecundação artificial também se produz a ruptura entre estas dimensões próprias da sexualidade humana, como ensina claramente a Instrução Donum Vitae (1987). [16]Como ensina o Catecismo, o prazer que deriva da união conjugal é algo bom e querido por Deus (cf. Catecismo, 2362). [17]Embora a santidade se meça pelo amor de Deus e não pelo estado de vida – celibatário ou casado –, a Igreja ensina que o celibato pelo Reino dos Céus é um dom superior ao matrimónio (cf. Concilio de Trento: DS 1810; 1 Co 7, 38). [18]Não se trata aqui do celibato sacerdotal, nem da virgindade ou celibato consagrado. De qualquer modo, do ponto de vista moral em todas estas situações requer-se a continência total. [19]Não faria nenhum sentido defender que o celibato seja «antinatural». O facto de que o homem e a mulher se possam complementar, não significa que se completem, porque ambos são completos como pessoas humanas. [20]Bento XVI, falando do celibato sacerdotal, embora se pudesse referir a todo o celibato pelo Reino dos Céus, explica que não se pode compreender em termos meramente funcionais, pois na realidade «constitui uma especial conformação ao estilo de vida do próprio Cristo» Bento XVI, Ex. Ap. Sacramentum Caritatis, 24). [21]Congregação para a Doutrina da Fé, Decl. Persona Humana, 29-XII-1975, 9. [22]A união livre ou coabitação sem intenção de casamento, a união à experiência quando existe intenção de se casar e as relações pré-matrimoniais ofendem a dignidade da sexualidade humana e do matrimónio. «São contrárias à lei moral: o acto sexual deve ter lugar exclusivamente no matrimónio; fora dele constitui sempre um pecado grave e exclui da comunhão sacramental» (Catecismo, 2390). A pessoa não se pode “emprestar”, mas apenas doar-se livremente de uma vez para sempre. [23]Cristo condena mesmo o desejo do adultério (cf. Mt 5, 27-28). No Novo Testamento proíbe-se absolutamente o adultério (cf. Mt 5, 32; 19, 6; Mc 10, 11; 1 Cor 6, 9-10). O Catecismo, falando das ofensas contra o matrimónio, enumera também o divórcio, a poligamia e a contracepção. [24]«Os noivos são chamados a viver a castidade na continência. Eles farão, neste tempo de prova, a descoberta do respeito mútuo, a aprendizagem da fidelidade e da esperança de se receberem um ao outro de Deus. Reservarão para o tempo do matrimónio as manifestações de ternura específicas do amor conjugal. Ajudar-se-ão mutuamente a crescer na castidade» (Catecismo, 2350). [25]Congregação para a Doutrina da Fé, Persona Humana, 8. «São contrários à lei natural, fecham o acto sexual ao dom da vida, não procedem duma verdadeira complementaridade afectiva sexual, não podem, em caso algum, ser aprovados» (Catecismo, 2357). [26]A homossexualidade refere-se às condições apresentadas por aqueles homens e mulheres que sentem atracção exclusiva ou predominante para com as pessoas do mesmo sexo. As possíveis situações que se possam apresentar são muito diferentes, logo é necessária extrema prudência no momento de tratar destes casos. [27]«Um número considerável de homens e de mulheres apresenta tendências homossexuais profundamente radicadas. Esta propensão, objectivamente desordenada, constitui, para a maior parte deles, uma provação. Devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á, em relação a eles, qualquer sinal de discriminação injusta. Estas pessoas são chamadas a realizar na sua vida a vontade de Deus e, se forem cristãs, a unir ao sacrifício da cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar devido à sua condição» (Catecismo 2358).