12/04/2015

Evangelho, comentário, L. Espiritual (Jesus: Profeta ou revolucionário?)


Domingo da Divina Misericórdia


Evangelho: Jo 20 19-31

19 Chegada a tarde daquele mesmo dia, que era o primeiro da semana, e estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam juntos, por medo dos judeus, foi Jesus, colocou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco!». 20 Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos alegraram-se muito ao ver o Senhor. 21 Ele disse-lhes novamente: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também vos envio a vós». 22 Tendo dito esta palavras, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo. 23 Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados, àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos». 24 Tomé, um dos doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. 25 Os outros discípulos disseram-lhe: «Vimos o Senhor!». Mas ele respondeu-lhes: «Se não vir nas Suas mãos a abertura dos cravos, se não meter a minha mão no Seu lado, não acreditarei». 26 Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez em casa e Tomé com eles. Veio Jesus, estando as portas fechadas, colocou-Se no meio deles e disse: «A paz esteja convosco». 27 Em seguida disse a Tomé: «Mete aqui o teu dedo e vê as Minhas mãos, aproxima também a tua mão e mete-a no Meu lado; e não sejas incrédulo, mas fiel!». 28 Respondeu-Lhe Tomé: «Meu Senhor e Meu Deus!». 29 Jesus disse-lhe: «Tu acreditaste, Tomé, porque Me viste; bem-aventurados os que acreditaram sem terem visto». 30 Outros muitos prodígios fez ainda Jesus na presença de Seus discípulos, que não foram escritos neste livro. 31 Estes, porém, foram escritos a fim de que acrediteis que Jesus é o Messias, Filho de Deus, e para que, acreditando, tenhais a vida em Seu nome.

Comentário:

Jesus Cristo não diz a Tomé que não seja incrédulo mas crente, diz «não sejas incrédulo mas fiel», o que é bastante significativo.

A fidelidade é uma condição essencial para acreditar porque não se pode crer sem a entrega que a fidelidade representa.

Mais… a fé só se mantém enquanto se mantiver a fidelidade, rompida esta desaparece aquela.

O contrário também é verdadeiro porque quem acredita, deveras, tem de ser fiel ao ou em quem crê, quando não, para que lhe servirá a fé?

(ama, comentário sobre Jo 20, 24-29, 2013.07.03)


Leitura espiritual

Jesus foi um mero profeta ou revolucionário?

As verdades centrais da fé são expressas de maneira sempre analógica, quando não puramente metafórica
Não se pode negar que Jesus seja visto como profeta e revolucionário: anunciou, como profeta, o Reino de Deus e revolucionou a religião mosaica.
A expressão da fé nega, contudo, os limites da simples experiência histórica, para afirmar sua verdade, de maneira transcendente: Mais do que profeta ou revolucionário, Jesus é o Filho de Deus feito homem.

O discurso histórico e a expressão da fé

Todas as fontes habituais da história universal nos falam de Jesus de Nazaré, que é a personalidade central dos textos correntes na comunidade cristã, desde alguns anos depois de sua morte. Narram como viveu, o que ensinou, as circunstâncias em que morreu e a maneira como os discípulos, tendo-se certificado de que estava vivo, o reconheceram como Filho do Deus e se tornaram suas testemunhas por toda a terra então conhecida.

Profeta? Foi reconhecido como tal pelo povo. [i]

Revolucionário?

Foi acusado de sê-lo e, por isso, condenado e morto.
Na realidade, porém, aqueles que o conheciam mais de perto e compreenderam o alcance de suas palavras, sabiam que era muito mais do que isso, pois dizia palavras de vida eterna, manifestando-se como o Santo de Deus,[ii] em português, o Ungido, em hebraico, o Messias prometido ao povo desde o tempo dos patriarcas, em grego, o Cristo, como desde cedo o apelidaram os cristãos.

O quarto evangelho, atribuído a João, o “discípulo amado”, oferece-nos num texto denso, o testemunho que levou os discípulos, a partir da intimidade com Jesus e dos “sinais”, que marcaram momentos decisivos de sua existência, a confessar sua divindade: “No princípio era a Palavra, e a Palavra estava junto a Deus, e a Palavra era Deus”.[iii]

Jesus, pois, para os que o conheceram, não foi apenas profeta ou revolucionário, mas homem de Deus, santo de Deus, Filho de Deus, num sentido único e transcendente.

A expressão da fé em Jesus está baseada na sua história, como os discípulos a viveram, aprendendo com Ele a dar cada dia mais importância às realidades interiores, percebidas pelo coração.
Jesus, depois de os convidar a segui-lo, falava-lhes a partir da sua sensibilidade de homens simples, envolvidos com população pobre e, muitas vezes, sofredora.

Os poderosos, a quem se vinculava a classe sacerdotal, agrupada em torno do templo, e os mestres e intérpretes da lei, que se ocupavam das celebrações nas sinagogas, salvo raras excepções, resistiam ao ensinamento de Jesus, contestando-lhe os gestos de misericórdia em favor dos doentes ou excluídos da vida social.

Quem ainda hoje lê os textos antigos, à luz dos cânones do discurso histórico estabelecidos há dois séculos, tende a classificar Jesus como profeta ou revolucionário, em choque com as práticas religiosas preconceituosas e discriminatórias, ou com as estruturas sociais injustas, que oprimiam o seu povo, dominado pelos romanos.

Jesus seguiu o mesmo caminho dos profetas, denunciando as injustiças, incomodando os poderosos, sendo, por isso, por eles rejeitado e perseguido.
Mas os textos cristãos são claros quanto às razões de agir de Jesus, inspiradas acima de tudo na fidelidade a Deus, a quem chama de Pai, e no amor de quem dá a própria vida por aqueles a que ama, submetendo-se às misteriosas disposições do Pai.

A libertação que Jesus anuncia, e por isso se fez homem, cumprindo a promessa de Deus de salvar a todos, é um reino definitivo de justiça, de paz e de amor, muito mais do que um triunfo a ser vivido na história.

Vivemos essa realidade, por enquanto, no coração, “dentro de nós”,[iv] até que um dia seja definitivamente estabelecida, numa sua segunda vinda, reunindo todos os justos que O acolheram e seguiram os seus passos.
Assim, o papel que Jesus desempenha na história como profeta, revolucionário, camponês ou mesmo, simplesmente, judeu ou palestino do primeiro século, não esgota a realidade profunda de sua vida.
Os seus gestos e palavras apelam para uma dimensão transcendente, que somente explica como é acolhido através da história, desde os que com ele conviveram, até os cristãos de hoje.

Mas então, quem é Jesus?

Como todo ser humano, Jesus pertenceu a um determinado povo, foi um judeu, viveu num determinado tempo, do imperador Quirino ao governo de Pôncio Pilatos, num determinado lugar entre a Judeia e a Galileia, foi artesão, viveu a vida simples dos habitantes de Nazaré.

Foi ao encontro de João Baptista no deserto e percorreu as cidades mais conhecidas de sua região, seguido de alguns discípulos e, com relativa frequência, de uma multidão mais numerosa atraída pelas suas palavras e gratificadas pelas suas curas e exorcismos.

Nenhum desses traços particulares, porém, manifesta ou explica a originalidade pessoal profunda desse homem.
A veracidade da sua humanidade acaba se afirmando em contraste com o mistério de sua Pessoa.
Como narra Mateus: “O centurião, (comandante) dos que guardavam Jesus (na cruz), ao verem o terremoto e tudo mais que acontecia na hora de sua morte, ficaram muito amedrontados e exclamaram: ‘De fato, esse homem era Filho de Deus!’” [v]

O texto de Mateus mostra como, já na sua época, os cristãos perceberam a articulação entre a veracidade da humanidade, atestada na morte, e o reconhecimento da divindade, manifestada pelos sinais de Deus que acompanharam o momento supremo da cruz.

Amedrontada, a corte romana confessa o que os discípulos vão proclamar ao terceiro dia, diante do túmulo vazio e do encontro com o Senhor que vem até eles, comunicando-lhes o Espírito: “Meu Senhor e meu Deus!”.[vi]

Cinquenta dias mais tarde, em Pentecostes, Pedro vai também proclamar a morte de cruz e a ressurreição de Jesus, intimamente associadas, fixando o anúncio fundamental do cristianismo, o querigma: Mais do que profeta ou revolucionário, executado como criminoso, Jesus, verdadeiro homem, é o Filho de Deus, que nos comunica o Espírito, que nos transforma interiormente – metanoia – dá-nos a força de testemunhar, numa comunhão de amor fraterno e de serviço.

Em continuidade com a tradição, a proclamação da morte e da ressurreição de Jesus é a garantia de que Deus está connosco, como está com Jesus e preenche nossas aspirações mais íntimas, o desejo da bem-aventurança, que é o próprio Deus.

Actualmente, mergulhados numa cultura voltada para si mesma e consciente da fragilidade dos valores que poderiam nos sustentar, experimentamos, ao mesmo tempo, o desejo de viver com simplicidade a fé dos discípulos de Jesus e dos primeiros cristãos e o medo de nos perdermos como pessoas, acolhendo o Crucificado Ressuscitado, sem passar pelo exame crítico da razão e da ciência.

Vivemos, ao mesmo tempo, o desejo de acreditar em Jesus, como os discípulos, e a necessidade de ajustar a fé às exigências do pensamento crítico e da lógica científica.

Somos herdeiros de um longo esforço, feito pela tradição ocidental, de ajustar a profissão de fé dos apóstolos às exigências da razão, formuladas primeiro em continuidade com o pensamento grego e, séculos mais tarde, com as reivindicações da modernidade.

(cont)

francisco catão




[i] Jo 7,40
[ii] Jo 6,69s
[iii] Jo 1,1
[iv] Lc 17,21
[v] Mt 27,54
[vi] Jo 20, 28

Pequena agenda do cristão

DOMINGO



(Coisas muito simples, curtas, objectivas)



Propósito:
Viver a família.

Senhor, que a minha família seja um espelho da Tua Família em Nazareth, que cada um, absolutamente, contribua para a união de todos pondo de lado diferenças, azedumes, queixas que afastam e escurecem o ambiente. Que os lares de cada um sejam luminosos e alegres.

Lembrar-me:
Cultivar a Fé.

São Tomé, prostrado a Teus pés, disse-te: Meu Senhor e meu Deus!
Não tenho pena nem inveja de não ter estado presente. Tu mesmo disseste: Bem-aventurados os que crêem sem terem visto.
E eu creio, Senhor.
Creio firmemente que Tu és o Cristo Redentor que me salvou para a vida eterna, o meu Deus e Senhor a quem quero amar com todas as minhas forças e, a quem ofereço a minha vida. Sou bem pouca coisa, não sei sequer para que me queres mas, se me crias-te é porque tens planos para mim. Quero cumpri-los com todo o meu coração.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?


Temas para meditar - 416


Progresso



A humanidade fez descobertas admiráveis, alcançou resultados prodigiosos no campo da ciência e da técnica, levou a cabo grandes obras na via do progresso e da civilização, e em épocas recentes dir-se-ia que conseguiu acelerar o curso da história. Mas a mudança fundamental, mudança que se pode definir “original”, acompanha sempre o caminho do homem e, através dos diversos acontecimentos históricos, acompanha todos e cada um. É a mudança entre o “cair” e o “levantar-se”, entre a morte e a vida.

(são joão paulo iiEnc. Redemptoris Mater, 1987.03.25, 52)

11/04/2015

2015.04.11








O que pode ver hoje em NUNC COEPI




As almas santas têm que ser felizes - São Josemaria – Textos

Evangelho, comentário, L. Espiritual (Ressurreição) - AMA - Comentários ao Evangelho Mc 16 9-15, Fulton Sheen, Ressurreição

Temas para meditar - 415 - Justiça, São Tomás de Aquino

Tratado do verbo encarnado 145 - Suma Teológica - Tratado do Verbo Encarnado - Quest 24 - Art 3, São Tomás de Aquino


Pequena agenda do cristão - Agenda Sábado

Evangelho, comentário, L. Espiritual (Ressurreição)



Sábado depois da Páscoa

Evangelho: Mc 16 9-15

9 Jesus, tendo ressuscitado de manhã, no primeiro dia da semana, apareceu primeiramente a Maria Madalena, da qual tinha expulsado sete demónios. 10 por ela, não acreditaram. 12 Depois disto, mostrou-Se de outra forma a dois deles, enquanto iam para a aldeia; 13 os quais foram anunciar aos outros, que também a estes não deram crédito. 14 Finalmente, apareceu aos onze, quando estavam à mesa, e censurou-lhes a sua incredulidade e dureza de coração, por não terem dado crédito aos que O tinham visto ressuscitado. 15 E disse-lhes: «Ide por todo o mundo, e pregai o Evangelho a toda a criatura.

Comentário:

São Marcos escreve os derradeiros versículos do “seu” Evangelho.
Com ênfase especial nas relações dos apóstolos com Jesus Cristo segue com evidente cuidado as longas conversas com Pedro não omitindo nem as fraquezas, dúvidas, negações e abandonos que pautaram o seu relacionamento com o Senhor.
É bem evidente que a enorme humildade do Príncipe dos Apóstolos e a rocha sobre a qual Jesus Cristo edificou a Sua Igreja quis que a humanidade ficasse a saber de fonte fidedigna que o cumprimento do mandato do Senhor não se fica a dever à capacidade de cada um e nem mesmo à sua entrega devotada inteiramente à missão que lhes fora confiada – quase todos deram a vida por ela – mas à especialíssima assistência do Espírito Santo que os converteu em pilares indestrutíveis e inamovíveis da Igreja.

(ama, comentário sobre Mc 16, 9-15, 2014.04.26)


Leitura espiritual

Ressurreição


“Na história do mundo, somente uma vez encontramos o caso de que, diante da entrada de uma tumba, foi colocada uma grande pedra e até guardas para evitar que um homem morto ressuscitasse: foi o sepulcro de Cristo, na tarde da sexta-feira que chamamos santa. Que espetáculo podia haver de mais ridículo do que aquele de soldados a vigiar um cadáver? Puseram sentinelas para que o morto não pudesse andar, para que o silencioso não falasse e para que o coração transpassado não voltasse a palpitar. Diziam que ele estava morto. Sabiam que ele estava morto. Diziam que ele não ressuscitaria. E, entretanto, vigiavam...”. [i]

É assombroso que os inimigos de Cristo, no fundo, esperassem a ressurreição, mas os amigos dele não! Os inimigos vigiavam o sepulcro; os amigos se escondiam, frustrados, assustados, incrédulos.

Ninguém viu Cristo ressuscitar. Os dois sinais da ressurreição foram o sepulcro vazio e as aparições do Cristo ressuscitado em pessoa. Foi através desses sinais que os próprios apóstolos começaram a acreditar na ressurreição, da qual duvidavam seriamente.

O sepulcro vazio pode ter duas explicações: ou alguém levou embora o cadáver, ou então Cristo ressuscitou. O cadáver não foi roubado pelos inimigos de Cristo, pois, quando a notícia da ressurreição se espalhou, a melhor maneira de desmascará-la teria sido mostrar o cadáver. Se não mostraram, é porque não tinham. Os amigos de Jesus também não o tinham, porque os apóstolos passaram a arriscar a vida para pregar o nome de Cristo ressuscitado e, de fato, morreram mártires por causa da sua fé em Cristo ressuscitado. Quem sofreria tanto e daria a própria vida por uma mentira, sabendo que era mentira?

Os apóstolos são descritos pelos evangelhos como homens sem esperança, abatidos e deprimidos. Jesus mesmo os trata como “insensatos e lerdos” [ii] gente que não esperava nada. Eram homens rudes, duros de coração.

Além disso, Cristo havia sido condenado e executado como um "maldito segundo a lei". Esse aparente fracasso humilhante de Jesus tinha deixado a fé dos apóstolos tão abalada que, primeiro, eles se esconderam e, poucos dias depois, partiram para a Galileia e voltaram à sua vida normal, como nos recordam as palavras dos discípulos de Emaús.[iii] Eles procuraram se esquecer de Cristo, tamanha era a sua incredulidade, decepção e, talvez, vergonha por ter acreditado em um "charlatão".

Será que, mesmo se quisessem mentir, eles teriam conseguido inventar e sustentar uma história como a da ressurreição?
É muito pouco provável, tanto por causa desse contexto de frustração quanto por causa da sua simplicidade e rudeza intelectual.
E há outro factor ainda mais relevante: uma ressurreição como a de Cristo era praticamente inimaginável para um judeu daquela época.
A ideia de ressurreição existia no judaísmo e já era mencionada pelo profeta Daniel,[iv] mas o conceito era muito diferente: a ressurreição, para os judeus, só aconteceria no fim dos tempos, quando Deus ressuscitaria todo o povo eleito de uma só vez.
Seria muito estranho que alguém concebesse naquela sociedade a ideia de uma ressurreição definitiva dentro da história, seguida por um dia igual a todos os outros dias, como se não tivesse acontecido absolutamente nada. A ressurreição tinha que ser justamente o final da história, em um evento apoteótico.
Porquê inventar uma história de ressurreição que não fazia sentido algum para um povo que já duvidava antes mesmo de ouvir esse absurdo?

Para tornar ainda menos provável que os apóstolos tenham arquitectado uma farsa, os relatos sobre o Domingo da Ressurreição são cheios de detalhes confusos e sequências de factos diferentes entre um evangelho e outro. Quem forjasse um relato desses ter-se- se esforçado um pouco mais para que os detalhes pelo menos parecessem coerentes.
Mas os apóstolos falavam do que se lembravam e do que tinham sentido, atónitos, atordoados, sem se preocupar em polir o depoimento. E, entre confusão e espanto, todas as fontes dos evangelhos e do Novo Testamento apresentam o testemunho daqueles dois sinais: o sepulcro vazio e as aparições de Jesus ressuscitado.
Se não mentiram, teriam então os apóstolos sofrido de alucinações? Quando Jesus ressuscitado lhes apareceu pela primeira vez, os apóstolos hesitaram muito em acreditar que fosse ele. Aqueles homens grosseiros não eram dados a visões de tipo místico. Se não tivessem visto o Cristo ressuscitado com seus próprios olhos e até tocado nele com suas próprias mãos para reconhecê-lo, como fez Tomé, eles jamais teriam acreditado na ressurreição.

Também não é provável que eles tenham sido sugestionados a pensar ter visto Jesus.
Os evangelhos narram várias aparições, em contextos diferentes, com testemunhas diversas.
As primeiras testemunhas da ressurreição, aliás, foram mulheres: na sociedade judaica, o testemunho de uma mulher valia pouco. Mesmo que elas tivessem sofrido uma alucinação, dificilmente teriam recebido crédito ao contá-la. Pelo contrário: é mais plausível que tivessem deixado os apóstolos ainda menos propensos a acreditar em visões das quais não quisessem se certificar antes de reconhecer como reais.

Para falar das aparições de Jesus ressuscitado, os relatos do Novo Testamento usam o verbo opthé (“deixou-se ver”); na tradução grega dos Setenta, este era o verbo consagrado para falar das aparições de Javé.
Esse termo não se refere a uma visão como experiência subjectiva, mas à iniciativa de Deus que vem até os seus: o ressuscitado é visto porque aparece, em vez de "parecer que aparece" porque alguém esteja "tendo visões".
O Novo Testamento tem outro termo, horama, para falar de visões interiores. Este termo nunca é empregado para falar das aparições de Jesus. Mesmo Paulo, que teve visões e êxtases, fala delas se desculpando,[v] ao passo que, do encontro com Cristo no caminho de Damasco, ele fala sem se desculpar.[vi] Só por causa deste encontro é que Paulo explica que foi constituído apóstolo e só por causa dele é que Paulo se apresenta como testemunha da ressurreição de Cristo:[vii] por ter visto.

A mudança de comportamento dos apóstolos é tão grande depois de verem Jesus ressuscitado que eles se tornam outros homens, corajosos e dispostos a não silenciar o que tinham visto e ouvido, mesmo precisando ir contra toda a mentalidade da época (e contra a mentalidade deles próprios).
Mais interessante ainda: eles nem sabem explicar a ressurreição, pois simplesmente não a entendem.
Eles conseguem apenas confessá-la, inclusive com o martírio.

A Igreja primitiva crê firmemente na ressurreição de Jesus.
As primeiras comunidades cristãs afirmam que Jesus ressuscitou dentre os mortos.
É um dado que encontramos em inúmeros textos, a começar pelo Novo Testamento, que fala implícita e indiretamente da morte e ressurreição de Jesus e também traz textos explícitos e directos: Mc 8,31 (primeiro anúncio); Mc 9,9 (transfiguração); Mc 9, 30-32 (segundo anúncio); Mc 10,32 (terceiro anúncio); Mc 14,28 (anúncio da aparição).

O facto de uma fé tão sólida e firme dos apóstolos, dos demais discípulos e de toda a comunidade mártir do cristianismo primitivo é um indício forte de que essa fé tinha de se basear num acontecimento real.

De qualquer maneira, sempre houve, e continua havendo, muita gente que não crê na ressurreição de Cristo.

E é compreensível, porque há mesmo muitos obstáculos para se acreditar no sobrenatural, especialmente em algo tão fantástico quanto a ressurreição dentre os mortos.
A nossa mentalidade é materialista, pragmatista, hedonista, utilitarista, relativista, consumista.
O homem de hoje quer ficar nos limites materiais e temporais, práticos e comprováveis, horizontalistas.
O secularismo espalha-se por toda a parte.
O homem de hoje olha pouco para cima e tende a pensar que tudo se acaba com a morte (embora também tenda a sentir que existe algo depois dela...).

Não há nenhuma comprovação científica inquestionável de que Cristo tenha ressuscitado.
É, em suma, uma questão de fé.
Para quem crê, a fé e a esperança na ressurreição é algo presente dentro do coração.
Sem a esperança da ressurreição, a vida finita não tem sentido. Parece haver algo no íntimo do ser, independentemente de crença, cultura ou religião, que afirma que a morte não é a última palavra nem o fim de tudo.
É um anseio que parece natural como parte da nossa essência humana que almeja a plenitude.

O homem, de facto, é um ser aberto, que está sempre em processo de crescimento interior.
Na sua dinâmica, o futuro faz parte do seu presente.
Será que esse futuro é vazio, é um engano, uma ilusão?

Todas as civilizações experimentaram o anseio de uma vida nova após a morte.
Só se consegue apagar este sentimento e esta profunda convicção mediante pressões ideológicas e durante pouco tempo.

O cristianismo procura compreender esta realidade a partir da experiência de Jesus Cristo ressuscitado, que confirma a esperança íntima que temos em nós e que mantém o nosso coração no céu, mesmo com os pés bem firmes sobre a terra.

A esperança da ressurreição, enfim, é o que dá sentido à perspectiva da morte que todos sabemos, no fundo, que não pode ser o fim.

Fonte: aleteia





[i] fulton sheen, "Vida de Cristo".
[ii] cf. Lc 24,25
[iii] cf. Lc 24,21
[iv] cf. 12, 1-13
[v] cf. 2 Co 12, 11
[vi] cf. 1 Co 9,1; 15,8; Gál 1,12ss
[vii] cf. Co 15,8

As almas santas têm que ser felizes

Contava-te que até pessoas que não receberam o baptismo, me disseram comovidas: "É verdade, eu compreendo que as almas santas têm que ser felizes, porque olham os acontecimentos com uma visão que está por cima das coisas da terra, porque vêem as coisas com olhos de eternidade". – Oxalá não te falte esta visão! – acrescentei depois –, para que sejas consequente com o tratamento de predilecção que recebeste da Trindade. (Forja, 1017)

Asseguro-te que, se nós, os filhos de Deus, quisermos, contribuiremos poderosamente para iluminar o trabalho e a vida dos homens, com o resplendor divino – eterno! – que o Senhor quis depositar nas nossas almas.
– Mas "quem diz que mora em Jesus, deve seguir o caminho que Ele seguiu", como ensina S. João: caminho que conduz sempre à glória, passando – sempre também – através do sacrifício. (Forja, 1018)


– Meu Senhor Jesus: faz com que sinta, que secunde de tal modo a tua graça, que esvazie o meu coração..., para que o enchas Tu, meu Amigo, meu Irmão, meu Rei, meu Deus, meu Amor! (Forja, 913)

Pequena agenda do cristão

SÁBADO


(Coisas muito simples, curtas, objectivas)


Propósito:
Honrar a Santíssima Virgem.

A minha alma glorifica o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador, porque pôs os olhos na humildade da Sua serva, de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações. O Todo-Poderoso fez em mim maravilhas, santo é o Seu nome. O Seu Amor se estende de geração em geração sobre os que O temem. Manifestou o poder do Seu braço, derrubou os poderosos do seu trono e exaltou os humildes, aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias. Acolheu a Israel Seu servo, lembrado da Sua misericórdia, como tinha prometido a Abraão e à sua descendência para sempre.

Lembrar-me:

Santíssima Virgem Mãe de Deus e minha Mãe.

Minha querida Mãe: Hoje queria oferecer-te um presente que te fosse agradável e que, de algum modo, significasse o amor e o carinho que sinto pela tua excelsa pessoa.
Não encontro, pobre de mim, nada mais que isto: O desejo profundo e sincero de me entregar nas tuas mãos de Mãe para que me leves a Teu Divino Filho Jesus. Sim, protegido pelo teu manto protector, guiado pela tua mão providencial, não me desviarei no caminho da salvação.

Pequeno exame:

Cumpri o propósito que me propus ontem?


Tratado do verbo encarnado 145

Questão 24: Da predestinação de Cristo

Art. 3 — Se a predestinação de Cristo é o exemplar da nossa predestinação.

O terceiro discute-se assim. — Parece que a predestinação de Cristo não foi o exemplar da nossa predestinação.

1 — Pois, o exemplar preexiste ao exemplado. Ora, nada preexiste ao eterno. Sendo, pois, a nossa predestinação eterna, parece que a predestinação de Cristo não é o exemplar da nossa.

2. Demais. — O exemplar conduz ao conhecimento da nossa predestinação, do exemplado. Ora, Deus não precisava de lhe ser trazido o conhecimento por um terceiro, segundo o Apóstolo: Os que ele conheceu na sua presciência também os predestinou. Logo, a predestinação de Cristo não é o exemplar da nossa predestinação.

3. Demais. — O exemplar é conforme ao exemplado, Ora, uma é a razão da predestinação de Cristo e outra, a da nossa. Porque, nós somos predestinados para filhos da adopção, e Cristo foi predestinado como Filho de Deus com poder, na expressão do Apóstolo. Logo, a sua predestinação não é o exemplar da nossa.

Mas, em contrário, diz Agostinho: Ele, o Salvador, o mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus, é a preclaríssima luz da predestinação e da graça. Ora, é chamado luz da predestinação e da graça, porque pela sua predestinação e a sua graça se manifesta a nossa predestinação; o que é próprio do exemplar. Logo, a predestinação de Cristo é o exemplar da nossa.

A predestinação pode ser considerada a dupla luz. — Primeiro, quanto ao acto mesmo do predestinante. E então a predestinação de Cristo não pode ser chamada exemplar da nossa predestinação; pois, de um modo pelo mesmo acto eterno, Deus nos predestinou a nós e a Cristo. — De outro modo, a predestinação pode ser considerada relativamente àquilo para que alguém é predestinado; o que é o termo e o efeito da predestinação. — E assim, a predestinação de Cristo é o exemplar da nossa predestinação. E isto de dois modos. Primeiro, quanto ao bem ao qual somos predestinados. Pois, Cristo foi predestinado a ser por natureza o Filho de Deus; ao passo que nós somos predestinados à filiação de adopção, que é uma semelhança participada pela filiação natural.

Donde o dizer o Apóstolo: Os que ele conheceu na sua presciência também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho. De outro modo, quanto à maneira de conseguir o referido bem, que é mediante a graça. O que em Cristo é manifestíssimo; porque a natureza humana em Cristo está unida ao Filho de Deus, sem precedência de nenhum mérito seu. E, como diz o Evangelho, todos nós participamos da plenitude da sua graça.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. — A objecção colhe relativamente ao próprio acto do predestinante.

E o mesmo devemos RESPONDER À SEGUNDA.

RESPOSTA À TERCEIRA. — Não é necessário o exemplado conformar-se em tudo ao exemplar; mas basta que o exemplado de algum modo imite o seu exemplar.

Nota: Revisão da versão portuguesa por ama.


Temas para meditar - 415


Justiça



Deus concedeu ao homem o auxílio da justiça original, em virtude da qual, se a mente do homem se submetia a Deus também se lhe submeteriam totalmente as forças inferiores do seu corpo, de modo que nada lhe dificultaria tender totalmente para Ele.


(SÃO Tomás de aquinoQuaestiones disputatae, de Malo, q. 5, a. 1, c)