28/11/2021

Publicações em Novembro 28

 


Jesus disse a Pedro: «O que atares na terra ficará atado nos céus, e o que desatares na terra ficará desatado nos céus

Atar e desatar é outra comparação utilizada por Jesus para manifestar a Sua vontade de conferir a Simão um poder universal e completo, garantido e autenticado pela aprovação divina.

Não se trata só do poder de enunciar afirmações doutrinais ou dar directrizes gerais de acção: segundo Jesus, é o poder de atar e desatar, ou seja, de tomar todas as medidas necessárias para a vida e o desenvolvimento da Igreja.

A contraposição atar-desatar serve para mostrar a totalidade do poder.

Ora bem, é necessário acrescentar em seguida que a finalidade deste poder consiste em abrir o acesso ao reino, não em fechá-lo: “abrir”, isto é tornar possível a entrada no reino dos Céus, e não pôr obstáculos, que equivaleriam a “fechar”.

Como não aceitar inteiramente como guia e chefe o que foi escolhido para esse lugar?

A missão do Papa é uma missão divina porque emana do próprio Jesus Cristo, com um mandato preciso e claro.

O que Jesus disse a Pedro não foram generalidades mais ou menos abrangentes, algo vago, indefinido. Não! É, portanto, claro que um cristão tem o dever de acatar as directrizes emanadas desde a Cátedra de Pedro.

Seja quem for o homem que a ocupe, ele é sempre o Vigário de Cristo na terra e, a palavra “vigário” significa exactamente, aquele que substitui alguém.

Na sua viagem no mar da vida, Jairo, encontra-se com a tempestade. O drama da doença, da morte eminente da sua filha querida. É um personagem importante, mas perante a gravidade da situação sabe, no mais íntimo do seu coração que só um milagre podia curar a filha e alguém lhe terá dito que, Jesus, poderia fazer esse milagre. Talvez tenha ouvido falar dos milagres recentes que Ele fizera.

Na sequência do Evangelho de São Mateus, Jesus tinha vindo de Gerasa e, decerto, os acontecimentos extraordinários, os dois mil porcos precipitados no mar como “preço”, da cura do endemoninhado, teriam chegado ao seu conhecimento; também poderá ter ouvido falar do filho da viúva de Naim, ressuscitado em pleno cortejo fúnebre. Vai, portanto, ter com Ele à praia, não espera que o chame, adianta-se e decide-se.

A situação é grave, a tormenta violentíssima. «Cai-lhe aos pés», diz expressamente o Evangelho. Uma atitude de enorme humildade, de profunda entrega.

Cair aos pés de Jesus é “meio caminho andado” para alcançar a misericórdia que se implora.

Que tem de mais ajoelharmo-nos? Não é Ele o Criador e Senhor de todas as coisas?

Esta passagem tão linear deve fazer-nos pensar na facilidade com que, por vezes, nos aproximamos de Jesus. Por exemplo, em frente do Sacrário, onde Ele está presente em Corpo, Alma e Divindade como nos comportamos? Ajoelhamos reverentemente ou, se não o podemos fazer, detemo-nos sem pressas e fazemos uma vénia conveniente, sentida, própria de quem se sabe servo quem cumprimenta o seu Senhor? E como O recebemos na Sagrada Comunhão? Aproximamo-nos com respeito, com profundo recolhimento interior? Se Ele Se nos entrega em Corpo, Alma e Divindade para nosso alimento, não será para nós bastante recebê-Lo como alimento? 

A comunhão deve ser um acto íntimo e respeitoso, feito com decoro e compenetração. Diria até, com cerimónia. Trata-se de Deus Nosso Senhor, Criador dos Céus e da Terra e de todas as coisas visíveis e invisíveis. O respeito, nunca demasiado, pelas coisas sagradas e, sobretudo, pela Sagrada Eucaristia, deve ser uma atitude permanente em nós e deveríamos esforçar-nos para o fazer também sentir aos outros.

Lembra-me de antigamente se comungar de joelhos, que é a atitude natural de recolhimento interior e respeito do homem para com Deus. Os tempos são outros, evidentemente, e a prática comum hoje em dia é comungar-se de pé. No entanto, não podemos, nem devemos transigir com novas práticas, - a menos que a Santa Igreja assim o recomende -, com facilidades ou, como dizia, familiaridades, sob pena de a Sagrada Comunhão se ir tornando uma coisa banal e corriqueira em vez de um acto profundamente reflectido e de extraordinária importância.

Ajoelhar-se diante de Jesus é uma atitude constante no Evangelho.

Pouco antes deste relato sobre Jairo, São Marcos conta-nos o que aconteceu com um leproso: «Vem ter com Ele um leproso que, suplicando e lançando-se de joelhos Lhe diz: Se quiseres, podes limpar-me».

De facto, qualquer atitude corporal pode ser adequada para se falar com Deus. Perante o nosso progenitor também não costumamos tomar nenhuma atitude especial, claro está, dentro das normas do respeito que nos merece. Mas, na oração, que é o nosso diálogo com Deus a nossa postura deverá ser, além de amor filial, e preferencialmente de recolhimento, de veneração, de reconhecimento do nosso “nada” perante o Criador de todas as coisas. A resposta de Jesus a esta postura de humildade e entrega confiante é sempre generosa, pronta, extraordinária. Ele comove-Se, enternece-Se, sente-Se movido a satisfazer o que pedimos.             

Jairo não sabe nada destas coisas, sabe apenas que, aquele Homem em frente do qual se prostra é a sua única esperança naquela grande aflição. Reconhece, assim, a Omnipotência de Jesus e, por causa deste reconhecimento que é já, em si mesmo, uma graça de Deus, toma a atitude de entrega, de submissão, de profundo respeito por Quem, sabe no íntimo do seu coração de pai amargurado, pode salvar a sua filha.

Jesus tem de se deter junto daquele homem que se ajoelha aos Seus pés.

A conversa interrompe-se, faz-se silêncio na multidão próxima, todos ficam expectantes do que se vai seguir. Jairo explica, certamente com um acento de ansiedade: «A minha filhinha está em agonia, Vem impor-lhe as mãos, para que se salve e viva!»         

Jesus entende muito bem a mensagem. Nela, Jairo, diz tudo quanto quer, o que precisa, o que deseja do Mestre. Diz o que o traz ali, à Sua presença, a urgência que o impele, a gravidade da situação que o consome e, com total confiança, faz o pedido, simples, concreto, objectivo. É assim que devemos rezar. Não nos ficarmos por “generalidades”. Como as crianças, dizer exactamente o que desejamos, pedir o que queremos, abrir a alma e o coração sem medos nem receios. Como as crianças – Pai, quero isto, quero aquilo , sem rodeios nem falsas razões. O Senhor sabe muito bem o que precisamos e o que é melhor para nós e nunca deixará de nos ouvir como desejamos ser ouvidos. Dar-nos o que pedimos depende da Sua Vontade e do bem que o que pedimos pode, ou não, ser para nós. Mas, Ele, sabe mais, sempre, fará o que é melhor para nós, por isso mesmo podemos – e devemos dizer: ‘Sei que farás sempre melhor que aquilo que Te peço. Aceito a Tua Vontade Santa sobre todas as coisas. Ámen’

Voltamos ao leproso. «Se quiseres podes limpar-me».   Que manifestação de fé, confiança absoluta no Senhor!

Uma confissão tão simples, sem rodeios, sem muitas palavras não pode deixar de tocar no fundo do Coração amantíssimo de Jesus. Ele olha para aquele homem, um destroço humano de quem todos se afastam com repulsa e compadece-Se de tal forma que faz algo tão extraordinário, que deve ter espantado tanto os circunstantes, que o evangelista achou que o deveria fazer constar: «Ele, enternecido, estendeu a mão e tocou-o».  Jesus não sente repulsa por ninguém, por mais doente que o homem possa estar, por mais grave ou horroroso que seja o mal que o afecta. Pois se não há pior mal que o pecado, nem nada mais horrível, e, Ele, nos acolhe, esquece, perdoa! Jesus não nos afasta nunca, somos nós que nos afastamos deLe.  

 

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27/11/2021

Publicações em Novembro 27

 


Desde sempre o mar atrai o ser humano talvez pelo que encerra de mistério e desconhecido. Constitui um desafio que está ali, poderosamente presente aguardando que alguém se aventure à descoberta do que esconde. E o que é a nossa vida senão um navegar num oceano desconhecido onde a cada momento precisamos acertar o rumo, corrigir a rota, guiando-nos pela bússola que nos indica o porto onde queremos chegar.

Há muitíssimos portos que, aparentemente, podem parecer-nos atraentes, interessantes. Talvez, até, adequados àquilo que costumamos chamar “a nossa maneira de ser”.

Vamos por ali, navegando como sabemos e podemos, determinados, umas vezes, tergiversando, outras, lutando contra os ventos e as marés, as tempestades ou as faltas de vento que enfunem as velas da nossa esperança.

Consideramo-nos marinheiros experimentados, sabendo muito bem como fazer para chegar ao porto?

Temos a certeza que os meios que usamos são os mais adequados, em cada momento e circunstância, para atingir o nosso fim?

Não seria muito melhor deixar nas mãos de Cristo o leme da nossa barca?

Ele sabe como fazer – sempre – para levar essa barca, que é a nossa vida, pelas águas mais tranquilas, pelo rumo mais certeiro, com os ventos mais favoráveis. Nas borrascas, estará firme no Seu posto, no cansaço da luta não Se deixará vencer nem pela fadiga nem pelo desânimo. No fim e ao cabo, Ele, é o Caminho!

Cristo está junto ao mar porque quer ver como nos comportamos na nossa barca, na nossa navegação. Ele sabe muito bem os perigos que o mar desta vida tem, conhece profundamente e em detalhe as nossas incapacidades e deficiências como “marinheiros”. Está ali, para “o que der e vier”. Da praia, se nos vir em perigo, aflitos com a perda do rumo, acenar-nos-á para que vamos ter com Ele.

É tão bom saber que Cristo está na praia do nosso mar! Que confiança nos dá o sabê-Lo ali, disponível para o que for preciso! Mesmo quando não nos damos conta, ou pior, quando ignoramos a Sua presença, Ele está lá, sempre, solícito e pronto a acudir-nos. Até se nos consideramos importantes, capazes, instruídos, sabedores, Ele não Se afasta, continua sempre disponível e expectante à nossa espera.

Foi na praia que Jesus começou a fantástica história da salvação humana.

Eram homens do mar os que, em primeiro lugar, Jesus escolheu para concretizar a Sua Missão Salvadora. Muito particularmente, estes três: Pedro, Tiago e João, acompanhá-Lo-ão sempre mais perto da Sua intimidade.

Quantas longas horas deve ter passado instruindo a sua pouca cultura, limando as rudezas do seu carácter, cimentando a sua dedicação!

Desejou tê-los conSigo nos momentos mais marcantes, que conhecemos, da Sua vida pública: Nos grandes milagres, como a ressurreições de Lázaro  e da filha de Jairo, como testemunhas particulares da Sua Divindade – na Transfiguração do Tabor - nas horas dramáticas de Getsémani.

A Pedro, impetuoso, decidido e… cobarde, desculpar-lhe-á a traição, o abandono e confere-lhe a suprema honra de ser o Seu primeiro representante na terra. Sabe que, apesar de tudo, pode contar com ele. A sua maneira de ser é por vezes irreflectida, mas, quando o Mestre o chama, mesmo sabendo que não lhe é possível caminhar sobre as águas lança-se impetuosamente ao mar para ir ter com Ele. Depois, cai em si, encara a situação e a sua confiança no Senhor, esmorece e como resultado começa a afundar-se. Mas Cristo está ali a pouca distância, o Seu olhar tranquilo não se despega do seu cheio de temor e grita: «Salva-me, Senhor!»

Jesus conversa com eles de forma que eles entendem bem: Fala-lhes do mar e da faina da pesca. Diz-lhes que o que espera deles, a tarefa grandiosa, extraordinária que lhes tem reservada. Talvez não tenham percebido completamente o que encerrava esta primeira lição, mas não precisaram de mais para se decidirem. Na escolha feita por Jesus, o que contou, de facto, foi a pronta decisão de O seguirem assim que os chamou.

Certamente haveria, na Palestina, outros homens de igual ou melhor carácter, com qualidades, talvez, mais marcantes, muito provavelmente mais capazes de apreenderem com maior rapidez a missão que lhes destinaria. Mas, no mar, sozinho entre o céu e a as águas profundas e misteriosas, o homem sente-se mais entregue a si mesmo, percebe que a sua vida depende da sua perícia, da sua aptidão, da sua capacidade de enfrentar as dificuldades. Os pescadores estão habituados a trabalhar em equipa, a obedecer a um chefe, o patrão da barca, a quem confiam as suas vidas. É ele quem dá as ordens, quem destina o que se deve fazer em cada momento, quem escolhe o rumo, quem melhor conhece os ventos e a força das ondas.

Pedro, não só é, deles, o que tem mais experiência, mas é quem sabe sempre o que fazer em todos os momentos. Mantém a calma e a serenidade perante os perigos sempre à espreita, sabe mandar e, muito importante, é capaz de substituir quem, por este ou aquele motivo, se encontre incapacitado para o trabalho que lhe compete.

São solidários uns com os outros, se um, por qualquer motivo, falha no que lhe está cometido, é substituído sem demora e sem recriminações.

Parece lógico que, a Igreja, venha a ser confiada a homens assim.

Mais tarde, é na margem do mar, que Cristo Ressuscitado lhes aparece.

Sabe onde os encontrar nas horas da desilusão e atordoamento que se seguiram à Sua Paixão e Morte; «Disse-lhes então Jesus: Não temais. Ide dar a notícia aos Meus irmãos, para que vão para a Galileia e lá Me verão».

 

Jesus e o mar…

 

Ele sabe bem o que espera os homens da Sua Igreja até ao final dos tempos. A agitação, os ventos contrários, os naufrágios, as vagas alterosas, o velame que se rompe, os mastros que quebram. Por isso, escolhe, sempre, um “patrão” para a Sua barca que sabe guiá-la através de todas estas dificuldades, que será sempre fiel ao rumo e que acabará sempre por alcançar bom porto. Esses homens que ao longo dos séculos se têm sucedido no comando da barca de Cristo, da Sua Igreja, são sempre as melhores escolhas porque, quem os escolhe, é Ele.

Como não confiar inteiramente naquele que foi escolhido para esse lugar?

Sozinho, entre o mundo e Cristo, o Papa encontra sempre o rumo certo para a Igreja, porque não confia em si próprio, na sua sabedoria ou aptidões, mas, sim, em Cristo a quem obedece fielmente nesse constante duc in altum.

Nem um “til”, nem um “jota” jamais será mudado ou alterado até ao final dos tempos. Jesus afirma: «Sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.» Estas palavras atestam a vontade de Jesus em edificar a Sua Igreja com uma referência especial à missão e o poder específicos que Ele, por Sua vez, conferirá a Simão.

Jesus define Simão Pedro como cimento sobre o qual construirá a Sua Igreja. A relação Cristo-Pedro reflecte-se, assim, na relação Pedro-Igreja. Confere-lhe valor e clarifica o seu significado teológico e espiritual, que objectiva e eclesialmente está na base do seu significado jurídico.

 

 

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26/11/2021

Publicações em Novembro 26

 


Não assisti à conversa, nem poderia porque estavam só os dois: Jesus e a Samaritana conversando sentados na beira do poço de Jacob. Quando a conversa acabou segui a mulher até à cidade. Pude ouvi-la numa excitação incontrolável a contar a quem queria ouvir, e eram muitos e cada vez se juntavam mais, a sua conversa com Jesus.

Era algo saliente, inusitado. 'Ele disse-me tudo a meu respeito’!

Os testemunhos simples, concretos e verdadeiros têm este efeito nas pessoas de boa índole: querer saber, conhecer pessoalmente quem é essa pessoa que se encontra por primeira vez e que demonstra um poder tão extraordinário: saber quem somos, o que fazenos ou fisemos.

E... foi o que fizeram: foram ter com Jesus a convidá-Lo para ficar com eles.

Jesus acedeu, contente, bem-disposto e ali ficou por três dias a conversar, responder a perguntas, falando do quer que fosse que eles queriam falar.

Eu, tenho a certeza que estes Samaritanos jamais esqueceram esses dias, isto porque eles próprios confessam à mulher que já não é por causa dela que acreditam em Jesus mas porque eles próprios ficaram convencidos que Ele era a indubitável Verdade que cada um procurava.

Esta "jornada" em Samaria causou-me profunda impressão. Era algo tão inusitado, tão extraordinário que não podia deixar de pensar nesta realidade: as pessoas, sejam quem forem, desejam ouvir a verdade, não interessa se quem a revela é alguém conhecido, do nosso círculo de amigos, ou alguém que se cruza connosco nos caminhos da nossa vida, importa que reconheçamos que o que nos revela seja a verdade tal qual é.

Alguém que logo num primeiro encontro prova que conhece os nossos "segredos", tem de levar-nos a “pensar duas vezes". 'Estou perante um "mágico", um "hábil adivinho" enfim... ou perante alguém com poderes que ultrapassam a minha compreensão?

É aqui que realmente se impõe ser honesto e tentar perceber o que se passa.

Desde logo a atitude: não foi revelado nenhum segredo íntimo mas mencionado um facto do conhecimento de muita gente; não há nem uma crítica nem uma recriminação, digamos... um "julgamento" mas a constatação de algo que pode comprovar-se, depois há uma postura pessoal da pessoa que leva à certeza lógica que não procura nada para si mesma mas tão só dar a entender que, seja como for, mais tarde ou mais cedo, "não há nada, ainda que bem guardado que esteja, que não venha a ser revelado".

Deixo-me de "ilacções filosóficas" para concluir que a Verdade só tem uma face: Ou é ou não é!

Esta consideração levanta algumas questões, uma das quais será esta que ficou na história como a "pergunta" mais patética até agora registada. Pilatos perguntou a Jesus: «O que é a verdade».

Mas foi uma pergunta capciosa, porque Pilatos não queria uma resposta, como refere o Evangelho, «voltou as costas e retirou-se».

Talvez erradamente, eu agradeço a Pilatos esta atitude, sobretudo porque me ensina a não perguntar o que for se a minha verdadeira intenção não é saber o que interrogo.

Confesso... tenho pena de Pilatos e, até tenho por ele alguma simpatia porque, procedendo como fez, me indica claramente que a resposta à sua pergunta, caso a tivesse tido, seria de tal forma "devastadora" que inevitavelmente o levaria a uma profundíssima revisão de vida... o que, realmente, não lhe apetecia fazer. Assim, ao procurar uma resposta a algo que me inquieta tenho que ser honesto e obtida esta considerar o que me foi respondido.

Mas... volto a Pilatos para considerar que seria muito difícil esperar que procedesse de outro modo.

Acontece quase sempre assim aos que estão como que "instalados" na vida; pretendem saber o que melhor lhes convém, e o que devem evitar conhecer que possa de algum modo alterar o "satus quo", ter como único objectivo "viver o melhor possível" sem "maçadas" ou preocupações.

De facto, concluo que Pilatos é um "gigantesco" ignorante e, considerado como tal, é difícil esperar que procedesse de outro modo.

Lembro-me que Jesus pouco antes de expirar na Cruz disse... «Pai... perdoai-lhes porque não sabem o que fazem», e eu atrevo-me a incluir Pilatos nestes.

Sou levado irremediavelmente a pensar: 'E eu... sei o que faço?'

Não quero voltar a fazer esta pergunta e por isso prefiro pedir a Jesus que me ensine a fazer, em tudo, a Justíssima e Amabilissima Vontade de Deus em tudo e, assim fico tranquilo.

 

Perigo das riquezas 

 

Recompensa do desprendimento 

 

Detenho-me agora numas palavras que ouvi a Jesus dizendo aos Seus discípulos mais próximos: «Filhos, como é difícil entrar no Reino de Deus! É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus».

A referência ao "camelo" pode ter duas interpretações, uma seria relativa a um fio, uma linha bastante grossa, difícil de enfiar no buraco de uma agulha de coser, outra a "agulha", (como se chamava) da abertura de uma fortificação normalmente bastante estreita para impedir a entrada de inimigos tornando mais fácil a defesa contra os invasores.

A preocupação excessiva com que tenho, os bens, recursos... pode - e seguramente é - a exacta imagem que o Senhor refere. Mas... não só o que tenho... também os desejos de ter estão aqui enquadrados porque "me carregarão com uma carga tal que me impeça de atravessar o "buraco da agulha" impedindo-me de ir onde devo e desejo ir.

A alguns poderá parecer que este tema é exaustivamente considerado nas homilias dos Sacerdotes, pondo como que um "labéu" negativo nos ombros de quem tem meios de fortuna. Quando oiço homilias deste teor procuro abstrair-me das palavras que o Celebrante profere - nem todos têm o dom da palavra - e considerar apenas a mensagem que pretendem transmitir pensando bem se realmente considero que o que devo fazer é agradecer o que tenho - pouco ou muito - e lhe dou o correcto uso.

De facto ter bens, até ter muitos bens, pode ser uma boa ajuda para conquistar a Vida Eterna.

Um contrasenso?

Não! Fazendo o bem à minha volta, não recusando ajuda a quem ma pede e me seja possível prestar, ora aí está o "juro" mais adequado.

Nem um simples copo de água dado a outro ficará sem recompensa, foi o que Jesus afirmou. Um copo de água? Uma coisa tão simples,  trivial, sem relevo! Que valor tem? Pois eu acredito que tem um enormíssimo valor que ultrapassa o agradecimento daquele a quem o dei porque o Senhor não recompensa o valor que possa ter a dádiva mas o espírito com que o fiz. Além da imediata compensação íntima que possa sentir por ter dado algo receberei como que um "crédito para abater" no extenso rol de dívidas quando for presente ao Julgamento após a minha morte.

Não será isto muito conveniente?

Considero, também, o muito que recebi de outros sempre dispostos a assistir-me nas minhas dificuldades e nunca me pressionando para que devolvesse o emprestado.

Após tantos anos de vida repleta de "altos e baixos" não me lembro de quem foram mas, isso, não me impede de rezar diariamente por eles como os Meus Bemfeitores.

Ainda hoje em dia pasmo como como ao longo da vida fui ajudado a resolver problemas, por vezes muito sérios, por amigos e outros e lembro, a propósito, algo que aconteceu já lá vão muitos anos.

Estava á espera de uma reunião com algumas pessoas. Entrou alguém na sala onde me encontrava, alguém que conhecia mas com quem não tinha intimidade de amigo, e que, sem mais... me disse: 'Vejo que está preocupado, posso ajudar’?

Quase "de um jacto" contei-lhe o que se passava... enormes revezes financeiros tinham provocado o acumular dívidas da renda de casa. Era, para mim, um valor astronómico que não sabia como solucionar. O senhorio tinha já posto em Tribunal uma acção de despejo urgente.

Olhou para mim uns momentos e perguntou-me: 'De quanto estamos a falar’?

Disse-lhe. Retorquiu-me, mais ou menos: 'Eu posso disponibilizar esse dinheiro, dê-me o número da sua conta bancária e agora mesmo faço a transferência'.

Depois de resolvido o problema com o senhorio, falei a essa pessoa para lhe agradecer mais uma vez e para lhe afirmar que me empenharia em devolver o emprestado. Respondeu-me simplesmente que estava certo disso mas que não me preocupassse... quando pudesse...

Mas, este episódio não acaba aqui porque ao chegar a casa tinha uma mensagem de alguém a quem tinha contado o assunto, a dizer-me que tinha transferido para a minha conta o mesmo valor.

A primeira coisa que fiz, foi liquidar a dívida com o primeiro, a segunda foi agradecer ao segundo que me disse simplesmente: 'Esquece isso... não te preocupes...'. Já lá vão muitos anos mas, confesso, ainda hoje me sinto como que aturdido pelo que se passou.

Com o passar dos dias seguindo Jesus no Seu incessante deambular pelas terras da Palestina,  vendo e ouvindo o que faz dou-me conta que repete uma e outra vez as mesmas palavras. Hoje compreendo que não poderia ser de outra forma. A Sua Doutrina não muda é como que uma edificação sólida, sobre rocha, que não é abalada nem por tempestades ou terramotos, não "evolui" consoante as circunstâncias... É! Na Igreja que fundou e É Cabeça surgiram  e de vez em quando ainda surgem, pessoas com responsabilidades e destaque cujo comportamento pessoal chocavam com o múnus que exerciam. No entanto e apesar disso nunca foi alterado "um Til ou um Jota" da Doutrina Fundamental o que na verdade se compreende porque só  Cabeça o poderia fazer.

Como cristão que sou tenho de ter bem presente que a Igreja é constituida por pessoas, seres humanos com virtudes e defeitos mas que sendo a Igreja Santa não implica imediatamente que todos os seus membros sejam santos. Considero que ao nomear Pedro como o Seu Primeiro Vigário à frente da Sua Igreja Jesus quis expressamente que assim o entendessemos. Pedro era, sem dúvida um "entusiasta" seguidor de Jesus mas era um homem com fraquezas e debilidades de tal forma que num momento crucial negou conhecer Jesus. Espantar-me-ia a escolha de Jesus se não soubesse que o arrependimento sincero e profundo de Pedro foram o bastante para que Jesus o perdoasse e lhe restituisse a Sua confiança nele e... sou levado a perguntar: O que deixaste Pedro? Uma vida sem grandes oscilações, a pesca, um barco, umas redes? Em troca de quê? Ah! Em troca de uma missão grandiosa para a qual não te sentias capaz nem competente mas que, não obstante aceitaste porque Jesus to pediu.

O Papa  seja quem for, é o "herdeiro" do múnus de Pedro e terá sempre a assistência do Divino Espírito Santo para o exercer. Este cargo é de tal forma "pesado e difícil" que não creio que alguém o possa desejar. Por isso mesmo tenho como certo que ao aceitar o cargo para que foi eleito, o Papa está a entregar toda a sua vida ao serviço da Igreja fundada por Jesus Cristo.

Eu, como cristão que sou, tenho bem presente que devo rezar diariamente pelo Sumo Pontífice, pela sua vida, pelas suas intenções. É um dever de filho! A "riqueza" do Papa não consiste em bens materiais - para que os quereria ?  - mas essa contínua cadeia de orações que os cristãos fazem pela sua pessoa e  intenções.

 

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