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23/07/2015

Reflectindo - 96

Saudades


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Disse-se antes que tal pode levar a um excessivo ensimesmamento que naturalmente conduzirá à solidão, ao sofrimento íntimo, que tenderá também a tornar-se um hábito e, pior, converter-se em desculpa para fugir ao comportamento normal, convívio com os outros, afectando virtudes importantes como a paciência, o bom humor, a alegria, a disponibilidade para servir, ser útil, a atenção aos outros, a diligência no trabalho.

Uma pessoa dominada pela saudade torna-se de trato difícil, maçadora, exigente, centralizadora das atenções dos outros.

De alguma forma tem sempre uma "desculpa" para não fazer o que deve quando deve.
Adia para um futuro qualquer em que "se sinta melhor" o que deveria fazer no momento e, quase sempre, parece-lhe que esta é uma justificação que todos devem aceitar e compreender.

Combater a saudade não é fácil nem existem fórmulas ou "remédios" infalíveis.

Diz-se que o tempo ajuda e que a saudade se vai esbatendo ou, pelo menos, perdendo intensidade.

Não me parece que seja assim porque como a saudade tem a ver com o amor seria o mesmo que admitir que este também é mais ou menos passageiro o que é absolutamente contrário ao correcto conceito do que é o amor.

Mas se assim é, se de facto saudade e amor vão juntos, então há uma esperança porque se o amor ao consolidar-se produz paz e tranquilidade então teremos que a saudade também pode alcançar esse estado de espírito.

E esta é, sem dúvida, uma boa notícia para quem a sente.


(ama, Reflexões, 2015.06.16)

20/07/2015

Reflectindo - 95

Saudades


Parece que só a língua portuguesa tem esta palavra única para significar a vontade, o desejo de voltar a viver algo que se viveu num passado, rever uma pessoa que está afastada, enfim, sentir a falta de algo ou alguém que naturalmente guardamos na memória como algo bom de que gostámos.

Noutros idiomas para exprimir este sentimento tem de usar-se uma frase composta. Realmente, em português as coisas são mais simples.
E exactamente por ser simples, descrever o sentimento que representa pode ser complexo e difícil.

Por isso mesmo quase sempre se usa a palavra sem acrescentar nada mais porque ela já diz tudo quanto precisamos para descrever um estado de alma.

A saudade pode ser algo condicionante e esmagador sendo necessário exercer um controlo sério para que não tome demasiado vulto ou atinja níveis emocionais que terão sempre uma consequência: o mergulhar na tristeza., desesperança, abandono.

Depois, se não se actua a tempo, vem a auto-comiseração, o sentir-se o centro e único protagonista digno de toda a atenção, carinho, solidariedade.

Tende-se assim, em plano perigosamente inclinado, para o amor-próprio e, finalmente o orgulho.

Não se conclui que a saudade seja um defeito, de modo nenhum, mas pode converter um sentimento nobre numa sujeição pessoal torpe e sem mérito.

É aqui principalmente que se deve redobrar a atenção de forma a impedir a que esse sentimento atinja proporções grandes demais para o equilíbrio emocional da pessoa.


(cont)