22/10/2018

Leitura espiritual

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LEGENDA MAIOR 

Vida de São Francisco de Assis

CAPITULO 5

Austeridade de vida e como as criaturas lhe proporcionavam consolo

1. Francisco, o homem de Deus, via que por seu exemplo muitíssimos se sentiam encorajados a levar a cruz de Cristo com grande fervor e com isso também ele se sentia animado, como bom guia do exército de Cristo, a conquistar vitoriosamente as culminâncias da virtude. A fim de realizar aquelas palavras do Apóstolo: “Os que são de Cristo crucificaram sua carne com seus vícios e concupiscências” (GI 5,24), e levar no próprio corpo a armadura da cruz, refreava os estímulos dos sentidos com uma disciplina tão rigorosa que a muito custo admitia o necessário para seu sustento.
Dizia que é difícil satisfazer as exigências do corpo sem se abrir mão das baixas tendências dos sentidos. Por essa razão, a contragosto e raramente, aceitava alimentação cozida e. neste caso, ou lhe acrescentava cinzas ou a mergulhava na água para torná-la insípida. E que diremos do vinho se a própria água ele a bebia tão escassamente, ainda que abrasado de sede?
Facilmente encontrava meios de tornar mais penosa a sua abstinência em que todos os dias fazia progresso; pois, embora houvesse chegado ao cume da perfeição, procurava, contudo como se fosse um principiante, castigar com novas mortificações as revoltas da carne. Mas quando saía pelo mundo, conformava-se, no tocante à comida, com aqueles que o hospedavam em suas casas, seguindo nisso o conselho do Evangelho; mas logo que voltava ao retiro, entregava-se de novo aos costumeiros rigores de sua abstinência.
Desse modo agia com austeridade consigo mesmo, mas suave e caridosamente com o próximo, e conformando-se em tudo ao Evangelho de Cristo, não só jejuando, mas também comendo, a todos edificava com seu exemplo. Era a terra nua que quase sempre servia de leito a seu pobre corpo fatigado.
Muitas vezes dormia sentado, usando uma pedra ou um tronco como travesseiro, enquanto o único manto andrajoso lhe cobria o corpo.
E assim servia ao Senhor no frio e na nudez.

2. Alguém lhe perguntou certa vez como podia proteger-se contra o rigor do inverno com agasalhos tão pobres e ele respondeu cheio de estranho fervor de espírito: “Se tivéssemos internamente esse fogo que é o desejo da pátria celeste, não
teríamos dificuldade em suportar o frio externo”.
Tinha horror de roupas caras e preferia as grosseiras, acrescentando que João Baptista foi louvado por Cristo por causa das suas roupas rudes.
Se a roupa que recebesse parecia muito macia, costumava coser-lhe por dentro pedaços de cordas grosseiras porque, dizia ele, é nos palácios dos ricos que devemos procurar os que usam roupas finas e não nas choupanas dos pobres.
Sabia por experiência própria que os demónios ficavam aterrorizados ao verem pessoas vestidas com roupas rudes, ao passo que vestes ricas ou macias lhes davam coragem para atacarem mais afoitamente.
Certa noite, usou um travesseiro de penas, contrariamente aos seus costumes, porque estava com dor de cabeça e sofria dos olhos; mas um demónio entrou no travesseiro e não lhe deu descanso até de manhã, impedindo-o de se entregar à oração.
Finalmente ele chamou um irmão e disse-lhe que levasse embora aquele travesseiro. Ao deixar o quarto com o travesseiro, o irmão ficou sem forças e com os membros paralisados. Então Francisco, que viu em espírito o que estava acontecendo, com uma palavra restituiu ao irmão o vigor do corpo e da alma.

3. Francisco vigiava constantemente sobre si mesmo, tomando todo cuidado em conservar puros a sua alma e o seu corpo; no início da sua conversão, em pleno inverno, às vezes, mergulhava num fosso cheio de água gelada para reprimir os desordenados movimentos da concupiscência e preservar ilesa dos ardores do torpe deleite a cândida veste de seu pudor virginal. Um homem espiritual, afirmava ele, suporta muito mais facilmente o frio que congela o corpo do que o ardor do mais leve desejo carnal que domine seu espírito.

4. Uma noite, enquanto orava num cubículo do eremitério de Sarteano, o antigo inimigo chamou-o por três vezes:
“Francisco, Francisco, Francisco!”
E tendo perguntado o que queria, o demónio acrescentou maliciosamente: “Não existe pecador algum no mundo com quem Deus não use de misericórdia, se ele se converter. Mas aquele que se mata com as suas penitências, jamais encontrará misericórdia”.
O homem de Deus logo percebeu, por revelação divina, o engano do inimigo que tentava chamá-lo de volta à tibieza, como logo a seguir ficou demonstrado pelo que aconteceu.
De facto Francisco sentiu arder dentro de si uma grave tentação sensual, alimentada pelo sopro daquele que tem um “hálito ardente como brasas” (Jo 41,12). Mal a notou e já se despojou das suas vestes e começou a disciplinar-se com todo rigor.
“Eia, irmão burro, assim te convém permanecer, assim te convém estar e sofrer os açoites que bem mereces.
O hábito religioso serve para a decência e leva em si o carácter da santidade; por essa razão não deve apropriar-se dele um homem luxurioso.
Pois bem, se pretendes evitar o castigo, anda, pois, para onde te apraza”.
Movido então de um grande fervor de espírito, saiu da cela e foi a um campo que ficava bem próximo e aí, nu como estava, revirou-se num grande monte de neve para sufocar assim os ardores da concupiscência. Em seguida, formou sete bolas ou figuras de neve de diversos tamanhos, e diante delas falava a si mesmo:
“Tens aqui, neste bloco maior, a tua mulher; esses quatro são dois filhos e duas filhas; os outros dois são um servo e uma serva, que precisas para os trabalhos da casa. Apressa-te, pois, a vesti-los porque estão morrendo de frio. Mas se as muitas preocupações que te dão te aborrecem, procura desprender-te deles e consagra-te fielmente a teu único Deus e Senhor”.
O tentador, vencido, bateu em retirada imediatamente e o santo voltou à sua cela, vitorioso.
O frio externo que ele se impusera como castigo tinha tão bem apagado o fogo interior da concupiscência que se livrou dele para sempre. Um dos irmãos, que estava em oração naquela hora, testemunhou todo o espectáculo graças a um esplêndido luar que havia; o homem de Deus, informado desse facto, contou-lhe o drama da sua tentação, mas proibiu-lhe que falasse dele a quem quer que fosse, enquanto vivesse.
5. Ensinava que não basta só mortificar as paixões da carne e refrear os seus estímulos, mas também guardar com suma vigilância os outros sentidos, através dos quais a morte entra na alma. Recomendava muito evitar-se com todo empenho a familiaridade e as conversas com as mulheres, porque para muitos elas são ocasião de ruína.
Pois, afirmava ele, “é o que perde os mais fracos e enfraquece os mais fortes; conseguir evitar o contágio das mulheres para quem com elas se entretém é tão difícil quanto ‘caminhar no fogo e não queimar os pés’, como diz a Escritura (cf. Pr 6,27). A não ser que se trate de um indivíduo de virtude muito provada”. Ele mesmo desviava os olhos para não perder tempo com vaidades, de tal forma que não conhecia mulher alguma pelas feições, como ele próprio assegurou certa vez a um companheiro.
Julgava perigoso permitir que a fantasia retivesse a imagem delas capaz de fazer renascer o fogo numa carne já dominada ou de manchar a alvura de uma alma inocente. Chegava mesmo a declarar que falar a uma mulher era frivolidade, salvo confissão ou breve aconselhamento, de acordo com as necessidades de sua alma e as exigências das boas maneiras:
“De que assuntos poderia um religioso tratar com uma mulher a não ser o caso de ela lhe pedir devotamente a penitência ou algum conselho para melhorar sua vida?
Quem se sente muito seguro de si, não toma o devido cuidado com o inimigo, e o demónio quando pode pegar um homem por um fio de cabelo transforma este numa grossa amarra com que o arrasta sem dificuldade ao abismo”.

6. Quanto à preguiça, sentina de todos os maus pensamentos, ensinava que se há de fugir dela com o maior cuidado e mostrava por seu exemplo que é preciso dominar a carne preguiçosa e rebelde mediante contínuas disciplinas e frutuosas fadigas. Por isso chamava o corpo de “irmão burro”, indicando assim que é necessário carregá-lo de trabalho e de fardos, puni-lo com chicotadas e ser sustentado com alimento ordinário e escasso. Por isso quando via algum ocioso e vagabundo, desses que pretendem viver às expensas do suor dos outros, chamava-o de “Irmão Mosca”, porque este, nada fazendo de bom e usando mal dos benefícios recebidos, chega a se converter em objecto de abominação para todos.
Por isso, em certa ocasião assim se expressava: “Quero que meus irmãos trabalhem e se ocupem em algum trabalho honesto, para que não se entreguem à ociosidade e venham a cair por palavra ou pensamento em algo que seja ilícito ou pecaminoso”.
Queria que seus irmãos observassem o silêncio indicado no Evangelho, quer dizer, que em todas as circunstâncias evitassem com todo cuidado qualquer palavra ociosa, de que no dia do juízo deverão prestar contas (cf. Mt 12,36).
Levado por esse sentimento, toda vez que encontrava um religioso viciado pelo apetite desenfreado de falar, repreendia-o duramente, dizendo que o calar com modéstia protege a pureza do coração e não é virtude de menor importância, se é verdade, como diz a Escritura, que “a morte e a vida se encontram em poder da língua” (Pr 18,21), não tanto por razão do gosto quanto pela excessiva loquacidade.

São Boaventura

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por AMA)

Tens erros... e que erros!!


Não te assustes nem desanimes, ao descobrires que tens erros... e que erros! Luta por arrancá-los. E, desde que lutes, convence-te de que é bom que sintas todas essas debilidades porque, se não, serias um soberbo: e a soberba afasta de Deus. (Forja, 181)

Jesus, se nós, que nos reunimos no teu Amor, fôssemos perseverantes! Se conseguíssemos traduzir em obras esses anseios de santidade que Tu próprio despertas nas nossas almas! Perguntemo-nos a nós próprios com frequência: para que estou eu na terra? E assim hão-de procurar acabar perfeitamente – com muita caridade – as tarefas que empreenderem em cada dia e cuidar das coisas pequenas. Debrucemo-nos sobre o exemplo dos santos: pessoas como nós, de carne e osso, com fraquezas e debilidades, que souberam vencer e vencer-se por amor de Deus; consideremos a sua conduta e – como as abelhas que destilam de cada flor o néctar mais precioso – aproveitemo-nos das suas lutas. Assim também havemos de aprender a descobrir muitas virtudes nos que nos rodeiam – dão-nos lições de trabalho, de abnegação, de alegria... – sem nos determos demasiado nos seus defeitos; só quando for imprescindível, para os ajudar com a correcção fraterna. (Amigos de Deus, 20)

Evangelho e comentário


Tempo comum



Evangelho: Lc 12, 13-21

13 Dentre a multidão, alguém lhe disse: «Mestre, diz a meu irmão que reparta a herança comigo.» 14 Ele respondeu-lhe: «Homem, quem me nomeou juiz ou encarregado das vossas partilhas?» 15 E prosseguiu: «Olhai, guardai-vos de toda a ganância, porque, mesmo que um homem viva na abundância, a sua vida não depende dos seus bens.» 16 Disse-lhes, então, esta parábola: «Havia um homem rico, a quem as terras deram uma grande colheita. 17 E pôs-se a discorrer, dizendo consigo: ‘Que hei-de fazer, uma vez que não tenho onde guardar a minha colheita?’ 18 Depois continuou: ‘Já sei o que vou fazer: deito abaixo os meus celeiros, construo uns maiores e guardarei lá o meu trigo e todos os meus bens. 19 Depois, direi a mim mesmo: Tens muitos bens em depósito para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te.’ 20 Deus, porém, disse-lhe: ‘Insensato! Nesta mesma noite, vai ser reclamada a tua vida; e o que acumulaste para quem será?’ 21 Assim acontecerá ao que amontoa para si, e não é rico em relação a Deus.»

Comentário:

De facto, o Senhor disse-nos para pedirmos quanto quisermos e que achamos que nos faz falta.

A esta luz compreende-se a resposta de Jesus neste trecho do Evangelho?

Penso que sim porque o Senhor quer o nosso bem e anseia por nos dar o que necessitamos, mas, neste caso – como noutros de igual teor – temos de convir que Deus não é nosso “empregado” nem nos servirá como nos convier em cada circunstância.

Por isso mesmo nos deu inteira liberdade de escolher as opções que devemos tomar na nossa vida nem nunca interferirá para que tomemos esta ou aquela decisão.

(AMA, comentário sobre Lc 12, 13-21, 23.10.2017)




21/10/2018

Temas para reflectir e meditar

Formação humana e cristã – 84


Ora bem, este é um bom exemplo, penso eu, da oração universal.
Não fazemos a menor ideia de quem possam ser estas almas mas, o Senhor, sabe e aplicará a nossa prece conforme Lhe parecer mais adequado.

Pensemos um pouco, quantas destas almas "esquecidas" nos devem a nós a sua "libertação" do Purgatório e a sua ida, definitiva, para o Céu!
Sim... ponho um ponto de exclamação porque, tenho a certeza de que o que disse é absolutamente verdade.


Voltemos atrás: rezai pelos pecadores!

Ou seja: rezai por todos os homens e mulheres sem distinguir nem raça credo ou modo de vida.

Por alguma razão, Santa Teresinha do Menino Jesus é a padroeira das missões, ela, que nunca saiu, na sua curta vida, do convento.

Porque a oração vale por todas as "presenças" e por todas as intenções particulares quando é feita com a intenção geral de alguma causa, intenção ou grupos de pessoas.

Por isso mesmo, a Santa Missa  é considerada a oração universal por excelência porque se aplica a todos os homens como foi muito bem expresso e determinado por Jesus Cristo na Última Ceia.

«Por vós e por todos» são as Suas palavras textuais, não exclui ninguém, não escolhe ou põe de lado seja quem for, nem naquele momento nem nunca.

AMA, reflexões.

Leitura espiritual

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LEGENDA MAIOR 

(Vida de São Francisco de Assis)

CAPITULO 4

6. Muitos, inflamados pelo ardor de sua pregação, impunham-se a nova regra de penitência de acordo com a fórmula aperfeiçoada pelo homem de Deus que decidiu chamar esse género de vida “Ordem dos Frades da Penitência”. E não havendo outro caminho possível para todos os que buscam o céu a não ser o caminho da penitência, admitem-se nela os clérigos e os leigos, os solteiros e os casados. Os inúmeros milagres realizados por alguns deles provam bem qual o mérito que tiveram aos olhos de Deus. Houve também donzelas que optaram pela castidade perpétua, entre as quais Clara, virgem amantíssima de Deus, primeiro rebento do jardim, perfumada como branca flor primaveril, esplêndida como estrela fulgurante. Gloriosa agora no céu, é justamente venerada na terra pela Igreja, ela que foi, em Cristo, a filha do Pai São Francisco, pobrezinho, e a mãe das damas pobres.

7. Também houve um grande número de homens que, movidos não só por devoção, mas também inflamados do desejo da perfeição de Cristo, abandonavam toda vaidade mundana e seguiam Francisco.
Crescendo e multiplicando-se dia após dia, espalharam-se em pouco tempo até aos confins da terra.
Realmente a santa pobreza, único viático que levavam consigo nas suas viagens, os tornava prontos para toda obediência, fortes para enfrentar as fadigas e sempre dispostos a partir em missão.
Nada possuíam deste mundo e a nada se apegavam.
Nada, pois, temiam perder.
Estavam livres dos cuidados, sem ansiedades que os perturbassem ou lhes causassem preocupações e os distraíssem.
Os seus corações viviam na paz e olhavam o futuro dia após dia, sem se preocuparem com abrigo para a noite.
Em diversas partes do mundo sucedia-lhes ser cobertos de injúrias como pessoas desprezíveis e desconhecidas; mas o amor do Evangelho os tornara tão pacientes, que eles mesmos procuravam os lugares em que sabiam que seriam per seguidos e evitavam aqueles em que a santidade deles era conhecida e haviam encontrado honra e simpatia.
A pobreza que suportavam era para eles como riqueza e abundância, e segundo a palavra do profeta tinham prazer “não nas coisas grandes, mas nas pequenas” (Eclo 29,30).
Certa vez, alguns irmãos chegados às terras dos pagãos encontraram um sarraceno que, movido de compaixão, lhes ofereceu dinheiro necessário para comprarem o que comer, mas eles recusaram aceitar o dinheiro.
Ficou admirado, porque via que nada tinham.
Percebeu então que era por amor a Deus que eles se haviam feito mendigos e recusavam dinheiro.
Sentiu-se tão atraído por eles, que se ofereceu para dar-lhes o suprimento necessário, enquanto lhe restasse alguma fortuna.
Preciosa e inestimável pobreza, poder admirável que soube converter em tão grande ternura e compaixão um coração bárbaro e feroz!
Por conseguinte, é um crime monstruoso e detestável que um cristão pisoteie e despreze essa pérola preciosa que teve em tão grande estima um infeliz sarraceno.

8. Nesse tempo, um religioso da Ordem dos Crucíferos, chamado Morico, encontrava-se numa hospedaria próxima à cidade de Assis, vítima de enfermidade tão grave e prolongada, que os médicos esperavam para muito breve a sua morte.
Vendo-se nesse estado, enviou o enfermo uma pessoa que em seu nome pedisse com instância a Francisco se dignasse rogar por ele ao Senhor.
Ouviu o santo afavelmente essa súplica e recolhendo umas migalhas de pão, amassou-as com um pouco de azeite tomado da lâmpada que ardia diante do altar da Santíssima Virgem, formou com essa massa um preparado inteiramente novo e o enviou ao doente através dos seus religiosos, dizendo-lhes ao mesmo tempo:
“Ide, levai este remédio ao nosso irmão Morico e dizei-lhe que estou certo de que por meio dele a virtude omnipotente de Cristo não só lhe devolverá inteiramente a saúde, mas também, convertendo-o em esforçado guerreiro, fará que venha muito cedo a engrossar as fileiras de nosso exército”.
Mal o enfermo provou daquele antídoto, feito sob inspiração divina, levantou-se completamente curado, sentindo-se tão revigorado por Deus na alma e no corpo que, tendo ingressado na Ordem de Francisco, nela perseverou por muitos anos levando uma vida de muita penitência: suas vestes eram apenas uma túnica pobre e consumida pelo uso, sob a qual levou por muito tempo um áspero cilício, colado à carne; comia apenas alimentos crus, ervas, legumes e frutas; não se sabe que tenha provado algum dia pão e vinho. Apesar disso, sempre viveu são e robusto e sem achaques de espécie alguma.

9. Cresciam cada dia mais em mérito os pobrezinhos de Cristo, e a fama de que gozavam se espalhou como um perfume, atraindo de todos os pontos da terra homens que queriam conhecer nosso bem-aventurado Pai. E até mesmo um poeta mundano, outrora coroado pelo imperador e apelidado posteriormente “Rei das Canções”, desejou conhecer esse homem de Deus, de cujo desprezo pelo mundo todos falavam.
Encontrou-o, por acaso, pregando num mosteiro de São Severino, e ali a mão do Senhor pousou sobre ele: viu Francisco, pregador da cruz de Cristo, atravessado por duas espadas brilhantes e postas em forma de cruz; uma delas descia da cabeça aos pés e a outra se dirigia, penetrando pelo peito, desde a extremidade de uma mão até a da outra.
O poeta não conhecia Francisco pessoalmente, mas percebeu que a pessoa que lhe aparecia naquele milagre não poderia ser outra.
Ficou estupefacto ante aquela visão que Deus lhe mostrava e imediatamente resolveu encetar uma vida mais santa; a palavra do santo levou-o à compunção, como se uma espada espiritual saindo de sua boca o tivesse traspassado.
Por isso, desprezando todas as pompas e vaidades do mundo, uniu-se a Francisco e abraçou resolutamente seu género de vida, professando a Regra da Ordem. E como o Seráfico Pai muito se alegrou ao vê-lo convertido das iniquidades do mundo à tranquila paz de que gozam os verdadeiros discípulos de Cristo, quis que na Ordem fosse conhecido com o nome de Frei Pacífico.
Muito santo se tornou Pacífico mais tarde; e antes de ir à França, em que foi o primeiro ministro provincial, foi agraciado por Deus com uma visão.
Um grande tau apareceu várias vezes na testa de Francisco, iluminando e adornando maravilhosamente a sua face com singular variedade de cores. E na verdade o santo nutria grande veneração e afecto pelo sinal tau. E mesmo o recomendava muitas vezes por palavras e o escrevia de próprio punho sobre as cartas que enviava, como se a sua missão consistisse, conforme a palavra do profeta, em “marcar com um tau a fronte dos homens que gemem e choram” (Ez 9,4), convertidos sinceramente a Cristo.

10. Com o passar dos anos e crescendo o número dos irmãos, o solícito pastor começou a reuni-los no local chamado Santa Maria da Porciúncula para o capítulo geral, a fim de repartir entre eles, por sorte, a terra ou propriedade de sua pobreza e dar a cada qual a porção que a obediência determinasse.
Mais de cinco mil irmãos aí se reuniram e faltava tudo nesse lugar. Mas Deus, em sua bondade, veio-lhes em socorro, concedendo-lhes o suficiente para as forças do corpo e a alegria do espírito.
Aos capítulos provinciais Francisco não podia assistir pessoalmente, mas a sua presença era marcada por directivas solícitas, oração contínua e com sua bênção eficaz. E às vezes mesmo, por virtude do poder de Deus, ele aparecia visivelmente.
Um dia, por exemplo, quando o glorioso confessor de Cristo, António, estava pregando aos irmãos no capítulo de Arles acerca do título da cruz: “Jesus Nazareno, Rei dos Judeus”, certo religioso de virtude comprovada, de nome Monaldo, movido por instinto interior e divino, dirigiu os olhos para a porta da sala onde se celebrava o capítulo, e cheio de admiração viu ali, com os olhos corporais, o seráfico Pai, que, elevado no ar e de mãos estendidas em forma de cruz, abençoava seus religiosos.
Todos experimentaram naquela ocasião tanta e tão extraordinária consolação de espírito, que em seu interior não lhes foi possível duvidar da real presença do seráfico Pai, confirmando-se depois nesta crença não só pelos sinais evidentes que haviam observado, como também pelo testemunho que verbalmente lhes deu o próprio santo. Devemos admitir que a mesma força omnipotente de Deus que permitiu outrora ao santo bispo Ambrósio assistir aos funerais do glorioso Martinho, para que venerasse com piedoso afecto aquele santo pontífice, essa mesma providência quis igualmente que seu servo Francisco estivesse presente à pregação de Santo António, grande arauto do Evangelho, para que aprovasse a verdade daquela doutrina, sobretudo no que se refere à cruz de Cristo, cujo ministro e embaixador fora constituído.

11. Quando a Ordem se expandiu, Francisco julgou ter chegado o momento de obter a confirmação em carácter definitivo pelo Papa Honório, sucessor de Inocêncio, da forma de vida aprovada por este último. Deus então, para instruí-lo, fez-lhe a seguinte revelação: parecia-lhe ter ajuntado do chão minúsculas migalhas de pão e ele devia distribui-las a seus irmãos esfaimados que se comprimiam em grande número à sua volta. Como hesitasse em distribuir tão pequenas migalhas que lhe poderiam ter escapado das mãos, disse-lhe uma voz do céu: “Francisco, com todas essas migalhas faze uma hóstia e poderás dar de comer a todos os que o desejarem”. Ele assim fez, mas todos aqueles que a recebiam sem devoção ou a tratavam sem consideração apareciam claramente marcados de uma lepra que os consumia. De manhã, contou o santo tudo isso aos seus companheiros, triste por não saber penetrar o mistério. Mas no dia seguinte à noite enquanto, privando-se do sono, ele continuava a orar, ouviu a mesma voz lhe dizer do alto do céu: “Francisco, as migalhas que viste na última noite são as palavras do Evangelho, a hóstia representa a Regra e a lepra o pecado”.
Querendo, pois, reduzir a uma forma mais sucinta, conforme o sentido da visão anterior, a Regra escrita antes com abundância de palavras tomadas ao Evangelho, movido por inspiração divina, subiu com dois companheiros ao cume de um monte e aí, havendo-se entregue durante vários dias a um jejum rigoroso a pão e água, fez escrever uma nova Regra conforme o Espírito Santo lhe ia ditando. Mas aconteceu que, ao descer do monte, Francisco entregou aquela Regra a seu vigário, com encargo de a guardar; e como este, depois de alguns dias, afirmasse que a havia perdido por descuido, o santo voltou novamente à solidão do monte e a escreveu pela segunda vez de modo inteiramente igual à primeira, como se o próprio Deus a houvesse ditado palavra por palavra. Depois disso, conseguiu logo, como desejava, que o mencionado Papa Honório III lhe confirmasse solenemente a Regra, no oitavo ano de seu pontificado. Exortando mais tarde fervorosamente a seus filhos à fiel observância da referida Regra, garantia-lhes que ele nada havia colocado nela que fosse de sua reflexão pessoal, antes tudo o que continha escrevera conforme o próprio Senhor lhe havia revelado. E para que assim constasse com mais certeza para testemunho divino, passados alguns dias, foram impressas em seu corpo pelo dedo do Deus vivo as chagas de Cristo, como se fossem elas uma bula do Sumo Pontífice, Cristo Jesus, em confirmação absoluta da Regra e recomendação eficaz de seu autor, como se dirá depois ao descrevermos mais amplamente as virtudes do santo.

São Boaventura

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por AMA)

Pequena agenda do cristão

DOMINGO



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Viver a família.

Senhor, que a minha família seja um espelho da Tua Família em Nazareth, que cada um, absolutamente, contribua para a união de todos pondo de lado diferenças, azedumes, queixas que afastam e escurecem o ambiente. Que os lares de cada um sejam luminosos e alegres.

Lembrar-me:
Cultivar a Fé

São Tomé, prostrado a Teus pés, disse-te: Meu Senhor e meu Deus!
Não tenho pena nem inveja de não ter estado presente. Tu mesmo disseste: Bem-aventurados os que crêem sem terem visto.
E eu creio, Senhor.
Creio firmemente que Tu és o Cristo Redentor que me salvou para a vida eterna, o meu Deus e Senhor a quem quero amar com todas as minhas forças e, a quem ofereço a minha vida. Sou bem pouca coisa, não sei sequer para que me queres mas, se me crias-te é porque tens planos para mim. Quero cumpri-los com todo o meu coração.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?

Senhor, a sério que quero ser santo


Que a tua vida não seja uma vida estéril. – Sê útil. – Deixa rasto. – Ilumina, com o resplendor da tua fé e do teu amor. Apaga, com a tua vida de apóstolo, o rasto viscoso e sujo que deixaram os semeadores impuros do ódio. – E incendeia todos os caminhos da Terra com o fogo de Cristo que levas no coração. (Caminho, 1)

Procuremos fomentar no fundo do coração um desejo ardente, um empenho grande por alcançar a santidade, apesar de nos vermos cheios de misérias. Não se assustem; à medida que se avança na vida interior, conhecem-se com mais clareza os defeitos pessoais. O que acontece é que a ajuda da graça se transforma como que numa lente de aumentar e o mais pequeno cotão, o grãozinho de areia quase imperceptível aparecem com dimensões gigantescas, porque a alma adquire a finura divina e até a sombra mais pequena incomoda a consciência, que só gosta da limpeza de Deus. Diz-lhe agora, do fundo do coração: Senhor, a sério que quero ser santo, a sério que quero ser um teu discípulo digno e seguir-te sem condições. E depois, hás-de propor a ti próprio a intenção de renovar diariamente os grandes ideais que te animam nestes momentos. (Amigos de Deus, 20)

Evangelho e comentário


Tempo comum


Evangelho: Mc 10, 35-45

35 Tiago e João, filhos de Zebedeu, aproximaram-se dele e disseram: «Mestre, queremos que nos faças o que te pedimos.» 36 Disse-lhes: «Que quereis que vos faça?» 37 Eles disseram: «Concede-nos que, na tua glória, nos sentemos um à tua direita e outro à tua esquerda.» 38 Jesus respondeu: «Não sabeis o que pedis. Podeis beber o cálice que Eu bebo e receber o baptismo com que Eu sou baptizado?» 39 Eles disseram: «Podemos, sim.» Jesus disse-lhes: «Bebereis o cálice que Eu bebo e sereis baptizados com o baptismo com que Eu sou baptizado; 40 mas o sentar-se à minha direita ou à minha esquerda não pertence a mim concedê-lo: é daqueles para quem está reservado.» 41 Os outros dez, tendo ouvido isto, começaram a indignar-se contra Tiago e João. 42 Jesus chamou-os e disse-lhes: «Sabeis como aqueles que são considerados governantes das nações fazem sentir a sua autoridade sobre elas, e como os grandes exercem o seu poder. 43 Não deve ser assim entre vós. Quem quiser ser grande entre vós, faça-se vosso servo 44 e quem quiser ser o primeiro entre vós, faça-se o servo de todos. 45 Pois também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos.»

Comentário:

Realmente a maior parte de nós não sabemos o que pedimos ou, talvez, se o que pedimos é correcto, justo, necessário.

Sim, é verdade, podemos pedir tudo ao Senhor e, Ele “endireitará” o nosso pedido conforme julgar mais conveniente.

Daí que pedir para ter um “lugar especial” no Reino de Deus não faça nenhum sentido já que, a haver “tal lugar” só o alcançaremos com o mérito conseguido com a nossa conduta.

(AMA, comentário sobre Mc 10, 35-45, 11.07.2018)




20/10/2018

Temas para reflectir e meditar


Formação humana e cristã – 84 

Daí que, rezar pelos outros, anonimamente, não parece ser descabido nem sequer estultícia, porque Deus Nosso Senhor, como já referi, "aplica" as nossas orações como bem entende e, Ele, entende sempre o que é melhor.


Mas, de facto nem poderia ser de outro modo porque não sabemos que almas estão no Purgatório.
Podemos, isso sim, ter uma razoável certeza das que estão no Céu - fora claro está aquelas que a Igreja declarou como santas.
Mas aquelas pessoas que, nos últimos momentos das suas vidas, receberam o Sacramento da Unção dos Doentes, que tem o poder de perdoar todos os pecados, mesmo que não tenham tido oportunidade de os confessar, dá-nos essa razoável certeza.

Claro que pode existir um reato da pena que terá de ser remido no Purgatório, mas isso não nos compete saber e, por isso rezamos por todas as almas que já partiram ao encontro de Deus.

AMA, reflexões.

Leitura espiritual

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LEGENDA MAIOR 
(Vida de São Francisco de Assis)

CAPITULO 4

Progresso da Ordem sob a sua direcção e confirmação da Regra aprovada anteriormente

1. Com a graça de Deus e aprovação do papa, Francisco sentia-se agora confiante; e outra vez tomou O caminho pelo vale de Espoleto, onde resolveu pregar o Evangelho de Cristo e viver de acordo com ele. E confabulando pelo caminho com os seus companheiros, discutiam a maneira como observar com toda sinceridade a Regra que haviam recebido e como viveriam diante de Deus em santidade e justiça. Discutiam igualmente como se aperfeiçoariam e dariam aos outros o bom exemplo.
Já se fazia tarde e eles ainda prosseguiam o colóquio.
Estavam cansados pelo esforço contínuo do caminho e começaram a ficar com fome. Decidiram então parar num lugar solitário. Premidos por essa necessidade e não podendo de nenhum modo ir à procura de alimentos, experimentaram logo os efeitos da amorosa providência do Senhor.
Apareceu inesperadamente um homem carregando algum pão que lhes deu, desaparecendo logo a seguir, sem lhes deixar qualquer ideia de onde viera ou para onde seguira.
Os irmãos reconheceram então que a companhia do homem de Deus era para eles uma garantia da ajuda de Deus e sentiram-se saciados mais pelo dom da generosidade divina do que pelo alimento material recebido.
Ainda muito comovidos, decidiram firmemente e assumiram o compromisso irrevogável de jamais ser infiéis ao voto de pobreza, quaisquer que fossem sua escassez e trabalhos.

2. Chegaram finalmente ao vale de Espoleto, animados dessas boas disposições.
Começaram a discutir se haveriam de viver entre o povo ou procurar a solidão.
Francisco, que era um verdadeiro servo de Deus, recusou confiar apenas na sua própria opinião ou nas sugestões dos seus companheiros. Mas quis saber a vontade de Deus perseverando na oração. Depois, iluminado por uma revelação divina, sentiu que era enviado por Deus para conquistar para Cristo as almas que o demónio estava tentando roubar. Por isso resolveu viver para utilidade de todos e não apenas para si só, sentindo nisso o exemplo daquele que se dignou morrer pela salvação de todos os homens.

3. Retirou-se pois o servo de Deus com os seus companheiros para um tugúrio pobre e abandonado, perto de Assis.
Viviam aí trabalhando muito e passando penúria, de acordo com a altíssima pobreza, comprazendo-se em alimentar-se mais com o pão das lágrimas do que com a abundância e as delícias terrenas.
Entregavam-se ali a santos e piedosos exercícios; a sua oração devota e quase nunca interrompida era mais mental do que vocal, pois não dispunham de livros litúrgicos pelos quais pudessem recitar as horas canónicas do ofício divino. Mas, na falta desses, revolviam dia e noite o livro da cruz de Cristo, que sempre tinham à vista, incitados pelo exemplo e pela palavra do amantíssimo pai, que frequentemente lhes pregava com inefável doçura as glórias da cruz de Cristo. E como os irmãos lhe pedissem com insistência que os ensinasse a orar, disse-lhes:
“Quando quiserdes orar, dizei:
“Pai-nosso” e: “Nós vos adoramos, ó Cristo, em todas as igrejas que estão no mundo inteiro e vos bendizemos porque por vossa santa cruz remistes o mundo”. Ensinou-lhes também a louvar a Deus em todas as suas criaturas, a venerar com especial respeito os sacerdotes, a crer firmemente e confessar com simplicidade os dogmas da fé conforme crê e ensina a santa Igreja Romana.
Os discípulos seguiam fielmente a doutrina do seu santo mestre e todas as vezes que divisavam ao longe alguma igreja ou cruz, prostravam-se humildemente e adoravam-nas na forma que haviamaprendido.

4. Durante o tempo em que os irmãos moravam nesse lugar, foi o santo à cidade de Assis num Sábado para no Domingo fazer o sermão costumeiro na catedral.
Enquanto passava a noite em oração, conforme seu hábito, num tugúrio situado no jardim dos cónegos, longe dos seus filhos, eis que por volta da meia-noite - alguns irmãos dormiam, outros ainda oravam - um carro de fogo de maravilhoso esplendor encimado por um globo resplandecente, semelhante ao sol, que iluminava a noite, entrou pela porta da cabana e deu três voltas.
Os que vigiavam ficaram estupefactos e os que dormiam acordaram apavorados; os seus corações iluminaram-se mais que os seus corpos, embora a essa luz admirável pudessem ler às claras a consciência de cada um; eram capazes de penetrar os sentimentos uns dos outros, e acreditavam unanimemente que era o Pai que, embora ausente de corpo, se encontrava presente em espírito, aparecendo-lhes sob essa imagem, fulgurante e abrasado de amor.
Também tinham plena certeza de que o Senhor lhes queria mostrar por esse carro de fogo resplendente que eles seguiam, como verdadeiros israelitas, o novo Elias estabelecido por Deus para ser “o carro e o condutor” (cf. 4Rs 2,12) dos homens do Espírito.
Devemos crer que Deus, pela oração de Francisco, abriu os olhos desses homens simples para que contemplassem as suas grandezas, como outrora havia aberto os olhos do servo de Eliseu para que visse “a montanha coberta de carros de fogo e de cavalos que rodeavam o profeta” (cf. 4Rs 6,17).
Ao voltar o santo homem para junto de seus irmãos, penetrou os segredos das suas consciências, reanimou-lhes a coragem falando-lhes da visão extraordinária que haviam tido e fez-lhes numerosas predições com relação aos progressos da Ordem.
Ao ouvi-lo expor assim tantas coisas fora do alcance de uma inteligência humana, compreenderam os irmãos claramente que o Espírito do Senhor estava sobre seu servo Francisco com tal plenitude que para eles a escolha mais acertada era seguir a sua vida e doutrina.

5. Depois desses acontecimentos, Francisco, pastor da pequena grei, inspirado pela graça divina, conduziu os seus doze irmãos a Santa Maria da Porciúncula, pois desejava que a Ordem dos irmãos menores crescesse e se desenvolvesse sob a protecção da Mãe de Deus, naquele lugar em que, pelos méritos dela, havia dado os primeiros passos.
Como arauto do Evangelho, percorria cidades e vilas, anunciando o reino de Deus, “não por doutas palavras da sabedoria humana, mas pela virtude do Espírito Santo” (1Cor 2,13).
Parecia um homem do outro mundo, conservando a alma e o semblante continuamente voltados para o alto e procurando erguer da terra todos os corações.
Desde então a vinha do Senhor começou a produzir rebentos perfumados, flores de suavidade, de honra e de santidade e a dar frutos abundantes.


São Boaventura

(cont)

(Revisão da versão portuguesa por AMA)

Pequena agenda do cristão

SÁBADO



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Honrar a Santíssima Virgem.

A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador, porque pôs os olhos na humildade da Sua serva, de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações. O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas, santo é o Seu nome. O Seu Amor se estende de geração em geração sobre os que O temem. Manifestou o poder do Seu braço, derrubou os poderosos do seu trono e exaltou os humildes, aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias. Acolheu a Israel Seu servo, lembrado da Sua misericórdia, como tinha prometido a Abraão e à sua descendência para sempre.

Lembrar-me:

Santíssima Virgem Mãe de Deus e minha Mãe.

Minha querida Mãe: Hoje queria oferecer-te um presente que te fosse agradável e que, de algum modo, significasse o amor e o carinho que sinto pela tua excelsa pessoa.
Não encontro, pobre de mim, nada mais que isto: O desejo profundo e sincero de me entregar nas tuas mãos de Mãe para que me leves a Teu Divino Filho Jesus. Sim, protegido pelo teu manto protector, guiado pela tua mão providencial, não me desviarei no caminho da salvação.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?





Não há trabalhos de pouca categoria


No serviço de Deus, não há trabalhos de pouca categoria: todos são de muita importância. A categoria do trabalho depende do nível espiritual de quem o realiza. (Forja, 618)

Compreendem porque é que uma alma deixa de saborear a paz e a serenidade quando se afasta do seu fim, quando se esquece de que Deus a criou para a santidade? Esforcem-se por nunca perder este ponto de mira sobrenatural, nem sequer nos momentos de diversão ou de descanso, tão necessários como o trabalho na vida de cada um.
Bem podem chegar ao cume da vossa actividade profissional, alcançar os triunfos mais retumbantes, como fruto da livre iniciativa com que exercem as actividades temporais; mas se abandonarem o sentido sobrenatural que tem de presidir todo o nosso trabalho humano, enganaram-se lamentavelmente no caminho.
(...) 
Perante Deus, que é o que conta em última análise, quem luta por comportar-se como um cristão autêntico, é que consegue a vitória: não existe uma solução intermédia. Por isso vocês conhecem tantas pessoas que deviam sentir-se muito felizes, ao julgar a sua situação de um ponto de vista humano e, no entanto, arrastam uma existência inquieta, azeda; parece que vendem alegria a granel, mas aprofunda-se um pouco nas suas almas e fica a descoberto um sabor acre, mais amargo que o fel. Isto não há-de acontecer a nenhum de nós, se deveras tratarmos de cumprir constantemente a Vontade de Deus, de dar-lhe glória, de louvá-lo e de espalhar o seu reinado entre todas as criaturas. (Amigos de Deus, 10–12)

Evangelho e comentário


Tempo comum


Evangelho: Lc 12, 8-12

8 Digo-vos ainda: Todo aquele que se declarar por mim diante dos homens, também o Filho do Homem se declarará por ele diante dos anjos de Deus. 9 Aquele, porém, que me tiver negado diante dos homens, será negado diante dos anjos de Deus. 10 E a todo aquele que disser uma palavra contra o Filho do Homem, há-de perdoar-se; mas, a quem tiver blasfemado contra o Espírito Santo, jamais se perdoará. 11 Quando vos levarem às sinagogas, aos magistrados e às autoridades, não vos preocupeis com o que haveis de dizer em vossa defesa, 12 pois o Espírito Santo vos ensinará, no momento próprio, o que deveis dizer.» 

Comentário:

Jesus alerta os discípulos para duas verdades importantíssimas:

Uma que não devem temer pela sua defesa, porque o Espírito Santo os ensinará o que dizer e fazer.

Outra que os pecados contra o Espírito Santo não têm perdão e isto porque quem os comete está por vontade própria a excluir-se da salvação e o Senhor respeita a liberdade do homem mesmo quando tal signifique a sua perdição eterna.

(AMA, comentário sobre Lc 12, 8-12, 11.07.2018)