22/03/2018

Minha filha, o Senhor conta com a tua ajuda

– Minha filha, que formaste um lar, agrada-me recordar-te que vós, as mulheres, – bem o sabes! – tendes muita fortaleza, que sabeis envolver numa doçura especial, para que não se note. E, com essa fortaleza, podeis fazer do marido e dos filhos instrumentos de Deus ou diabos. Tu fá-los-ás sempre instrumentos de Deus: Nosso Senhor conta com a tua ajuda. (Forja, 690)


A mulher é chamada a levar à família, à sociedade civil, à Igreja, alguma coisa de característico, que lhe é próprio e que só ela pode dar: a sua delicada ternura, a sua generosidade incansável, o seu amor ao concreto, a sua agudeza de engenho, a sua capacidade de intuição, a sua piedade profunda e simples, a sua tenacidade... A feminilidade não é autêntica se não reconhece a formosura dessa contribuição insubstituível e não a incorpora na própria vida.


Para cumprir essa missão, a mulher tem de desenvolver a sua própria personalidade, sem se deixar levar por um ingénuo espírito de imitação, que – em geral – a colocaria facilmente num plano de inferioridade e deixaria irrealizadas as suas possibilidades mais originais. Se se formar bem, com autonomia pessoal, com autenticidade, realizará eficazmente o seu trabalho, a missão para que se sente chamada, seja ela qual for. A sua vida e o seu trabalho serão realmente construtivos e fecundos, cheios de sentido, tanto se passa o dia dedicada ao marido e aos filhos, como se, tendo renunciado ao matrimónio por alguma razão nobre, se entregou plenamente a outras tarefas. Cada uma no seu próprio caminho, sendo fiel à sua vocação humana e divina, pode realizar e realiza de facto a plenitude da personalidade feminina. Não esqueçamos que Santa Maria, Mãe de Deus e Mãe dos homens, é não só modelo, mas também prova do valor transcendente que pode alcançar uma vida aparentemente sem relevo. (Temas Actuais do Cristianismo, 87)



Uma mulher com preparação adequada deve ter a possibilidade de encontrar aberto o caminho da vida pública, em todos os níveis. Neste sentido, não se podem apontar tarefas específicas da mulher. Como disse antes, o específico neste terreno não é dado tanto pela tarefa ou pelo posto, como pelo modo de realizar esta função, pelos matizes que a sua condição de mulher encontrará para a solução dos problemas com que se enfrente, e inclusivamente pela descoberta e pela formulação destes problemas. (Temas Actuais do Cristianismo, 90)

Temas para reflectir e meditar

Vocação profissional


Os leigos não são cristãos de segunda fila: a vocação profissional entra com todo o seu vigor nos planos divinos. O Senhor conta com esse tecido de actividades e relações humanas, porque com a dedicação a essas tarefas nobres – cada um a que lhe corresponda -, os cristãos servimos a Deus e a toda a humanidade.



(JAVIER ECHEVARRÍA, Itinerários de Vida Cristiana, Planeta, 2001, pg. 214, trad ama)





Evangelho e comentário

Tempo de Quaresma

Evangelho: Jo 8, 51-59

51 Em verdade, em verdade vos digo: se alguém observar a minha palavra, nunca morrerá.» 52 Disseram-lhe, então, os judeus: «Agora é que estamos certos de que tens demónio! Abraão morreu, os profetas também, e Tu dizes: ‘Se alguém observar a minha palavra, nunca experimentará a morte’? 53 Porventura és Tu maior que o nosso pai Abraão, que morreu? E os profetas morreram também! Afinal, quem é que Tu pretendes ser?» 54 Jesus respondeu: «Se Eu me glorificar a mim mesmo, a minha glória nada valerá. Quem me glorifica é o meu Pai, de quem dizeis: ‘É o nosso Deus’; 55 e, no entanto, não o conheceis. Eu é que o conheço; se dissesse que não o conhecia, seria como vós: um mentiroso. Mas Eu conheço-o e observo a sua palavra. 56 Abraão, vosso pai, exultou pensando em ver o meu dia; viu-o e ficou feliz.» 57 Disseram-lhe, então, os judeus: «Ainda não tens cinquenta anos e viste Abraão?» 58 Jesus respondeu-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: antes de Abraão existir, Eu sou!» 59 Então, agarraram em pedras para lhe atirarem. Mas Jesus escondeu-se e saiu do templo

Comentário:

São João continua neste capítulo 8 do seu evangelho a relatar-nos com minúcia os diálogos que o Senhor vai mantendo com os que O perseguem e não aceitam.

De facto, admira-me a paciência extraordinária de Jesus em manter esta espécie de “diálogo de surdos”, sim, porque parece que obviamente ninguém está interessado nas respostas, mas apenas em manter com uma insistência doentia opiniões e conceitos próprios.

No fim e ao cabo, esta gente, não quer conhecer a verdade e é uma pena pois estão na presença da própria VERDADE.

(AMA, comentário sobre Jo 8, 51-59, 07.12.2017)




Leitura espiritual

TEMA 40. A oração

A oração é necessária para a vida espiritual: é a respiração que permite que a vida do espírito se desenvolva e actualize a fé na presença de Deus e do seu amor.

1. O que é a oração

Há dois vocábulos para designar a relação consciente e coloquial do homem com Deus: prece e oração[1]. A palavra “prece” provém do verbo latino precor, que significa rogar, socorrer-se de alguém, solicitando um benefício. O termo “oração” provém do substantivo latino oratio, que significa fala, discurso, linguagem. As definições de oração, que habitualmente são dadas, costumam reflectir estas diferenças de matiz que acabamos de encontrar ao aludir à terminologia. Por exemplo, São João Damasceno considera-a como «a elevação da alma a Deus e a petição de bens convenientes»[2]; enquanto que para São João Clímaco, trata-se antes de uma «conversa familiar e união do homem com Deus»[3]. A oração é absolutamente necessária para a vida espiritual. É como a respiração que permite que a vida do espírito se desenvolva. Na oração actualiza-se a fé na presença de Deus e do seu amor. Fomenta-se a esperança que leva a orientar a vida para Ele e a confiar na sua providência. E engrandece-se o coração ao responder, com o próprio amor, ao Amor divino.
Na oração, a alma, conduzida pelo Espírito Santo no mais profundo de si mesma (cf. Catecismo, 2562), une-se a Cristo, mestre, modelo e caminho de toda a oração cristã (cf. Catecismo, 2599 e seg.), e com Cristo, por Cristo e em Cristo, dirige-se a Deus Pai, participando da riqueza da vida trinitária (cf. Catecismo, 2559-2564). Daí a importância que a Liturgia tem na vida de oração e, no seu centro, a Eucaristia.
2. Conteúdos da oração

Os conteúdos da oração, como os de todo o diálogo de amor, podem ser múltiplos e variados. Importa, no entanto, destacar alguns especialmente significativos: Petição. É frequente a referência à oração impetratória ao longo de toda a Sagrada Escritura; também nos lábios de Jesus, que não só se socorre dela, mas convida a pedir, encarecendo o valor e a importância de uma prece simples e confiada. A tradição cristã reiterou esse convite, pondo-a em prática de muitas maneiras: petição de perdão, petição pela própria salvação e pela dos outros, petição pela Igreja e pelo apostolado, petição pelas mais variadas necessidades, etc. De facto, a oração de petição faz parte da experiência religiosa universal. O reconhecimento, embora por vezes difuso, da realidade de Deus (ou mais genericamente de um ser superior), provoca a tendência de se dirigir a Ele, solicitando a sua protecção e ajuda. Certamente a oração não se esgota na prece, mas a petição é uma manifestação decisiva da oração, enquanto reconhecimento e expressão da condição de criatura do ser humano e da sua dependência absoluta de um Deus, cujo amor, a fé nos dá a conhecer de maneira plena (cf. Catecismo, 2629, 2635). Acção de graças. O reconhecimento dos bens recebidos e, através deles, da magnificência e misericórdia divinas, impele a dirigir o espírito a Deus para proclamar e Lhe agradecer os seus benefícios. A atitude de acção de graças enche a Sagrada Escritura, do princípio ao fim e toda a história da espiritualidade. Uma e outra põem em evidência que, quando essa atitude se arraiga na alma, dá lugar a um processo que leva a reconhecer como dom divino, a totalidade do que acontece, não só aquelas realidades que a experiência imediata acredita como gratificantes, mas também as outras que podem parecer negativas ou mesmo adversas.
Consciente de que o acontecer está situado na dependência do desígnio amoroso de Deus, o crente sabe que tudo redunda em bem daqueles – cada homem – que são objecto do amor divino (cf. Rm 8, 28). «Acostuma-te a elevar o coração a Deus, em acção de graças, muitas vezes ao dia. - Porque te dá isto e aquilo. - Porque te desprezaram. - Porque não tens o que precisas ou porque o tens. Porque fez tão formosa a sua Mãe, que é também tua Mãe. - Porque criou o Sol e a Lua este animal e aquela planta. - Porque fez aquele homem eloquente e a ti te fez difícil de palavra... Dá-Lhe graças por tudo, porque tudo é bom»[4]. Adoração e louvor. É parte essencial da oração reconhecer e proclamar a grandeza de Deus, a plenitude do seu ser, a infinidade da sua bondade e do seu amor. Pode chegar-se ao louvor a partir da consideração da beleza e magnitude do universo, como acontece em múltiplos textos bíblicos (cf. por exemplo, Sl 19; Si 42, 15-25; Dn 3, 32-90) e em numerosas orações da tradição cristã[5]; ou a partir das obras grandes e maravilhosas que Deus faz na história da salvação, como sucede no Magnificat (Lc 1, 46-55), ou nos grandes hinos paulinos (ver, por exemplo, Ef 1, 3-14); ou de pequenos factos e inclusive de minudências em que se manifesta o amor de Deus. Em todo o caso, o que caracteriza o louvor é que nele o olhar vai directamente para o próprio Deus, tal como é em si, na sua perfeição ilimitada e infinita. «O louvor é a forma de oração que mais imediatamente reconhece que Deus é Deus! Canta-O por Si próprio, glorifica-O, não tanto pelo que Ele faz, mas sobretudo porque ELE É» (Catecismo, 2639). Está por isso intimamente unida à adoração, ao reconhecimento, não só intelectual mas existencial, da pequenez de tudo o criado, em comparação com o Criador e, em consequência, à humildade, à aceitação da indignidade pessoal diante de quem nos transcende até ao infinito; à maravilha que causa o facto desse Deus a quem os anjos e o universo inteiro rende reverência, se tenha dignado não só a olhar para o homem, mas a habitar no homem, mais ainda, a encarnar. Adoração, louvor, petição, acção de graças resumem as disposições de fundo que informam a totalidade do diálogo entre o homem e Deus. Seja qual for o conteúdo concreto da oração, quem reza fá-lo sempre, de uma forma ou de outra, explícita o implicitamente, adorando, louvando, suplicando, implorando ou dando graças a esse Deus que reverencia, que ama e em que confia. Importa reiterar, também, que os conteúdos concretos da oração poderão ser muito variados. Por vezes, socorremo-nos da oração para considerar passagens da Escritura, para aprofundar alguma verdade cristã, para reviver a vida Cristo, para sentir a proximidade de Santa Maria... Noutras, iniciar-se-á a partir da própria vida para tornar Deus participante das alegrias e afãs, ambições e problemas que a existência traz consigo, ou para encontrar apoio ou consolo, ou para examinar diante de Deus o próprio comportamento e fazer propósitos e tomar decisões, ou mais simplesmente para comentar, com quem sabemos que nos ama, os acontecimentos do dia. Encontro entre o crente e Deus em quem se apoia e por quem se sabe amado, a oração pode incidir sobre a totalidade dos acontecimentos que conformam a existência e sobre a totalidade dos sentimentos que o coração pode experimentar. «Escreveste-me: “orar é falar com Deus. Mas, de quê?” - De quê?! D’Ele e de ti; alegrias, tristezas, êxitos e fracassos, ambições nobres, preocupações diárias..., fraquezas!; e acções de graças e pedidos; e Amor e desagravo. Em duas palavras: conhecê-Lo e conhecer-te – ganhar intimidade!”»[6]. Seguindo uma e outra via, a oração será sempre um encontro íntimo e filial entre o homem e Deus, que fomenta o sentido da proximidade divina e leva a viver cada dia da existência cara a Deus.
3. Expressões ou formas da oração

Atendendo aos modos ou formas das manifestações da oração, os autores costumam dar diversas distinções: oração vocal e oração mental; oração pública e oração privada; oração, predominantemente, intelectual ou reflexiva e oração afectiva; oração regulada e oração espontânea, etc. Outras vezes, os autores procuram esboçar uma gradação na intensidade da oração, distinguindo entre oração mental, oração afectiva, oração de quietação, contemplação, oração unitiva... O Catecismo estrutura a sua exposição distinguindo entre oração vocal, meditação e oração de contemplação. As três «têm um traço fundamental comum: o recolhimento do coração. Esta atenção em guardar a Palavra e permanecer na presença de Deus faz destas três expressões tempos fortes da vida de oração» (Catecismo, 2699). Uma análise do texto evidencia, além disso, que o Catecismo ao empregar essa terminologia não faz referência a três graus da vida de oração, mas antes a duas vias, a oração vocal a meditação, apresentando as duas como aptas para conduzir a esse cume na vida de oração que é a contemplação. Na nossa exposição ater-nos-emos a este esquema. Oração vocal A expressão “oração vocal” aponta para uma oração que se exprime vocalmente, ou seja, mediante palavras articuladas ou pronunciadas. Esta primeira aproximação, ainda que exacta, não vai ao fundo da questão pois, por um lado, todo o dialogar interior, ainda que possa ser qualificado como exclusivo ou predominantemente mental, faz referência, no ser humano, à linguagem e, por vezes, à linguagem articulada em voz alta, também na intimidade da própria morada. Por outro, há que afirmar que a oração vocal não é assunto apenas de palavras mas, sobretudo, de pensamento e de coração. Daí que seja mais exacto defender que a oração vocal é a que se faz utilizando fórmulas preestabelecidas, longas ou breves (jaculatórias), quer retiradas da Sagrada Escritura (o Pai-Nosso, a Avé Maria...), quer recebidas da tradição espiritual (o Senhor meu Jesus Cristo, o Veni Sancte Spiritus, a Salvé, o Lembrai-vos ...). Tudo isso, como é óbvio, na condição das expressões ou fórmulas recitadas vocalmente sejam verdadeira oração, ou seja, que cumpram o requisito de que quem as recita o faça, não só com a boca, mas também com a mente e o coração. Se essa devoção faltasse, se não houvesse consciência de quem é Aquele a quem se dirige a oração, do que se diz na oração e de quem é quem o diz, então, como afirma com expressão gráfica Santa Teresa de Jesus, não se pode falar propriamente de oração «ainda que se mexam muito os lábios»[7]. A oração vocal tem um papel decisivo na pedagogia da prece, sobretudo no início da intimidade com Deus. De facto, mediante a aprendizagem do sinal da Cruz e de orações vocais, a criança – e com frequência também o adulto – introduzem-se na vivência concreta da fé e, portanto, da vida de oração. Não obstante, o papel e a importância da oração vocal não estar limitada aos começos do diálogo com Deus, está chamada a acompanhar a vida espiritual durante todo o seu desenvolvimento. A meditação Meditar significa aplicar o pensamento na consideração de uma realidade ou de uma ideia com o desejo de a conhecer e compreender com maior profundidade e perfeição. Num cristão, a meditação – que com frequência se designa também oração mental – implica orientar o pensamento para Deus tal como se revelou ao longo da história de Israel e definitiva e plenamente em Cristo. E, a partir de Deus, dirigir o olhar para a própria existência para a valorizar e acomodar ao mistério de vida, a comunhão e o amor que Deus deu a conhecer. A meditação pode desenvolver-se de forma espontânea, por ocasião dos momentos de silêncio que acompanham ou se seguem às celebrações litúrgicas, ou com origem na leitura de algum texto bíblico ou de uma passagem de algum autor espiritual. Noutros momentos, pode concretizar-se mediante a dedicação de tempos especificamente a ela destinados. Em todo o caso, é óbvio que – especialmente nos inícios, mas não só – implica esforço, desejo de aprofundar no conhecimento de Deus e da sua vontade, e no empenho pessoal efectivo com vista à melhoria da vida cristã. Nesse sentido, pode afirmar-se que «a meditação é, sobretudo, uma busca» (Catecismo, 2705); se bem que convém acrescentar que se trata não da busca de algo, mas de Alguém. A meditação cristã tende não só, nem primariamente, a compreender algo (em última instância, a entender o modo de Deus proceder e se manifestar), mas a encontrar-se com Ele e, encontrando-O, identificar-se com a sua vontade e unir-se a Ele. A oração contemplativa O desenvolvimento da experiência cristã e, nela e com ela, o da oração, conduzem a uma comunicação, entre o crente e Deus, cada vez mais continuada, mais pessoal e mais íntima. Nesse horizonte situa-se a oração a que o Catecismo qualifica de contemplativa, que é fruto de um crescimento na vivência teologal de que flúi um vivo sentimento da proximidade amorosa de Deus; em consequência, o convívio com Ele torna-se cada vez mais directo, familiar e confiado, e inclusive, para além das palavras e do pensamento reflexivo, chega-se a viver de facto em íntima comunhão com Ele. «O que é a contemplação?», interroga-se o Catecismo no início da secção dedicada à oração contemplativa, para responder a seguir afirmando, com palavras de Santa Teresa de Jesus, que não é outra coisa «senão tratar de amizade, estando muitas vezes tratando a sós com Quem sabemos que nos ama»[8]. A expressão oração contemplativa, tal como a empregam o Catecismo e muitos outros escritos anteriores e posteriores, remete, pois para o que é de qualificar como o ápice da contemplação; ou seja, o momento em que, por acção da graça, o espírito é conduzido ao umbral do divino, transcendendo toda outra realidade. Mas também, e mais amplamente, a um crescimento vivo e sentido da presença de Deus e do desejo de uma profunda comunhão com Ele; e isso, quer nos tempos dedicados especialmente à oração, quer no conjunto do existir. A oração está, em suma, chamada a envolver totalmente a pessoa humana – inteligência, vontade e sentimentos – chegando ao centro do coração para mudar as suas disposições para informar toda a vida do cristão, tornando-o outro Cristo (cf. Gl 2, 20).  
4. Condições e características da oração

A oração, como todo o acto plenamente pessoal, requer atenção e intenção, consciência da presença de Deus e diálogo efectivo e sincero com Ele. Condição para que tudo isso seja possível é o recolhimento. A palavra recolhimento significa a acção pela qual a vontade, em virtude da capacidade de domínio sobre o conjunto das forças que integram a natureza humana, procura moderar a tendência para a dispersão, promovendo dessa forma o sossego e a serenidade interiores. Esta atitude é essencial nos momentos dedicados especialmente à oração, interrompendo outras tarefas e procurando evitar as distracções. Mas não há-de ficar limitada a esses tempos, devendo estender-se de modo a chegar ao recolhimento habitual, que se identifica com uma fé e um amor que, enchendo o coração, levam a procurar viver a totalidade das acções em referência a Deus, de modo expresso ou implicitamente. Outra das condições da oração é a confiança. Sem uma confiança plena em Deus e no seu amor, não haverá oração, pelo menos oração sincera e capaz de superar as provas e dificuldades. Não se trata, apenas, da confiança em que uma determinada petição seja atendida, mas da segurança que se tem em quem sabemos que nos ama e nos compreende, e diante de quem se pode, portanto, abrir sem reservas o próprio coração (cf. Catecismo, 2734-2741). Por vezes, a oração é diálogo que brota facilmente, inclusive acompanhado de gozo e consolo, do fundo da alma; mas noutros momentos – talvez com mais frequência – pode reclamar decisão e empenho. Pode então insinuar-se o desalento que leva a pensar que o tempo dedicado ao convívio com Deus carece de sentido (cf. Catecismo, n. 2728). Nessas alturas, salienta-se a importância de outra das qualidades da oração: a perseverança. A razão de ser da oração não é a obtenção de benefícios, nem a busca de satisfações, complacências ou consolos, mas a comunhão com Deus; daí a necessidade e o valor da perseverança na oração, que é sempre, com alento e gozo ou sem eles, um encontro vivo com Deus (cf. Catecismo, 2742-2745, 2746-2751). Traço específico e fundamental da oração cristã é o seu carácter trinitário. Fruto da acção do Espírito Santo que, infundindo e estimulando a fé, a esperança e o amor, leva a crescer na presença de Deus, até saber-se, simultaneamente, na terra em que se vive e trabalha, e no céu presente pela graça no próprio coração[9]. O cristão que vive de fé sabe-se convidado a conviver com os anjos e os santos, com Santa Maria e, de modo especial, com Cristo, Filho de Deus encarnado, em cuja humanidade percebe a divindade da sua pessoa e, seguindo esse caminho, a reconhecer a realidade de Deus Pai e do seu amor infinito e a entrar, cada vez com mais profundidade, num convívio confiado com Ele. A oração cristã é, por isso e de modo eminente, uma oração filial. A oração de um filho que, em todo o momento – nas alegrias e nas dores, no trabalho e no descanso – se dirige com simplicidade e sinceridade ao seu Pai para colocar nas suas mãos os afãs e sentimentos que experimenta no próprio coração, com a segurança de encontrar n’Ele compreensão e acolhimento; mais ainda, um amor que dá sentido a tudo.

JOSÉ LUIS ILLANES
Bibliografía básica
- Catecismo da Igreja Católica, 2558-2758.
Leituras recomendadas
- São Josemaria, Homilias «O triunfo de Cristo na humildade»; «A Eucaristia, mistério de fé e de amor»; «A Ascensão do Senhor aos céus»; «O Grande Desconhecido» e «Por Maria, a Jesus», em Cristo que Passa, 12-21, 83-94, 117-126, 127-138 e 139-149. Homilias «A intimidade com Deus»; «Vida de oração» e «Rumo à santidade», em Amigos de Deus, 142-153, 238-257, 294-316. - J. Echevarría, Itinerários de vida cristã, Diel, Lisboa 2006, pp. 105-120. J.L. Illanes, Tratado de teología espiritual, Eunsa, Pamplona 2007, pp. 427-483. - M. Belda, Guiados por el Espíritu de Dios. Curso de Teología Espiritual, Palabra, Madrid 2006, pp. 301-338.

Notas

[1] A Igreja professa a sua Fé no Símbolo dos Apóstolos (Primeira parte destes guiões). Celebra o Mistério, ou seja, a realidade de Deus e do seu amor a que nos abre a fé, na Liturgia sacramental (Segunda parte). Como fruto dessa celebração do Mistério os fiéis recebem uma vida nova que os leva a viver de acordo com a condição de filhos de Deus (Terceira parte). Essa comunicação da vida divina ao homem reclama ser recebida e vivida numa atitude de relação pessoal com Deus; esta relação exprime-se, desenvolve-se e potencia-se na oração (Quarta parte). [2]São João Damasceno, De fide orthodoxa, III, 24; PG 94, 1090. [3]São João Clímaco, Scala paradisi, grado 28; PG 88, 1129. [4]São Josemaria, Caminho, 268. [5]Remissão para dois dos mais claros e conhecidos: os “Louvores ao Deus Altíssimo” e o “Cântico do irmão sol” de São Francisco de Assis. [6]São Josemaria, Caminho, 91. [7]Santa Teresa de Jesus, «Primeiras Moradas» c. 1, 7, em Obras completas, Carmelo. [8]Santa Teresa de Jesus, «Livro da vida», c. 8, n. 5, em Obras completas, p. 50; cf. Catecismo, 2709. [9]Cf. São Josemaria, Temas Actuais do Cristianismo, 116.

Devoción a la Virgen


«En Medjugorje redescubrí la fe y el verdadero valor de los sacramentos», confiesa la escritora y bloguera Rita Sberna

Doutrina – 411

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA

Compêndio


PRIMEIRA PARTE: A PROFISSÃO DA FÉ
SEGUNDA SECÇÃO: A PROFISSÃO DA FÉ CRISTÃ
CAPÍTULO TERCEIRO

CREIO NA SANTA IGREJA CATÓLICA

Os fiéis: hierarquia, leigos, vida consagrada

189. Como participam os fiéis leigos na função sacerdotal de Cristo?

Participam nela oferecendo – como sacrifício espiritual «agradável a Deus por Jesus Cristo» (1 Ped 2,5), sobretudo na Eucaristia – a sua vida com todas as obras, as orações e as iniciativas apostólicas, a vida familiar, o trabalho de cada dia, as agruras da vida suportadas com paciência e os lazeres corporais e espirituais.

Deste modo, os leigos, dedicados a Cristo e consagrados pelo Espírito Santo, oferecem a Deus o próprio mundo.

El reto del amor





VIVE DE CRISTO®Dominicas de Lerma

Pequena agenda do cristão

Quinta-Feira



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Participar na Santa Missa.


Senhor, vendo-me tal como sou, nada, absolutamente, tenho esta percepção da grandeza que me está reservada dentro de momentos: Receber o Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade do Rei e Senhor do Universo.
O meu coração palpita de alegria, confiança e amor. Alegria por ser convidado, confiança em que saberei esforçar-me por merecer o convite e amor sem limites pela caridade que me fazes. Aqui me tens, tal como sou e não como gostaria e deveria ser.
Não sou digno, não sou digno, não sou digno! Sei porém, que a uma palavra Tua a minha dignidade de filho e irmão me dará o direito a receber-te tal como Tu mesmo quiseste que fosse. Aqui me tens, Senhor. Convidaste-me e eu vim.


Lembrar-me:
Comunhões espirituais.


Senhor, eu quisera receber-vos com aquela pureza, humildade e devoção com que Vos recebeu Vossa Santíssima Mãe, com o espírito e fervor dos Santos.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?






21/03/2018

O Trabalho: Caminho de santidade

Está a ajudar-te muito, dizes-me, este pensamento: desde os primeiros cristãos, quantos comerciantes terão sido santos? E queres demonstrar que também agora isso é possível... O Senhor não te abandonará nesse empenho. (Sulco, 490)


Para seguir os passos de Cristo, o apóstolo de hoje não vem reformar nada, e menos ainda desentender-se da realidade histórica que o rodeia... Basta-lhe actuar como os primeiros cristãos, vivificando o ambiente. (Sulco, 320)


O que sempre ensinei – desde há quarenta anos – é que todo o trabalho humano honesto, tanto intelectual como manual, deve ser realizado pelo cristão com a maior perfeição possível: com perfeição humana (competência profissional) e com perfeição cristã (por amor à vontade de Deus e em serviço dos homens). Porque, feito assim, esse trabalho humano, por humilde e insignificante que pareça, contribui para a ordenação cristã das realidades temporais – a manifestação da sua dimensão divina – e é assumido e integrado na obra prodigiosa da Criação e da Redenção do mundo: eleva-se assim o trabalho à ordem da graça, santifica-se, converte-se em obra de Deus, operatio Dei, opus Dei.



Ao recordar aos cristãos as palavras maravilhosas do Génesis – que Deus criou o homem para que trabalhasse –, fixámo-nos no exemplo de Cristo, que passou a quase totalidade da sua vida terrena trabalhando numa aldeia como artesão. Amamos esse trabalho humano que Ele abraçou como condição de vida, e cultivou e santificou. Vemos no trabalho – na nobre e criadora fadiga dos homens – não só um dos mais altos valores humanos, meio imprescindível para o progresso da sociedade e o ordenamento cada vez mais justo das relações entre os homens, mas também um sinal do amor de Deus para com as suas criaturas e do amor dos homens entre si e para com Deus: um meio de perfeição, um caminho de santificação. (Temas Actuais do Cristianismo, 10)

Temas para meditar e reflectir

Coração de Jesus

O forno arde. Ao arder, queima todo o material, seja lenha ou outra matéria facilmente combustível.

O Coração de Jesus, o Coração humano de Jesus, queima com o amor que o enche. E este é o amor ao Pai Eterno e o amor aos homens: as filhas e os filhos adoptivos.

O forno, queimando, pouco a pouco apaga-se. O Coração de Jesus, ao contrário, é forno inextinguível. Nisto parece-se com a sarça-ardente do Êxodo, em que Deus Se revelou a Moisés. A sarça ardia com o fogo, mas... não se consumia (Ex 3,2).

Efectivamente, o amor que arde no Coração de Jesus é sobretudo o Espírito Santo, no qual Deus-Filho se une eternamente ao Pai. O Coração de Jesus, o Coração humano de Deus-Homem, está abrasado pela chama viva do Amor trinitário, que jamais se extingue.

Coração de Jesus, forno ardente de caridade. O forno, enquanto arde, ilumina as trevas da noite e aquece os corpos dos viajantes inteiriçados com o frio.

Hoje queremos pedir à Mãe do Verbo Eterno, para que no horizonte da vida de cada uma e cada um de nós não cesse nunca de arder o Coração de Jesus, forno ardente de caridade. Para que Ele nos revele o amor que não se extingue nem se deteriora jamais, o Amor que é eterno. Para que ilumine as trevas da noite terrena e aqueça os corações.

Dando-Lhe as graças pelo único amor capaz de transformar o mundo e a vida humana, dirigimo-nos com a Virgem Imaculada, no momento da Anunciação ao Coração Divino que não cessa de ser forno ardente de caridade. Ardente: como a sarça que Moisés viu ao pé do monte Horeb.



(SÃO JOÃO PAULO II, Angelus, 1985.06.23)





Evangelho e comentário

Tempo de Quaresma

Evangelho: Jo 8, 31-42

31 Então, Jesus pôs-se a dizer aos judeus que nele tinham acredita-do: «Se permanecerdes fiéis à minha mensagem, sereis verdadeiramente meus discípulos, 32 conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres.» 33 Replicaram-lhe: «Nós somos descendentes de Abraão e nunca fomos escravos de ninguém! Como é que Tu dizes: ‘Sereis livres’?» 34 Jesus respondeu-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: todo aquele que comete o pecado é servo do pecado, 35 e o servo não fica na família para sempre; o filho é que fica para sempre. 36 Pois bem, se o Filho vos libertar, sereis realmente livres. 37 Eu sei que sois descendentes de Abraão; no entanto, procurais matar-me, porque não aderis à minha palavra. 38 Eu comunico o que vi junto do Pai, e vós fazeis o que ouvistes ao vosso pai.» 39 Eles replicaram-lhe: «O nosso pai é Abraão!» Jesus disse-lhes: «Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão! 40 Agora, porém, vós pretendeis matar-me, a mim, um homem que vos comunicou a verdade que recebi de Deus. Isso não o fez Abraão! 41 Vós fazeis as obras do vosso pai.» Eles disseram-lhe, então: «Nós não nascemos da prostituição. Temos um só Pai, que é Deus.» 42 Disse-lhes Jesus: «Se Deus fosse vosso Pai, ter-me-íeis amor, pois é de Deus que Eu saí e vim. Não vim de mim próprio, mas foi Ele que me enviou.

Comentário:

É interessante verificar que os opositores de Jesus Cristo se conside-ram filhos de Deus que é exactamente o que o Mestre lhes veio en-sinar e merecer com a Sua Morte e Ressurreição.

Só que esta consideração é como que "política" e não tem a sua raiz na fé.

Sabem que são o povo eleito segundo a promessa feita a Abraão e isso é um motivo de orgulho e não de amor e, naturalmente, a consideração de que todos os outros ou são inimigos ou não merecem qualquer consideração.

Jesus Cristo vem pregar o Amor, estabelecer o Mandamento do Amor, garantir que sem amor ao outro não é possível o amor a Deus.

Para muitos, infelizmente, esta doutrina é incompreensível e inaceitável e, não obstante as insistentes recomendações e recomendações de Jesus Cristo, continuam - ainda nos dias de hoje - numa posição irredutível.

Mas aqueles que acreditaram em Jesus - que são a quem este discurso se dirige - acabarão por compreender e aceitar.


(AMA, comentário sobre Jo 8, 31-42, 05.03.2017)



Leitura espiritual

TEMA 39. O nono e o décimo mandamentos do Decálogo

Estes dois mandamentos ajudam a viver a santa pureza (o nono) e o desprendimento dos bens materiais (o décimo) nos pensamentos e nos desejos.

«Não cobiçarás a mulher do teu próximo e não desejarás a sua casa, nem o seu campo, nem o seu escravo, nem a sua escrava, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem nada que lhe pertença» (Dt 5, 21). «Aquele que olhar para uma mulher, desejando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração» (Mt 5, 28).

1. Os pecados internos

Estes dois mandamentos referem-se aos actos internos correspondentes aos pecados contra o sexto e o sétimo mandamentos, que a tradição moral classifica como pecados internos. De forma positiva, regulam a forma de viver a pureza (o nono) e o desprendimento (o décimo) nos pensamentos e nos desejos, segundo as palavras do Senhor: «Bem-aenturados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus. Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus» (Mt 5, 3.8). A primeira questão a que se terá de dar resposta é se faz sentido falar de pecados internos; ou, dito de outro modo, porque se qualifica negativamente um exercício da inteligência e da vontade se não se concretiza numa acção externa reprovável?
Pela pergunta não parece evidente, pois nas listas de pecados que o Novo Testamento nos apresenta aparecem sobretudo actos externos (adultério, fornicação, homicídio, idolatria, feitiçaria, pleito, ira, etc.). No entanto, nesses mesmos elencos também vemos citados, como pecados, certos actos internos (invejas, má concupiscência, avareza)[1]. O próprio Jesus explica que é do coração do homem que «procedem as más intenções, os assassínios, os adultérios, as prostituições, os roubos, os falsos testemunhos e as blasfémias» (Mt 15, 19). No âmbito específico da castidade, ensina «que todo aquele que olhar para uma mulher, desejando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração» (Mt 5, 28). Destes textos, provém um importante contributo para a moral, porque dão a entender como a fonte das acções humanas - por conseguinte da bondade ou maldade da pessoa - se encontra nos desejos do coração, no que a pessoa “quer” e escolhe. A maldade do homicídio, do adultério ou do roubo não está principalmente na materialidade da acção ou nas suas consequências, mas antes na vontade (no coração) do homicida, do adúltero, do ladrão, que ao escolher determinada acção, está a desejá-la: está-se decidido a seguir numa direcção contrária ao amor do próximo e, portanto, também do amor de Deus. A vontade tende sempre para um bem, mas, em certas ocasiões, trata-se de um bem aparente, alguma coisa que aqui e agora não é ordenável racionalmente em função do bem da pessoa no seu conjunto. O ladrão deseja alguma coisa que considera um bem, mas o facto de que esse objecto pertença a outra pessoa torna impossível que a escolha feita se ordene ao bem da sua pessoa ou, o que é o mesmo, à plenitude da sua vida. Neste sentido, não é necessário o acto exterior para determinar a vontade num sentido positivo ou negativo. Quem decide roubar um objecto, mesmo que o não possa concretizar devido a algum imprevisto, actuou mal. Realizou um acto interno contra a virtude da justiça. A bondade e a maldade da pessoa dão-se na vontade, assim, rigorosamente falando teria de se utilizar essas categorias para se referir aos desejos (queridos, aceites) e não aos pensamentos. Ao falar da inteligência utilizamos outras categorias, como verdadeiro e falso. Quando o nono mandamento proíbe os “pensamentos impuros” não se está a referir às imagens, ou ao pensamento em si, mas ao movimento da vontade que aceita o deleite desordenado que certa imagem (interna ou externa) provoca[2]. Os pecados internos podem dividir-se em: - “Maus pensamentos” (complacência morosa): são a representação imaginária de um acto pecaminoso sem ânimo para o realizar. É pecado mortal se se trata de matéria grave e caso se procure ou se consinta em deleitar-se nela.  
- Mau desejo (desiderium): desejo interior e genérico de uma acção pecaminosa da qual a pessoa sente gozo. Não coincide com a intenção de a realizar (que implica sempre um querer eficaz), embora em não poucos casos se fizesse, se não existissem alguns motivos que inibem a pessoa (tais como as consequências da acção, a dificuldade para a realizar, etc.). - Gozo pecaminoso: é a complacência deliberada numa má acção já realizada por si ou por outros. Renova o pecado na alma. Os pecados internos, em si mesmos, costumam ter menor gravidade que os correspondentes pecados externos, porque o acto externo manifesta voluntariedade mais intensa. No entanto, são de facto muito perigosos, sobretudo para as pessoas que procuram viver na amizade e intimidade com Deus, já que: - cometem-se com mais facilidade, pois basta o consentimento da vontade; e as tentações podem ser mais frequentes; - presta-se-lhes menos atenção, pois às vezes, por ignorância e, outras vezes, por certa cumplicidade com as paixões, não se querem reconhecer como pecados, pelo menos, veniais, se o consentimento foi imperfeito. Os pecados internos podem deformar a consciência, por exemplo, quando se admite o pecado venial interno habitualmente ou com certa frequência, mesmo que se queira evitar o pecado mortal. Esta deformação pode dar lugar a manifestações de irritabilidade, a faltas de caridade, ao espírito crítico, a resignar-se com ter frequentes tentações sem lutar tenazmente contra elas, etc.[3]; nalguns casos pode conduzir mesmo a não querer reconhecer os pecados internos, envolvendo-os em explicações sem qualquer razão, que acabam por confundir cada vez mais a consciência; como consequência, cresce facilmente o amor próprio, nascem inquietações, torna-se mais custosa a humildade e a contrição sincera, e pode-se acabar num estado de tibieza. Na luta contra os pecados internos, é muito importante não dar lugar aos escrúpulos[4]. Para lutar contra os pecados internos, ajudam-nos: - a frequência dos sacramentos que nos dão ou aumentam a graça e nos curam as nossas misérias quotidianas; - a oração, a mortificação e o trabalho, procurando sinceramente Deus; - a humildade – que nos permite reconhecer as nossas misérias sem desesperar face aos nossos erros – e a confiança em Deus, sabendo que quer sempre perdoar os nossos pecados; - exercitarmo-nos na sinceridade com Deus, connosco próprios e na direcção espiritual, cuidando com esmero o exame de consciência.
2. A purificação do coração

O nono e décimo mandamentos consideram os mecanismos íntimos que estão na raiz dos pecados contra a castidade e a justiça; e, em sentido amplo, de qualquer pecado[5]. Em sentido positivo, estes mandamentos convidam a actuar com recta intenção, com coração puro. Por isso, têm grande importância, já que não se limitam à consideração externa das acções, mas consideram a fonte de que procedem essas acções. Estes dinamismos internos são fundamentais na vida moral cristã, pois tanto as virtudes infusas como os dons do Espírito Santo são modelados pelas disposições da pessoa. Em certo sentido, possuem particular importância as virtudes morais, que são mais propriamente disposições da vontade e dos outros apetites para actuar bem. Tendo estes elementos presentes, é possível desterrar certa caricatura que se apresenta da vida moral como se ela se reduzisse apenas à luta contra os pecados, descobrindo-se antes o imenso panorama de esforço positivo por crescer na virtude (por purificar o coração) que tem a existência humana e em particular o cristão. Estes mandamentos referem-se mais especificamente aos pecados internos contra as virtudes da castidade e da justiça, que estão bem reflectidos no texto da Sagrada Escritura que fala de «três espécies de cupidez ou concupiscência: a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida (1 Jo 2, 16)» (Catecismo, 2514). O nono mandamento trata do domínio da concupiscência da carne; e o décimo da concupiscência do bem alheio. Ou seja, proíbem deixar-se arrastar por essas concupiscências de modo consciente e voluntário. Estas tendências desordenadas ou concupiscências consistem na «revolta que a “carne” instiga contra o “espírito”. Procede da desobediência do primeiro pecado» (Catecismo, 2515). Depois do pecado original, ninguém está isento da concupiscência, excepto Nosso Senhor Jesus Cristo e a Virgem Santa Maria. Embora a concupiscência, em si mesma, não seja pecado, inclina para o pecado e engendra-o, quando não se submete à razão iluminada pela fé com a ajuda da graça. Esquecendo-se que existe a concupiscência, é fácil pensar que todas as tendências que se experimentam “são naturais” e que não faz mal deixar-se levar por elas. Muitos dão-se conta como isto é falso ao considerarem o que sucede com a inclinação para a violência: reconhecem que ninguém se deve deixar arrastar por este impulso, mas dominá-lo, não é natural. No entanto, quando se trata da pureza, já não querem reconhecer o mesmo, dizem que não é mau em se deixarem levar por este estímulo “natural”. O nono mandamento ajuda-nos a compreender que não é assim, porque a concupiscência retorceu a natureza e o que se experimenta como natural é, frequentemente, consequência do pecado que é preciso vencer. O mesmo se poderia dizer do afã imoderado de riquezas ou da cobiça a que se refere o décimo mandamento. É importante conhecer esta desordem causada em nós pelo pecado original e pelos nossos pecados pessoais, visto que tal conhecimento: - impulsiona-nos a rezar: só Deus nos perdoa o pecado original, que deu origem à concupiscência, e só com a ajuda divina conseguiremos vencer essa tendência desordenada; a graça de Deus sara a nossa natureza das feridas do pecado, além de a elevar à ordem sobrenatural; - ensina-nos a amar a Criação, porque saiu boa das mãos de Deus; são os nossos pecados desordenados que provocam o mau uso dos bens criados.
3. O combate pela pureza

Pureza de coração significa possuir uma maneira santa de sentir. Com a ajuda de Deus, e o esforço pessoal, consegue-se ser cada vez mais “limpos de coração”: limpeza nos “pensamentos” e nos desejos. No que se refere ao nono mandamento, o cristão consegue esta pureza com a graça de Deus, bem como através da virtude e do dom da castidade, da pureza de intenção, da pureza do olhar e da oração[6]. A pureza do olhar não se limita a rejeitar a contemplação de imagens claramente inconvenientes, mas exige a purificação do uso dos nossos sentidos externos, que nos levem a olhar, a contemplar o mundo e as outras pessoas com visão sobrenatural. Trata-se de luta positiva que permite ao homem descobrir a verdadeira beleza de toda a criação, de modo particular, a beleza dos que foram criados à imagem e semelhança de Deus[7]. «A pureza exige o pudor. O pudor é parte integrante da temperança. O pudor preserva a intimidade da pessoa. Designa a recusa de mostrar o que deve ficar oculto. Ordena-se à castidade e comprova-lhe a delicadeza. Orienta os olhares e as atitudes em conformidade com a dignidade das pessoas e com a união que existe entre elas» (Catecismo, 2521).
4. A pureza do coração

«O desejo da verdadeira felicidade liberta o homem do apego imoderado aos bens deste mundo, e terá a sua plenitude na visão beatífica de Deus» (Catecismo, 2548). «A promessa de ver a Deus ultrapassa toda a bem-aventurança. (...) Na Escritura ver é possuir. (...) Por isso aquele que vê a Deus obteve todos os bens que se possam imaginar»[8]. Os bens materiais são bons como meios, mas não são fins. Não podem encher o coração do homem, que está feito para Deus e não se sacia com o bem-estar material. «O décimo mandamento condena a avidez e o desejo duma apropriação desmesurada dos bens terrenos; e proíbe a cupidez desregrada, nascida da paixão imoderada das riquezas e do seu poder. Interdita também o desejo de cometer uma injustiça pela qual se prejudicaria o próximo nos seus bens temporais» (Catecismo, 2536). O pecado é aversão a Deus e conversão às criaturas. O apego aos bens materiais alimenta radicalmente esta conversão, provoca a cegueira da mente e o endurecimento do coração: «Se alguém possuir bens deste mundo e, vendo o seu irmão com necessidade, lhe fechar o seu coração, como é que o amor de Deus pode permanecer nele?» (1 Jo 3, 17). O afã desmesurado dos bens materiais é contrário à vida cristã: não se pode servir a Deus e às riquezas (cf. Mt 6, 24; Lc 16, 13). A importância exagerada que se concede hoje ao bem-estar material, muito acima de outros valores, não é sinal de progresso humano, mas de empobrecimento e de aviltamento do homem, cuja dignidade reside em ser criatura espiritual chamada à vida eterna como filho de Deus (cf. Lc 12, 19-20). «O décimo mandamento exige que seja banida a inveja do coração humano» (Catecismo, 2538). A inveja é um pecado capital. «Designa a tristeza que se sente perante o bem alheio e o desejo imoderado de se apropriar dele, mesmo indevidamente» (Catecismo, 2539). Da inveja podem derivar muitos outros pecados: ódio, murmuração, detracção, desobediência, etc. A inveja significa rejeição da caridade. Para lutar contra ela, devemos viver a virtude da benevolência, que nos incita a desejar o bem dos outros como manifestação do amor que lhes temos. A virtude da humildade também nos ajuda nesta luta, pois não devemos esquecer que a inveja procede com frequência do orgulho (cf. Catecismo, 2540).

PABLO REQUENA

Bibliografia básica
- Catecismo da Igreja Católica, 2514-2557.
Leituras recomendadas:
- S. Josemaria, homilia «Porque verão a Deus», em Amigos de Deus, 175-189; homilia «Desprendimento», em Amigos de Deus, 110-126.

Notas

[1] Cf. Gl, 5, 19-21; Rm 1, 29-31; Cl 3, 5. S. Paulo, depois de apelar a abster-se da fornicação, escreve: «que cada um de vós saiba possuir o seu corpo em santidade e honra, sem se deixar levar pelo desejo da paixão como os pagãos que não conhecem Deus. (…) Deus não nos chamou à impureza mas à santidade (1 Ts 4, 3-7). Sublinha a importância dos afectos, que estão na origem das acções, e faz ver a necessidade da sua purificação para a santidade. [2]Deste modo, entender-se-á facilmente a diferença entre “sentir” e “consentir”, referido a determinada paixão ou movimento da sensibilidade. Só quando se consente com a vontade se pode falar de pecado (se a matéria for pecaminosa). [3]«Chapinhas nas tentações, pões-te em perigo, brincas com a vista e com a imaginação, falas de... disparates. E depois assustas-te por te assaltarem dúvidas, escrúpulos, confusões, tristeza e desalento. Hás-de conceder-me que és pouco coerente» (S. Josemaria, Sulco, 132). [4]«Não te preocupes, aconteça o que acontecer, desde que não consintas. - Porque só a vontade pode abrir a porta do coração e introduzir nele essas coisas execrandas» (S. Josemaria, Caminho, 140); cf. Ibidem, 258. [5]«O décimo mandamento incide sobre a intenção do coração e resume, com o nono, todos os preceitos da Lei» (Catecismo, 2534). [6]Com a graça de Deus, consegui-lo-ei: pela virtude e pelo dom da castidade, pois a castidade permite amar com um coração recto e sem partilha; pela pureza de intenção, que consiste em ter em vista o verdadeiro fim do homem: com um olhar simples, o baptizado procura descobrir e cumprir em tudo a vontade de Deus (cf. Rm 12, 2; Cl 1, 10) pela pureza do olhar, exterior e interior; pela disciplina dos sentidos e da imaginação; pela rejeição da complacência em pensamentos impuros que o levariam a desviar-se do caminho dos mandamentos divinos: “a vista excita a paixão dos insensatos” (Sb 15, 5); pela oração» (Catecismo, 2520). [7]«Os olhos! Por eles entram na alma muitas iniquidades. - Quantas experiências como a de David!... - Se guardardes a vista, tereis assegurado a guarda do vosso coração». (S. Josemaria, Caminho, 183. «- Meu Deus!: encontro graça e beleza em tudo o que vejo: guardarei a vista a toda a hora, por Amor» (S. Josemaria, Forja, 415). [8]S. Gregório de Nisa, Orationes de Beatitudinibus, 6: PG 44, 1265A. Cf. Catecismo, 2548

Devoción a la Virgen


La expectación ante el estreno de la película sobre Garabandal provoca que llegue a varias ciudades más

Que é a verdade




El reto del amor



VIVE DE CRISTO®Dominicas de Lerma

Pequena agenda do cristão

Quarta-Feira



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)






Propósito:

Simplicidade e modéstia.


Senhor, ajuda-me a ser simples, a despir-me da minha “importância”, a ser contido no meu comportamento e nos meus desejos, deixando-me de quimeras e sonhos de grandeza e proeminência.


Lembrar-me:
Do meu Anjo da Guarda.


Senhor, ajuda-me a lembrar-me do meu Anjo da Guarda, que eu não despreze companhia tão excelente. Ele está sempre a meu lado, vela por mim, alegra-se com as minhas alegrias e entristece-se com as minhas faltas.

Anjo da minha Guarda, perdoa-me a falta de correspondência ao teu interesse e protecção, a tua disponibilidade permanente. Perdoa-me ser tão mesquinho na retribuição de tantos favores recebidos.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?







20/03/2018

Vamos receber o Senhor

Pensaste nalguma ocasião como te prepararias para receber Nosso Senhor, se só se pudesse comungar uma vez na vida? – Agradeçamos a Deus a facilidade que temos para nos aproximarmos dele, mas... temos de agradecê-lo preparando-nos muito bem para o receber. (Forja, 828)


Jesus é o Caminho, o Medianeiro. N'Ele, tudo! Fora d'Ele nada! Em Cristo e ensinados por Ele, atrevemo-nos a chamar Pai Nosso ao Todo-Poderoso, a Ele, que fez o Céu e a Terra e que é esse Pai tão afectuoso que espera que voltemos para Ele continuamente, cada um de nós como novo e constante filho pródigo.


Ecce Agnus Dei... Domine, non sum dignus... Vamos receber o Senhor. Quando na Terra se recebem pessoas muito importantes, há luzes, música, trajes de gala. Para albergar Cristo na nossa alma, como devemos preparar-nos? Já teremos por acaso pensado como nos comportaríamos se só se pudesse comungar uma vez na vida?


Quando eu era criança, não estava ainda divulgada a prática da comunhão frequente. Recordo-me de como se preparavam as pessoas para comungar. Cuidavam com esmero a boa preparação da alma e até do corpo. Punham a melhor roupa, a cabeça bem penteada, o corpo fisicamente limpo e talvez mesmo um pouco de perfume... Eram delicadezas próprias de quem estava apaixonado, de almas finas e rectas, que sabem pagar o Amor com amor.



Com Cristo na alma, termina a Santa Missa. A bênção do Pai, do Filho e do Espírito Santo acompanha-nos durante toda a jornada, na nossa tarefa simples e normal de santificar todas as actividades nobres do homem. (Cristo que passa, 91)