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24/03/2020

Leitura espiritual



JESUS CRISTO NOSSO SALVADOR 24

Iniciação à Cristologia

3. A comunicação da obra redentora de Cristo aos homens. A redenção objectiva e subjectiva

a) A redenção objectiva e subjectiva

    Assim como dizemos que há uma cura quando realmente é curado o doente; do mesmo modo a redenção dos homens é efectiva quando eles são libertados do mal.
Por isso, a redenção é um processo que continua até ao fim dos tempos, conforme os homens se vão unindo ao Senhor e participando da salvação, que só estará consumada com a Ressurreição futura. Todavia, nesta única realidade, que é a redenção do homem, podemos distinguir dois aspectos:

    A redenção objectiva.

Chama-se «redenção objectiva» à obra levada a cabo pelo Redentor, tanto na sua vida terrena como desde o céu, na sua vida gloriosa, com a cooperação do Espírito Santo.
Esta obra de Cristo constitui a causa da salvação dos homens ao ser-lhes comunicada. Podemos compará-la a um remédio que fosse capaz de curar toda a doença, ou – como ensina Jesus – a uma fonte de água viva que salta até à vida eterna e pode saciar a sede para sempre. (cf. Jo 4,10-14).

    A redenção subjectiva.

Mas para que esse remédio tenha eficácia é necessário que o doente o tome.
Assim pois, se chama «redenção subjectiva» à participação nos frutos da obra de Cristo em cada um dos homens, à efectiva salvação do homem.

    Ainda que Cristo seja a Cabeça do género humano e o princípio da vida sobrenatural de todos os homens, a sua obra redentora não se nos comunica imediatamente por meio da natureza humana, como sucede com o pecado de Adão, mas por um renascimento espiritual pelo qual nos incorporamos n’Ele.
Então Jesus é «para nós, sabedoria, justiça, santificação e redenção» (1 Cor 1,30): então participamos da sua sabedoria, da sua graça e santidade, então somos redimidos e deixamos de ser escravos.

    Esta regeneração, por um lado, é fruto da acção de Cristo e, por outro lado, da nossa acção para nos unirmos a Ele.
Cada um de nós tem de acolher a acção do Espírito Santo e incorporar-se com a sua própria liberdade no Redentor: é necessário que cada um voluntariamente vá a Jesus e beba dessa água, e então encher-se-á do Espírito divino. (cf. Jo 7,37-39).
    Por isso, a universalidade da redenção não significa que todos os homens de facto se salvem:

Cristo, certamente, é o redentor de todo o género humano e, pela acção do Espírito Santo, oferece a cada homem a salvação, mas o homem pode rejeitar a graça que se lhe oferece.

Assim diz a Escritura: «Veio a luz ao mundo e os homens amaram mais as trevas que a luz» (Jo 3,19; cf. Jo 1,11).

b) O Espírito Santo na comunicação da obra redentora aos homens

    Jesus Cristo é a fonte de toda a graça:

Jesus é a vide e nós os sarmentos que recebemos a vida que procede da cepa (cf. Jo 15,1-5).

E já sabemos que a sua humanidade, como instrumento unido à pessoa do Verbo, nos comunica a vida sobrenatural não pelo poder próprio da sua natureza humana, mas sim pelo poder divino.
Esta omnipotência divina alcança todos os homens, e faz com que as acções e méritos de Cristo se possam aplicar e ter eficácia salvífica em cada um.

    Ainda que este poder seja comum más três pessoas divinas, costuma-se apropriar ao Espírito Santo: Cristo salva-nos pela acção do Espírito Santo – in Spiritu sancto, ou in virtute spiritus (cf. Rom 15,16.19) -, com o poder do espírito divino.

    Assim pois, os homens alcançam a salvação pela acção do Espírito que nos faz partícipes da obra de Cristo.
E sendo o Espírito Santo a causa eficiente principal e Cristo-homem a instrumental (e não ao contrário), a acção salvífica de ambos é uma só, de modo que não se podem separar efeitos diferentes de um ou de outro.
Portanto, cada um dos homens é «tocado» pela acção dos dois; em nenhum caso se dá uma acção do Espírito Santo fora da obra de Cristo, à margem da fé n’Ele e dos meios que estabeleceu:

«Todo o que se faz pelo Espírito Santo, também é feito por Cristo»[1].

c) Cristo comunica a salvação aos homens na Igreja e pela Igreja

    O único Redentor do mundo, elevado ao céu e glorificado, continua a sua presença e a sua obra salvífica na Igreja para comunicar universalmente os frutos da redenção.
Deste modo todos os homens podem encontrar de uma for exequível e visível a luz da verdade, a libertação do pecado e a comunhão com Deus: numa palavra, na Igreja e pela Igreja encontram Cristo e a salvação.

    No desígnio de Deus, a Igreja unida e subordinada a Jesus Cristo, que é a sua Cabeça, tem uma relação indispensável com a salvação de cada homem; daí que seja «sacramento universal de salvação»[2].

Assim pois, toda a graça provém de Cristo, é comunicada pelo Espírito Santo, e está misteriosamente relacionada com a Igreja: todo o tesouro da graça de Cristo pertence também à sua esposa e a ela se orienta. Por isso «a Igreja peregrina é necessária para a salvação, pois Cristo é o único Mediador e caminho de salvação e faz-se presente em nós no seu corpo que é a Igreja»[3].

d) O que se requer por parte do homem para unir-se a Cristo e participar da redenção

    Segundo o desígnio divino, o homem tem que incorporar-se livremente em Cristo e assim pode receber os frutos da sua obra redentora[4].

E o homem une-se a Cristo pela fé viva e os sacramentos da Igreja.

    A fé viva.

O início da união que podemos ter com Cristo neste mundo é a fé, que é a nossa livre acolhida e aceitação do Senhor.
A fé é o requisito necessário para participar da obra de Cristo: ninguém se pode salvar sem a fé, que é o fundamento e a origem de to a justificação (cf. Heb 116).

    Segundo os ensinamentos da Escritura, pela fé em Cristo alcançamos a justificação, pela fé ele habita nos nossos corações (cf. Ef 3,17) e por e pela somos feitos filhos de Deus (Cf. Gal 3,26).
Mas esta fé que nos faz partícipes da salvação não consiste só em aceitar as palavras de Jesus, ou em confiar na misericórdia divina, mas na adesão sem reservas à verdade em pessoa, que é Ele mesmo.
A fé que nos incorpora em Cristo e que nos salva é a fé viva, a fé que obra por caridade (cf. Gal 5,6), a fé acompanhada pelo arrependimento dos pecados e obras para cumprir os mandatos do Senhor (cf. Sant 2,14-26).

A participação nos sacramentos.

Os sacramentos são os meios visíveis principais que o Senhor estabeleceu para que nós, homens, entremos em comunhão com Ele e assim fazer-nos partícipes dos frutos da sua obra redentora.
Entre eles destaquemos:

    O baptismo.

O baptismo é o sacramento do nascimento para a vida sobrenatural, é a porta da vida no Espírito que nos liberta do pecado e nos comunica a nova vida que Cristo nos ganhou.
Produz a primeira união do homem com Cristo, e n’Ele, a união com o seu Corpo místico: este sacramento faz-nos membros de Cristo e da Igreja. Sem baptismo não há união com o nosso Salvador, nem podemos ter vida sobrenatural; por isso é necessário para a salvação (cf. Jo 3,2).

    A Eucaristia.

Jesus Cristo, que está contido realmente neste sacramento, une consigo os fiéis que o recebem.
Fá-los uma só coisa com Ele, fá-los partícipes de tudo o seu e comunica-lhes a vida eterna.
Ele é o «pão da vida», de modo que se não participamos deste sacramento não temos vida em nós (cf. Jo 6,48-58)[5].

    Se isto é assim, podem salvar-se os não cristãos?

A resposta é que a doutrina sobre a necessidade da fé e dos sacramentos para nos unirmos a Cristo e receber os frutos da redenção não se contrapõe à vontade salvífica universal de Deus.

Certamente Ele concede a todos os homens a graça que salva (por meio de Cristo no Espírito, e que tem relação com a Igreja)[6].
Todavia, desconhecemos o modo como a graça chega aos não cristãos:

Outorga-a «pelos caminhos que só Ele sabe»[7].

Mas é claro que cada um deles terá que acolher livremente esse dom divino para se salvar.

3. Os efeitos da obra redentora de Cristo nos homens

    O Filho de Deus encarnou-se «para que o mundo se salve por Ele» (Jo 3,17).
E já vimos no capítulo II que a salvação do homem comporta dois aspectos inseparáveis: a libertação do pecado e a participação da vida divina.
Mas ao mesmo tempo, estes dois efeitos da única obra da nossa salvação apresentam na revelação divina diversas facetas ou aspectos, a modo de variados frutos da redenção. Vejamos alguns deles.

a) Cristo liberta-nos do pecado

    Jesus recebeu da parte de Deus esse nome – que significa Salvador – porque, como indicou o anjo a José, «salvará o seu povo dos seus pecados» (Mt 1,21).
Com efeito, Ele conseguiu-nos a redenção plena do pecado, uma libertação que afecta a todo o homem, em todas as dimensões do seu ser.
Cristo consegue-nos a plena libertação do pecado enquanto à culpa – que é o mal fundamental – e enquanto à pena – sua consequência -, e isto no que se refere tanto à alma como ao corpo.

    Libertação do pecado enquanto à culpa.

O pecado consiste no afastamento e oposição da vontade humana à de Deus e leva consigo a a privação da comunhão com a vida divina.

E Jesus Cristo «amou-nos e livrou-nos dos nossos pecados com o seu sangue» (Ap 1,5) por meio da graça que nos concede; já que a remissão do pecado se realiza no homem por infusão da graça, de modo semelhante a como as trevas da noite desaparecem quando nasce a luz do sol.

Expressando este mesmo afecto noutros termos, podemos dizer que Cristo nos alcança o perdão dos pecados (cf. Act 5,31) ou a conversão do coração ao amor divino.

    Libertação do pecado enquanto à pena.

Ao libertar-nos da culpa, Cristo liberta-nos também das suas consequências:

«Por conseguinte, nenhuma condenação pesa já sobre os que estão em Cristo Jesus» (Rom 8,1).

Liberta-nos de todas as penas e escravidões que derivam do pecado tanto na alma como no corpo: liberta-nos da ignorância e da tristeza, da desordem interior que nos submete às paixões, da dor e da morte.

    Neste mundo permanecem ainda essas penalidades, mas Cristo transformou-as de modo a que já não têm um sentido meramente penal mas de purificação e como caminho para a glória.
E no final dos tempos Ele fará desaparecer definitivamente todas as marcas do pecado par uma vida eterna e feliz.

A libertação que Cristo nos consegue é na verdade perfeita e total.


Vicente Ferrer Barriendos

(Tradução do castelhano por ama)



FIM



[1] S. TOMÁS DE AQUINO, Super Ep. Ad Ephesios, cap 2, lect 5, n 121. Cf. CONGR. PARA A DOUTRINA DA FÉ, Decl. Dominus Iesus, n. 12.
[2] LG, 48; cf. CONGR. PARA A DOUTRINA DA FÉ, Decl. Dominus Iesus, n. 12.
[3] LG, 14.
[4] Cf. S. JOSEMARÍA ESCRIVÁ, Cristo que passa, 104: «Na vida espiritual não há uma nova época a que chegar. Já está tudo dado em Cristo, que morreu, ressuscitou, e vive e permanece sempre. Mas há que unir-se a Ele pela fé, deixando que a sua vida se manifeste em nós, de forma que possa dizer-se que cada cristão não é já alter Christus, mas sim ipse Christus, o próprio Cristo!».
[5] Ainda que o baptismo já nos incorpore em Cristo e no seu Corpo místico, essa união é tão só o início da mais plena união que tem lugar com a Eucaristia, á qual aquela primeira se ordena: Cf. CONC. VATICANO II, Unitatis redintagratio, 22.
[6] Cf. CONGR. PARA A DOUTRINA DA FÉ, Decl. Dominus Iesus, n. 20-23.
[7] CONC. VATICANO II, Ad gentes, 7;; cf. GS, 22; CCE, 847.

23/03/2020

Leitura espiritual



JESUS CRISTO NOSSO SALVADOR 23

Iniciação à Cristologia


b) Cristo faz-nos partícipes da vida divina

    Cristo veio para que o mundo «não pereça, mas que tenha a vida eterna» (Jo 3,16).
E conseguiu-nos a vida eterna – a vida do que é eterno, isto é a vida de Deus Pai, Filho e Espírito Santo -, de que agora já participamos verdadeiramente pela graça e que depois possuiremos plenamente no céu.
    Expressando este mesmo afecto com outros enunciados equivalentes, podemos dizer que Jesus nos alcança a justificação (cf. Rom 4,25), pois mediante a graça tira o pecado do coração do homem e fá-lo justo.
O bem que Ele nos abriu as portas do Céu e nos conseguiu o acesso ao reino dos céus, que é o nosso fim último ao qual estamos destinados pelo amor divino.
Mas do qual estávamos excluídos pelo pecado.

c) Outros efeitos da obra de Cristo

    A Sagrada Escritura enumera outros efeitos salvíficos da obra de Cristo que são diferentes aspectos compreendidos nos anteriores ou que derivam deles.
Entre outros frutos da redenção, citemos:

    A reconciliação, a comunhão e a amizade com Deus.

Ao pecar, o homem afastou-se de Deus na sua vontade, e de alguma forma (figuradamente) fez-se inimigo do Senhor enquanto ficou privado, não do amor divino, mas sim do efeito desse amor nele que é a graça.
Cristo reconcilia-nos com Deus enquanto tira o pecado que nos constitui em «inimigos» de Deus, e enquanto nos dá a graça que nos une a Deus, nos faz partícipes da sua vida íntima e nos constitui em seus «amigos»:

«Quando éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte do seu Filho» (Rom 5,10).

    A renovação interior do homem.

A graça de Cristo não só ordena o coração do homem para Deus e o liberta do pecado, como supõe uma verdadeira renovação de todo o seu ser ao fazê-lo participe da vida divina.
Esta transformação é tão profunda que o pecador é feito como um «homem novo» «criado conforme a Deus em justiça e santidade verdadeiras» (Ef 4,24).
Já não tem somente a condição humana, mas também é agora participe da natureza divina, santo e filho de Deus:

«O que está em Cristo é uma nova criatura» (2 Cor 5,17).

    A libertação da morte e a ressurreição dos corpos.

A morte e tudo o que de dor e frustração se sintetiza nela é pena do pecado (cf. Rom 5,12; cf. Gen 2,17).
Ao destruir o pecado em nós, Cristo também nos liberta da morte que é uma das suas consequências.
Cristo, vencedor da morte, é a causa da nossa ressurreição que terá lugar no final dos tempos, quando «o último inimigo a ser destruído será a morte (…)
Quando este ser corruptível se revista de incorruptibilidade e este ser mortal se revista imortalidade, então se cumprirá a palavra da Escritura:

A morte foi devorada pela vitória. Onde está. Morte, a tua vitória? Onde está, morte, o teu aguilhão?» (1 Cor 15,26.54-55).

d) Atribuição dos diferentes efeitos da redenção aos diversos mistérios de Cristo

    Vimos no capítulo IX que a redenção do homem se deve a todos os mistérios da vida de Cristo, e principalmente ao mistério pascal.

Agora devemos acrescentar que também se atribuem se atribuem diferentemente alguns efeitos da redenção à sua Morte na cruz e outros à sua Ressurreição.
A razão é que a um determinado efeito se lhe atribui como causa própria aquele mistério de Cristo que o origina e que, além disso, tem alguma semelhança com ele, pois cada efeito tem uma semelhança com a sua causa[1].

Vejamos este ponto.

    Na reparação da vida da alma podem considerar-se dois aspectos: a remissão do pecado e a nova vida da alma (ainda que se trate de duas faces da mesma realidade, pois a remissão do pecado realiza-se por infusão da graça).

São Paulo distingue esses dois aspectos e atribui-os a diferentes mistérios de Cristo, pois diz:

«Foi entregue pelos nossos pecados e ressuscitado para nossa justificação» (Rom 4,15); e também a liturgia: «Com a sua morte, destruiu o pecado; ao ressuscitar deu-nos nova vida»[2].

    Assim pois, a libertação do pecado atribui-se normalmente à Paixão de Cristo (cf. Ap 1,5; cf. Ef 1,7), e a razão é que, além de ser causa eficiente e meritória da nossa salvação e de ser uma manifestação do pecado, é também causa exemplar do morrer-mos nós mesmos, do nosso morrer-mos uma vida segundo a carne ou uma vida segundo o pecado.

    A nova vida da alma, ao invés, atribui-se à Ressurreição de Cristo (cf. Rom 6,4) pois, além de ser causa eficiente da nossa salvação, é também causa exemplar da nossa nova vida sobrenatural e divina.

    E também em reparação da vida corporal se podem considerar dois aspectos: a ressurreição da morte e a restauração da vida.

A destruição da morte atribui-se à Morte de Cristo, e a nova vida do nosso corpo ou ressurreição atribui-se à Ressurreição de Cristo (cf. 1 Cor 15,12ss.), por razões semelhantes às mencionadas. Assim diz a liturgia:

«Morrendo destruiu a nossa morte, e ressuscitando restaurou a vida»[3].

4. Os frutos da redenção já são actuais, ainda que sejam escatológicos na sua plenitude

a) A salvação é uma realidade principalmente escatológica

    «O dia da redenção» (Ef 5,30), o dia da libertação completa do pecado e de todas as suas consequências, é escatológico[4]: dar-se-á quando Cristo reapareça com glória no fim do mundo para estabelecer o seu reino (a «parusía» e todos os seus inimigos sejam postos debaixo dos seus pés (cf. 1 Cor 15,25); então terá lugar a libertação de todo o mal e da morte mediante a ressurreição, que é «a redenção do nosso corpo» (Rom 8,23). Então alcançaremos a plenitude a Filiação Divina (cf. Rom 8,23; 1 Jo 3,3) e a perfeita posse da vida eterna, quando Deus seja tudo em todas as coisas (cf. 1 Cor 15,28). Então a criação inteira será renovada no homem (cf. Rom 8,19-22) e haverá «um novo céu e uma nova terra», frutos da redenção (Ap 21,1).

b) Agora já alcançamos salvação, ainda que todavia não seja completa

    A salvação é uma realidade que «já» começou no tempo presente.

«Agora é o dia da salvação» (2 Cor 6,2). Deus já «nos salvou (…) por meio do banho de regeneração e de renovação do Espírito Santo, que derramou que derramou sobre nós com largueza por meio de Jesus Cristo nosso Salvador» (Tit 3,5).

    Por meio de Cristo, mediante a fé e os sacramentos, já temos acesso ao Pai em comum com o Espírito Santo (cf. Ef 2,18), e já somos partícipes da natureza divina (cf. 2 Pd 1,4), já recebemos a adopção de filhos (cf. Jo 3,1-2), já fomos justificados pela sua graça e recebemos o perdão dos pecados.

    Mas, como dissemos, «todavia não» é completa a salvação do homem.
É que, segundo o desígnio divino, os efeitos da redenção comunicam-se aos membros de Cristo com uma certa ordem, pois estes devem imitar a sua Cabeça.
E assim como Cristo teve primeiro a graça na sua alma juntamente com a passibilidade do corpo, e depois chegou à glória, assim os seus membros recebem primeiro na alma o «espírito de adopção de filhos» (Rom 8,15) vivendo ainda num corpo passível, e depois chegarão à glória imortal:

«Se somos filhos, também herdeiros: herdeiro de Deus, co-herdeiros de Cristo; desde que padeçamos com Ele, para ser com Ele também glorificados» (Rom 8,17)[5].

c) A esperança escatológica dos cristãos

    Para os cristãos a chave da história está na Morte e Ressurreição do Senhor:

O mundo já está salvo, ainda que todavia não se tenha consumado a obra redentora. Certamente, «agora não vemos que tudo esteja já submetido a Cristo» (Heb 2,8), pois neste mundo permanecem as marcas do pecado, mas os poderes do mal foram vencidos na sua raiz pelo mistério pascal[6]; é como uma guerra em que a batalha decisiva já foi ganha e só resta ocupar o território inimigo para o libertar definitivamente.

    A vida da graça que Cristo nos comunica é uma incoação da glória, uma realidade que germinou agora e florescerá perfeita na eternidade (cf. Pd 1,23).
Agora já possuímos realmente essa semente de vida eterna e por isso temos a certeza de receber os seus frutos em plenitude. Como diz São Paulo: «Fomos salvos na esperança» (Rom 8,24; cf. Tit 3,27).
E São Tomás:

«Pela Paixão de Cristo, sua Morte, Ressurreição e Ascensão, fomos libertados do pecado e da morte e adquirimos a justiça e a glória da imortalidade; aquela realmente já e agora, e esta em esperança»[7]

    E assim como tudo o que é imperfeito procura naturalmente o seu fim e perfeição, a Igreja «anela o reino consumado e com todas as suas forças anseia reunir-se com o seu Rei na glória»[8]:

espera a sua plenitude escatológica.

5. A cooperação especial de Maria Santíssima na obra redentora de Cristo

    Segundo o desígnio divino, Maria não só recebeu a mais perfeita participação dos frutos da salvação – foi preservada imune de todo o pecado, cheia de graça, elevada ao céu e glorificada em corpo e alma -, como também foi associada de um modo singular e eminente à pessoa de Cristo e à sua obra redentora.

    A sua cooperação na obra da salvação.

Ela, desde o momento da concepção de Cristo, esteve intimamente unida ao seu Filho e «colaborou de maneira totalmente singular na obra do salvador pela sua fé, esperança e ardente amor, para restabelecer a vida sobrenatural dos homens.

Por esta razão é nossa mãe em ordem da graça»[9].

Toda a vida de Maria, a «escrava do Senhor», foi uma entrega fiel cheia de generosidade e abnegação para servir o plano redentor do seu Filhos.

    E «esta maternidade de Maria perdura sem cessar na economia da graça (…) até à realização plena e definitiva de todos os escolhidos. Com efeito, com a sua assunção aos céus, não abandonou a sua missão salvadora, antes continua a procurar-nos com a sua múltipla intercessão os dons da salvação eterna.[10].

    Maria é Mediadora na obra salvífica de Cristo.

O que dissemos de toda a Igreja, enquanto instrumento de Cristo para comunicar a salvação aos homens, diz-se singularmente de Maria Santíssima, e de um modo mais perfeito, uma vez que a Virgem é modelo e exemplo da própria Igreja[11], e Mãe de todos os fiéis.
    Maria participa de um modo singular na obra salvífica de Cristo, único mediador entre Deus e os homens:

foi feita mediadora unida ao seu Filho e «a Igreja não duvida em atribuir a Maria um tal ofício subordinado: experimenta-o continuamente e recomenda-o ao coração de todos os fiéis para que, apoiados nesta protecção maternal, se unam mais intimamente ao Mediador e Salvador»[12].

Esta «cooperação de Maria (…) participa da universalidade da mediação do Redentor, único Mediador»[13].

Assim, pois, Maria intervém – unida a seu Filho – na salvação de todos e cada um dos homens, na comunicação de todos os frutos da redenção e na dispensa de todas as graças.
Maria é realmente a Mãe que nos comunica a vida sobrenatural e que cuida amorosamente de cada um de nós.

    «Ad Iesum per Mariam»:

É uma lição e como que uma consigna surgidas na vida bimilenária da Igreja.
Por Maria alcançamos a união com o Salvador; por ela temos as graças necessárias para viver como filhos de Deus e alcançar a bem-aventurança eterna; e por ela temos parte na salvação que Deus nos dá por meio de Jesus Cristo.

Vicente Ferrer Barriendos
2005 by Ediciones Bauer, S.A., Alcalá, 28027 Madrid Trad. ama)






(Tradução do castelhano por ama)


[1] Cf. S. TOMÁS DE AQUINO, S. Th. III,50,6; Compendium theologiae, I cap 239, n. 514.
[2] Prefácio dominical IV do tempo comum; cf. CEC, 654; S.Th. III,56,2, ad 4.
[3] Prefácio pascal I; cf. S.Th. III,56,1, ad 3 e ad 4.
[4] O termo «escatologia» deriva do grego (éskata, últimas coisas), e significa a ciência dos acontecimentos dos últimos tempos, dos que terão lugar no final do mundo.
[5] Cf. S.Th. III,49,3, ad 3.
[6] Cf. CCE, 671.
[7] Cf. S. TOMÁS DE AQUINO, S. Th. III,50,6; Compendium theologiae, I cap 241, n. 520.
[8] LG, 5; cf. N. 48.
[9] LG, 61.
[10] Lg, 62.
[11] Cf. LG, 63-65).
[12] LG, 62. «Todo o influxo salvífico da Bem-aventurada Virgem em favor dos homens (…) nasce do divino beneplácito e da superabundância dos méritos de Cristo, apoia-se na sua mediação, dela depende totalmente e da mesma tira toda a virtude; e longe de impedi-la, fomenta a união imediata dos crentes com Cristo» (LG, 60).
[13] JOÃO PAULO II, Enc. Redemptoris Mater, 40.