20/04/2015

2015.04.20








O que pode ver hoje em NUNC COEPI





Quero entregar-me a Ti sem reservas! - São Josemaria – Textos

Evangelho, comentário L. Esp. (A beleza de ser cristão) - A beleza de ser cristão (Ernesto Juliá), AMA - Comentários ao Evangelho Jo 6 22-29, Ernesto Juliá Diaz



Pequena agenda do cristão - Agenda Segunda-Feira

Quero entregar-me a Ti sem reservas!

Pedro diz-Lhe: "Senhor, Tu lavares-me os pés, a mim?!". Responde Jesus: "O que Eu faço, não o compreendes agora; entendê-lo-ás depois". Insiste Pedro: "Tu nunca me lavarás os pés!". Replicou Jesus: "Se Eu não te lavar, não terás parte coMigo". Simão Pedro rende-se: "Senhor, não só os pés, mas também as mãos e a cabeça!". Ao chamamento a uma entrega total, completa, sem vacilações, muitas vezes opomos uma falsa modéstia como a de Pedro... Oxalá fôssemos também homens de coração, como o Apóstolo! Pedro não admite que ninguém ame Jesus mais do que ele. Esse amor leva-o a reagir assim: – Aqui estou! Lava-me as mãos, a cabeça, os pés! Purifica-me de todo, que eu quero entregar-me a Ti sem reservas! (Sulco, 266)

– Está completo o tempo, e aproxima-se o Reino de Deus; fazei penitência, e crede no Evangelho (Mc 1, 15).

– E vinha a Ele todo o povo, e ensinava-o (Mc 2, 13).

Jesus vê aquelas barcas na margem, e sobe para uma delas. Com que naturalidade se mete Jesus na barca de cada um de nós!

Quando te aproximares do Senhor, lembra-te de que Ele está sempre muito perto de ti, dentro de ti: Regnum Dei intra vos est (Lc 17, 21). No teu coração O encontrarás.

Cristo deve reinar, em primeiro lugar, na nossa alma. Para que Ele reine em mim, preciso da sua graça abundante, pois só assim é que o mais imperceptível pulsar do meu coração, a menor respiração, o olhar menos intenso, a palavra mais corrente, a sensação mais elementar se traduzirão num hossana ao meu Cristo Rei.

Duc in altum – Ao largo! – Repele o pessimismo que te torna cobarde. Et laxate retia vestra in capturam – e lança as redes para pescar.

Devemos, confiar nessas palavras do Senhor: meter-se na barca, pegar nos remos, içar as velas e lançar-nos a esse mar do mundo que Cristo nos deixa em herança.

Et regni ejus non erit finis. – O Seu Reino não terá fim!


Não te dá alegria trabalhar por um reinado assim? (Santo Rosário, mistérios Luminosos: ‘O anúncio do Reino de Deus’).

Pequena agenda do cristão


SeGUNDa-Feira
  

(Coisas muito simples, curtas, objectivas)


Propósito:
Sorrir; ser amável; prestar serviço.

Senhor que eu faça ‘boa cara’, que seja alegre e transmita aos outros, principalmente em minha casa, boa disposição.

Senhor que eu sirva sem reserva de intenção de ser recompensado; servir com naturalidade; prestar pequenos ou grandes serviços a todos mesmo àqueles que nada me são. Servir fazendo o que devo sem olhar à minha pretensa “dignidade” ou “importância” “feridas” em serviço discreto ou desprovido de relevo, dando graças pela oportunidade de ser útil.

Lembrar-me:
Papa, Bispos, Sacerdotes.

Que o Senhor assista e vivifique o Papa, santificando-o na terra e não consinta que seja vencido pelos seus inimigos.

Que os Bispos se mantenham firmes na Fé, apascentando a Igreja na fortaleza do Senhor.

Que os Sacerdotes sejam fiéis à sua vocação e guias seguros do Povo de Deus.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?



Temas para meditar - 423


Ordem (definição) 




Confia, razoavelmente, nas suas próprias possibilidades e na ajuda que lhe podem prestar os outros e confia nas possibilidades dos outros de tal modo que, em qualquer situação, distingue em primeiro lugar o que é positivo.

Evangelho, comentário L. Esp. (A beleza de ser cristão)


Semana III da Páscoa

Evangelho: Jo 6 22-29

22 No dia seguinte, a multidão, que tinha ficado do outro lado do mar, advertiu que não havia ali mais que uma barca e que Jesus não tinha entrado nela com os Seus discípulos, mas que os Seus discípulos tinham partido sós. 23 Entretanto, arribaram de Tiberíades outras barcas perto do lugar onde haviam comido o pão, depois de o Senhor ter dado graças. 24 Tendo, pois, a multidão visto que lá não estava nem Jesus nem os Seus discípulos, entrou naquelas barcas e foi a Cafarnaum em busca de Jesus. 25 Tendo-O encontrado do outro lado do mar, disseram-lhe: «Mestre, quando chegaste aqui?». 26 Jesus respondeu-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: Vós buscais-Me não porque vistes os milagres, mas porque comestes dos pães e ficastes saciados. 27 Trabalhai não pela comida que perece, mas pela que dura até à vida eterna, e que o Filho do Homem vos dará. Porque n'Ele imprimiu Deus Pai o Seu selo». 28 Eles, então, disseram-Lhe: «Que devemos fazer para praticar as obras de Deus?». 29 Jesus respondeu: «A obra de Deus é esta: Que acrediteis n'Aquele que Ele enviou».

Comentário:

S. João escreve no seu Evangelho detalhes surpreendentes que reflectem bem a preocupação do Evangelista e Apóstolo em que se perceba a Divindade, real, concreta, verdadeira de Jesus Cristo. Assim o deixa antever, por exemplo, neste trecho em que relata a pergunta da multidão que procurava Jesus.
Realmente se tinham constatado, tal como relata, que Jesus não utilizara nenhum barco para fazer a travessia, como explicar que já ali - em Cafarnaum - se encontrasse?

Humanamente era impossível vencer a distância por terra em menos tempo que atravessando o mar!
Por isso se admiram!

Evidentemente que, Cristo, não fez este milagre por acaso - nada faz “por acaso” - e podemos pensar que logo a seguir ao portentoso milagre da multiplicação dos pães e dos peixes quisesse que aquela gente vinda de tão diferentes lugares e que se juntara à multidão - dos quais homens eram uns cinco mil - que comera dos pães e dos peixes, também tivesse como que uma oportunidade de constatar algo que Ele fizera e que não podia ser humanamente explicável.
Como se quisesse confirmar a Sua divindade.

(ama, comentário sobre Jo 6, 22-29, 2012.04.23)

Leitura espiritual

a beleza de ser cristão

PRIMEIRA PARTE

O QUE É SER CRISTÃO?

I.            Relações que Deus estabelece com o homem.

…/6

IV. o ser humano, criado à «imagem e semelhança” de Deus e «filho de deus”

filhos de deus. a filiação divina

 O Catecismo da Igreja Católica recolhe esta realidade do homem em vários textos, entre outros, os dois números que agora assinalamos:

        «O que crê em Cristo é feito filho de Deus. Esta adopção filial transforma-o dando-lhe a possibilidade de seguir o exemplo de Cristo. Torna-o capaz de actuar rectamente e de praticar o bem. Na união com o seu salvador, o discípulo alcança a perfeição na caridade, a santidade. A vida moral, amadurecida na graça, culmina na vida eterna, na glória do céu”.[i]

        «A graça é uma participação na vida de Deus. Introduz-nos na intimidade da vida trinitária: pelo Baptismo, o cristão participa da graça de Cristo, Cabeça do seu corpo. Como «filho adoptivo” agora pode chamar «Pai” a Deus, em união com o único Filho. Recebe a vida do Espírito que lhe infunde a caridade e que forma a Igreja”.[ii]

        Teremos ocasião de considerar as diversas implicações que o ser «filhos de Deus em Cristo Jesus” comporta na vida pessoal cristã. Na realidade, podemos adiantar que a vida pessoal cristã é o desenvolvimento dessa condição de «filhos de Deus em Cristo Jesus”.
Sublinharemos agora a grandeza dos planos de Deus com estas palavras de São Josemaria Escrivá: «Esta é a grande ousadia da fé cristã: proclamar o valor da dignidade da natureza humana, e afirmar que mediante a graça nos eleva à ordem sobrenatural, fomos criados para alcançar a dignidade dos filhos de Deus. Ousadia certamente incrível, se não estivesse baseada no decreto salvador de Deus Pai e não tivesse sido confirmada pelo sangue de Cristo e reafirmada e tornada possível pela acção constante do Espírito Santo”[iii].

        E, em linha com essa “ousadia”, poderíamos dizer que o «ser como criança”, se manifesta em saber-se «filhos de Deus”, queridos e amados por Deus e com a capacidade de ser verdadeiramente livres, «na liberdade da glória dos filhos de Deus”; e nessa liberdade, amar a Deus na plenitude e no abandono que só as «crianças” podem amar.

        Feitas estas afirmações, a «imagem e semelhança” de Deus no homem compreendem-se com mais clareza e no seu mais rico e profundo conteúdo, se consideramos que a origem e a plenitude tanto da «imagem” como da «semelhança” estão no facto de que o homem é «filho de Deus”, em que Deus criou todos os seres humanos adoptando-os como filhos, na esperança de ver realizada essa adopção pela correspondência voluntária e amorosa de cada homem.

        Na esperança de que cada ser humano, pela graça, chegue a viver «na liberdade da glória dos filhos de Deus”, segundo a exortação de São Paulo: «sede imitadores de Deus, como seus filhos muito queridos”,[iv] depois de recordar a todos os homens os desígnios paternais de Deus, desígnios que se tornam realizáveis ao receber o Espírito Santo: «Pois não recebestes um espírito de escravos para cair de novo no temor; antes recebestes um espírito de filhos adoptivos que nos faz exclamar: Abba, Pai!”.[v]

        Todos os homens são verdadeiramente filhos de Deus; e Deus cria-os na esperança de que consigam realizar o que são. E isto, desde a própria origem da criação; sem que o pecado original de Adão e Eva tenha afectado este plano original de Deus.

        Juan Miguel Garrigues assim o expressa de forma muito clara: «Deus não suprimiu, por culpa do pecado original, o seu desígnio original, mas levou-o a cabo implicando o seu Filho como sujeito da nossa Redenção, em Quem já tinha criado o homem e em Quem nos tinha adoptado desde o começo. Mas a Redenção não eleva o desígnio de Deus na sua finalidade. É uma manifestação do amor de Deus, superior no meio que emprega, mas não na finalidade que se propõe, e que não é mais que a nossa adopção, querida por Deus desde as origens no seu desígnio criador”.[vi]


V. o pecado

       Vimos nas páginas anteriores a realidade natural e sobrenatural que se origina do facto de a criação do homem: Deus é o ponto de referência que Ele próprio pôs no núcleo central da pessoa humana; centralidade que não é nenhum obstáculo para a plenitude da pessoa, e para que a pessoa viva a autonomia que lhe permite ser consciente do absoluto sentido que tem de si próprio.

        A criatura não se explica por si mesma a sua existência; e ao mesmo tempo tem consciência do absoluto do seu existir em relação consigo própria e com tudo o que a rodeia.
Nada do que o ser humano tem ao seu alcance lhe é de todo estranho ou alheio.
A criatura vive plenamente a sua existência.
A liberdade é a garantia da condição de que a pessoa humana goza desse modo de ser «absoluto”.
Deus, num acto de supremo amor, quis pôr a liberdade nas mãos do homem; com o fim de que o homem decida conscientemente sobre a sua própria existência.

        Aí, no centro do espírito do homem, encontramos não só a vida que Deus nos doou, mas também as qualidades que nos concedeu para que possamos conhecê-lo, amá-lo e servi-lo: memória, entendimento e vontade; e tudo, em liberdade, porque Deus que contar com o nosso amor.

        A natureza do homem, já o assinalámos, é relacional. O ser humano não é um ser isolado. Todo o seu viver é uma constante relação com Deus, com os demais homens e mulheres sobre a terra, além de uma reflexão sobre si próprio.

        Essa natureza relacional permite-lhe levar a cabo os planos de Deus sobre ele.
Porque, assim como Deus começa por amor a história com o homem, quer também que o homem viva por amor a sua história com Deus.
E que, em liberdade, reafirme esse amor em todas as relações com Ele.

        A única coisa que Deus nos concede sem contar com a nossa liberdade é o viver; o facto da existência e as qualidades para desenvolver a nossa personalidade.
Ninguém se cria a si mesmo nem se concede umas qualidades que lhe são desconhecidas antes de se encontrar com elas, como a própria vida é desconhecida.
Desenvolvê-las-á depois em liberdade, e no desenvolvimento descobrirá o amor de Deus.

        Nessa finalidade de Deus ao criar o homem fundamenta-se a grandeza e a beleza do ser humano, criado à «imagem e semelhança” e filho de Deus; convertido depois do Baptismo em filho de Deus em Cristo.
O homem encontra-se sempre dotado da capacidade necessária para responder aos planos, aos sonhos de Deus, em plena liberdade.

        A acção de Deus e o acto de correspondência do homem doação divina hão-de estar unidos, para que o gozo de Deus no homem e o gozo do homem em Deus sejam completos.

        A grandeza que Deus conferiu ao homem pode ficar estéril e perder-se, portanto, se o homem não aceita o dom de Deus; se o homem não responde ao amor de Deus com a confiança de saber-se criatura.

        Deus deseja que essa aceitação tenha lugar em plena liberdade do homem e com amor.
E é neste plano de entendimento da liberdade e do amor de Deus, com a liberdade e o amor do homem, onde o pecado faz a sua aparição.

Com muita clareza e com profundidade teológica, Romano Guardini expressa-o assim: «O pecado, definitivamente, não é senão uma rebelião contra a santidade de Deus” [vii]
        Não é estranho ouvir afirmações negando a existência do pecado.
Não é o momento nem o lugar para analisar esse tema.
Penso que para a finalidade deste livro é suficiente, deixar claro que em todas as civilizações ao longo da sua história, o homem viveu a consciência de uma grande falta cometida na origem, e não «esqueceu” essa falta nas suas relações com Deus.

        O vínculo que Deus estabelece com o ser humano na criação rasga, de alguma forma, o homem com o pecado. Rasga-o, mas não o destrói; não o aniquila.

        Para entender a acção de Adão e Eva, sem pretender, por outro lado, descobrir todas as facetas do mistério do pecado - «mistério de iniquidade”, em palavras de São Paulo -, é necessário não esquecer a afirmação do Catecismo:
        «O relato da queda[viii] utiliza uma linguagem feita de imagens, mas afirma um acontecimento primordial, um facto que teve lugar no começo da história do homem[ix]. A Revelação dá-nos a certeza da fé de que toda a história humana está marcada pelo pecado original livremente cometido pelos nossos primeiros pais”[x].

        As relações entre Deus e o homem nunca adquirem carácter abstracto nem têm lugar fora do tempo: são pessoais e históricas, ainda que por vezes seja praticamente impossível expressá-las com exactidão. A narração do pecado original não é, pois, uma lenda, uma fábula, um mito, nem sequer uma simples exposição simbólica: é o relato de um facto realmente acontecido na história do homem, que se exprime numa linguagem repleta de imagens e, certamente, nenhum ser humano poderia ter inventado essas imagens para expressar a realidade daquele momento, sem uma intervenção, uma inspiração divina.
        Dois esclarecimentos prévios. O primeiro: antes do pecado, o homem já começou o seu caminhar sobre a terra. A história do homem começa desde o primeiro abrir de olhos de Adão, e já antes da queda, Adão e Eva recebem o convite, indicação, de Deus: «sede fecundos e multiplicai-vos e enchei a terra”, e o encargo de «submete-la; dominai nos peixes do mar; nas aves do céu e em todo o animal que serpenteia sobre a terra”.[xi]
        O segundo esclarecimento: o paraíso não é uma prova a que Deus submete homem.
O mandato de Deus: «Podeis comer de qualquer árvore do jardim, mas não comerás da árvore da ciência do bem e do mal, porque no dia em que dela comeres, morrerás sem remédio”,[xii] é uma ajuda ao homem para que, depois de ter posto à sua disposição o resto da criação, descubra com maior nitidez a grandeza da sua condição de criatura, na consciência não menos clara dos seus limites.

(cont)

ernesto juliá, La belleza de ser cristiano, trad. ama)





[i] Catecismo n. 1709
[ii] Catecismo n. 1997
[iii] são josemaria escrivá, Cristo que passa, n. 133.
[iv] Ef 5, 1
[v] Rom 8, 15
[vi] juan miguel garrigues, Dios sin idea del mal, Eunsa, Pamplona, 2000, p. 88.
[vii] romano guardini, Introducción a la vida de oración, Palabra, Madrid 2002, II, p. 71.
[viii] Gn 3
[ix] cfr. Gaudium et spes, 13, 1
[x] Catecismo n. 390.
[xi] Gn 1, 28-29
[xii] Gn 2, 16

19/04/2015

A dor de corrigir

Esconde-se uma grande comodidade – e às vezes uma grande falta de responsabilidade – naqueles que, constituídos em autoridade, fogem da dor de corrigir, com a desculpa de evitar o sofrimento alheio. Talvez poupem desgostos nesta vida..., mas põem em jogo a felicidade eterna – a deles e a dos outros – pelas suas omissões que são verdadeiros pecados. (Forja, 577)

O santo, para a vida de muitos, é "incómodo". Mas isto não significa que tenha de ser insuportável.

O seu zelo nunca deve ser amargo; a sua correcção nunca deve ferir; o seu exemplo nunca deve ser uma bofetada moral, arrogante, na cara do próximo. (Forja, 578)

Portanto, quando nos apercebemos de que na nossa vida ou na dos outros alguma coisa corre mal, alguma coisa precisa do auxílio espiritual e humano, que nós, filhos de Deus, podemos e devemos prestar, uma clara manifestação de prudência consistirá em dar-lhe remédio oportuno, a fundo, com caridade e com fortaleza, com sinceridade. Não valem as inibições. É errado pensar que com omissões ou adiamentos se resolvem os problemas.


Sempre que a situação o requeira, a prudência exige que se aplique o remédio totalmente e sem paliativos, depois de pôr a chaga a descoberto. Ao notar os menores sintomas do mal, sede simples, verazes, quer sejais vós a curar os outros, quer sejais vós a receber essa assistência. Nesses casos, deve-se permitir à pessoa que está em condições de curar em nome de Deus que aperte de longe a zona infectada e depois de mais perto, até sair todo o pus, de modo que o foco da infecção acabe por ficar bem limpo. Em primeiro lugar, temos que proceder assim connosco mesmos e com quem, por motivos de justiça ou caridade, temos obrigação de ajudar. Rezo nesse sentido especialmente pelos pais e por quem se dedica a tarefas de formação e de ensino. (Amigos de Deus, 157)

Temas para meditar - 419

Felicidade


O desejo mais profundo de uma pessoa é ser feliz. Não só por um momento, mas feliz para sempre. Outra coisa não seria normal! Mas há quem desista desse sonho por lhe parecer uma paixão inútil e impossível, confundindo felicidade com bem-estar ou prazer. Ser feliz é ser fecundo. É esse o significado da palavra. E uma árvore só é fecunda quando é podada. Não se é feliz sem podar o egoísmo.


(vasco p. magalhães, sj, Não há soluções, há caminhos) 

Evangelho, comentário L. Esp. (A beleza de ser cristão)


Semana III da Páscoa


Evangelho: Lc 24 35-48

35 E eles contaram também o que lhes tinha acontecido no caminho, e como O tinham reconhecido ao partir o pão. 36 Enquanto falavam nisto, apresentou-Se Jesus no meio deles e disse-lhes: «A paz seja convosco!». 37 Mas eles, turbados e espantados, julgavam ver algum espírito.38 Jesus disse-lhes: «Porque estais turbados, e porque se levantaram dúvidas nos vossos corações? 39 Olhai para as Minhas mãos e os Meus pés, porque sou Eu mesmo; apalpai e vede, porque um espírito não tem carne, nem ossos, como vós vedes que Eu tenho». 40 Dito isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. 41 Mas, estando eles, por causa da alegria, ainda sem querer acreditar e estupefactos, disse-lhes: «Tendes aqui alguma coisa que se coma?». 42 Eles apresentaram-Lhe uma posta de peixe assado.43 Tendo-o tomado comeu-o à vista deles. 44 Depois disse-lhes: «Isto é o que Eu vos dizia quando ainda estava convosco; que era necessário que se cumprisse tudo o que de Mim estava escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos». 45 Então abriu-lhes o entendimento, para compreenderem as Escrituras, 46 e disse-lhes: «Assim está escrito que o Cristo devia padecer e ressuscitar dos mortos ao terceiro dia, 47 e que em Seu nome havia de ser pregado o arrependimento e a remissão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. 48 Vós sois as testemunhas destas coisas.

Comentário:

Como é que reconhecemos Jesus?

A resposta está neste trecho de S. Lucas: ter o coração livre de amarras sejam elas alegria ou tristeza,  apreensão ou dúvida, enfim sejam que  sentimentos forem - bons inclusive - mas que absorvem completamente a atenção.

Por outras palavras, para descobrir Jesus, é fundamental a disponibilidade, o desejo, a tranquila postura de expectativa consequência da entrega sem peias nem condições.

(ama, comentário sobre LC 24, 35-48 2014.04.24)

Leitura espiritual


a beleza de ser cristão

PRIMEIRA PARTE

O QUE É SER CRISTÃO?

I.            Relações que Deus estabelece com o homem.

…/5

IV. o ser humano, criado à «imagem e semelhança” de Deus e «filho de deus”

        «Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou, homem e mulher os criou”.[i]
Depois de recordar este facto, o Catecismo prossegue: «O homem ocupa um lugar único na criação: “está feito à imagem de Deus”; na sua própria natureza une o mundo espiritual e o mundo material; é criado “homem e mulher”; Deus estabeleceu-os em amizade com Ele”[ii].

        Onde radica no homem essa «imagem e semelhança” com Deus?

        Uns consideram que essa «imagem e semelhança”, reflexo da Trindade no ser humano, radica nas qualidades que permitem ao homem o desenvolvimento das possibilidades da sua natureza: a inteligência, a memória, o coração ou a vontade.
Outros, ao invés, sublinham a liberdade como verdadeiro reflexo dessa «imagem e semelhança”.    

        Em qualquer destes dois pressupostos, o ser «imagem e semelhança” de Deus não afectaria o núcleo constitutivo do ser humano. Essa tão íntima vinculação com Deus não seria senão algo acrescentado – gratuitamente, entenda-se: com gratuitidade semelhante à da própria vida à natureza humana e exterior a ela, e de que poderia prescindir ou despojar-se sem que ficasse destruída ou corrompida a sua condição humana.

        Tampouco parece adequado que essa «imagem e semelhança” se atenha apenas a uma das partes - «corpo” e «alma” - pelas quais consideramos que o homem é formado.

        A «imagem e semelhança” de Deus, ao fazer parte da intenção mais íntima de Deus Criador; há-de encontra-se, na minha opinião, no recôndito mais íntimo do ser humano, no qual o próprio o homem se constitui, sustenta o seu viver e encontra sentido o seu existir: na sua Pessoa, no seu «Eu”.

        O ser humano é a única criatura que pode dizer «Eu sou”, «Sou eu”.
O homem é imagem de Quem É; e é Eu ao ser imagem de Quem É, ao afirmar o seu EU, manifestou a unidade do seu EU e do seu SER.

        «Por ter sido feito à imagem de Deus, o ser humano tem a dignidade de pessoa: não é somente algo, mas alguém. È capaz de se conhecer, de possuir-se e dar-se livremente e entrar em comunhão com outras pessoas; e é chamado, pela graça, a uma aliança com o seu Criador, a oferecer-lhe uma resposta de fé e de amor que nenhum outro ser pode dar em seu lugar”.[iii]

        O ser Pessoa não radica somente na alma ou no corpo. É mais, configura o ser e o existir, a alma e o corpo.
A Pessoa, na integridade do seu ser e do seu actuar, está aberta a Deus e assim corpo e alma participam, cada um de sua forma e nas suas próprias possibilidades, do ser «imagem e semelhança” de Deus.

        É interessante assinalar a diferença de compreensão desta verdade original da criação, que podemos apreciar nos textos do Catecismo Romano, do Concílio de Trento, e nos artigos do actual Concílio da Igreja Católica.

        No catecismo de Trento lemos: «No final Deus formou o homem do lodo da terra, disposto e constituído enquanto ao corpo de tal modo, que fosse imortal e impassível, não certamente por virtude da sua própria natureza, mas pela graça de Deus. No que se refere formou-a à sua imagem e semelhança e deu-lhe o livre arbítrio”.[iv]

        Em Trento praticamente atribui-se unicamente à alma – obviamente por ser considerada «forma do corpo” - o ser «imagem e semelhança de Deus”.

No Catecismo da Igreja Católica actual, ao invés, a «imagem e semelhança” torna-se extensiva à pessoa humana na sua unidade e no seu conjunto. Essa extensão leva-se a cabo em três passos:

        O Catecismo afirma, primeiro, a unidade e a totalidade do ser humano: «A pessoa humana, criada à imagem de Deus, é um ser ao mesmo tempo corporal e espiritual (…). Portanto, o homem é querido por Deus na sua totalidade”.[v]

        Em seguida sublinha a centralidade da alma na constituição da pessoa e considera-a como verdadeira forma do corpo: «A miúde o termo alma designa na Sagrada Escritura a vida humana (…) ou toda a pessoa humana (…). Mas designa também o que há de mais íntimo e de mais valor no homem, aquilo pelo que é particularmente imagem de Deus: ‘alma’ significa o princípio espiritual no homem”.[vi]

        Num terceiro momento, assinala a participação do corpo na condição de «imagem e semelhança”; insistindo desta forma em que a pessoa humana não é nem um ser dividido nem composto, fruto do encontro de dois princípios: «O corpo do homem participa na dignidade da ‘imagem de Deus’: é corpo humano precisamente porque está animado pela alma espiritual, e é toda a pessoa humana a que está destinada a ser, no Corpo de Cristo, no Templo do espírito”.[vii]

        Estes três passos concluem com a declaração do n. 365: «A unidade da alma e do corpo é tão profunda que se deve considerar a alma como a «forma do coro” (…); quer dizer, graças à alma espiritual, a matéria que integra o corpo é um corpo humano e vivente; no homem, o espírito e a matéria não são duas naturezas unidas, antes, a sua união constitui uma única natureza”.

        Alguns autores não fazem distinção entre imagem e semelhança, e consideram esses termos praticamente sinónimos.
Todavia, tendo em conta o desenvolvimento da vida espiritual e sobrenatural do homem, talvez não seja demasiado forçado falar de um possível significado escondido na união dessas duas palavras que, neste contexto, pensamos que não são em absoluto sinónimas.

        Podemos considerar o ser «imagem” como uma qualidade constitutiva da criatura que jamais se perde, que nos torna capazes de nos abrir ao entendimento e ao amor de Deus e que permite que essa capacidade reflexe e desenvolva o que de divino há em cada ser humano.
Neste sentido, Cristo na sua humanidade é a «imagem viva de Deus Pai”; e o ser humano encerra em si próprio um reflexo dessa mesma divindade, a ter em si mesmo e «ser por si” e a liberdade de «actuar por si”.

        O ser «semelhança” poderia significar e desenvolvimento desse «homem novo”, que veremos ao estudar a Redenção, segundo a sugestão de São Paulo aos Colossenses: «Despojai-vos do homem velho com as suas obras, e revesti-vos do homem novo, que se vai renovando até alcançar um conhecimento perfeito, segundo a imagem do seu Criador”.[viii]
De certo modo, a «semelhança” levaria consigo desenvolver essa «participação da vida e da natureza de Deus” que constitui a pessoa humana em sentido absoluto.

        Em qualquer caso, e se abram as perspectivas que se abrirem, temos de sublinhar que o ter sido criado à «imagem e semelhança” de Deus é o fundamento da dignidade humana, a riqueza fontal do seu ser pessoa.
E Deus manifesta claramente a sua vinculação radical com o homem nesta passagem da Escritura: «Quem verter sangue de homem, por outro homem será o seu sangue vertido, porque a imagem de Deus tornou o homem Ele”.[ix]

        O ser humano, homem e mulher, precisamente pela unicidade do ser pessoa, e o sentido absoluto do seu ser pessoa, é «imagem e semelhança de Deus” em todos os planos da sua existência: o natural-biológico; natural-espiritual e sobrenatural; excluindo, logicamente, qualquer referência que fizesse pensar numa «corporalidade” de Deus ou que levasse a afirmar que o nosso corpo reflecte alguma «forma” de Deus.
E isto, conscientes do grande mistério que representa a presença do «corpo glorioso” de Cristo na Trindade.

        Ao ser «constitutiva” do homem, podemos dizer que não há nenhum ser humano que não seja «imagem e semelhança de Deus” e que o ser imagem é diferente no homem e na mulher.

Quando São Paulo escreve que o homem é imagem e reflexo de Deus e a mulher é reflexo do homem, conclui assinalando: «Pelo demais, nem a mulher sem o homem, nem o homem sem a mulher; no Senhor. Porque, se a mulher procede do homem, o homem, por sua vez, nasce mediante a mulher. E tudo provém de Deus”.[x]

        Ao mesmo tempo, a criatura o ser na sua totalidade «imagem e semelhança de Deus” não só a converte em «capaz de Deus”, como torna também possível o diálogo «com Deus”. E não só na profundidade da alma de cada criatura ou na altitude do seu pensamento, mas também no seu viver natural, espiritual e sobrenatural, na sua história na terra e na eternidade no céu.

        O gozo e a felicidade da criatura em viver com Deus converte-se em «imagem e semelhança” da alegria de Deus de estar e viver com os homens. Única criatura a que Deus ama por si mesma.
(cont)

ernesto juliá, La belleza de ser cristiano, trad. ama)






[i] Gn 1, 27
[ii] Catecismo n. 355
[iii] Catecismo Catecismo n. 357
[iv] I. II, 19
[v] Catecismo n. 362
[vi] Catecismo n. 363
[vii] Catecismo n. 364
[viii] 3, 9-10
[ix] Gn 9, 6
[x] 1 Col 11, 11-12