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12/12/2015

Evangelho, comentário, L. espiritual



Tempo de Advento


Evangelho: Mt 17, 10-13

10 Os discípulos perguntaram-Lhe: «Porque dizem, pois, os escribas que Elias deve vir primeiro?». 11 Ele respondeu-lhes: «Elias certamente há-de vir e restabelecerá todas as coisas. 12 Digo-vos, porém, que Elias já veio, e não o reconheceram, antes fizeram dele o que quiseram. Assim também o Filho do Homem há-de padecer às suas mãos». 13 Então os discípulos compreenderam que falava de João Baptista.

Comentário:

O discípulo não é mais que o seu mestre afirmou Jesus e bem se vê como esta sentença é verdadeira.

O Mestre de João padeceu e morreu pela salvação de todos os homens.
João também dará a sua vida mas neste caso por defender a verdade que é o próprio Mestre.

(ama, comentário sobre Mt 17 10-13, 2014.12.13)

Leitura espiritual


Resumos da Fé cristã

TEMA 38

O nono e o décimo mandamentos do Decálogo

Estes dois mandamentos ajudam a viver a santa pureza (o nono) e o desprendimento dos bens materiais (o décimo) nos pensamentos e nos desejos.

«Não cobiçarás a mulher do teu próximo e não desejarás a sua casa, nem o seu campo, nem o seu escravo, nem a sua escrava, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem nada que lhe pertença» [i].

«Aquele que olhar para uma mulher, desejando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração» [ii].

1. Os pecados internos

Estes dois mandamentos referem-se aos actos internos correspondentes aos pecados contra o sexto e o sétimo mandamentos, que a tradição moral classifica como pecados internos.

De forma positiva, regulam a forma de viver a pureza (o nono) e o desprendimento (o décimo) nos pensamentos e nos desejos, segundo as palavras do Senhor:
«Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus. Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus» [iii].

A primeira questão a que se terá de dar resposta é se faz sentido falar de pecados internos; ou, dito de outro modo, porque se qualifica negativamente um exercício da inteligência e da vontade se não se concretiza numa acção externa reprovável?

Pela pergunta não parece evidente, pois nas listas de pecados que o Novo Testamento nos apresenta aparecem sobretudo actos externos (adultério, fornicação, homicídio, idolatria, feitiçaria, pleito, ira, etc.). No entanto, nesses mesmos elencos também vemos citados, como pecados, certos actos internos (invejas, má concupiscência, avareza) [iv].

O próprio Jesus explica que é do coração do homem que «procedem as más intenções, os assassínios, os adultérios, as prostituições, os roubos, os falsos testemunhos e as blasfémias» [v].

No âmbito específico da castidade, ensina «que todo aquele que olhar para uma mulher, desejando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração» [vi].

Destes textos, provém um importante contributo para a moral, porque dão a entender como a fonte das acções humanas - por conseguinte da bondade ou maldade da pessoa - se encontra nos desejos do coração, no que a pessoa “quer” e escolhe.
A maldade do homicídio, do adultério ou do roubo não está principalmente na materialidade da acção ou nas suas consequências, mas antes na vontade (no coração) do homicida, do adúltero, do ladrão, que ao escolher determinada acção, está a desejá-la: está-se decidido a seguir numa direcção contrária ao amor do próximo e, portanto, também do amor de Deus.

A vontade tende sempre para um bem, mas, em certas ocasiões, trata-se de um bem aparente, alguma coisa que aqui e agora não é ordenável racionalmente em função do bem da pessoa no seu conjunto.
O ladrão deseja alguma coisa que considera um bem, mas o facto de que esse objecto pertença a outra pessoa torna impossível que a escolha feita se ordene ao bem da sua pessoa ou, o que é o mesmo, à plenitude da sua vida.
Neste sentido, não é necessário o acto exterior para determinar a vontade num sentido positivo ou negativo.

Quem decide roubar um objecto, mesmo que o não possa concretizar devido a algum imprevisto, actuou mal.
Realizou um acto interno contra a virtude da justiça.

A bondade e a maldade da pessoa dão-se na vontade, assim, rigorosamente falando teria de se utilizar essas categorias para se referir aos desejos (queridos, aceites) e não aos pensamentos.
Ao falar da inteligência utilizamos outras categorias, como verdadeiro e falso.
Quando o nono mandamento proíbe os “pensamentos impuros” não se está a referir às imagens, ou ao pensamento em si, mas ao movimento da vontade que aceita o deleite desordenado que certa imagem (interna ou externa) provoca [vii].

Os pecados internos podem dividir-se em:

- “Maus pensamentos” (complacência morosa):

São a representação imaginária de um acto pecaminoso sem ânimo para o realizar.
É pecado mortal se se trata de matéria grave e caso se procure ou se consinta em deleitar-se nela.

- Mau desejo (desiderium):

Desejo interior e genérico de uma acção pecaminosa da qual a pessoa sente gozo.
Não coincide com a intenção de a realizar (que implica sempre um querer eficaz), embora em não poucos casos se fizesse, se não existissem alguns motivos que inibem a pessoa (tais como as consequências da acção, a dificuldade para a realizar, etc.).

- Gozo pecaminoso:

É a complacência deliberada numa má acção já realizada por si ou por outros.
Renova o pecado na alma.

Os pecados internos, em si mesmos, costumam ter menor gravidade que os correspondentes pecados externos, porque o acto externo manifesta voluntariedade mais intensa.
No entanto, são de facto muito perigosos, sobretudo para as pessoas que procuram viver na amizade e intimidade com Deus, já que:

- Cometem-se com mais facilidade, pois basta o consentimento da vontade; e as tentações podem ser mais frequentes;

- Presta-se-lhes menos atenção, pois às vezes, por ignorância e, outras vezes, por certa cumplicidade com as paixões, não se querem reconhecer como pecados, pelo menos, veniais, se o consentimento foi imperfeito.

Os pecados internos podem deformar a consciência, por exemplo, quando se admite o pecado venial interno habitualmente ou com certa frequência, mesmo que se queira evitar o pecado mortal.
Esta deformação pode dar lugar a manifestações de irritabilidade, a faltas de caridade, ao espírito crítico, a resignar-se com ter frequentes tentações sem lutar tenazmente contra elas, etc. [viii];
Nalguns casos pode conduzir mesmo a não querer reconhecer os pecados internos, envolvendo-os em explicações sem qualquer razão, que acabam por confundir cada vez mais a consciência; como consequência, cresce facilmente o amor-próprio, nascem inquietações, torna-se mais custosa a humildade e a contrição sincera, e pode-se acabar num estado de tibieza.
Na luta contra os pecados internos, é muito importante não dar lugar aos escrúpulos [ix].


Para lutar contra os pecados internos, ajudam-nos:

- A frequência dos sacramentos que nos dão ou aumentam a graça e nos curam as nossas misérias quotidianas;

- A oração, a mortificação e o trabalho, procurando sinceramente Deus;

- A humildade – que nos permite reconhecer as nossas misérias sem desesperar face aos nossos erros – e a confiança em Deus, sabendo que quer sempre perdoar os nossos pecados;

- Exercitarmo-nos na sinceridade com Deus, connosco próprios e na direcção espiritual, cuidando com esmero o exame de consciência.

2. A purificação do coração


O nono e décimo mandamentos consideram os mecanismos íntimos que estão na raiz dos pecados contra a castidade e a justiça; e, em sentido amplo, de qualquer pecado [x].

Em sentido positivo, estes mandamentos convidam a actuar com recta intenção, com coração puro.
Por isso, têm grande importância, já que não se limitam à consideração externa das acções, mas consideram a fonte de que procedem essas acções.

Estes dinamismos internos são fundamentais na vida moral cristã, pois tanto as virtudes infusas como os dons do Espírito Santo são modelados pelas disposições da pessoa.
Em certo sentido, possuem particular importância as virtudes morais, que são mais propriamente disposições da vontade e dos outros apetites para actuar bem.
Tendo estes elementos presentes, é possível desterrar certa caricatura que se apresenta da vida moral como se ela se reduzisse apenas à luta contra os pecados, descobrindo-se antes o imenso panorama de esforço positivo por crescer na virtude (por purificar o coração) que tem a existência humana e em particular o cristão.

Estes mandamentos referem-se mais especificamente aos pecados internos contra as virtudes da castidade e da justiça, que estão bem reflectidos no texto da Sagrada Escritura que fala de «três espécies de cupidez ou concupiscência: a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida [xi]» [xii].

O nono mandamento trata do domínio da concupiscência da carne; e o décimo da concupiscência do bem alheio.
Ou seja, proíbem deixar-se arrastar por essas concupiscências de modo consciente e voluntário.

Estas tendências desordenadas ou concupiscências consistem na «revolta que a “carne” instiga contra o “espírito”.
Procede da desobediência do primeiro pecado» [xiii].
Depois do pecado original, ninguém está isento da concupiscência, excepto Nosso Senhor Jesus Cristo e a Virgem Santa Maria.

Embora a concupiscência, em si mesma, não seja pecado, inclina para o pecado e engendra-o, quando não se submete à razão iluminada pela fé com a ajuda da graça.
Esquecendo-se que existe a concupiscência, é fácil pensar que todas as tendências que se experimentam “são naturais” e que não faz mal deixar-se levar por elas.
Muitos dão-se conta como isto é falso ao considerarem o que sucede com a inclinação para a violência: reconhecem que ninguém se deve deixar arrastar por este impulso, mas dominá-lo, porque não é natural.

No entanto, quando se trata da pureza, já não querem reconhecer o mesmo, dizem que não é mau em se deixarem levar por este estímulo “natural”.

O nono mandamento ajuda-nos a compreender que não é assim, porque a concupiscência retorceu a natureza e o que se experimenta como natural é, frequentemente, consequência do pecado que é preciso vencer.

O mesmo se poderia dizer do afã imoderado de riquezas ou da cobiça a que se refere o décimo mandamento.


É importante conhecer esta desordem causada em nós pelo pecado original e pelos nossos pecados pessoais, visto que tal conhecimento:

- Impulsiona-nos a rezar: só Deus nos perdoa o pecado original, que deu origem à concupiscência, e só com a ajuda divina conseguiremos vencer essa tendência desordenada; a graça de Deus sara a nossa natureza das feridas do pecado, além de a elevar à ordem sobrenatural;

- Ensina-nos a amar a Criação, porque saiu boa das mãos de Deus; são os nossos pecados desordenados que provocam o mau uso dos bens criados.

3. O combate pela pureza


Pureza de coração significa possuir uma maneira santa de sentir. Com a ajuda de Deus, e o esforço pessoal, consegue-se ser cada vez mais “limpos de coração”: limpeza nos “pensamentos” e nos desejos.

No que se refere ao nono mandamento, o cristão consegue esta pureza com a graça de Deus, bem como através da virtude e do dom da castidade, da pureza de intenção, da pureza do olhar e da oração [xiv].

A pureza do olhar não se limita a rejeitar a contemplação de imagens claramente inconvenientes, mas exige a purificação do uso dos nossos sentidos externos, que nos levem a olhar, a contemplar o mundo e as outras pessoas com visão sobrenatural.

Trata-se de luta positiva que permite ao homem descobrir a verdadeira beleza de toda a criação, de modo particular, a beleza dos que foram criados à imagem e semelhança de Deus [xv].

«A pureza exige o pudor.
O pudor é parte integrante da temperança.
O pudor preserva a intimidade da pessoa.
Designa a recusa de mostrar o que deve ficar oculto.
Ordena-se à castidade e comprova-lhe a delicadeza.
Orienta os olhares e as atitudes em conformidade com a dignidade das pessoas e com a união que existe entre elas» [xvi].

4. A pureza do coração


«O desejo da verdadeira felicidade liberta o homem do apego imoderado aos bens deste mundo, e terá a sua plenitude na visão beatífica de Deus» [xvii].

«A promessa de ver a Deus ultrapassa toda a bem-aventurança. (...)
Na Escritura ver é possuir. (...)
Por isso aquele que vê a Deus obteve todos os bens que se possam imaginar» [xviii].

Os bens materiais são bons como meios, mas não são fins.
Não podem encher o coração do homem, que está feito para Deus e não se sacia com o bem-estar material.

«O décimo mandamento condena a avidez e o desejo duma apropriação desmesurada dos bens terrenos; e proíbe a cupidez desregrada, nascida da paixão imoderada das riquezas e do seu poder.
Interdita também o desejo de cometer uma injustiça pela qual se prejudicaria o próximo nos seus bens temporais» [xix].

O pecado é aversão a Deus e conversão às criaturas.

O apego aos bens materiais alimenta radicalmente esta conversão, provoca a cegueira da mente e o endurecimento do coração:

«Se alguém possuir bens deste mundo e, vendo o seu irmão com necessidade, lhe fechar o seu coração, como é que o amor de Deus pode permanecer nele?» [xx].

O afã desmesurado dos bens materiais é contrário à vida cristã: não se pode servir a Deus e às riquezas [xxi].

A importância exagerada que se concede hoje ao bem-estar material, muito acima de outros valores, não é sinal de progresso humano, mas de empobrecimento e de aviltamento do homem, cuja dignidade reside em ser criatura espiritual chamada à vida eterna como filho de Deus [xxii].

«O décimo mandamento exige que seja banida a inveja do coração humano» [xxiii].

A inveja é um pecado capital.
«Designa a tristeza que se sente perante o bem alheio e o desejo imoderado de se apropriar dele, mesmo indevidamente» [xxiv].
Da inveja podem derivar muitos outros pecados: ódio, murmuração, detracção, desobediência, etc.

A inveja significa rejeição da caridade. Para lutar contra ela, devemos viver a virtude da benevolência, que nos incita a desejar o bem dos outros como manifestação do amor que lhes temos.
A virtude da humildade também nos ajuda nesta luta, pois não devemos esquecer que a inveja procede com frequência do orgulho [xxv].

pablo requena

Bibliografia básica: Catecismo da Igreja Católica, 2514-2557.

Leituras recomendadas:

S. Josemaria, homilia «Porque verão a Deus», em Amigos de Deus, 175-189; homilia «Desprendimento», em Amigos de Deus, 110-126.





[i] Dt 5, 21
[ii] Mt 5, 28
[iii] Mt 5, 3.8
[iv] Cf. Gl, 5, 19-21; Rm 1, 29-31; Cl 3, 5. S. Paulo, depois de apelar a abster-se da fornicação, escreve: «que cada um de vós saiba possuir o seu corpo em santidade e honra, sem se deixar levar pelo desejo da paixão como os pagãos que não conhecem Deus. (…) Deus não nos chamou à impureza mas à santidade (1 Ts 4, 3-7). Sublinha a importância dos afectos, que estão na origem das acções, e faz ver a necessidade da sua purificação para a santidade.
[v] Mt 15, 19
[vi] Mt 5, 28
[vii] Deste modo, entender-se-á facilmente a diferença entre “sentir” e “consentir”, referido a determinada paixão ou movimento da sensibilidade. Só quando se consente com a vontade se pode falar de pecado (se a matéria for pecaminosa).
[viii] «Chapinhas nas tentações, pões-te em perigo, brincas com a vista e com a imaginação, falas de... disparates. E depois assustas-te por te assaltarem dúvidas, escrúpulos, confusões, tristeza e desalento. Hás-de conceder-me que és pouco coerente» (S. Josemaria, Sulco , 132).
[ix] «Não te preocupes, aconteça o que acontecer, desde que não consintas. - Porque só a vontade pode abrir a porta do coração e introduzir nele essas coisas execrandas» (S. Josemaria, Caminho, 140); cf. Ibidem, 258.
[x] «O décimo mandamento incide sobre a intenção do coração e resume, com o nono, todos os preceitos da Lei» (Catecismo, 2534).
[xi] 1 Jo 2,16
[xii] Catecismo, 2514
[xiii] Catecismo, 2515
[xiv] Com a graça de Deus, consegui-lo-ei: pela virtude e pelo dom da castidade, pois a castidade permite amar com um coração recto e sem partilha; pela pureza de intenção, que consiste em ter em vista o verdadeiro fim do homem: com um olhar simples, o baptizado procura descobrir e cumprir em tudo a vontade de Deus (cf. Rm 12, 2; Cl 1, 10) pela pureza do olhar, exterior e interior; pela disciplina dos sentidos e da imaginação; pela rejeição da complacência em pensamentos impuros que o levariam a desviar-se do caminho dos mandamentos divinos: “a vista excita a paixão dos insensatos” (Sb 15, 5); pela oração» (Catecismo, 2520).
[xv] «Os olhos! Por eles entram na alma muitas iniquidades. - Quantas experiências como a de David!... - Se guardardes a vista, tereis assegurado a guarda do vosso coração». (S. Josemaria, Caminho, 183. «- Meu Deus!: encontro graça e beleza em tudo o que vejo: guardarei a vista a toda a hora, por Amor» (S. Josemaria, Forja, 415).
[xvi] Catecismo, 2521
[xvii] Catecismo, 2548
[xviii] S. Gregório de Nisa, Orationes de Beatitudinibus, 6: PG 44, 1265A. Cf. Catecismo, 2548.
[xix] Catecismo, 2536
[xx] 1 Jo 3,17
[xxi] cf. Mt 6, 24; Lc 16,13
[xxii] cf. Lc 12,19-20
[xxiii] Catecismo, 2538
[xxiv] Catecismo, 2539
[xxv] cf. Catecismo, 2540

13/12/2014

Ev. Coment. L. esp. (Amigos de Deus)

Advento II Semana

Evangelho: Mt 17 10-13

10 Os discípulos perguntaram-Lhe: «Porque dizem, pois, os escribas que Elias deve vir primeiro?». 11 Ele respondeu-lhes: «Elias certamente há-de vir e restabelecerá todas as coisas. 12 Digo-vos, porém, que Elias já veio, e não o reconheceram, antes fizeram dele o que quiseram. Assim também o Filho do Homem há-de padecer às suas mãos». 13 Então os discípulos compreenderam que falava de João Baptista.

Comentário

Quem é João e quem é o Messias?

A pergunta tem razão de ser porque a ignorância que grassava no tempo de Jesus, era enorme.

E hoje?
Sabemos, de facto, Quem é Jesus Cristo?

Temos uma visão correcta apoiada no conhecimento das Escrituras, nomeadamente dos Evangelhos?

Não temos, ao contrário, uma visão pessoal que nos convenha ao que pensamos, sobretudo, praticamos?

A leitura diária, atenta e detalhada do Evangelho, é fundamental para que essa imagem e conhecimento sejam os correctos. 

(ama, comentário sobre, Mt 17, 10-13, 2013.12.14)


Leitura espiritual



São Josemaria Escrivá

Amigos de Deus 57 a 63

57          
O trabalho, participação do poder divino

Desde o começo da sua criação que o homem teve de trabalhar. Não sou eu quem o inventa. Basta abrir as primeiras páginas da Sagrada Bíblia para aí se ler que Deus formou Adão com o barro da terra e criou para ele e para a sua descendência este mundo tão formoso, ut operaretur et custodiret illum, com o fim de o trabalhar e de o conservar, e isto antes mesmo de o pecado entrar na humanidade e, como consequência dessa ofensa, a morte, as penas e as misérias.

Temos, pois, de nos convencer de que o trabalho é uma realidade magnífica, que se nos impõe como lei inexorável a que todos estamos submetidos, de uma ou de outra forma, apesar de alguns pretenderem eximir-se a ela. Aprendei-o bem: esta obrigação não surgiu como uma sequela do pecado original, nem se reduz a uma descoberta dos tempos modernos. Trata-se de um meio necessário que Deus nos confia na terra, alongando os nossos dias e tornando-nos partícipes do seu poder criador, para que ganhemos o nosso sustento e, simultaneamente, recolhamos frutos para a vida eterna: o homem nasce para trabalhar, como as aves para voar.

Talvez me digais que já se passaram muitos séculos, que muito pouca gente pensa desta maneira, que a maioria provavelmente se afana por motivos bem diversos: uns, por dinheiro; outros, para manter a família; outros, na mira de conseguir uma certa posição social, para desenvolver as suas capacidades, para satisfazer as suas paixões desordenadas, para contribuir para o progresso social. E todos, em geral, encaram as suas ocupações como uma necessidade de que não podem evadir-se.

Perante esta visão plana, egoísta, rasteira, tu e eu temos de recordar a nós mesmos e de recordar aos outros que somos filhos de Deus, a quem o nosso Pai dirigiu um convite idêntico ao daqueles personagens da parábola evangélica: filho, vai trabalhar na minha vinha. Posso assegurar-vos que aprenderemos a terminar as nossas tarefas com a maior perfeição humana e sobrenatural de que somos capazes, se nos empenharmos em considerar assim diariamente as nossas obrigações pessoais como ordem divina. É possível que nos rebelemos numa ou noutra ocasião como o filho mais velho, que respondeu: não quero!. Saberemos, contudo, reagir e, desde que nos arrependamos, dedicar-nos-emos mais esforçadamente ao cumprimento do dever.

58          
Se a simples presença de uma pessoa de categoria, digna de consideração, é suficiente para que se comportem melhor aqueles que estão à sua volta, como é que a presença de Deus, constante, sentida em todos os recantos, conhecida pelas nossas potências e amada gratamente, não nos torna sempre melhores em todas as nossas palavras, acções e sentimentos? Se, efectivamente, a realidade que consiste em Deus nos ver estivesse bem gravada nas nossas consciências e se nos apercebêssemos de que todo o nosso trabalho, sem qualquer excepção, se desenvolve na sua presença - porque nada escapa ao seu olhar - com que cuidado terminaríamos as coisas ou como seriam diferentes as nossas reacções! Ora, este é o segredo da santidade que prego há tantos anos: Deus chamou-nos a todos para que o imitemos; e a vós e a mim para que, vivendo no meio do mundo - sendo homens da rua - saibamos pôr Cristo Nosso Senhor no cume de todas as actividades humanas honestas.

Deveis agora compreender ainda melhor que, se algum de vós não amasse o trabalho que lhe corresponde, se não se sentisse autenticamente comprometido em santificar uma das nobres ocupações terrenas, se carecesse de uma vocação profissional, nunca chegaria a penetrar na essência sobrenatural da doutrina que expõe este sacerdote, porque lhe faltaria, precisamente, uma condição indispensável: a de ser um trabalhador.

59          
Aviso-vos, sem qualquer presunção da minha parte, que noto rapidamente se estas minhas palavras caem em saco roto ou passam ao lado daquele que me ouve. Deixai que vos abra o meu coração, para que me ajudeis a dar graças a Deus. Quando, em 1928, vi o que o Senhor queria de mim, comecei imediatamente o trabalho. Naqueles anos - obrigado, meu Deus, porque houve muito que sofrer e muito que amar! - alguns tomaram-me por louco. Outros, alardeando compreensão, chamavam-me sonhador, mas sonhador de sonhos impossíveis. Apesar dos pesares e da minha própria miséria, continuei sem desanimar. Como aquilo não era meu, foi-se abrindo caminho no meio das dificuldades e hoje é uma realidade estendida por toda a terra, de polo a polo, que parece muito natural à maioria das pessoas, porque o Senhor se encarregou de a fazer reconhecer como coisa sua.

Dizia-vos que, mal troco duas palavras com alguém, descubro logo se ele me compreende ou não. Não me acontece como à galinha que está a chocar a ninhada e sob a qual mão estranha coloca um ovo de pata. Passam-se os dias e só quando os pintainhos partem a casca e vê passarinhar aquela espécie de bocadinho de lã, descobre através do seu andar desajeitado - pata aqui, pata acolá - que esse não é um dos seus e que jamais aprenderá a piar, por mais que se empenhe. Nunca maltratei ninguém que me tenha voltado as costas, nem sequer quando me pagaram com insolência os meus desejos de ajudar. Por isso, pelo ano de 1939, chamou-me a atenção um letreiro que encontrei num edifício, onde me encontrava a dar um retiro a universitários. Dizia assim: Cada caminhante siga o seu caminho. Era um conselho digno de ser aproveitado.

60          
Perdoai-me esta divagação e, embora não nos tenhamos afastado do tema, voltemos ao seu fio condutor. Convencei-vos de que a vocação profissional é parte essencial e inseparável da nossa condição de cristãos. O Senhor quer que sejais santos no lugar onde estais e no trabalho que haveis escolhido pelas razões que vos aprouveram: pela minha parte, todos me parecem bons e nobres - desde que não se oponham à lei divina - e capazes de ser elevados ao plano sobrenatural, isto é, enxertados nessa corrente de Amor que define a vida de um filho de Deus.

Não posso deixar de ficar um pouco desassossegado quando alguma pessoa, ao falar da sua profissão, põe cara de vítima, afirma que lhe absorve não sei quantas horas por dia e, na realidade, não desenvolve sequer metade do trabalho de muitos dos seus companheiros que, ao fim e ao cabo, talvez só se esforcem por critérios egoístas ou, pelo menos, meramente humanos. Todos nós, que estamos aqui, mantendo um diálogo pessoal com Jesus, desempenhamos alguma ocupação bem precisa: de médico, de advogado, de economista... Pensai um pouco nos vossos colegas que sobressaem pelo seu prestígio profissional, pela sua honradez e pelo seu serviço abnegado. Não dedicam muitas horas do dia - e até da noite - a essa tarefa? Não teremos algo a aprender deles?

Enquanto falo, também vou examinando a minha conduta e confesso-vos que, ao pôr essa pergunta a mim mesmo, sinto um pouco de vergonha e o desejo imediato de pedir perdão a Deus, pensando na minha resposta tão débil, tão afastada da missão que Deus nos confiou no mundo. Cristo - escreve um Padre da Igreja - escolheu--nos para que fôssemos como lâmpadas; para que nos convertêssemos em mestres dos demais; para que actuássemos como fermento; para que vivêssemos como anjos entre os homens, como adultos entre crianças, como espirituais entre gente somente racional; para que fôssemos semente; para que produzíssemos fruto. Não seria necessário abrir a boca, se a nossa vida resplandecesse desta maneira. Sobrariam as palavras, se mostrássemos as obras. Não haveria um só pagão, se nós fôssemos verdadeiramente cristãos.

61          
Valor exemplar da vida profissional

Temos de evitar o erro de considerar que o apostolado se reduz ao testemunho de algumas práticas piedosas. Tu e eu somos cristãos, mas, ao mesmo tempo e sem solução de continuidade, cidadãos e trabalhadores, com obrigações bem nítidas que temos de cumprir exemplarmente, se deveras queremos santificar-nos. É Jesus Cristo que nos estimula: Vós sois a luz do mundo. Não se pode ocultar uma cidade situada sobre um monte. Nem se acende uma candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas sim sobre o candelabro, e assim alumia quantos estão em casa. Brilhe do mesmo modo a vossa luz diante dos homens, a fim de que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem vosso Pai que está nos céus.

Seja qual for, o trabalho profissional converte-se numa luz que ilumina os vossos colegas e amigos. Por isso, costumo repetir aos que se incorporam no Opus Dei, e a minha afirmação vale também para todos aqueles que me ouvis: que me importa que me digam que fulano de tal é um bom filho meu - um bom cristão - mas um mau sapateiro?! Se não se esforçar por aprender bem o seu ofício, ou por executar o seu trabalho com esmero, não poderá santificá-lo nem oferecê-lo ao Senhor. Ora, a santificação do trabalho ordinário constitui como que o fundamento da verdadeira espiritualidade para aqueles que, como nós, estão decididos a viver na intimidade de Deus, imersos nas realidades temporais.

62          
Lutai contra essa excessiva compreensão que cada um tem para consigo mesmo: sede exigentes para vós próprios. Às vezes, pensamos demasiadamente na saúde e no descanso, que aliás não deve faltar, precisamente porque é preciso voltar ao trabalho com forças renovadas. Esse descanso, porém, escrevi-o há já tantos anos, não é não fazer nada, mas distrairmo-nos em actividades que exigem menos esforço.

Noutras ocasiões, com falsas desculpas, somos excessivamente comodistas, esquecemo-nos da bendita responsabilidade que pesa sobre os nossos ombros, conformamo-nos com fazer o que é minimamente indispensável e deixamo-nos arrastar por razões sem razão para nada fazermos, enquanto Satanás e os seus amigos não tiram férias. Ouve e medita com atenção o que S. Paulo escrevia aos cristãos que eram escravos; instava-os a obedecerem aos seus amos: não os sirvais como quem trabalha somente porque é visto e para agradar aos homens, mas como servos de Cristo que fazem a vontade de Deus com todo o coração e servi-os com amor, sabendo que servis ao Senhor e não a homens. Que bom conselho para que o sigamos tu e eu!

Peçamos luz a Jesus Cristo Nosso Senhor e roguemos-lhe que nos ajude a descobrir, a cada instante, o sentido divino que transforma a nossa vocação profissional no gonzo sobre o qual assenta e gira a nossa chamada à santidade. Verificareis no Evangelho que Jesus era conhecido como faber, filius Mariæ, o trabalhador, o filho de Maria. Também nós, com orgulho santo, temos de demonstrar com factos que somos trabalhadores, homens e mulheres de trabalho!

Porque havemos de nos comportar sempre como enviados de Deus, devemos ter bem presente que não o servimos com lealdade quando abandonamos a nossa tarefa, quando não compartilhamos com os outros o empenho e a abnegação no cumprimento dos compromissos profissionais ou quando nos possam classificar como inconstantes, inconvenientes, frívolos, desordenados, preguiçosos e inúteis... Na verdade, quem descuida essas obrigações aparentemente menos importantes, só com dificuldade vencerá nas da vida interior que, certamente, são mais custosas. Quem é fiel nas coisas pequenas, é fiel também nas grandes; e quem é injusto nas pequenas coisas, é injusto também nas grandes.

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Não estou a falar de ideais imaginários. Atenho-me a uma realidade muito concreta, de capital importância, capaz de modificar o ambiente mais pagão e mais hostil às exigências divinas, como aconteceu na primeira época da era da nossa salvação. Saboreai estas palavras de um autor anónimo desses tempos, o qual resume assim a grandeza da nossa vocação: os cristãos são para o mundo o que a alma é para o corpo. Vivem no mundo, mas não são mundanos, tal como a alma está no corpo, mas não é corpórea. Habitam em todos os povoados, como a alma está em todas as partes do corpo. Agem mediante a sua vida interior sem se fazerem notar, como a alma mediante a sua essência... Vivem como peregrinos entre coisas perecedoiras, na esperança da incorruptibilidade dos céus, como a alma imortal vive agora numa tenda mortal. Multiplicam-se dia-a-dia sob o peso das perseguições, como a alma se aformoseia pela mortificação... E não é lícito aos cristãos abandonarem a sua missão no mundo, como não é permitido à alma separar-se voluntariamente do corpo.

Por esta razão, enganar-nos-íamos no caminho, se não déssemos importância às ocupações temporais. Também aí vos espera o Senhor. Podeis ter a certeza de que nós, homens, nos havemos de aproximar de Deus através das circunstâncias da vida corrente, ordenadas ou permitidas pela Providência na sua sabedoria infinita. Não atingiremos esse fim, se não nos esforçarmos por terminar bem a nossa tarefa; se não perseverarmos no afã pelo trabalho começado com empenho humano e sobrenatural; se não desempenharmos bem o nosso ofício como o melhor e, se é possível - e penso que, se tu verdadeiramente quiseres, assim será - melhor do que o melhor, porque usaremos todos os meios terrenos honrados e os espirituais que forem necessários para oferecer a Nosso Senhor um trabalho primoroso, acabado como uma peça de filigrana, perfeito.

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