15/04/2023

Mt V


 

COMENTANDO OS EVANGELHOS

SÃO MATEUS

 

Cap V

2 –

 

Pelas palavras de Jesus podemos concluir que, na Vida Eterna, não haverá como que uma “nivelação” de todos.

Haverá “grandes” e “pequenos”, o Senhor afirma-o.

Isto tem importância?

Penso que sim, embora considere que, na Vida Eterna, o Supremo Bem é a visão beatífica da Face de Deus.

Tem a ver, sim, com a obrigação de fazermos o melhor que pudermos e não nos contentarmos com os “mínimos”, como que “ir andando”, não fazendo muitos disparates, não pecando com gravidade e… pronto!

Quem assim procede corre um perigo enorme, porque quanto mais baixo se voa maior é a possibilidade de chocar com um obstáculo que trave o “voo” e, a queda, pode ser grave.

Deve ser terrível a responsabilidade de alguém que propositadamente ensina, propaga o erro, a falsa doutrina

Quanto mais grave, quanto maior a inocência e fragilidade de quem é objecto de tal procedimento mais “apertadas” serão as contas que terá de prestar.

Poderá alguém ter dúvidas sobre como alcançar a Vida Eterna?

Pelas palavras de Jesus podemos ver claramente o caminho e a obrigação.

Cumprir a Lei não basta é necessário levar outros a fazer o mesmo.

Este trecho do Evangelho pode considerar-se um autêntico e definitivo aviso de Jesus Cristo sobre o comportamento de qualquer ser humano.

Não há meias palavras nem tergiversações, mas tão só afirmações muito concretas e reais sobre o procedimento a ter como norma de vida.

Pagar o que se deve, ter atenção ao próximo e às suas necessidades, viver, em suma, com inteireza e verdade nos actos como nas acções concretas.

Estas é que têm valor, não as intenções nem os desejos.

Como posso estar "bem" com Deus quando estou "mal" com o meu próximo?

Acaso o Senhor poderia aceitar tal coisa?

Infelizmente há alguns cristãos que vão pela vida fora como actores.

Sim… não exagero!

Frequentam com assiduidade a Igreja e os Sacramentos, usam grandiloquência sobre assuntos da religião, mas, privadamente, mantêm uma lista de agravos e reivindicações que aguardam ocasião para cobrar e fazer.

Ofensas antigas, más interpretações, juízos precipitados e malévolos e coisas do mesmo género de que se sentem credores quando, na maior parte das vezes, são eles mesmos os devedores.

Há que pôr as coisas em ordem e agir com critério em toda e qualquer circunstância que o cristão é-o sempre e não apenas quando é conveniente.

Vem Jesus Cristo, neste texto de São Mateus, como que a "preparar o terreno" para o que será o Mandamento Novo.

O amor ao próximo é inseparável do amor a Deus ou, por outras palavras, não é possível amar a Deus sem amar o próximo.

Este mandamento é - se se me permite a expressão - absolutamente lógico porque sendo os homens TODOS filhos de Deus, pertencendo à Família Divina, não se concebe que não se amem entre si.

Do amor nasce a união e o Senhor quer que sejamos «Um como Ele e o Pai são UM!»

Mais uma vez o Senhor deixa bem claro que os dois primeiros mandamentos - amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos - são inseparáveis e não pode conceber-se um sem o outro.

O Senhor tem a prioridade mas esta não existirá sem a segunda.

Talvez que nunca nos demos conta que amar o próximo pode tornar-se muito mais difícil que amar a Deus.

Não nos atrevemos a "julgar" Deus ou pôr em causa se O devemos amar ou não.

Já quanto ao próximo muitas vezes guardamos ressentimentos, avaliamos a sua conduta, fazemos o papel de juízes e críticos.

E, tal excede em muito o que não podemos nem devemos fazer.

Há uma “declaração” de Jesus neste trecho de São Mateus que, forçosamente, nos fará pensar detidamente: «todo aquele que olhar para uma mulher, cobiçando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração»

Aqui se vê a importância da “guarda da vista” porque ver é algo muito diferente de reparar.

Quantos pecados – por vezes bem sórdidos – têm a sua origem na vista?

Aliás, todo o pecado, por assim dizer, é sórdido, mau, aberrante, mas, e no caso vertente, ninguém ignora que o nosso pensamento e imaginação nos levam por vezes por caminhos de incrível perversidade.

Basta um segundo, um fugaz pensamento, um desejo mal expresso e, todavia, deixámo-nos corromper.

Tenhamos bem presente o seguinte: Ao demónio não lhe interessa nada que nos concentremos na oração, que, inclusive, nos preparemos com todo o amor e compunção para receber a Comunhão Eucarística e, assim, não raramente nos assedia com pensamentos ou desejos torpes precisamente nesses momentos.

Eu diria que “a força da tentação” estará em relação directa com a intensidade da nossa união com Deus.

Está claríssimo: para haver pecado é preciso intenção e, mais, mesmo se não se pecar em acto, se houver intenção peca-se em pensamento.

É evidente que o pecado é um acto livre da vontade expressa e - nunca - algo fortuito e inocente.

É fundamental ter uma consciência bem formada e as ideias bem claras: é impossível pecar sem querer!

Porque as circunstâncias, o ambiente, o estado de ânimo... não! Nada disso tem a ver com o pecado ou pode constituir desculpa; por isso mesmo é importante a Confissão frequente porque além de recebermos orientações preciosas sobre o nosso comportamento colhemos força e ânimo para melhor resistir às tentações.

Volto a insistir: o matrimónio não é possível subsistir sem respeito.

Respeito por si mesmo como pessoa, como cristão e respeito pelo outro também como pessoa e como filho de Deus.

Quem não se respeita a si próprio na sua dignidade humana dificilmente respeitará o outro e, com tal é impossível subsistir o amor cuja base assenta na confiança absoluta que deve existir entre os cônjuges.

Cristo afirma, uma vez mais, que a Missão que O trouxe ao mundo encarnado no seio puríssimo da Santíssima Virgem, não foi para instituir uma Nova Lei mas sim para aperfeiçoar e tornar sólida e decisiva a Lei dada por Moisés no monte Sinai.

Toda a Sua pregação confirma este propósito: o Reino de Deus está no meio dos homens – todos os homens – sem distinção nem condições.

Dependerá do homem aceitá-lo e cumprir a Lei e, só assim terá garantida a salvação eterna.

Deus, contudo, é Absolutamente Justo e, por isso mesmo, não impõe mas convida.

 

14/04/2023

Lc IX

 

POR DE 


PO

Dentro do Evangelho


Como o medo e a cobardia podem ter consequências tão diferentes.

Aproximava-se a Páscoa e Jesus sabe que essa será a Sua última Páscoa.

Em Jerusalém irá sofrer todo o martírio da Paixão e Morte. Tudo o que irá acontecer nesses dias derradeiros, está bem patente no Seu espírito.

A Sua natureza divina conhece em pormenor os incríveis sofrimentos, o desprezo, os ultrajes, as mentiras, a violência, o abandono mais completo.

A Sua natureza humana “força-se” a empreender o caminho que O levará a Jerusalém para cumprir o plano salvífico.

Temos de admitir que teve de fazer um esforço enorme, inaudito, para tomar essa firme resolução, como nos diz S. Lucas. Cfr. Lc 9, 51

Também nós nos enfrentamos, muitas vezes, com situações de grande tensão.

Temos pela frente um quadro negro e carregado de problemas, de dificuldades, de grande sofrimento. Sabemos que é inevitável enfrentar a situação e temos de nos dispor a fazer o que tem de ser feito. E, a nossa humanidade revolta-se firmemente contra isto, porque o sofrimento, é contrário à condição humana, porque Deus nos criou para sermos felizes.

 

«Bem-aventurado significa «feliz», «ditoso», e em cada uma das Bem-aventuranças Jesus começa prometendo a felicidade e assinalando os meios para a conseguir. Porque começará Nosso Senhor falando da felicidade? Porque em todos os homens existe uma tendência irresistível para ser felizes; este é o fim que todos os seus actos propõem; mas muitas vezes procuram a felicidade onde não se encontra, onde não acharão senão miséria.» Cfr. j. garrigou lagrange, Las tres edades de la vida interior, Vol I, 188.

 

Só que, a felicidade, pelo menos a felicidade autêntica, duradoura, não está na consolação e no bem-estar, na vida tranquila e sem incidentes.

A verdadeira felicidade está no cumprimento da Vontade de Deus, custe o que custar, doa o que doer.

«A Vontade de Deus é a bússola que em todo o momento nos indica o caminho que nos leva a Ele; é, ao mesmo tempo, o caminho da nossa própria felicidade. O cumprimento do querer divino dá-nos também uma grande fortaleza para superar os obstáculos.» Cfr. francisco fernández carvajal, Hablar com Dios, Advento, 1ª  Sem., 5ª F.

Jesus tranquiliza os seus discípulos apavorados ao vê-lo caminhar sobre as águas: «Sou Eu, não temais» Cfr. Mt 14, 22-36.

Este medo, contudo, não é cobardia, é temor genuíno perante o desconhecido, o insólito, o inexplicável.

O Senhor mantém-se nesta atitude permanente: «Sou Eu, não temais».

A cada passo diz-nos que, n’Ele, encontramos refúgio, segurança tranquilidade.

     

«Não conseguia deter a corrente. Caudaloso, o rio, levava-me no seu seio numa viagem rápida, vertiginosa para um destino que, pensava eu, só poderia ser o mar. Mal podia manter a cabeça fora de água e, quando o conseguia, quase sufocava com as golfadas que me entravam pela boca, pelo nariz... O que seria de mim se não conseguisse aproximar-me da margem, encontrar algo a que pudesse agarrar-me e sair daquele torvelinho?

O que seria de mim se fosse assim, não sei por quanto tempo, até ao mar?De profundis clamavit a Te Domine! Cfr. Slm 129. Da profundidade da minha aflição, clamei por Ti, meu Deus!

Ne timeas! Ouvi-te, claramente.

Senhor, eu confio em Ti, sei, tenho a certeza que tudo é para bem, mas ajuda a minha debilidade, a minha pouca fé, a minha confiança que vacila.» AMA, memórias do Hospital, Synesthesia,

O medo de não sermos ouvidos nas nossas preces é consequência da nossa pouca fé.

Sabemos o que somos e como somos e, essa constatação leva-nos, por vezes, a duvidar que Deus nos oiça quando Lhe pedimos algo. A oração é sempre petição.

Esquecemo-nos que Ele nos conhece intimamente, melhor, muitíssimo melhor, que nós próprios nos conhecemos e, não obstante, tem para connosco carinho e solicitude de Pai extremoso que só quer o nosso bem.

É fundamental que a nossa oração não seja anónima, desgarrada, sem convicção, mas sim, uma oração confiada de filhos.

 

«Ser Teu filho Senhor! Esta certeza é cada vez mais uma presença dominante no meu espírito e desejo sinceramente que assim continue, aumente e cresça até tomar conta total de mim. De tal modo desejo que esta realidade tome posse de mim, que me entrego totalmente nas Tuas mãos amorosas de Pai misericordioso, e embora não saiba bem para que me queres, para que queres como filho a alguém como eu, entrego-me confiante que me conheces profundamente, com todos os meus defeitos e pequenas virtudes e é assim, e não de outro modo, que me queres ao pé de Ti». AMA, orações pessoais

 

«Lembro-me que houve muitos dias em que não conseguia rezar de uma forma consistente. Os pensamentos entrechocavam-se e resultavam numa confusão sem sentido. Entreguei-me com decidida persistência às orações vocais: Ave-Marias, Pai-nossos, Mistérios do Rosário, as orações simples que rezo desde criança.

Aprendi agora que não me aconteceu nada de estranho, nem fui o primeiro – nem serei seguramente o último – a passar por tal transe.» AMA, memórias do Hospital

 

«Para que a oração desenvolva força purificadora, deve, por um lado, ser muito pessoal, um confronto do meu eu com Deus, com o Deus vivo; mas, por outro, deve ser incessantemente guiada e iluminada pelas grandes orações da Igreja e dos santos, pela oração litúrgica, na qual o Senhor nos ensina continuamente a rezar de modo justo.

O cardeal Nyugen Van Thuan contou no seu livro de Exercícios Espirituais, como na sua vida tinha havido longos períodos de incapacidade para rezar, e como ele se tinha agarrado às palavras de oração da Igreja: ao Pai-nosso, à Ave-Maria e às orações da Liturgia. (Testimoni della speranza, Città Nuova, 2000, 156 ss.)

 

Na oração, deve haver sempre este entrelaçamento de oração pública e oração pessoal, Assim podemos falar a Deus, assim Deus nos fala a nós»  Bento XVI, Encíclica, Salvos na Esperança, 34.

De facto, nada é novo, não somos os primeiros em nada, antes de nós, já alguém pensou, fez ou desejou algo semelhante.

Esta é, sem dúvida, a tendência que todos - mais ou menos -, temos para nos considerarmos únicos, peculiares, especiais. Na verdade, só somos particulares aos olhos de Deus, que nos conhece pelo nosso nome, pelo qual nos chamou mesmo antes do início do mundo.

Se acreditarmos nisto, que é essencial para a nossa fé, facilmente concluiremos que, o nosso caminho se cruza, definitivamente, com o caminho do Jesus que passa, na nossa vida, sempre tão perto de nós.

 

«E foi com ele».

 

Jesus não se detém mais tempo.

Provavelmente dando o braço a Jairo, numa atitude de confiança, de tranquila certeza, diz-lhe que indique o caminho para sua casa. Como deve tranquilizar-nos esta atitude do Mestre: caminhando confiadamente connosco, deixando que O levemos onde queremos ir, ao encontro da nossa necessidade.

Certamente entabulou conversa com o Seu companheiro, informando-se da sua vida, do seu trabalho, a família. Tal como fará em muitas ocasiões, muito particularmente com dois, a caminho de Emaús.

Esses também vão para sua casa, procurando refúgio, recato, pondo-se ao abrigo de uma situação que os afligia em extremo. Tinha acontecido um desastre, algo que não conseguiam explicar. Nas suas mentes entrechocavam-se os pensamentos mais contraditórios, as dúvidas mais profundas.

Estão desorientados, sem saber que fazer ou pensar.

E, Jesus, junta-se-lhes no caminho e ouve-os, escuta as suas dúvidas, interroga-os com interesse. Quer saber, deseja inteirar-se. E, depois, esclarece, explica, tranquiliza.

Este Senhor que caminha ao nosso lado e cuja presença, tantas vezes, ignoramos, é o mesmo Jesus que caminha agora com Jairo, tranquilamente, conversando na Sua voz profunda, suave, segura, transmitindo paz, confiança, tranquilidade.

Como desejamos esta companhia tão excelente todos os dias da nossa vida, em todos os caminhos que temos de percorrer! Nunca estamos sozinhos, Jesus está sempre connosco e, por extraordinário que possa parecer, mesmo quando não O convidamos expressamente, ou nos esquecemos de Lhe pedir para nos acompanhar.

 

13/04/2023

Mt XXXIII

 

COMENTANDO OS EVANGELHOS

 

SÃO MATEUS

Cap XXIII

 

1-12 - Quem se humilha será exaltado e quem se exalta será humilhado disseste Tu, Senhor. E, como foste Tu quem o disse, só pode ser verdade.

Quantas vezes não se verifica!

E, quanto a mim?

Que se passará?

Sim porque eu tenho esta prosápia permanente, esta sede de protagonismo e evidência – as minhas filactérias – sempre olhar para cima, pescoço bem esticado para ser visto e, naturalmente, admirado.

Aceita, Senhor, a minha declaração formal do que sou:

Nada, absolutamente, e trata-me assim: como nada!

 

Já se disse e repete-se: de nada interessam nem as palavras nem as "teorias" se não correspondem às obras.

O exemplo sim, arrasta, catequiza, convence.

Res non verba - obras e não palavras - este é o princípio, o axioma.

No trabalho de Deus e por Deus como é todo o apostolado que a nossa condição de cristãos nos obriga e urge, não pensemos tanto no que havemos de dizer, mas, antes, no que temos de fazer.

As nossas acções falarão por si mesmas e, mais, identificam-nos como pessoas credíveis e fiáveis.

 

O tema principal deste trecho de São Mateus é o “serviço”.

Não parece desajustado porque quem o propõe é o “Servidor” por excelência: o próprio Jesus Cristo.

Parecerá a alguns que servir não é “próprio” de criaturas livres e senhoras de si, mas antes, de outros que não têm outra capacidade senão obedecer.

Ponho as coisas de outro modo – talvez simplista – que me parece resolver de vez a questão:

Prefiro servir a minha pessoa, a minha vontade, os meus desejos e ambições ou servir a Deus Nosso Senhor?

A primeira opção é arriscada porque sou um simples homem limitado e em permanente evolução;

A segunda é seguríssima porque só pode ser para bem, porque Deus É, não evolui, não muda, sabe absolutamente tudo o que melhor convém.

 

Este trecho do Evangelho propõe-nos um exame sério, detalhado, profundo.

Somos que dizemos ser?

Fazemos o que dizemos que deve ser feito?

Julgamo-nos de alguma forma "superiores", "especiais", dignos de admiração?

Talvez que, depois desse exame, fiquemos surpreendidos com a conclusão.

Não deixemos que os nossos defeitos e fraquezas nos dominem ou condicionem, lutemos, antes, por ser sinceros, honestos no proceder e intelectualmente.

Esta "luta" terá de ser constante, sem descanso nem com medo dos fracassos.

Se pedirmos ajuda ao Senhor, Ele não nos faltará.

 

Este discurso de Jesus que o Evangelista relata, é, poderíamos dizer, recorrente. (1-12)

De facto, Jesus Cristo encontra-se quase que em permanente confronto com as classes dominantes do povo de Israel.

E, a causa, a raiz desse confronto – que da parte contrária chega a ser ridícula – é a falta de humildade, o desejo de protagonismo e evidência, a auto-consideração.

Deus – com palavras humanas – não sabe o que fazer com pessoas assim nem, aliás, elas se preocupam muito com isso já que como quase auto-satisfazem a si próprios e se acham acima de todos os outros.

Quem anda pela vida “olhando o próprio umbigo”, portando-se como se fosse o dono e senhor de toda a verdade, na realidade despreza os outros e, quem despreza o próximo, acaba sempre por desprezar o próprio Deus.

 

Talvez que o que mais me surpreende em Jesus Cristo é a Sua extraordinária paciência perante os “usurpadores” da verdade como são, de facto. os chefes do povo de Israel.

Não deixando, embora, passar sem referir os abusos e atropelos à Lei, tem uma atitude didáctica para com eles na medida em que procurando não pôr o povo contra eles quer, por outro lado, chamar a sua atenção para os múltiplos erros e abusos que cometem.

A Sua doutrina é positiva e não trava uma luta mas, doutrinando, ensina e ajuda os que, enganados, “andam como ovelhas sem pastor”.

 

Neste trecho de São Mateus, (Cfr. 13-22) Jesus dirige-se particularmente aos fariseus, mas,  em boa verdade, poderia repetir estas mesmas palavras a muitos cristãos que se "arvoram" em juízes e directores de outros,  expondo doutrina e princípios rigorosos que eles próprios não só não cumprem como desprezam.

São falsos e perigosos porque aproveitando-se (não poucas vezes em proveito próprio) de pessoas simples ou incautas, espalham o erro e abusam da boa-fé dos que os ouvem.

Normalmente são bem-falantes e prometem tudo quanto as pessoas desejam ter ou alcançar.

Cuidado, pois!

São as obras e não as palavras que revelam a verdade.

 

Neste trecho de São Mateus aparece-nos um Jesus Cristo um pouco “diferente” do habitual, como se “tivesse perdido a paciência” com os opositores do costume.

Talvez, de facto, a impaciência de Jesus se mostre clarissimamente, sem rodeios nem meias palavras e, isto, demonstra uma vez mais, que, O Senhor, só diz a verdade em qualquer circunstância.

A argumentos inconsistentes e sem qualquer critério há que responder “pondo as coisas o seu lugar”, principalmente porque é necessário que, os “pequeninos” saibam onde está a verdade e o caminho certo.

 

Jesus Cristo numa assaz longa palestra põe a nu, sem quaisquer reticências ou escolha de palavras, quanto no comportamento dos fariseus é reprovável e falso.

Fala à chamado “classe dominante” do povo, aqueles que se outorgam qualidades e direitos de guias e mentores, responsáveis pela aplicação da lei.

Não são, de facto, o que dizem ser e, ainda pior, praticam o contrário do que exigem aos outros.

O Senhor detesta a hipocrisia e a duplicidade e não pode aceitar sem se pronunciar vigorosamente contar tal gente.

 

Talvez que ao ler este trecho do Evangelho (Mt 23-26) tenhamos de considerar a necessidade de um exame ao nosso comportamento.

É verdade... consideramos o comportamento dos fariseus no tempo de Cristo repugnante ou pelo menos pouco recomendável, mas será que nós não teremos por vezes essa mesma tendência de nos agarrarmos às coisas menores, aos detalhes de escassa importância desprezando o que realmente interessa para cumprir-mos em tudo a Vontade de Deus?

       Justiça, Misericórdia e Fidelidade!

O mais importante da lei!

Justiça para contigo, Senhor, dando-te o que Te pertence que é tudo porque tudo criaste.

Nada do que julgamos ter é nosso.

Misericórdia que é compaixão que é amor.

Dando aos outros o que Tu esperas que nós demos: tudo o que estiver ao nosso alcance.

Fidelidade que é a constância e a perseverança no bom caminho, que, és Tu, Caminho, Verdade e vida.

 

O Senhor não se coíbe na sua apreciação do comportamento dos fariseus. (27-32)

Não serão todos evidentemente porque, como em todas as classes ou grupos sociais, há pessoas correctas e com são critério.

Mas infelizmente e sobretudo naquele tempo, o serem uma classe dominante perverteu a sua "missão" de chefes do povo preocupando-se mais com as aparências que com o exemplo que deveriam dar.

Assim, desviando a verdadeiras questões e iludindo os problemas concretos, contribuíram fortemente para que o povo anónimo fosse considerado por Cristo como «ovelhas perdidas sem pastor».

 

São Mateus continua a relatar o discurso de Jesus dirigido directamente aos fariseus e doutores da lei

É um longo discurso em que nada fica por dizer, vícios por pontar, procedimentos incorrectos por revelar.

É necessário que o faça porque ninguém tem nem a coragem nem a determinação de Cristo por revelar a verdade.

O povo, anónimo e submisso, era como o Senhor o apelidará: «Como ovelhas sem pastor», e, Ele, veio ao mundo para ser o seu Pastor, fiel e seguro que o conduzirá por caminhos de salvação.

Talvez que, hoje em dia, faltem pastores autênticos e dedicados ao rebanho que o Senhor lhes confiou.

O Papa não se cansa de chamar a atenção para o primeiro e mais urgente ministério da Igreja:

Guiar os fiéis, instruindo e ensinando, mas, sobretudo, dando exemplo claro e iniludível que atraia e conduza o povo de Deus para Ele.

 

12/04/2023

Mc XVI

 1 Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram perfumes para irem embalsamar Jesus. 2 Partindo no primeiro dia da semana, de manhã cedo, chegaram ao sepulcro quando o sol já era nascido. 3 Diziam entre si: «Quem nos há-de retirar a pedra da entrada do sepulcro?». 4 Mas, olhando, viram removida a pedra, que era muito grande. 5 Entrando no sepulcro, viram um jovem sentado do lado direito, vestido de uma túnica branca e ficaram assustadas. 6 Ele disse-lhes: «Não vos assusteis. Buscais a Jesus Nazareno, o crucificado? Ressuscitou, não está aqui. Eis o lugar onde O depositaram. 7 Mas ide, dizei a Seus discípulos e a Pedro que Ele vai diante de vós para a Galileia; lá O vereis, como Ele vos disse». 8 Elas, saindo do sepulcro, fugiram, porque as tinha assaltado o temor e estavam como que fora de si. Não disseram nada a ninguém, tal era o medo que tinham. 9 Jesus, tendo ressuscitado de manhã, no primeiro dia da semana, apareceu primeiramente a Maria Madalena, da qual tinha expulsado sete demónios. 10 Ela foi noticiá-lo aos que tinham andado com Ele, os quais estavam tristes e chorosos. 11 Tendo eles ouvido dizer que Jesus estava vivo e que fora visto por ela, não acreditaram. 12 Depois disto, mostrou-Se de outra forma a dois deles, enquanto iam para a aldeia; 13 os quais foram anunciar aos outros, que também a estes não deram crédito. 14 Finalmente, apareceu aos onze, quando estavam à mesa, e censurou-lhes a sua incredulidade e dureza de coração, por não terem dado crédito aos que O tinham visto ressuscitado. 15 E disse-lhes: «Ide por todo o mundo, e pregai o Evangelho a toda a criatura. 16 Quem crer e for baptizado, será salvo; mas quem não crer, será condenado. 17 Eis os milagres que acompanharão os que crerem: Expulsarão os demónios em Meu nome, falarão novas línguas, 18 pegarão em serpentes e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará mal; imporão as mãos sobre os doentes, e serão curados». 19 O Senhor, depois de assim lhes ter falado, elevou-Se ao céu e foi sentar-Se à direita do Pai. 20 Eles, tendo partido, pregaram por toda a parte, cooperando com eles o Senhor e confirmando a palavra com os milagres que a acompanhavam.

 

Comentários:

 

Diferem pouco os relatos dos Evangelistas Mateus, Marcos, Lucas e João. Este último só refere Madalena como tendo sido a única que terá visto o Ressuscitado e quem terá dado a notícia do desaparecimento do corpo de Jesus aos Apóstolos. Pouco importa, já que, como é lógico, alguém o terá comunicado a Pedro que, na sequência, corre juntamente com João até ao tumulo para confirmar a notícia. O que nos interessa sublinhar é a dedicação feminina que, em contraste com o receio dos Apóstolos recolhidos no Cenáculo, as leva a ir ao tumulo para prestar homenagem ao Senhor. A mulher assume portanto, um primeiríssimo lugar na história da Redenção  talvez porque o seu coração seja mais doce, mais terno que o coração dos homens, porque, no fim e ao cabo, o  que as leva ao sepulcro é o seu amor por Jesus Cristo.

Detendo-me um pouco nesta frase: «Eis os milagres que acompanharão os que crerem» fico a pensar na força da fé na palavra de Deus. Jesus, de facto, diz que àqueles que acreditarem serão dados poderes extraordinários. Porquê? Parece-me que Jesus quer garantir aos primeiros crentes auxílios especiais para ultrapassarem as dificuldades que, sabe, irão enfrentar. Na verdade as perseguições e ataques de toda a ordem contra os fiéis seguidores da Palavra, irão surgir logo no início da Igreja nascente.

Que felicidade teres partido para o Céu!, não me canso de pensar. Indo ficasTe connosco, comigo, para sempre. Na presença viva e real na Sagrada Eucaristia que é o meu alimento, a minha força, o manancial onde bebo a água da vida eterna. Tenho-Te aqui como nenhum dos Teus Apóstolos Te teve; eles tinham a Tua companhia, gozavam da Tua presença, ouviam as Tuas palavras, viam os Teus gestos. Eu, pelo contrário, tenho isso tudo, ouço-Te no meu coração quando me falas, sinto as inspirações que constantemente sopras no meu entendimento e, finalmente, recebo-Te todo inteiro, em Corpo, Alma e Divindade tal como estás no Céu para onde subiste!

As últimas palavras de Jesus na terra são como que a "passagem de testemunho" aos Apóstolos, dando-lhes as directivas do trabalho a meter ombros, trabalho que é e será a continuidade do que Ele próprio levou a cabo: levar a todos o Reino de Deus e dar-lhes os meios e assistência necessárias para que possam ultrapassar as dificuldades e obstáculos que os esperam. A estes doze entrega a Sua Igreja porque sabe que pode confiar na sua dedicação e empenho em tão extraordinária missão que, não obstante a sua magnitude, seria levada a cabo até ao final dos tempos.

É absolutamente claro que o Baptismo é imprescindível para alcançar a salvação. É O Senhor Quem o afirma. Por isso mesmo se repete: a enorme responsabilidade dos progenitores baptizarem os seus filhos quanto antes. Adiar sem razão - e quase nunca há uma razão verdadeiramente válida -, é um risco que nenhum cristão deve correr porque «não se sabe nem o dia nem a hora».

São Marcos escreve os derradeiros versículos do “seu” Evan­gelho. Com ênfase especial nas relações dos Apóstolos com Jesus Cristo, segue, com evidente cuidado, as longas conversas com Pedro, não omitindo nem as fraquezas, dúvidas, negações e abandonos que pautaram o seu relacionamento com o Se­nhor. É bem evidente que a enorme humildade do Príncipe dos Apóstolos e a rocha sobre a qual Jesus Cristo edificou a Sua Igreja, quis que a hu­manidade ficasse a saber de fonte fide­digna que o cumprimento do mandato do Senhor não se fica a dever à capacidade de cada um e, nem mesmo, à sua en­trega devotada inteiramente à missão que lhes fora confiada – quase todos deram a vida por ela – mas à especialís­sima assistência do Espírito Santo que os converteu em pilares indes­trutíveis e inamovíveis da Igreja.

Por este trecho de São Marcos, verifica-se algo que pode, causar-nos estranheza: a falta de confiança entre os discípulos de Jesus, mesmo daqueles que mais assiduamente andavam juntos. Precisamente, o Evangelista que segue as informações e relatos de Pedro, faz constar quanto dele mesmo se apercebeu e, muito natural­mente, sob as instruções do Chefe dos Apóstolos que deseja fique bem gravado para todo o sempre as fraquezas e debilidades desses esco­lhidos, a começar, por ele próprio. Se eles si entre se amassem verdadeiramente como Jesus os amava… A confiança conquista-se com o amor e, sem ela, ele não é possível. Não importam os defeitos e “particularidades” de carácter do outro, se de facto se ama, acredita-se nele.

Custa-nos dar-nos conta da quase impenetrável desconfiança dos Onze. Ficamos como que ofendidos porque pensamos... ‘Connosco seria muito diferente, correríamos a prostrar-nos ante Jesus, abraçando e beijando os Seus pés chorando de alegria’. É o que pensamos, exactamente porque aqueles onze nos trouxeram a novidade confirmando a Ressurreição de Cristo. Quase todos deram a própria vida para que nós conhecêssemos a ver­dade e, conhecendo-a, sejamos levados por esses nobres sentimentos de veneração, adoração e acções de graças pelo Ressuscitado que nos mereceu a Salvação.

São Marcos segue os relatos de Pedro. Este, uma vez mais, propositadamente decerto, omite o seu papel nos dias que se seguiram à morte de Jesus. Sabemos, por São João que foi ao túmulo na madrugada de Domingo e que pode constatar os sinais da ressurreição do Senhor. É natural que os discípulos mais próximos de Jesus, nomea­damente os Doze, estivessem reunidos com Pedro a quem o Senhor tinha, iniludi­velmente, nomeado o Chefe e a Pedra onde assentaria a Sua Igreja. Pedro tem, portanto, um papel importantíssimo nestes dias. Mais é de admirar e louvar esta singeleza do Apóstolo em querer passar despercebido. Com toda a certeza que a Paixão e Morte do Senhor o teriam abalado profundamente, pensando, talvez, na sua impotên­cia para salvar o seu Mestre, depois das bravatas na noite de Quinta-feira. O Príncipe dos Apóstolos dá, uma vez mais, uma lição da sua profunda humildade.

Teríamos nós, naquelas circunstâncias, acreditado que Jesus ressusci­tara? Então porquê, no nosso íntimo, estranhamos que os Apóstolos duvi­dassem? Sim, porque, nós, agora, sabemos muitíssimo mais do que eles então sabiam, e sabemo-lo graças a eles que, tendo vencido todas as dúvi­das, foram testemunhas indómitas da Ressurreição do Senhor, defen­dendo com a própria vida essa verdade que é o fundamento da nossa Fé. Agradecidos ao Senhor que nos ganhou a VIDA mas, também, muito gratos a esses homens simples e algo rudes, que garantiram que o viéssemos a saber.

Em muitas das chamadas “igrejas” que proliferam um pouco por toda a parte, uma das práticas correntes para atrair e fidelizar prosélitos é precisamente o recurso a esses “milagres” que o Senhor promete aos que O seguem e levam a Sua Palavra aos outros. Como se sabe, tais “milagres” não passam de mistificações mais ou menos grosseiras porque ninguém tem esse poder senão aqueles a quem o Senhor o concede. Os milagres são feitos por Jesus Cristo que se serve dos homens por Si escolhidos como instrumentos para os realizar. Não é possível, pois, operar milagres sejam quais forem, em proveito próprio e, muito menos, se O Senhor está ausente ou é abusivamente evocado seja por quem for.

O segredo do êxito da pregação dos Apóstolos revela-se neste trecho do Evangelho. Os milagres, factos extraordinários que confirmarão, de certo modo, que a acção que levam a cabo está de acordo com a vontade do Se­nhor. Não dizem nada em seu nome pessoal, não prometem coisa nenhuma a não ser a Vida Eterna. O Reino de Deus, pela acção destes homens, ir-se-á espalhando pelo mundo conhecido de então e terá uma continuidade pelos séculos fora até ao final dos tempos. Não escolhem pessoas como se fossem “privilegiados” a quem é con­cedido o acesso à Palavra ou locais onde o acolhimento possa ser mais favorável. Não! O Senhor é bem claro: «Ide por todo o mundo, e pregai o Evangelho a toda a criatura.» E, isto, não tem de espantar-nos porque, afinal, o mundo é dele e as criaturas são Suas.

«Tende confiança, Eu venci o mundo». Esta firmação de Cristo que São Marcos recolhe, deve ser, é efectiva­mente, para os homens, sobretudo os cristãos empenhados no apos­tolado - e que devem ser todos, sem excepção - uma afirmação que tranquiliza e infunde confiança. O mundo nada pode contra Cristo e embora se mostre agreste e até mesmo ameaçador, os Seus enviados, os que, afincadamente, traba­lham na Sua vinha, nada têm a temer. Jesus Cristo que prometeu a Sua assistência incondicional não falhará, quanto disse cumprir-se-á integralmente. Tenhamos confiança.  

Os apóstolos, que devemos ser todos os cristãos, não somos mais - não devemos ser - que instrumentos nas mãos de Deus. Para, sendo dóceis, fazermos o que Ele quer e como quer, e dúcteis para que deixemos que nos moldar a Seu gosto de forma a melhor fazermos o que manda. E faremos milagres! É verdade! Milagres autênticos, grandiosos, não por nossa virtude que é diminuta, ou poder que é limitado, mas porque Ele quer, através de nós, “marcar” o nosso apostolado com o selo divino para que seja evidente que não se trata do “nosso” mas do Seu apostolado.

Visto apressadamente e com “vistas curtas”, poderia parecer que a expansão do Evangelho se deveu a uma bem montada operação de marketing em que, para atrair e convencer as pessoas se recorre a prodígios e acções extraordinárias. Do que se trata é que os discípulos, quando fazem o que o mestre lhes manda fazer de certa forma, personificam o próprio mestre e, assim, de certa forma, estes “enviados” levam consigo os poderes com que o seu Mestre – Jesus Cristo – Se afirma como Messias. E não o fazem por um extraordinário poder ou excepcionais dons mas, apenas e unicamente, pelo poder da sua fé e inteira confiança em Jesus Cristo porque, de facto, quem opera os milagres é o Senhor. Nós nunca passamos de meros instrumentos nas Suas mãos.

É preciso que os novos crentes se destaquem nas sociedades em que vivem. A principal forma de destaque é, como muito bem sabemos, o exemplo de uma nova vida, novos costumes, novas práticas. Mas há que “atrair” outros mais cépticos ou incrédulos e, nas socieda­des de então, as faculdades ou virtudes extraordinárias são um meio muito eficaz para tal. Talvez por isso, Jesus Cristo refira estes “poderes especiais” para os que acreditarem e, de facto, como Ele próprio o afirmou por várias vezes, a quem crê tudo é possível.

É de toda a justiça que os cristãos celebrem, louvem e agradeçam a essas “colunas da Igreja” que sem olhar a dificuldades de toda a or­dem, cumpriram amorosamente, o mandato de Cristo. Sem a sua entrega, plena, total, a Igreja, embora com Cabeça – que é Cristo – não teria “corpo”. Ao longo dos tempos quantos foram os verdadeiros apóstolos da cris­tandade? Hoje em dia, quantos são? Por todo o mundo, os cristãos voltam-se para Roma, para esse homem que, não obstante a sua idade avançada, os urge com persistente ím­peto, a caminhar com perseverança e dedicação a levar Cristo a todos os lugares da terra. Ficamos a dever a São Marcos o conhecimento das 12 pessoas que o Senhor escolheu como “colunas” da Sua Igreja, das suas características pessoais, fragilidades, e limitações bem notórias, inclusive as negações e infidelidades. Revela-se assim a profunda humildade desses homens, nomeadamente de São Pedro, que não se opõem, antes terão desejado, que tudo constasse para que nós, cristãos, possamos ver que podemos perfeitamente estar “à altura” dos Doze e sermos como eles foram fiéis até à morte a nosso Senhor Jesus Cristo.

Jesus Cristo termina a Sua missão na terra e volta para de onde veio. Redimiu e salvou a humanidade ganhando-nos o “estatuto” de “Filhos de Deus em Cristo Jesus”. Bens inestimáveis que nunca poderemos agradecer totalmente mas que, - isso sim – devemos procurar retribuir e, a única forma de o fazer com absoluta segurança, é cumprir quanto nos disse que fizéssemos fazendo em tudo a Vontade de Deus Nosso Senhor.

Acreditar em Jesus Cristo tem sempre um prémio e quem for baptizado terá um prémio ainda maior. Ao contrário de nós, humanos, que tentamos muitas vezes Deus com as chamadas “promessas” - se me fizeres isto eu faço aquilo – Jesus é muito claro e objectivo: Os simples factos de acreditar e ser baptizado trazem consigo benefícios incalculáveis e para sempre. Sobretudo, naqueles primeiros tempos, os privilégios prometidos seriam de extraordinário valor para a missão que esperava os convertidos ao Reino de Deus.

Não é possível acreditar na Ressurreição de Cristo sem a luz da Fé. Quanto mais intensa for essa luz melhor interiorizarmos esse aconte­cimento que constitui a base o fundamento da nossa santa religião. Peçamos ao Espírito Santo, Senhor que dá a Luz, que a derrame sobre nós.

O evangelista é parco nas palavras. Realmente, São Marcos - que escreve o que ouviu da boca de Pedro -  não foi testemunha directa dos acontecimentos após a Ressurreição do Senhor e, portanto, toda a emoção e choque de sentimentos que outros deixam entrever não está presente no que escreve. Mas, o deveras importante é reter as instruções e mandatos do Mestre, o que deseja que façam e como. É isso que deve interessar aos Seus seguidores que somos todos nós os baptizados.

 

 

11/04/2023

Mt XIV

1 Por aquele tempo, a fama de Jesus chegou aos ouvidos de Herodes, o tetrarca, 2 e ele disse aos seus cortesãos: «Esse homem é João Baptista! Ressuscitou dos mortos e, por isso, se manifestam nele tais poderes miraculosos.» 3 De facto, Herodes tinha prendido João, algemara-o e metera-o na prisão, por causa de Herodíade, mulher de seu irmão Filipe. 4 Porque João dizia-lhe: «Não te é lícito possuí-la.» 5 Quisera mesmo dar-lhe a morte, mas teve medo do povo, que o considerava um profeta. 6 Ora, quando Herodes festejou o seu aniversário, a filha de Herodíade dançou perante os convidados e agradou a Herodes, 7 pelo que ele se comprometeu, sob juramento, a dar-lhe o que ela lhe pedisse. 8 Induzida pela mãe, respondeu: «Dá-me, aqui num prato, a cabeça de João Baptista.» 9 O rei ficou triste, mas, devido ao juramento e aos convidados, ordenou que lha trouxessem 10 e mandou decapitar João Baptista na prisão. 11 Trouxeram, num prato, a cabeça de João e deram-na à jovem, que a levou à sua mãe. 12 Os discípulos de João vieram buscar o corpo e sepultaram-no; depois, foram dar a notícia a Jesus. 13 Tendo ouvido isto, Jesus retirou-se dali sozinho num barco, para um lugar deserto; mas o povo, quando soube, seguiu o a pé, desde as cidades. 14 - Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e, cheio de misericórdia para com ela, curou os seus enfermos. 15 Ao entardecer, os discípulos aproximaram-se dele e disseram-lhe: «Este sítio é deserto e a hora já vai avançada. Manda embora a multidão, para que possa ir às aldeias comprar alimento.» 16 Mas Jesus disse-lhes: «Não é preciso que eles vão; dai-lhes vós mesmos de comer.» 17 Responderam: «Não temos aqui senão cinco pães e dois peixes.» 18 «Trazei-mos cá» - disse Ele. 19 E, depois de ordenar à multidão que se sentasse na relva, tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao céu e pronunciou a bênção; partiu, depois, os pães e deu-os aos discípulos, e estes distribuíram-nos pela multidão. 20 Todos comeram e ficaram saciados; e, com o que sobejou, encheram doze cestos. 21 Ora, os que comeram eram uns cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças. 22 Depois, Jesus obrigou os discípulos a embarcar e a ir adiante para a outra margem, enquanto Ele despedia as multidões. 23 Logo que as despediu, subiu a um monte para orar na solidão. E, chegada a noite, estava ali só. 24 O barco encontrava-se já a várias centenas de metros da terra, açoitado pelas ondas, pois o vento era contrário. 25 De madrugada, Jesus foi ter com eles, caminhando sobre o mar. 26 Ao verem-no caminhar sobre o mar, os discípulos assustaram-se e disseram: «É um fantasma!» E gritaram com medo. 27 No mesmo instante, Jesus falou-lhes, dizendo: «Tranquilizai-vos! Sou Eu! Não temais!» 28 Pedro respondeu-lhe: «Se és Tu, Senhor, manda-me ir ter contigo sobre as águas.» 29 «Vem» - disse-lhe Jesus. E Pedro, descendo do barco, caminhou sobre as águas para ir ter com Jesus. 30 Mas, sentindo a violência do vento, teve medo e, começando a ir ao fundo, gritou: «Salva-me, Senhor!» 31 Imediatamente Jesus estendeu-lhe a mão, segurou-o e disse-lhe: «Homem de pouca fé, porque duvidaste?» 3 2E, quando entraram no barco, o vento amainou. 33 Os que se encontravam no barco prostraram-se diante de Jesus, dizendo: «Tu és, realmente, o Filho de Deus!» 34 Após a travessia, pisaram terra em Genesaré. 35 Ao reconhecerem-no, os habitantes daquele lugar espalharam a notícia por toda a região. Trouxeram-lhe todos os doentes, 36 suplicando-lhe que, ao menos, os deixasse tocar na orla do seu manto. E todos aqueles que a tocaram, ficaram curados.

 

Comentários:

 

Jurar é algo que deveria ser inaceitável por desnecessário e inconsequente. Desnecessário porque significa que de alguma forma se pede como que uma garantia que a pessoa a quem se pede não merece total credibilidade. Inconsequente porque se a palavra dada não é suficiente como o será o juramento?

Como comentar esta página “trágica” de São Mateus? A brutalidade e a total ausência de escrúpulos de que os homens são capazes, ultrapassam o que se pode imaginar. O desprezo absoluto pela dignidade e o valor da vida humana tem a sua expressão bem vincada neste personagem sinistro que se cruza na história da salvação. Os “Herodes” de hoje continuam a sua actuação desgarrada e destemperada, olhando o próprio desprezando o outro. Não têm nem valores nem critério e, no entanto, pasme-se, são filhos de Deus como nós. Procuremos que em vez de sentir revolta e asco por tais criaturas, pedir a Deus que se arrependam e façam uma revisão devida. A Deus nada é impossível.

Jesus Cristo deixa bem claro que a Sua missão neste mundo não se destina a resolver os eventuais conflitos ou questões entre os homens. Veio a este mundo para entregar um testemunho e uma “revisão” da Lei. Não pode, no entanto, deixar de por de sobreaviso sobre o verdadeiro objectivo da vida humana que deve ser a salvação eterna. Tudo aquilo, portanto, que possa constituir um entrave a esse objectivo – como, sem dúvida, são as excessivas preocupações temporais -,é de evitar e usar de grande contenção. A vida terrena só interessa verdadeiramente se for caminho para a Vida Eterna.

A necessidade que os homens sentem de estar com Jesus é de tal forma imperiosa que O seguem para onde quer que for mesmo que tal implique sacrifício e desconforto. Um lugar deserto! Que importa o local desde que Cristo esteja ali?

Desta vez é São Mateus quem nos relata este portentoso milagre de Jesus. Não poderia deixar de o fazer já que - embora não haja milagres menores e outros maiores – as consequências e o ambiente têm uma importância enorme. Uma multidão de gente saciada com uns poucos de pães e de peixes! Os doze cestos que sobraram depois de todos terem comido! Mas, talvez, o mais relevante foi a surpreendente “ordem” de Cristo: «dai-lhes vós de comer» Esta “ordem” é-nos dada também a nós, cristãos sem distinção de categorias ou importância; como se dissesse: ‘Tu, não deixes ninguém afastar-se porque tem fome e sede, dá-lhes o que precisam realmente: o alimento para o corpo e para a alma. Dá o que tens, não importa se muito ou pouco, porque, se o fizeres em Meu Nome, Eu providenciarei o que te possa faltar’.

Novamente o Senhor fala sobre a fé, desta vez para censurar Pedro. A fé de Pedro, naquela altura, é como a nossa, quase sempre: acreditamos, fazemos, até, um esforço para acreditar, mas… O resultado é, quase sempre, afundarmo-nos no meio das procelas da vida sentindo-nos perdidos e com medo. Mas, o Senhor, conta com essa nossa debilidade e está ali, sempre pronto e atento a responder ao nosso apelo: «Salva-me, Senhor!». E, como a Pedro, estende-nos a Sua mão e salva-nos porque nos quer, nos ama e sabe muito bem que precisamos dessas provas que a vida nos trás para robustecer a nossa fé e acreditarmos deveras que, Ele, pode tudo.

Este como que lamento de Jesus «homem de pouca fé, porque duvidaste?» fica-nos gravado na alma de forma indelével. Também nós, tantas vezes, duvidamos que Ele pode tudo e, se nos convida a segui-Lo, não obstante o “pouca coisa” que somos e as dificuldades que possamos encontrar, a Sua assistência, nunca nos faltará. Ele convida quem quer para O seguir mais de perto e, quem é convidado, não tem que interrogar-se o porquê do convite porque não sabemos os planos que Ele terá a nosso respeito. Coisas grandes ou de escasso relevo, mas, certamente, importantes, ou não faria o convite. Não sei, não sirvo, não sou digno, não tenho capacidade… tudo isto são razões sem razão porque, Ele, se convida, sabe. Aceitemos sem medo, ouvindo-O dizer como neste episódio que o Evangelista relata «Tranquilizai-vos! Sou Eu! Não temais!». E, acrescentando, comigo estarás sempre a salvo, seguro e no caminho certo!

Estas cenas que São Mateus nos relata de forma tão viva e detalhada têm uma importância extraordinária na formação dos futuros apóstolos. Jesus retira de qualquer circunstância ou acontecimento o que necessita para formar o carácter e fortalecer a fé dos O seguem mais de perto e, sobretudo, os que serão os seguidores a quem confiará a Sua Igreja.  Já estamos habituados a estas revelações da humildade daqueles homens que desejam que conste para sempre, as suas hesitações, os “altos e baixos” da sua confiança em Jesus… enfim, da sua fragilidade e medos. Claro que, temos de pensar, também com humildade, que, no nosso caso, as reacções que teríamos seriam idênticas porque, na verdade, há todo um ambiente de mistério e de poder divino que ultrapassa a simples compreensão humana. Mas, de facto, o que acontece, é que a convivência com o Senhor há-de levar estes homens simples a formarem uma fé e confiança sólidas como rocha e inabaláveis perante todas as adversidades. Leiamos com atenção quanto os Evangelhos nos relatam e peçamos ao Espírito Santo que nos ilumine o entendimento para entender e acreditar.

Quando o Senhor nos diz para fazer-mos alguma coisa mesmo que a experiência e o conhecimento das nossas incapacidades nos digam o contrário, não duvidemos um segundo e fazemos o que nos diz. Não nos há-de importar se temos de caminhar sobre as águas ou se temos de lançar a rede onde já tentámos uma e outra vez pescar sem qualquer resultado, se Ele o diz… Ah! Mas temos momentos de fraqueza, em que a nossa confiança estremece e falha! Não importa! Ele estará lá para nos estender a mão e arrancar-nos do abismo das águas ou para encher a nossa rede de abundante pescaria.