17/03/2023

Quaresma Semana 2 Sexta F

 Q


 

(Re:Lv VIII)

Thalita kum



Prólogo

 

«O Senhor procura-nos a todo o instante: levanta-te - diz-nos - e sai da tua preguiça, do teu comodismo, dos teus pequenos egoísmos, dos teus “problemazinhos” sem importância. Desapega-te da terra; estás aí rasteiro, achatado e informe. Ganha altura, peso, volume e visão sobrenatural».

Muitas vezes dou comigo a pensar que, a minha vida é uma constante procura de um encontro com o Senhor, fazendo oração, procurando-O no sacrário, participando na Santa Missa. Quando me detenho mais um pouco, vejo com clareza que não é bem assim, aliás, não é de todo assim; com efeito, eu, procuro encontrar-me com Ele, mas, isto só acontece porque, primeiro, Ele, quis encontrar-se comigo.

De muitas maneiras diferentes, nos mais diversos ambientes e circunstâncias, sinto que me fala, me interpela, me chama.

Está à minha espera! E não deixo de me surpreender com este cuidado e carinho que Jesus tem para comigo, sendo eu o que sou, sendo eu como sou: Nada! Depois, mergulho em mim mesmo e reflicto: Sou filho de Deus!

ensão não consigo abarcar completamente.

 

«Estava junto do mar, quando chega um dos príncipes da sinagoga, de nome Jairo, e, ao vê-lo, cai-lhe aos pés e suplica-lhe instantemente, dizendo: A minha filhinha está em agonia, Vem impor-lhe as mãos, para que se salve e viva! E foi com ele.» 

Cristo está junto ao mar. O mar da vida de cada homem. O mar onde navega a multidão de seres humanos lutando por chegar a um porto. O de cada um. O porto que cada um escolheu para si, para descansar da luta da viagem, longa ou breve, que começou quando nasceu de sua mãe e acabará exactamente nesse porto.

Sabemos qual é o porto para onde nos dirigimos? Temos a certeza de que a nossa “navegação” nos levará a esse destino?

Sem dúvida que o porto é o seio de Deus fim de todo o homem: A Eternidade!

No cais desse porto, Ele estará à nossa espera com o grande livro nas mãos. Ao lado está presente o Anjo que designou para ser o “nosso Guarda”.  Ele sabe qual era a vontade do nosso Criador a nosso respeito, o que desejava que nós fizéssemos para navegar no rumo que tinha traçado para nós.

Ao lado do Juiz, está atentíssimo ao folhear das páginas, preparado para intervir, sempre em nosso favor, nalguma passagem mais crítica ou delicada. Apressar-se-Á a explicar que as circunstâncias, o mar revolto, as ondas e os ventos, o ambiente, as debilidades pessoais, talvez tenham contribuído para o nosso navegar por vezes incerto, errático. Nesse livro está toda a nossa vida, desde que nascemos até a esse derradeiro momento da nossa partida. É um registo fiel e rigoroso onde tudo, absolutamente se descreve.

Em primeiro lugar deverá constar a “expectativa” do Criador a nosso respeito: ‘Desde o início do mundo, pensei em ti e criei-te para seres… Depois virá uma lista, rigorosa, completa de tudo quanto nos deu para conseguir-mos corresponder a essas “expectativas”. É uma lista longa, que, constataremos talvez com espanto, cobre todos os dias da nossa vida. Diariamente fomos recebendo dons, graças, inspirações, sentimentos que se destinaram a ajudar-nos em cada momento a caminhar nesse sentido.

Logo no início, deverão descrever-se os talentos que recebemos, que Ele, com Infinita Bondade, inseriu na nossa alma no momento em que fomos concebidos.

Depois virá um rol exaustivo das graças iniciais que nos foram concedidas: O ambiente cristão em que nascemos, a educação que os nossos pais nos proporcionaram, o exemplo que nos deram: Assim como que uma espécie de “handicap” que nos foi concedido em relação a tantos – muitos – outros que não tiveram nada disso ou tiveram muito menos.

Aqui sobressai a graça do Baptismo que nos integrou na Sua Santa Igreja e onde, perante o mundo, nos foi dado o nome pelo qual Ele próprio, nos chamou desde o início da criação. Constará, decerto, a primeira vez que nos dirigimos à Sua Santíssima Mãe, a primeira Ave-Maria que, pacientemente, a nossa mãe nos ensinou a balbuciar. Com cores muito vivas estará patente o retracto da nossa alma inocente, branca, pura, impecável na festa do nosso primeiro encontro com Ele, quando O recebemos pela primeira vez.

Também consta o momento em que nos tornamos Seus “soldados” com a descrição das graças que em nós infundiu o Espírito Santo. A partir destas páginas iniciais abre-se um segundo capítulo que cobre toda a nossa juventude.

Minuciosamente passa em revista, ponto por ponto, tudo o que se passou connosco nesse período.

Não nos lembrávamos nem de uma pequena parte e, no entanto, está tudo ali cuidadosamente registado. Talvez surja um “apontarmento” referente a uma insinuação que nos fez acerca da nossa vocação e, claro, a nossa resposta. Esta referência há-de aparecer mais vezes ao longo das páginas deste capítulo e, também, em cada caso, a resposta que então demos: ‘Sim, aqui estou’! ‘Sim, mas…’; ‘Agora… não’!; ‘Não! Nem pensar em tal coisa’!

Ficamos muito admirados porque não nos lembrávamos de quantas vezes tínhamos ouvido a pergunta, escutado o desafio: ‘Vem comigo. Segue-me’! E os entusiasmos passageiros, os desejos de corresponder logo sufocados e os projectos de mudança por concretizar… tantas oportunidades não aproveitadas e para sempre perdidas!

As mãos divinas folheiam agora o grande capítulo da nossa vida adulta. Desejaríamos que algumas passagens, talvez páginas inteiras, não estivessem ali, mas… estão! Deve ser aqui que “o nosso Guarda” mais intervém, quase sempre para confirmar: ‘Mas… arrependeu-se, pediu perdão’

‘Sim’ – dirá Cristo – ‘é verdade, foi perdoado e o assunto esquecido, mas… consta aqui… quod scripsi, scripsi’.

E, o Senhor, passa adiante...

Sentimos como que um “aperto” no peito ao constatar os pequenos traços vermelhos com que o Juiz vai sublinhando passagens do livro; às vezes páginas inteiras. Traços vermelhos!

Não auguram nada de bom!….

 

 

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[1] Conf. 

[2] O que a seusca detendo-me principalmente nessa “estatura” de ser criado por Deus à Sua 

16/03/2023

Quaresma Semana 2 Quinta F

  


Reflectindo na Quaresma

Morte é Vida

Perante o mistério da morte ficamos surpreendidos com a confusão que, por vezes, se instala no nosso espírito.

Há uma mescla de sentimentos, onde, naturalmente, avulta a tristeza que o sentimento de perda provoca, mas que, surpreendentemente, não é o principal e é isto que mais nos causa estranheza e incompreensão.

Fere-nos singularmente algum sentimento de alívio, do terminar de um sofrimento, do arrastar de uma situação séria, grave, por vezes dolorosa, em que a pessoa querida se vai degradando fisicamente, perdendo gradualmente a sua autonomia até acabar totalmente dependente para os mais elementares e simples actos fisiológicos.

E este "sentirmo-nos feridos" quase nos envergonha porque pensamos – e bem – que não desejávamos que essa pessoa morresse, ao mesmo tempo que não queríamos que continuasse, assim, naquele estado de vida tão condicionada e sofredora.

Não é por essa morte ser previsível num espaço de tempo não muito longo, que se torna menos “cortante” – porque se trata de um corte definitivo e sem remédio -, porque, graças a uma espécie de esperança que nunca morre, esperamos sempre estar enganados e que uma súbita alteração das circunstâncias, mesmo sem explicação aparente – mas que sabemos, acontece por vezes – venha alterar definitivamente a situação.

De facto, a morte, não tem remédio absolutamente nenhum, é definitiva. É este – definitivo – que nos leva à tal surpresa que falávamos no início.

Não estamos habituados a que algo seja definitivo porque, a vida, a nossa própria vida tal como a dos outros, está sempre em evolução e o hoje não é igual ao amanhã, nada se repete tal e qual, tudo se vai transformando, evoluindo.

Vêm, depois, os outros, os familiares, mais ou menos próximos, os amigos mais ou menos chegados, companheiros de trabalho… e todos nos dizem mais ou menos as mesmas coisas. Frases feitas, termos usuais nestas circunstâncias, ar contristado, pesaroso, tentando parecer muito mais íntimos do que na verdade são.

Depois, cumpridas estas formalidades, retiram-se para o exterior para "espairecer", fumar um cigarro e, daí a pouco estabelece-se como que uma assembleia que conversa, convive, troca impressões.

Sentimo-nos, talvez, como que numa espécie de teatro um pouco requentado e com um enredo pouco ou nada atraente.

Mas, a morte, é assim: vida!

A vida prossegue o seu ritmo quase normal, nos primeiros tempos em que a memória está “fresca”, depois… só ocasionalmente nos recordamos do que aconteceu.

É muito bom que assim seja porque nestas memórias raramente aparecem os defeitos – que com toda a certeza a pessoa tinha – para surgirem com mais força, maior nitidez, as qualidades, os momentos bem passados, enfim, as coisas boas da vida anterior.

Assim, a morte, vem nivelar as relações, as memórias. Já não há nada a fazer!

Deparamo-nos finalmente com esta sensação estranha que não tínhamos sequer imaginado pudesse surgir: afinal, o lugar deixado vago pela morte não necessita ser preenchido donde concluímos que cada pessoa, sendo única, é insubstituível.

Claro que a razão é muito mais profunda que a simples constatação formal. Cada ser humano, embora podendo ter semelhanças com outro, nunca é qual exactamente porque é fruto da obra criadora de Deus que não faz nada “em série”, como numa linha de montagem. Cada ser humano tem uma alma – a imagem do Criador impressa – exclusivamente criada para si no momento da concepção.

Por isso mesmo, a concepção da vida concreta, real é de suma importância para compreender e aceitar a morte.

É, pelo menos, interessante dar-nos conta como a consideração da morte nos leva a pensar na vida sendo que, o contrário, não acontece.

A que propósito se iria pensar na morte quando nos sentimos vivos e, mais, com vontade e desejo de viver?

Não faz muito sentido, parece e, no entanto, seria de manifesta utilidade que o fizéssemos exactamente para termos consciência do nosso destino eterno.

O cristão tem, como verdade de fé, que está destinado à vida eterna e, mais, que ressuscitará no fim dos tempos em que o seu corpo se unirá à sua alma.

Como o mistério é de tal forma complexo, grandioso, extraordinário, optamos a maior parte das vezes por não pensar muito nisso porque ficamos, quase sempre, com a sensação que andamos às voltas sobre um eixo que também roda sobre si mesmo sem conseguirmos chegar a um fim, concreto, absoluto.

Aliás, é manifesto, que só conseguimos aceitá-lo com a ajuda da nossa fé cristã.

Podemos sentir curiosidade em imaginar o que seria o mundo se os nossos primeiros pais - Adão e Eva – não tivessem pecado e, assim, permanecessem no estado original da criação que não conhecia a morte.

Onde caberia tanta gente!

Se não existe fé, este problema é insolúvel, a resposta nunca será convincente.

 

Novíssimos - Morte


Encontrei-me com essa senhora

A princípio custou-me perceber de quem ser tratava. Não tinha forma de gente antes parecia uma coisa vaga como uma neblina indefinida. Percebi que estava triste e extraordinariamente cansada.

‘Tenho tido muito que fazer, disse-me, não tenho descanso.

A minha principal inimiga, a vida, até nem me tem dado muito trabalho. Cada vez há menos quem a queira. Mas em compensação os meus serviços cada vez são mais requisitados. É estranho que as pessoas queiram morrer e mais estranho ainda que desejem que outros morram. Por todo o lado parece haver uma cultura de morte e não me refiro só às guerras e lutas fratricidas que pululam por  todo o mundo, mas aos milhares de jovens vidas, algumas mal acabadas de começar a existir, que são sacrificadas nos altares da indiferença, do planeamento feroz, da impiedade mais radical. Sim, estou muito cansada.’

Fiquei a pensar nesta estranha conversa e dei-me conta que embora imaginária poderia ser bem real.

 

 

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15/03/2023

Reflexões para a Quaresma

 


Quaresma  

Ideias práticas e básicas

Neste período que começou na Quarta-Feira de Cinzas e termina na Quarta-Feira da Semana Santa, somos convidados afazer o confronto especial entre as nossas vidas e a mensagem cristã expressa nos Evangelhos. Este confronto deve levar-nos a aprofundar a compreensão da Palavra de Deus e a intensificar a prática dos princípios essenciais da fé.

É um tempo de transformação, em que nos devemos exercitar espiritualmente para podermos melhorar. É um tempo de alegria, em que devemos estar atentos às oportunidades de mais amar.

 

Oração – para aprofundar e melhorar a minha relação com Deus. Trata-se de dar mais tempo e tempo de qualidade ao meu relacionamento com o Pai.

Esmola – para melhor amar e melhorar a minha relação com os outros. Estar atento aos que me rodeiam (Família, amigos, colegas de trabalho) e também aos que estão mais longe, mas que têm algum tipo de necessidades.

Jejum – para adquirir maior liberdade interior. Procurar as minhas dependências, aquelas que me limitam, afastam os outros, e tentar combatê-las.

 

Alguns exemplos destas três prácticas: [i]

 

Oração

(como, quanto tempo, de que maneira)

Esmola

(ir ao encontro do outro de forma positiva)

Jejum

(libertar de manias, preconceitos, vícios)

Meditação

Ajudar financeiramente pessoas vítimas da actual crise

Abster-se de beber ou comer o que nos dá maior prazer.

Exame de consciência

Dar atenção a alguém

Televisão

Eucaristia

Ajudar instituições de cariz social

Determinado tipo de conversas

Reconciliação

Agradecer

Show off

Rezar o terço

Dizer coisas positivas

Comentar ou fazer juízos de valor sobre o próximo

Rezar pelos outros

Um sorriso

Evitar compras desnecessárias

Fazer silêncio no meu dia

Visitar um doente, um idoso.

Computador

 

E, no fim do dia, pensar em algo que fiz bem e em algo que poderia ter feito melhor.



[i] Síntese elaborada com base na Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma de 2017.

 

14/03/2023

Quaresma Semana 2 Segunda F

  


(Re Lc VI 36-38 )

 

Em plena Quaresma a Liturgia traz à minha consideração o tema da misericórdia.

Embora o Magistério defina as chamadas “Obras de Misericórdia” para me ajudar a melhor reflectir e tê-las presentes, muitas vezes as confundo com meros actos exteriores descurando o que é essencial: tê-las no coração.

No que respeita a perdoar não sou tão rápido e decidido como no que se refere aos julgamentos que faço.

Não me dando conta que os defeitos que julgo ver nos outros são muitas vezes o reflexo dos meus próprios defeitos, como que olhando-me num espelho não vendo a verdadeira imagem que está reflectida.

Não penso que se os outros usarem de igual critério para comigo que desgraçado serei.

Como poderei aspirar receber o que eu próprio não dou?

Jesus É bem claro:

«Não julgueis e não sereis julgados. Não condeneis e não sereis condenados. Perdoai e sereis perdoados. Dai e dar-se-vos-á: deitar-vos-ão no regaço uma boa medida, calcada, sacudida, a transbordar. A medida que usardes com os outros será usada também convosco».

Como sempre as palavras de Jesus são certas e lógicas não admitindo duas interpretações.

 

Reflectindo na Quaresma

 

O que posso fazer.

Por vezes debato-me com esta pergunta que me surge a propósito de algo que, à primeira vista, será algo estranho, insólito ou, pelo menos, fora do âmbito onde me movo.

Sim… o que posso fazer?

Que conhecimentos habilitações ou autoridade tenho, para me “meter num assunto” que parece não me dizer respeito directamente?

E porque sinto que tenho de fazer alguma coisa, intervir seja de que modo for, para sossegar o meu espírito e a minha vontade de ser útil, solidário, interessado?

Será que a minha missão neste mundo passa por aí, quer dizer, intervir sem mais, sem esperar convite ou desafio, mas apenas porque entendo que é minha obrigação fazê-lo?

Será que os outros, nomeadamente a quem o assunto respeita, esperam isso de mim?

Terão alguma expectativa sobre o que penso ou faço para resolver – ou pelo menos ajudar a resolver – essa questão?

Mereço essa confiança?

Existe da parte dos outros essa expectativa?

Na verdade penso que tenho de responder positivamente a todas essas questões mesmo sem me preocupar se tenho ou não aptidões para tal.

Talvez espere por um convite que poderá surgir de forma “muda”, sem formalidade nem uma solicitação expressa, mas, tal, não tem de acontecer dessa forma tão clara e evidente.

Se alguém me conta algo, um problema, me revela uma dificuldade, me expõe uma dúvida, seguramente que o faz não para só para “desabafar” mas, para que eu possa dar o meu contributo – seja conselho ou opinião – sobre o que me revela.

Se não porque o faria?

Se alguém me diz simplesmente: ‘Estou triste’ sem acrescentar o que for, não esperará de mim uma pergunta simples: ‘Porquê?’

É evidente que sim, ninguém anuncia a outro um estado de alma sem ser para tentar obter uma resposta que revele interesse e, possivelmente, ajuda.

O que posso fazer?

Muito! Posso – e devo – fazer muito.

 

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