18/01/2018

Leitura espiritual

Jesus Cristo o Santo de Deus

Capítulo III

ACREDITAS?

A divindade de Cristo no Evangelho de S. João


6. “Corde creditur: Crê-se com o coração.”

1.   Crer “em” Cristo

O carácter pessoal do acto de fé é posto em relevo pelo próprio uso do verbo “crer” no evangelho de João.
Encontramos nele a expressão “acreditar” que significa prestar fé, considerar verdadeiro.
Por exemplo, acreditar na Escritura [i], em Moisés, em Cristo [ii].
Encontramos também a expressão “crer que” (em grego oti), que significa estar convencido que, ou simplesmente acreditar.
Por exemplo, acreditar que Jesus é o Santo de Deus, que Ele é o Cristo, que o Pai O enviou, etc. [iii]

Mas ao lado destas expressões conhecidas, há uma outra que é desconhecida da linguagem profana, e que é a que mais agrada ao evangelista: é a expressão “crer me”, (em grego: eis), como na frase:
«Não se perturbe o vosso coração. Tendes fé em Deus, tende fé também em (eis) Mim» [iv].
Ter fé, significa, neste caso, ter confiança, confiar n’Aquele em que se crê, construir sobre Ele a própria vida.
Significa uma confiança total e incondicional que deve substituir toda a segurança humana.
Uma confiança pela qual o coração não se possa perturbar com mais nada.
Jesus pede para Si o mesmo tipo de confiança que Deus pedia ao Seu povo no Antigo Testamento.

Já Santo Agostinho tinha posto em relevo a força da expressão “crer em”.
Comentando: «Esta é a obra de Deus: crer n’Aquele que Ele enviou» [v], Santo Agostinho escreve:
«Diz crer n’Ele, não dar-Lhe crédito, sim, porque se crerdes n’Ele, dais-lhe; porém, quem dá crédito a Ele também a Ele não crê também necessariamente n’Ele: os demónios davam-Lhe crédito, mas não criam n’Ele. O mesmo se pode dizer em relação aos Apóstolos: damos crédito a Paulo; damos crédito a Pedro, mas não cremos em Pedro. Pois só a quem crê n’Aquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça [vi].Que significa, então, crer n’Ele? Crer, amá-Lo, incorporar-se nos Seus membros. É esta a fé que Deus pretende de nós, se Ele mesmo no-la conceder» [vii].

Crer “no” é algo diferente e algo mais do que crer “que” Jesus é o Filho de Deus.
Esta última é uma fé indivisível, que não admite em si graduações; ou existe, ou não existe; ou se crê, ou não se crê.
Na primeira, pelo contrário, existem vários graus e jamais se acaba de progredir nela.
Noutras palavras, podemos ter mais confiança em Cristo, entregarmo-nos cada vez mais a Ele e perdermo-nos n’Ele, até fazermos da fé no Filho de Deus a razão da nossa vida.
Como São Paulo que podia dizer: «Esta vida que agora vivo, vivo-a pela fé no Filho de Deus que me amou e Se entregou por mim» [viii].

2.   Os frutos da fé em Cristo, Filho de Deus

Os frutos da fé na divindade de Cristo são maravilhosos e também eles divinos.
O primeiro fruto é a vida eterna: «Quem crê n’Ele tem a vida eterna» [ix].
O próprio Evangelho foi escrito para que se creia que Jesus é o Filho de Deus e, crendo, e crendo se tenha a vida eterna [x].
Para João, a vida eterna não é só a vida que começa depois da morte, mas a vida nova, de filhos de Deus, a qual se abre já agora àqueles que creem: Quem crê n’Ele «passou já da morte à vida» [xi].
A fé permite que o mundo divino faça uma invasão neste nosso mundo. Portanto, crer significa muito mais que crer num “além”, numa vida depois da morte; é fazer já a experiência da vida e da glória de Deus. Quem crê, vê logo, e desde já, a glória de Deus [xii].

Este fruto da fé que é a vida, é também realçado com outras imagens.
Quem crê no nome de Cristo “nasce de Deus”, recebe o poder de se tornar Filho de Deus [xiii]; passa das trevas para a luz [xiv], fará as obras que o próprio Jesus fez [xv]. Mas, sobretudo, quem crê recebe o Espírito Santo, que é Aquele que, concretamente, nos traz a vida eterna:
«Quem crê em Mim, como diz a Escritura, do seu seio correrão rios de água viva».
Isto dizia Ele referindo-se ao Espírito que haveriam de receber os que cressem n’Ele!
A fé estabelece um contacto entre Cristo e os crentes, abre uma via de comunicação, através da qual passa o Espírito Santo.
O Espírito Santo é dado a quem crê em Cristo.
A fé – para usar uma metáfora – é a lança do soldado com que se abre o lado de Cristo, a fim de que brotem dele os rios de água viva do Espírito.

Há um fruto da fé em Cristo Filho de Deus que João descobriu já no fim da sua vida, talvez após tê-lo experimentado pessoalmente, e que ele descreve na sua primeira carta: a fé na divindade de Cristo, e só ela, permite vencer o mundo:
«Quem é que vence o mundo senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus?» [xvi].
Vencer o mundo significa vencer a hostilidade, a incredulidade, o ódio e a perseguição do mundo.
Mas não é só isto.
Tem também um significado não polémico, existencial; vencer o mundo significa vencer o tempo, a corrupção, a mundanidade.
Quem crê foge à lei da caducidade e da morte. Eleva-se acima do tempo. Em suma, participa da vitória de Cristo que disse:
«Tende confiança, Eu venci o mundo» [xvii].
Mas isto é obtido somente por uma fé de especial qualidade: a que passou, ou está passando, através da cruz.
Foi sobre a cruz, na verdade, que o cordeiro venceu [xviii].

A Igreja anda à procura, hoje mais que nunca, de alguma coisa que vença o mundo, não para o dominar, mas para o salvar e o converter.
Alguma coisa que seja mais forte que o imenso poder que o mundo tem de resistir à fé e seduzir os homens.
A palavra de Deus assegura-nos que essa coisa existe: é a fé em Jesus Cristo Filho de Deus:

«esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé» [xix].

Por isso, Cristo não quis fundar a Sua Igreja sobre outra coisa que não fosse sobre a fé n’Ele próprio como Filho de Deus.
Pedro torna-se Pedra, Kefa, Rocha, no momento em que, por revelação do Pai, crê na origem divina de Jesus.
“Sobre esta pedra - comenta Santo Agostinho – edificarei a fé que tu professaste. Pelo facto de teres dito «Tu és O Cristo, O Filho de Deus vivo», edificarei a minha Igreja» [xx].
A Igreja é fundada sobre o primeiro acto de fé, em ordem de tempo, na divindade de Jesus Cristo.
Esta fica a se a sua base, aquilo que lhe permite vencer o mundo e as portas dos infernos.
Como são diferentes as obras de Deus das obras dos homens!
Todo o imenso edifício da Igreja se apoia sobre uma coisa invisível e frágil, mas que é invencível: é sobre a fé em Cristo Filho de Deus e sobre a promessa feita a esta fé!
A Igreja é, em si mesma, aprova tangível da verdade desta palavra.
Quem crê que Jesus é Filho de Deus, vence o mundo.

9. Convite à fé

Na Bíblia há um salmo chamado “invitatório” e que a liturgia nos faz recitar no começo de cada novo dia. Diz assim:

Vinde, prostremo-nos em terra adoremos o Senhor que nos criou. Ele é o nosso Deus [xxi].

Nós, cristãos, podemos e devemos recitar estas palavras também em relação a Cristo:
“Vinde, prostremo-nos em terra, aproximemo-nos d’Ele com fé; Ele é o nosso Deus”
A melhor maneira para concluir uma meditação sobre a divindade de Cristo é a de nos exortarmos reciprocamente a crer.
Aquilo que São João diz no seu evangelho serve também para as nossas reflexões:
«Estes sinais foram escritos para que acrediteis que Jesus é o Filho de Deus».

Todos os evangelhos são uma exortação a crer. A grande pergunta de Jesus através dos evangelhos é esta: Acreditais? Acreditas?
O “Credo” com que a Igreja responde a esta pergunta, é uma realidade temporal. É a única resposta adequada. A Igreja dá um passo em frente e, na presença do mundo inteiro, declara: “Eu creio!”
Como não haveria Deus de amar a Igreja?
Ainda hoje acontece algo de novo e incomensurável todas as vezes que um homem, sem delongas, sai da esfera da neutralidade do mundo, da esfera de um simples narrar, explicar, discutir, ainda que com admiração, e diz: “Eu creio!”
Eram estes momentos, quando alguém acreditava, que faziam exultar Jesus no Espírito. Jesus era um buscador sôfrego de fé, infinitamente mais sôfrego que os homens pesquisadores de ouro.

É Ele, o Unigénito do Pai, que está agora diante dos homens e diz: «Tranquilizai-vos e sabei que Eu sou Deus» [xxii].
Não lhes pede, não mendiga fé e gratidão, como muitos pseudo-profetas e fundadores de religiões ocas e sem sentido.
A Sua palavra é plena de autoridade divina. Não diz: “Crede em Mim, peço-vos, prestai-me atenção”, mas diz: “Sabei que Eu sou Deus!”. “Quer queirais quer não, quer acrediteis ou não, Eu sou Deus!”
O evangelho narra-nos que os magos, «prostrando-se O adoraram» e depois abrindo os seus cofres, «Lhe ofereceram ouro, incenso e mirra» [xxiii].
Abramos nós também o cofre do nosso coração e ofereçamos a Jesus a nossa fé. “Corde creditur”; crê-se com o coração, o coração foi feito para crer. Se ele nos aparecer vazio peçamos ao Pai que no-lo encha de fé.
«Ninguém pode vir a Mim – diz Jesus – se o Pai não o atrair» [xxiv].
“Não te sentes ainda atraído? Reza para que o sejas” [xxv].
Não devemos cair no erro que a fé na divindade de Cristo pode vir de nós. Quem pode sozinho escalar o Evereste? Foi o Pai dos Céus Quem revelou a Pedro Quem era Jesus, e não a carne ou o sangue; foi o Pai Quem lhe deu a fé para crer, e Jesus proclamou-o bem-aventurado, precisamente por isso.
A melhor fé e a que se obtém com a oração e não com o estudo.

(cont)

rainiero cantalamessa, Pregador da Casa Pontifícia.





[i] Cfr. Jo 2,22
[ii] Cfr. Jo 5,46
[iii] Cfr. Jo 6,69; 11,42; 14,11
[iv] Jo 14,1
[v] Jo 6,29
[vi] Rm 4,5
[vii] Santo Agostinho, In Ioh. 29,6 (PI. 35,1631
[viii] GI 2,20
[ix] Cfr. Jo 3,5; 5,24; 6,40; 6,47
[x] Cfr Jo 20,31
[xi] Jo 5,24
[xii] Cfr. Jo 11,40
[xiii] Cfr. Jo 1,12-13
[xiv] Cfr. Jo 12-46
[xv] Cfr. Jo 14-12
[xvi] 1 Jo 5,5
[xvii] Jo 16,33
[xviii] Cfr Act 5,5
[xix] I Jo 5,4
[xx] Santo Agostinho, Sermo 295, I (PL 38,1349
[xxi] Salmo 94
[xxii] Sl 46,11
[xxiii] Cfr. Mt 2,11
[xxiv] Jo 6,44
[xxv] Santo Agostinho, In Ioh. 26,2 (PL 35,1607

Devoción a la Virgen



El enviado especial del Papa a Medjugorje matiza su afirmación sobre el permiso para las peregrinaciones

Pequena agenda do cristão

Quinta-Feira



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Participar na Santa Missa.


Senhor, vendo-me tal como sou, nada, absolutamente, tenho esta percepção da grandeza que me está reservada dentro de momentos: Receber o Corpo, o Sangue, a Alma e a Divindade do Rei e Senhor do Universo.
O meu coração palpita de alegria, confiança e amor. Alegria por ser convidado, confiança em que saberei esforçar-me por merecer o convite e amor sem limites pela caridade que me fazes. Aqui me tens, tal como sou e não como gostaria e deveria ser.
Não sou digno, não sou digno, não sou digno! Sei porém, que a uma palavra Tua a minha dignidade de filho e irmão me dará o direito a receber-te tal como Tu mesmo quiseste que fosse. Aqui me tens, Senhor. Convidaste-me e eu vim.


Lembrar-me:
Comunhões espirituais.


Senhor, eu quisera receber-vos com aquela pureza, humildade e devoção com que Vos recebeu Vossa Santíssima Mãe, com o espírito e fervor dos Santos.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?






17/01/2018

O amor manifesta-se com factos

Vai até Belém, aproxima-te do Menino, baila com Ele, diz-lhe muitas coisas vibrantes, aperta-o contra o coração... Não estou a falar de infantilidades: falo de amor! E o amor manifesta-se com factos: na intimidade da tua alma, bem o podes abraçar! (Forja, 345)


É preciso ver o Menino, nosso Amor, no seu berço. Olhar para Ele, sabendo que estamos perante um mistério. Precisamos de aceitar o mistério pela fé, aprofundar o seu conteúdo. Para isso necessitamos das disposições humildes da alma cristã: não pretender reduzir a grandeza de Deus aos nossos pobres conceitos, às nossas explicações humanas, mas compreender que esse mistério, na sua obscuridade, é uma luz que guia a vida dos homens.


Ao falar diante do presépio sempre procurei ver Cristo Nosso Senhor desta maneira, envolto em paninhos sobre a palha da manjedoura, e, enquanto ainda menino e não diz nada, vê-Lo já como doutor, como mestre. Preciso de considerá-Lo assim, porque tenho de aprender d'Ele. E para aprender d'Ele é necessário conhecer a sua vida: ler o Santo Evangelho, meditar no sentido divino do caminho terreno de Jesus.


Na verdade, temos de reproduzir na nossa, a vida de Cristo, conhecendo Cristo à força de ler a Sagrada Escritura e de a meditar, à força de fazer oração, como agora estamos fazendo diante do presépio.



É preciso entender as lições que nos dá Jesus já desde menino, desde recém-nascido, desde que os seus olhos se abriram para esta bendita terra dos homens. Jesus, crescendo e vivendo como um de nós, revela-nos que a existência humana, a vida corrente e ordinária, tem um sentido divino. (Cristo que passa, nn. 13–14)

Temas para reflectir e meditar

Obedecer



Obedecer ou desobedecer é igualmente ceder.


A diferença é que no segundo caso, a concessão é um aviltamento, e no primeiro, uma libertação.


(Georges Chevrot, Jesus e a Samaritana, Éfeso 1956 pg 177)



Evangelho e comentário

Tempo Comum


Evangelho: Mc 3, 1-6

1 Novamente entrou na sinagoga. E estava lá um homem que tinha uma das mãos paralisada. 2 Ora eles observavam-no, para ver se iria curá-lo ao sábado, a fim de o poderem acusar. 3 Jesus disse ao homem da mão paralisada: «Levanta-te e vem para o meio.» 4 E a eles perguntou: «É permitido ao sábado fazer bem ou fazer mal, salvar uma vida ou matá-la?» Eles ficaram calados. 5 Então, olhando-os com indignação e magoado com a dureza dos seus corações, disse ao homem: «Estende a mão.» Estendeu-a, e a mão ficou curada. 6 Assim que saíram, os fariseus reuniram-se com os partidários de Herodes para deliberar como haviam de matar Jesus.

Comentário:

O Evangelista não usa “meias-palavras” quando se trata de descrever as atitudes de alguns dos fariseus.

Não respondem às perguntas de Jesus porque não querem comprometer-se e também não aceitam que Ele os “ultrapasse” e à sua cobardia manhosa fazendo o milagre em público.

Só encontram uma solução: liquidar de vez aquele que os enfrenta e põe a ridículo.

Nem sequer entendem que o ridículo é da sua exclusiva responsabilidade porque se recusam com teimosa pertinácia em ver e ouvir a Verdade tão evidente que qualquer simples homem dos que os rodeavam viam e ouviam e – mesmo não abarcando completamente – compreendiam que estavam na presença de Alguém superior em tudo - nas palavras, mas, sobretudo nas obras – a eles próprios.

(ama, comentário sobre Mc 3, 1-6, 18.01.2017)








Leitura espiritual

Jesus Cristo o Santo de Deus

Capítulo III

ACREDITAS?

A divindade de Cristo no Evangelho de S. João


6. “Corde creditur: Crê-se com o coração.”

Tudo isto nos estimula a fazermos uma purificação da nossa fé.
S. Paulo que «crê-se com o coração, para alcançar ajustiça, e com a boca faz-se a profissão de fé, para alcançar a salvação» [i].
Na perspectiva católica, a profissão da fé, isto é, o segundo momento deste processo, ganhou por vezes tanto relevo que deixou na sombra o primeiro momento, o qual é o mais importante e se desenrola nas profundezas recônditas do coração.
«É das raízes do coração donde brota a fé» [ii].
Corde creditur, crê-se com o coração, ou melhor, não se crê verdadeiramente senão com o coração.

Este primeiro acto de fé, precisamente porque nasce do coração, é um acto “singular”, que só pode ser feito por cada um de nós, em total recolhimento com Deus.
No evangelho de S. João ouvimos Jesus fazer repetidamente a pergunta:
«Acreditas?»
Faz esta pergunta ao cego de nascença, depois de o ter curado:
«Acreditas no Filho do Homem?» [iii];
Faz a mesma pergunta a Marta:
«Acreditas nisto?» [iv];
E esta pergunta faz brotar sempre do coração o grito da fé:
«Sim, Senhor, eu creio!».
O símbolo da fé da Igreja também começa assim, no singular:
«eu creio…» e não: «nós cremos…».

Quando a palavra “creio!” é pronunciada assim, em estado de verdadeira confissão, esse é o instante em que o tempo se abre para a eternidade «quem acredita n’Ele tem a vida eterna», ainda que esse instante se possa perfeitamente colocar num estado ou num acto permanente de fé e não nascer do nada e acabar em si mesmo.
Este é o caso mais sublime e poético da “revelação do ser”; o ser escondido na própria palavra do homem Jesus ou na própria palavra “Deus” revela-Se, ilumina-Se e então – dizia S. João – acontece que se vê e se contempla a glória de Deus.
Não se crê somente, mas também se reconhece, se vê e se contempla:
«Nós acreditámos e conhecemos» [v];
«Nós comtemplámos a Verdade da vida» [vi]

Através do baptismo, a Igreja antecipou e prometeu a Deus a minha fé; tornou-se garante para mim, ainda criança, de que um dia mais tarde, tornado adulto, eu viria também a crer.
Agora tenho de demonstrar que a Igreja não se enganou a meu respeito.
Não posso crer por interpostas pessoas ou interpostas instituições.
Não deve ser a Igreja a crerem vez de mim.
“Acreditas?”.
Não nos podemos refugiar na multidão nem entrincheirar atrás da Igreja.
Temos de aceitar também nós passar através deste momento e sujeitar-nos a este exame.
Não podemos considerar-nos dispensados.
Se àquela pergunta de Jesus responderes prontamente e sem reflectires: “é claro que creio!” e achares, porventura, estranho que uma pergunta deste género seja dirigida a um crente, a um Sacerdote ou a um Bispo, provavelmente quer dizer que ainda não descobriste o que significa crer verdadeiramente que Jesus é Deus e que nunca desceste às profundezas da fé.
Nunca experimentaste a grande vertigem da razão que precede o acto de fé.
É uma fé que ainda não passou através do escândalo.

Sucedeu que em determinado momento os discípulos pensavam ter chegado ao vértice da fé:
«Agora – disseram a Jesus – sabemos que Tu sabes tudo… Por isso acreditamos que Tu vieste de Deus».

Jesus responde: «Credes agora?», e então pronunciou-lhes de daí a pouco tempo se escandalizariam d’Ele e todos se dispersariam, deixando-O sozinho [vii].
Quantas vezes a nossa fé em Jesus se assemelha à dos discípulos nesta circunstância!
Estamos certos, ingenuamente, que acreditamos intensa e definitivamente, a passo que Jesus, que nos conhece, sabe bem que apenas cheguem as provações, a realidade será bem diferente e demonstrará que afinal não acreditamos n’Ele verdadeiramente.
Aquela expressão «agora cremos!» faz recordar muitas vezes o retrato da nossa fé.

A verdadeira fé é aquela que advém depois de se terem superado os baixios perigosos das provações e do escândalo e não aquela que nunca sentiu essas dificuldades.
Se alguém, por força de tanto ter ouvido falar disso, considerar quase natural que Jesus – este homem – é Deus, e Deus é homem, isso é um deplorável sinal de superficialidade que ofende a Deus tanto ou mais ainda do que a incredulidade de quem considera isso demasiado sublime, algo demasiado indigno de Deus e impossível, tão grande é a ideia que tem da diferença qualitativa e infinita entre Deus e o homem.
Não se deve menosprezar aquilo que Deus levou a cabo fazendo-Se homem, como se isso fosse coisa normal e compreensível.

Antes de tudo, é preciso destruir em nós crentes, e em nós homens da Igreja, a falsa persuasão de que já cremos; é preciso provocar a dúvida – não a respeito de Jesus, claro, mas a nosso respeito – para, então, podermos ir à procura de uma fé mais autêntica.
Quiçá não seja benéfico que, por uns tempos, não se queira revelar nada a ninguém, mas se procure interiorizar a fé e redescobrir as suas raízes no coração!
Jesus perguntou a Pedro por três vezes:
«Tu amas-me
Sabia que à primeira e à segunda vez, a resposta tinha sido demasiado depressa, para ser a verdadeira.
Finalmente, à terceira vez, Pedro compreendeu.
Também a pergunta sobre a nossa fé nos deve ser posta assim: por três vezes, com insistência, a fim de também nós compreendamos e entremos na verdade:
‘Acreditas? Acreditas? Acreditas? Crês verdadeiramente?’
No fim, talvez tenhamos que responder:
‘Não, Senhor, eu não creio verdadeiramente. Ajuda-me a superar a minha incredulidade!’

(cont)

rainiero cantalamessa, Pregador da Casa Pontifícia.





[i] Rm 10,10
[ii] Stº Agostinho, In Ioh. 26,2 (PL. 35,1697)
[iii] Jo 9,35
[iv] Jo 11,26
[v] Jo 1,14
[vi] Cfr. I Jo 1,1
[vii] Cfr. Jo 16,29-32

Perguntas e respostas

A EUTANÁSIA


10. Faço o que quero com a minha vida?


Sem dúvida que uma pessoa faz com a sua vida coisas que quer, mas isto não significa que actue correctamente.

Pode embebedar se, drogar-se ou suicidar-se, mas são acções erradas.

(Podem ver-se os temas liberdade e o meu corpo).

Pequena agenda do cristão

Quarta-Feira



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)






Propósito:

Simplicidade e modéstia.


Senhor, ajuda-me a ser simples, a despir-me da minha “importância”, a ser contido no meu comportamento e nos meus desejos, deixando-me de quimeras e sonhos de grandeza e proeminência.


Lembrar-me:
Do meu Anjo da Guarda.


Senhor, ajuda-me a lembrar-me do meu Anjo da Guarda, que eu não despreze companhia tão excelente. Ele está sempre a meu lado, vela por mim, alegra-se com as minhas alegrias e entristece-se com as minhas faltas.

Anjo da minha Guarda, perdoa-me a falta de correspondência ao teu interesse e protecção, a tua disponibilidade permanente. Perdoa-me ser tão mesquinho na retribuição de tantos favores recebidos.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?