14/04/2023

Lc IX

 

POR DE 


PO

Dentro do Evangelho


Como o medo e a cobardia podem ter consequências tão diferentes.

Aproximava-se a Páscoa e Jesus sabe que essa será a Sua última Páscoa.

Em Jerusalém irá sofrer todo o martírio da Paixão e Morte. Tudo o que irá acontecer nesses dias derradeiros, está bem patente no Seu espírito.

A Sua natureza divina conhece em pormenor os incríveis sofrimentos, o desprezo, os ultrajes, as mentiras, a violência, o abandono mais completo.

A Sua natureza humana “força-se” a empreender o caminho que O levará a Jerusalém para cumprir o plano salvífico.

Temos de admitir que teve de fazer um esforço enorme, inaudito, para tomar essa firme resolução, como nos diz S. Lucas. Cfr. Lc 9, 51

Também nós nos enfrentamos, muitas vezes, com situações de grande tensão.

Temos pela frente um quadro negro e carregado de problemas, de dificuldades, de grande sofrimento. Sabemos que é inevitável enfrentar a situação e temos de nos dispor a fazer o que tem de ser feito. E, a nossa humanidade revolta-se firmemente contra isto, porque o sofrimento, é contrário à condição humana, porque Deus nos criou para sermos felizes.

 

«Bem-aventurado significa «feliz», «ditoso», e em cada uma das Bem-aventuranças Jesus começa prometendo a felicidade e assinalando os meios para a conseguir. Porque começará Nosso Senhor falando da felicidade? Porque em todos os homens existe uma tendência irresistível para ser felizes; este é o fim que todos os seus actos propõem; mas muitas vezes procuram a felicidade onde não se encontra, onde não acharão senão miséria.» Cfr. j. garrigou lagrange, Las tres edades de la vida interior, Vol I, 188.

 

Só que, a felicidade, pelo menos a felicidade autêntica, duradoura, não está na consolação e no bem-estar, na vida tranquila e sem incidentes.

A verdadeira felicidade está no cumprimento da Vontade de Deus, custe o que custar, doa o que doer.

«A Vontade de Deus é a bússola que em todo o momento nos indica o caminho que nos leva a Ele; é, ao mesmo tempo, o caminho da nossa própria felicidade. O cumprimento do querer divino dá-nos também uma grande fortaleza para superar os obstáculos.» Cfr. francisco fernández carvajal, Hablar com Dios, Advento, 1ª  Sem., 5ª F.

Jesus tranquiliza os seus discípulos apavorados ao vê-lo caminhar sobre as águas: «Sou Eu, não temais» Cfr. Mt 14, 22-36.

Este medo, contudo, não é cobardia, é temor genuíno perante o desconhecido, o insólito, o inexplicável.

O Senhor mantém-se nesta atitude permanente: «Sou Eu, não temais».

A cada passo diz-nos que, n’Ele, encontramos refúgio, segurança tranquilidade.

     

«Não conseguia deter a corrente. Caudaloso, o rio, levava-me no seu seio numa viagem rápida, vertiginosa para um destino que, pensava eu, só poderia ser o mar. Mal podia manter a cabeça fora de água e, quando o conseguia, quase sufocava com as golfadas que me entravam pela boca, pelo nariz... O que seria de mim se não conseguisse aproximar-me da margem, encontrar algo a que pudesse agarrar-me e sair daquele torvelinho?

O que seria de mim se fosse assim, não sei por quanto tempo, até ao mar?De profundis clamavit a Te Domine! Cfr. Slm 129. Da profundidade da minha aflição, clamei por Ti, meu Deus!

Ne timeas! Ouvi-te, claramente.

Senhor, eu confio em Ti, sei, tenho a certeza que tudo é para bem, mas ajuda a minha debilidade, a minha pouca fé, a minha confiança que vacila.» AMA, memórias do Hospital, Synesthesia,

O medo de não sermos ouvidos nas nossas preces é consequência da nossa pouca fé.

Sabemos o que somos e como somos e, essa constatação leva-nos, por vezes, a duvidar que Deus nos oiça quando Lhe pedimos algo. A oração é sempre petição.

Esquecemo-nos que Ele nos conhece intimamente, melhor, muitíssimo melhor, que nós próprios nos conhecemos e, não obstante, tem para connosco carinho e solicitude de Pai extremoso que só quer o nosso bem.

É fundamental que a nossa oração não seja anónima, desgarrada, sem convicção, mas sim, uma oração confiada de filhos.

 

«Ser Teu filho Senhor! Esta certeza é cada vez mais uma presença dominante no meu espírito e desejo sinceramente que assim continue, aumente e cresça até tomar conta total de mim. De tal modo desejo que esta realidade tome posse de mim, que me entrego totalmente nas Tuas mãos amorosas de Pai misericordioso, e embora não saiba bem para que me queres, para que queres como filho a alguém como eu, entrego-me confiante que me conheces profundamente, com todos os meus defeitos e pequenas virtudes e é assim, e não de outro modo, que me queres ao pé de Ti». AMA, orações pessoais

 

«Lembro-me que houve muitos dias em que não conseguia rezar de uma forma consistente. Os pensamentos entrechocavam-se e resultavam numa confusão sem sentido. Entreguei-me com decidida persistência às orações vocais: Ave-Marias, Pai-nossos, Mistérios do Rosário, as orações simples que rezo desde criança.

Aprendi agora que não me aconteceu nada de estranho, nem fui o primeiro – nem serei seguramente o último – a passar por tal transe.» AMA, memórias do Hospital

 

«Para que a oração desenvolva força purificadora, deve, por um lado, ser muito pessoal, um confronto do meu eu com Deus, com o Deus vivo; mas, por outro, deve ser incessantemente guiada e iluminada pelas grandes orações da Igreja e dos santos, pela oração litúrgica, na qual o Senhor nos ensina continuamente a rezar de modo justo.

O cardeal Nyugen Van Thuan contou no seu livro de Exercícios Espirituais, como na sua vida tinha havido longos períodos de incapacidade para rezar, e como ele se tinha agarrado às palavras de oração da Igreja: ao Pai-nosso, à Ave-Maria e às orações da Liturgia. (Testimoni della speranza, Città Nuova, 2000, 156 ss.)

 

Na oração, deve haver sempre este entrelaçamento de oração pública e oração pessoal, Assim podemos falar a Deus, assim Deus nos fala a nós»  Bento XVI, Encíclica, Salvos na Esperança, 34.

De facto, nada é novo, não somos os primeiros em nada, antes de nós, já alguém pensou, fez ou desejou algo semelhante.

Esta é, sem dúvida, a tendência que todos - mais ou menos -, temos para nos considerarmos únicos, peculiares, especiais. Na verdade, só somos particulares aos olhos de Deus, que nos conhece pelo nosso nome, pelo qual nos chamou mesmo antes do início do mundo.

Se acreditarmos nisto, que é essencial para a nossa fé, facilmente concluiremos que, o nosso caminho se cruza, definitivamente, com o caminho do Jesus que passa, na nossa vida, sempre tão perto de nós.

 

«E foi com ele».

 

Jesus não se detém mais tempo.

Provavelmente dando o braço a Jairo, numa atitude de confiança, de tranquila certeza, diz-lhe que indique o caminho para sua casa. Como deve tranquilizar-nos esta atitude do Mestre: caminhando confiadamente connosco, deixando que O levemos onde queremos ir, ao encontro da nossa necessidade.

Certamente entabulou conversa com o Seu companheiro, informando-se da sua vida, do seu trabalho, a família. Tal como fará em muitas ocasiões, muito particularmente com dois, a caminho de Emaús.

Esses também vão para sua casa, procurando refúgio, recato, pondo-se ao abrigo de uma situação que os afligia em extremo. Tinha acontecido um desastre, algo que não conseguiam explicar. Nas suas mentes entrechocavam-se os pensamentos mais contraditórios, as dúvidas mais profundas.

Estão desorientados, sem saber que fazer ou pensar.

E, Jesus, junta-se-lhes no caminho e ouve-os, escuta as suas dúvidas, interroga-os com interesse. Quer saber, deseja inteirar-se. E, depois, esclarece, explica, tranquiliza.

Este Senhor que caminha ao nosso lado e cuja presença, tantas vezes, ignoramos, é o mesmo Jesus que caminha agora com Jairo, tranquilamente, conversando na Sua voz profunda, suave, segura, transmitindo paz, confiança, tranquilidade.

Como desejamos esta companhia tão excelente todos os dias da nossa vida, em todos os caminhos que temos de percorrer! Nunca estamos sozinhos, Jesus está sempre connosco e, por extraordinário que possa parecer, mesmo quando não O convidamos expressamente, ou nos esquecemos de Lhe pedir para nos acompanhar.

 

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