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02/12/2015

Evangelho, comentário, L. espiritual



Tempo de Advento


Evangelho: Mt 15, 29-37

29 Tendo Jesus saído dali, dirigiu-Se para o mar da Galileia; e, subindo a um monte, sentou-Se ali. 30 E veio até Ele uma grande multidão de povo, que trazia consigo coxos, cegos, mudos, estropiados e muitos outros. Lançaram-se a Seus pés, e Ele os curou; 31 de modo que as multidões se admiravam, vendo falar os mudos, andar os coxos, ver os cegos; e davam glória ao Deus de Israel. 32 Jesus, chamando os Seus discípulos, disse: «Tenho compaixão deste povo, porque há já três dias que não se afastam de Mim, e não têm que comer. Não quero despedi-los em jejum, para que não desfaleçam no caminho». 33 Os discípulos disseram-Lhe: «Onde poderemos encontrar neste deserto pães bastantes para matar a fome a tão grande multidão?». 34 Jesus disse-lhes: «Quantos pães tendes?». Eles responderam: «Sete, e uns poucos peixinhos». 35 Ordenou então ao povo que se sentasse sobre a terra. 36 E, tomando os sete pães e os peixes, deu graças, partiu-os, deu-os aos Seus discípulos, e os discípulos os deram ao povo. 37 Comeram todos, e saciaram-se. E dos bocados que sobejaram levantaram sete cestos cheios.

Comentário:

Não se pode estranhar que as pessoas não se afastassem de Jesus esquecendo-se até, de comer e beber.
Percebem que é uma oportunidade – talvez única e que não voltará a repetir-se – de se encontrarem com tão extraordinário Profeta que, além das palavras cheias de sabedoria e conforto que lhe aquecem a alma e revigoram o espírito – cura as doenças e males físicos que afligem muitos.
Como que a “coroar” esta atracção das pessoas por Ele, Jesus faz o extraordinário milagre da multiplicação dos pães e dos peixes. Todos se apercebem da magnitude de tal acto e, por isso, mais atraídos se sentem pela Sua figura amável e atenciosa.

A Jesus vai-se sempre com a esperança e confiança de quem sabe que vai encontrar o conforto e o alimento que necessita e, em tal abundância, que sobrará sempre para dias mais agrestes que possam vir.

(ama, comentário sobre Mt 15, 29-37, 2012.12.05)



Leitura espiritual


Resumos da Fé cristã

TEMA 35

O sexto mandamento do Decálogo

…/2

A castidade é uma virtude eminentemente pessoal que «implica também um esforço cultural» [i], visto que o «progresso da pessoa humana e o desenvolvimento da própria sociedade estão em mútua dependência» [ii].
O respeito pelos direitos da pessoa reclama o respeito pela castidade, particularmente o direito a «receber uma informação e educação que respeitem as dimensões morais e espirituais da vida humana» [iii], [iv].

As manifestações concretas como se configura e cresce esta virtude são diferentes dependendo da vocação recebida. «As pessoas casadas são chamadas a viver a castidade conjugal; as outras praticam a castidade na continência» [v].

4. A castidade no matrimónio

A união sexual «ordena-se para o amor conjugal do homem e da mulher» [vi]: quer dizer, quando se «realiza de maneira verdadeiramente humana, somente se é parte integral do amor com o qual homem e mulher se empenham totalmente um para com o outro até à morte» [vii].

A grandeza do acto pelo qual o homem e a mulher cooperam livremente com a acção criadora de Deus exige estritas condições morais, justamente devido à importância antropológica que possui: a capacidade de gerar uma nova vida humana chamada à eternidade. É este o motivo pelo qual o homem não deve separar voluntariamente as dimensões unitiva e procriativa do referido acto, como é o caso da contracepção [viii].

Os esposos castos saberão descobrir os momentos mais adequados para viver a união corporal, de modo que reflicta sempre, em cada acto, o que o dom de si significa [ix].

Diferentemente da dimensão procriadora, que se pode actualizar de modo verdadeiramente humano somente através do acto conjugal, a dimensão afectiva e unitiva própria desse acto pode e deve manifestar-se de muitos outros modos. Isto explica que, se devido a determinadas condições de saúde ou de outro tipo, os esposos não podem realizar a união conjugal, ou decidem que é preferível abster-se temporariamente (ou definitivamente em situações especialmente graves) do acto próprio do matrimónio, podem e devem continuar a actualizar esse dom de si, que faz crescer o amor verdadeiramente pessoal, do qual a união dos corpos é manifestação.

5. A castidade e o celibato

Deus chama alguns a que vivam a sua vocação de amor de modo particular no celibato apostólico [x].
O modo de viver a vocação cristã no celibato apostólico exige a continência [xi].
Esta exclusão do uso da capacidade generativa não significa de nenhum modo a exclusão do amor e da afectividade [xii].
Pelo contrário, a doação que se faz livremente a Deus de uma possível vida conjugal, capacita a pessoa para amar e dar-se ao serviço muitos outros homens e mulheres, ajudando-os a encontrar Deus, que é a razão do celibato [xiii].

Este modo de vida há-de ser considerado e vivido sempre como um dom, pois ninguém se pode arrogar da capacidade de ser fiel ao Senhor neste caminho sem o auxílio da graça.

6. Pecados contra a castidade

A castidade opõe-se à luxúria que «é um desejo desordenado ou um gozo desregrado de prazer venéreo.
O prazer sexual é moralmente desordenado quando procurado por si mesmo, isolado das finalidades da procriação e da união» [xiv].

Dado que a sexualidade ocupa uma dimensão central na vida humana, os pecados contra a castidade são sempre graves devido à sua matéria e, portanto, fazem perder a herança do Reino de Deus [xv].
No entanto, podem ser leves, quando falta advertência plena ou perfeito consentimento.

O vício da luxúria tem muitas e graves consequências: a cegueira da mente que obscurece o nosso fim e o nosso bem; a debilitação da vontade, que se torna quase incapaz de qualquer esforço, conduzindo à passividade, à apatia no trabalho, nas tarefas, etc., o apego aos bens terrenos que faz esquecer os eternos e, finalmente, pode-se chegar ao ódio a Deus, que aparece ao luxurioso como o maior obstáculo para satisfazer a sua sensualidade.

A masturbação é a «excitação voluntária dos órgãos genitais, para daí retirar um prazer venéreo» [xvi].
Tanto o Magistério da Igreja, de acordo com a tradição constante, como o sentido moral dos fiéis, têm afirmado sem nenhuma dúvida que a masturbação é um acto intrínseca e gravemente desordenado» [xvii].
Pela sua própria natureza, a masturbação contradiz o sentido cristão da sexualidade que está ao serviço do amor.
Ao ser um exercício solitário e egoísta da sexualidade, privado da verdade do amor, deixa insatisfação e conduz ao vazio e ao desgosto.

«A fornicação é a união carnal fora do matrimónio entre um homem e uma mulher livres.
É gravemente contrária à dignidade das pessoas e da sexualidade humana, naturalmente ordenada para o bem dos esposos, assim como para a geração e educação dos filhos»  [xviii], [xix].

O adultério «designa a infidelidade conjugal.
Quando dois parceiros, dos quais pelo menos um é casado, estabelecem entre si uma relação sexual, mesmo efémera, cometem adultério» [xx], [xxi].

Do igual modo, são contrárias à castidade as conversas, os olhares, as manifestações de afecto para com outra pessoa, mesmo entre noivos, realizadas com desejo libidinoso, ou que constituem ocasião próxima de pecado caso se procurem ou não se rejeitem [xxii].

A pornografia – exibição do corpo humano como simples objecto de concupiscência – e a prostituição – transformação do próprio corpo em objecto de transacção financeira e de desfruto carnal – são faltas graves de desordem sexual, que, além de atentarem contra a dignidade das pessoas que as praticam, constituem uma chaga social [xxiii].

«A violação designa a entrada na intimidade sexual duma pessoa à força, com violência. É um atentado contra a justiça e a caridade.
A violação ofende profundamente o direito de cada um ao respeito, à liberdade e à integridade física e moral.
Causa um prejuízo grave, que pode marcar a vítima para toda a vida.
É sempre um acto intrinsecamente mau.
É mais grave ainda, se cometido por parentes próximos (incesto) ou por educadores contra crianças que lhes estão confiadas» [xxiv].

«Os actos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados» como tem declarado a Tradição da Igreja [xxv].
Esta nítida valorização moral das acções não deve prejudicar minimamente as pessoas que apresentem tendências homossexuais [xxvi], já que não poucas vezes a sua situação representa uma difícil prova [xxvii].
Estas pessoas são também «chamadas à castidade.
Pelas virtudes do autodomínio, educadoras da liberdade interior, e, às vezes, pelo apoio duma amizade desinteressada, pela oração e pela graça sacramental, podem e devem aproximar-se, gradual e resolutamente, da perfeição cristã» [xxviii].

pablo requena

Bibliografia básica Catecismo da Igreja Católica, 2331-2400.
Bento XVI, Enc. Deus Caritas est, 25-XII-2005, 1-18.
João Paulo II, Ex. Ap. Familiaris Consortio, 22-XI-1981.

Leituras recomendadas
S. Josemaria, Homilia «Porque verão a Deus», em Amigos de Deus, 175-189; «O matrimonio, vocação cristã», em Cristo que Passa, 22-30.
Congregação para a Doutrina da Fé, Decl. Persona Humana, 29-XII-1975.
Congregação para a Educação Católica, Orientações educativas sobre o amor humano, 1-XI-1983.
Conselho Pontifício para a Família, Sexualidade Humana: Verdade e Significado, 8-XII-1995.
Conselho Pontifício para a Família, Lexicon de términos ambiguos y discutidos sobre familia, vida y cuestiones éticas (2003). (Tem especial interesse para os pais e educadores a entrada «Educación sexual» de Aquilino Polaino-Lorente).




[i] Catecismo, 2344
[ii] Concílio Vaticano II, Const. Gaudium et Spes , 25.
[iii] Catecismo, 2344
[iv] Em diversas ocasiões, o Papa João Paulo II referiu-se à necessidade de promover uma autêntica «ecologia humana» no sentido de conseguir um ambiente moral são que facilite o desenvolvimento da pessoa (cf. por exemplo, Enc. Centesimus Annus , 1-V-1991, 38). Parece evidente que parte do «esforço cultural» a que se fez referência consiste em mostrar que existe o dever de respeitar normas morais nos meios de comunicação social, especialmente na televisão, como exigência da dignidade das pessoas. «Nestes momentos de violência, de sexualidade brutal, selvagem, temos de ser rebeldes. Tu e eu somos rebeldes: não nos dá na real gana deixar-nos levar pela corrente, e ser uns animais. Queremos portar-nos como filhos de Deus, como homens ou mulheres que se dão com o seu Pai, que está nos Céus e quer estar muito perto – dentro! – de cada um de nós» (S. Josemaria, Forja, 15).
[v] Catecismo, 2349
[vi] Catecismo, 2360
[vii] João Paulo II, Familiaris Consortio, 11.
[viii] Na fecundação artificial também se produz a ruptura entre estas dimensões próprias da sexualidade humana, como ensina claramente a Instrução Donum Vitae (1987).
[ix] Como ensina o Catecismo, o prazer que deriva da união conjugal é algo bom e querido por Deus (cf. Catecismo, 2362).
[x] Embora a santidade se meça pelo amor de Deus e não pelo estado de vida – celibatário ou casado –, a Igreja ensina que o celibato pelo Reino dos Céus é um dom superior ao matrimónio (cf. Concilio de Trento: DS 1810; 1 Co 7, 38).
[xi] Não se trata aqui do celibato sacerdotal, nem da virgindade ou celibato consagrado. De qualquer modo, do ponto de vista moral em todas estas situações requer-se a continência total.
[xii] Não faria nenhum sentido defender que o celibato seja «antinatural». O facto de que o homem e a mulher se possam complementar, não significa que se completem, porque ambos são completos como pessoas humanas.
[xiii] Bento XVI, falando do celibato sacerdotal, embora se pudesse referir a todo o celibato pelo Reino dos Céus, explica que não se pode compreender em termos meramente funcionais, pois na realidade «constitui uma especial conformação ao estilo de vida do próprio Cristo» Bento XVI, Ex. Ap. Sacramentum Caritatis, 24).
[xiv] Catecismo, 2351
[xv] cf. Ef 5, 5
[xvi] Catecismo, 2352
[xvii] Congregação para a Doutrina da Fé, Decl. Persona Humana, 29-XII-1975, 9.
[xviii] Catecismo, 2353
[xix] A união livre ou coabitação sem intenção de casamento, a união à experiência quando existe intenção de se casar e as relações pré-matrimoniais ofendem a dignidade da sexualidade humana e do matrimónio. «São contrárias à lei moral: o acto sexual deve ter lugar exclusivamente no matrimónio; fora dele constitui sempre um pecado grave e exclui da comunhão sacramental» (Catecismo, 2390). A pessoa não se pode “emprestar”, mas apenas doar-se livremente de uma vez para sempre.
[xx] Catecismo 2380
[xxi] Cristo condena mesmo o desejo do adultério (cf. Mt 5, 27-28). No Novo Testamento proíbe-se absolutamente o adultério (cf. Mt 5, 32; 19, 6; Mc 10, 11; 1 Cor 6, 9-10). O Catecismo, falando das ofensas contra o matrimónio, enumera também o divórcio, a poligamia e a contracepção.
[xxii] «Os noivos são chamados a viver a castidade na continência. Eles farão, neste tempo de prova, a descoberta do respeito mútuo, a aprendizagem da fidelidade e da esperança de se receberem um ao outro de Deus. Reservarão para o tempo do matrimónio as manifestações de ternura específicas do amor conjugal. Ajudar-se-ão mutuamente a crescer na castidade» (Catecismo, 2350).
[xxiii] cf. Catecismo, 2355
[xxiv] Catecismo, 2356
[xxv] Congregação para a Doutrina da Fé, Persona Humana, 8. «São contrários à lei natural, fecham o acto sexual ao dom da vida, não procedem duma verdadeira complementaridade afectiva sexual, não podem, em caso algum, ser aprovados» (Catecismo, 2357).
[xxvi] A homossexualidade refere-se às condições apresentadas por aqueles homens e mulheres que sentem atracção exclusiva ou predominante para com as pessoas do mesmo sexo. As possíveis situações que se possam apresentar são muito diferentes, logo é necessária extrema prudência no momento de tratar destes casos.
[xxvii] «Um número considerável de homens e de mulheres apresenta tendências homossexuais profundamente radicadas. Esta propensão, objectivamente desordenada, constitui, para a maior parte deles, uma provação. Devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á, em relação a eles, qualquer sinal de discriminação injusta. Estas pessoas são chamadas a realizar na sua vida a vontade de Deus e, se forem cristãs, a unir ao sacrifício da cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar devido à sua condição» (Catecismo, 2358).
[xxviii] Catecismo, 2359

03/12/2014

Ev. coment. L. esp. (Cristo que passa)

Advento I Semana

Evangelho: Mt 15 29-37

29 Tendo Jesus saído dali, dirigiu-Se para o mar da Galileia; e, subindo a um monte, sentou-Se ali. 30 E veio até Ele uma grande multidão de povo, que trazia consigo coxos, cegos, mudos, estropiados e muitos outros. Lançaram-se a Seus pés, e Ele os curou; 31 de modo que as multidões se admiravam, vendo falar os mudos, andar os coxos, ver os cegos; e davam glória ao Deus de Israel. 32 Jesus, chamando os Seus discípulos, disse: «Tenho compaixão deste povo, porque há já três dias que não se afastam de Mim, e não têm que comer. Não quero despedi-los em jejum, para que não desfaleçam no caminho». 33 Os discípulos disseram-Lhe: «Onde poderemos encontrar neste deserto pães bastantes para matar a fome a tão grande multidão?». 34 Jesus disse-lhes: «Quantos pães tendes?». Eles responderam: «Sete, e uns poucos peixinhos». 35 Ordenou então ao povo que se sentasse sobre a terra. 36 E, tomando os sete pães e os peixes, deu graças, partiu-os, deu-os aos Seus discípulos, e os discípulos os deram ao povo. 37 Comeram todos, e saciaram-se. E dos bocados que sobejaram levantaram sete cestos cheios.

Comentário

Depois de os curar a todos sacia-lhes a fome!
Que extraordinário é este Rei que provê a todas as necessidades do Seu povo.
Que feliz é o povo que tem tal Rei!

(Ama, comentário sobre (Mt 15, 29-37, 2010.12.01)

Leitura espiritual



São Josemaria Escrivá

Cristo Que passa 165 a 169

165           
Cristo na Cruz, com o Coração trespassado de Amor pelos homens, é uma resposta eloquente - as palavras não são necessárias - à pergunta sobre o valor das coisas e das pessoas. Pois valem tanto os homens, a sua vida, a sua felicidade, que o próprio Filho de Deus Se entrega para os remir, para os purificar, para os elevar! Quem não amará o seu coração tão ferido? - perguntava uma alma contemplativa. E continuava a perguntar: Quem não dará amor por amor? Quem não abraçará um Coração tão puro? Nós, que somos de carne, pagaremos amor com amor, abraçaremos o Ferido que encontrámos, Aquele a quem os ímpios atravessaram as mãos e os pés, o lado e o Coração. Peçamos-lhe que Se digne prender o nosso coração com o vínculo do seu amor, feri-lo com uma lança, pois é ainda duro e impenitente.

São pensamentos, afectos e palavras que as almas enamoradas desde sempre dedicaram a Jesus. Mas, para entender essa linguagem, para saber na verdade o que é o coração humano e o Coração de Cristo e o amor de Deus, são precisas a Fé e a humildade. Foi com Fé e humildade que Santo Agostinho escreveu para nós estas palavras universalmente famosas: criastes-nos, Senhor, para Vós, e o nosso coração está inquieto enquanto em Vós não repousa.

Quando não cultiva a humildade, o homem pretende apropriar-se de Deus, mas não dessa maneira divina que o próprio Cristo tomou possível ao dizer tomai e comei: isto é o meu Corpo; antes, tentando reduzir a grandeza divina aos limites humanos. A razão - razão fria e cega, que não é a inteligência nascida da Fé, nem sequer a recta inteligência da criatura capaz de saborear e amar as coisas - converte-se na sem-razão de quem tudo submete à sua pobre experiência vulgar, que amesquinha a verdade humana e cobre o coração do homem com uma crosta insensível às inspirações do Espírito Santo. A nossa pobre inteligência estaria perdida, se não fosse o poder misericordioso de Deus, que rasga as fronteiras da nossa miséria: hei-de dar-vos um coração novo e revestir-vos de um novo espírito; hei-de tirar-vos o vosso coração de pedra e dar-vos em seu lugar um coração de carne. E a alma recuperará a luz e há-de encher-se de alegria, por força das promessas da Sagrada Escritura.

Eu tenho pensamentos de paz e não de aflição, declarou Deus pela boca do profeta Jeremias. A Liturgia aplica estas palavras a Jesus, porque n'Ele se nos manifesta com toda a clareza que é assim que Deus nos ama. Não vem condenar-nos; não vem para nos lançar em rosto a nossa indigência ou a nossa mesquinhez: vem salvar-nos, perdoar-nos, desculpar-nos, trazer-nos a paz e a alegria. Se reconhecermos esta maravilhosa relação do Senhor com os seus filhos, os nossos corações mudarão com certeza e veremos abrir-se diante dos nossos olhos um horizonte absolutamente novo, cheio de relevo, de profundidade e de luz.

166           
Levar aos outros o amor de Cristo

Mas reparai: Deus não nos declara: em vez do coração, dar-vos-ei uma vontade própria de puro espírito. Não, dá-nos um coração, e um coração de carne, como o de Cristo. Não tenho um coração para amar a Deus e outro para amar as pessoas da Terra. Com o mesmo coração com que amo os meus pais e estimo os meus amigos, com esse mesmo coração amo Cristo, e o Pai, e o Espírito Santo, e Santa Maria. Não me cansarei de vos repetir: temos de ser muito humanos, porque, se não, também não podemos ser divinos.

O amor humano, o amor cá deste mundo, quando é verdadeiro, ajuda-nos a saborear o amor divino. E assim entrevemos o amor com que havemos de gozar de Deus e aquele que lá no Céu nos há-de unir uns aos outros, quando o Senhor for tudo em todas as coisas. E, começando a entender o que é o amor divino, havemos de nos mostrar habitualmente mais compassivos, mais generosos, mais entregados.

Havemos de dar o que recebemos, ensinar o que aprendemos; levar os outros a participar - sem soberba, com simplicidade - desse conhecimento do amor de Cristo. Quando cada um de vós realiza o seu trabalho, exerce a sua profissão na sociedade, pode e deve converter essa tarefa num serviço. O trabalho bem acabado, que progride e faz progredir e tem em conta o avanço da cultura e da técnica, realiza uma grande função, que será sempre útil à humanidade inteira, se nos mover a generosidade, não o egoísmo; o amor por todos, não o proveito próprio; se estiver cheio de sentido cristão da vida.

É a partir desse trabalho e na própria rede das relações humanas, que haveis de mostrar a caridade de Cristo e os seus resultados concretos de amizade, de compreensão, de ternura humana, de paz. Assim como Cristo passou fazendo o bem , por todos os caminhos da Palestina, assim vós ireis por todos os caminhos humanos - da família, da sociedade civil, das relações profissionais de cada dia - semeando paz. E será esta a melhor prova de que o Reino de Deus chegou aos vossos corações. Nós sabemos que fomos trasladados da morte para a vida, - escreve o apóstolo S. João - porque amamos os nossos Irmãos.

Mas ninguém pode viver esse amor se não se formar na escola do Coração de Jesus. Só se olharmos e contemplarmos o Coração de Cristo, conseguiremos que o nosso se liberte do ódio e da indiferença. Só assim saberemos reagir cristãmente diante dos sofrimentos alheios, diante da dor.

Recordai a cena que nos conta S. Lucas, quando Cristo andava nos arredores da cidade de Naim. Jesus vê a angústia daquelas pessoas, com quem Se cruzou ocasionalmente. Podia ter passado de lado, ou ter esperado que O chamassem e Lhe fizessem um pedido. Mas não Se afasta, nem fica na expectativa. Toma ele próprio a iniciativa, movido pela aflição de uma viúva que perdera a única coisa que lhe restava - o filho.

Explica o evangelista que Jesus Se compadeceu; talvez a sua comoção tivesse também sinais externos, como pela morte de Lázaro. Jesus não era, nem é, insensível ao padecimento que nasce do amor, nem sente prazer em separar os filhos dos pais. Supera a morte, para dar a vida, para que aqueles que se amam convivam, exigindo antes e ao mesmo tempo a preeminência do Amor divino que deve informar a autêntica existência cristã.

Cristo sabe que O rodeia uma grande multidão, a quem o milagre encherá de pasmo e que há-de ir apregoando o sucedido por toda aquela região. Mas o Senhor não actua com artificialismo, só para praticar um "feito": sente-Se singelamente afectado pelo sofrimento daquela mulher; não pode deixar de a consolar. Então, aproximou-Se e disse-lhe: não chores. Que é como se lhe dissesse: não te quero ver desfeita em lágrimas, pois Eu vim trazer à Terra a alegria e a paz. E imediatamente se dá o milagre, manifestação do poder de Cristo, Deus. Mas antes já se dera a comoção da sua alma, manifestação evidente da ternura do coração de Cristo, Homem.

167           
Se não aprendermos com Jesus, nunca amaremos. Se pensássemos, como alguns pensam, que conservar um coração limpo, digno de Deus, significa não o misturar, não o contaminar com afectos humanos, o resultado lógico seria tomarmo-nos insensíveis à dor dos outros. Só seríamos capazes de uma caridade oficial, seca e sem alma; não da verdadeira caridade de Jesus Cristo, que é ternura, amor humano. Mas com isto não estou a justificar certas teorias com que se pretende desculpar o desvio dos corações, afastando-os de Deus e levando-os a más ocasiões e à perdição.

Na festa de hoje, havemos de pedir ao Senhor que nos dê um coração bom, capaz de se compadecer das penas das criaturas, capaz de compreender que, para remediar os tormentos que acompanham e tanto angustiam as almas neste mundo, o verdadeiro bálsamo é o amor, a caridade; todas as outras consolações só servem para nos distrair por um momento e deixar depois amargura e desespero.

Se queremos ajudar os outros, temos de os amar - deixai-me insistir - com um amor que seja compreensão e entrega, afecto e humildade voluntária. Assim compreenderemos por que quis o Senhor resumir toda a Lei nesse duplo mandamento, que é afinal um mandamento só: o amor de Deus e o amor do próximo, com todo o coração.

Talvez estejais a pensar que, por vezes, nós, cristãos - não os outros: tu e eu - nos esquecemos das aplicações mais elementares deste dever. Talvez penseis em tantas injustiças a que se não dá remédio, em abusos que não se corrigem, em situações de discriminação que se transmitem de geração em geração, sem se procurar uma solução de raiz.

Não posso, nem isso me compete, propor-vos a forma concreta de resolver esses problemas. Mas, como sacerdote de Cristo, é meu dever recordar-vos o que a Sagrada Escritura diz. Meditai na cena do Juízo, que o próprio Jesus descreveu: afastai-vos de Mim, malditos, e ide para o fogo eterno, que foi preparado para o Diabo e os seus anjos. Porque tive fome e não Me destes de comer; tive sede e não Me destes de beber; fui peregrino e não Me recebestes; nu, e não Me cobristes; enfermo e encarcerado, e não Me visitastes.

Um homem ou uma sociedade que não reaja diante das tribulações ou das injustiças e se não esforce por as aliviar, não é um homem ou uma sociedade à medida do amor do Coração de Cristo. Os cristãos - conservando sempre a mais ampla liberdade quando se trata de estudar e de pôr em prática as diversas soluções, segundo um pluralismo bem natural - terão de convergir no mesmo anseio de servir a humanidade. Se não, o seu cristianismo não será a Palavra e a Vida de Jesus: será um disfarce, um embuste feito a Deus e aos homens.

168           
A paz de Cristo

Tenho ainda a propor-vos uma outra consideração: devemos lutar sem descanso por fazer o bem, precisamente por sabermos que nos é difícil, a nós, homens, decidirmo-nos a sério a exercer a justiça, e é muito o que falta para que a convivência terrena esteja inspirada pelo amor e não pelo ódio ou pela indiferença. Não esqueçamos também que, mesmo que consigamos atingir um estado razoável de distribuição dos bens e uma harmoniosa organização da sociedade, não há-de desaparecer a dor da doença, da incompreensão ou da solidão, a dor da experiência dos nossas próprias limitações.

Em face dessas penas, o cristão só tem uma resposta autêntica, uma resposta definitiva: Cristo na Cruz, Deus que sofre e que morre, Deus que nos entrega o seu Coração, aberto por uma lança, por amor a todos. Nosso Senhor abomina as injustiças e condena quem as comete. Mas, como respeita a liberdade das pessoas, permite que existam. Deus Nosso Senhor não causa a dor das criaturas, mas tolera-a como parte que é - depois do pecado original - da condição humana. E, no entanto, o seu Coração, cheio de amor pelos homens, levou-O a tomar sobre os seus ombros, juntamente com a Cruz, todas essas torturas: o nosso sofrimento, a nossa tristeza, a nossa angústia, a nossa fome e sede de justiça.

A doutrina cristã sobre a dor não é um programa de fáceis consolações. Começa logo por ser uma doutrina de aceitação do sofrimento, inseparável de toda a vida humana. Não vos posso esconder - e com alegria pois sempre preguei e procurei viver a verdade de que, onde está a Cruz está Cristo, o Amor - que a dor apareceu muitas vezes na minha vida; e mais de uma vez tive vontade de chorar. Noutras ocasiões, senti crescer em mim o desgosto pela injustiça e pelo mal. E soube o que era a mágoa de ver que nada podia fazer, que, apesar dos meus desejos e dos meus esforços, não conseguia melhorar aquelas situações iníquas.

Quando vos falo de dor, não vos falo apenas de teorias. Nem me limito a recolher uma experiência de outros, quando vos confirmo que, se sentis, diante da realidade do sofrimento, que a vossa alma vacila algumas vezes, o remédio que tendes é olhar para Cristo. A cena do Calvário proclama a todos que as aflições hão-de ser santificadas, se vivermos unidos à Cruz.

Porque as nossas tribulações, cristãmente vividas, se convertem em reparação, em desagravo, em participação no destino e na vida de Jesus, que voluntariamente experimentou, por amor aos homens, toda a espécie de dores, todo o género de tormentos. Nasceu, viveu e morreu pobre; foi atacado, insultado, difamado, caluniado e condenado injustamente; conheceu a traição e o abandono dos discípulos; experimentou a solidão e as amarguras do suplício e da morte. Ainda agora, Cristo continua a sofrer nos seus membros, na Humanidade inteira que povoa a Terra e da qual Ele é Cabeça e Primogénito e Redentor.

A dor entra nos planos de Deus. Ainda que nos entendê-la, é esta a realidade. Também Jesus, como homem, teve dificuldade em admiti-la: Pai, se é possível, afasta de Mim este cálice! Não se faça, porém, a minha vontade, mas a tua! . Nesta tensão entre o sofrimento e a aceitação da vontade do Pai, Jesus vai serenamente para a morte, perdoando aos que O crucificaram.

Ora, esta aceitação sobrenatural da dor pressupõe, por outro lado, a maior conquista. Jesus, morrendo na Cruz, venceu a morte. Deus tira da morte a vida. A atitude de um filho de Deus não é a de quem se resigna à sua trágica desventura; é, sim, a satisfação de quem já antegoza a vitória. Em nome desse amor vitorioso de Cristo, nós, os cristãos, devemos lançar-nos por todos os caminhos da Terra, para sermos semeadores de paz e de alegria, com a nossa palavra e nossas obras. Temos de lutar - é uma luta de paz - contra o mal, contra a injustiça, contra o pecado, para proclamarmos assim que a actual condição humana não é a definitiva; o amor de Deus, manifestado no Coração de Cristo, conseguirá o glorioso triunfo espiritual dos homens.

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Evocámos há pouco o episódio de Naim. Poderíamos citar ainda outros, porque os Evangelhos estão cheios de cenas semelhantes. Esses relatos sempre comoveram e hão-de continuar a comover os corações dos homens. Efectivamente, não incluem apenas o gesto sincero de um homem que se compadece dos seus semelhantes: são, essencialmente, a revelação da imensa caridade do Senhor. O Coração de Jesus é o Coração de Deus Encarnado, do Emanuel - Deus connosco.

A Igreja, unida a Crista, nasce de um Coração ferido. É desse Coração, aberto de par em par, que a vida nos é transmitida. Como não recordar aqui, embora de passagem, os sacramentos através dos quais Deus opera em nós e nos faz participantes da força redentora de Cristo? Como não recordar com particular gratidão o Santíssimo Sacramento da Eucaristia, o Santo Sacrifício do Calvário e a sua constante renovação incruenta na nossa Missa? É Jesus, que Se nos entrega como alimento; porque Jesus vem até nós, tudo muda e no nosso ser manifestam-se forças - a ajuda do Espírito Santo - que enchem a alma, que formam as nossas acções, o nosso modo de pensar e de sentir. O coração de Cristo é paz para o cristão.

O fundamento da entrega que o Senhor nos pede não está só nos nossos desejos e nas nossas forças, tantas vezes limitados e impotentes: apoia-se, antes de tudo, nas graças que conquistou para nós o amor do Coração de Deus feito Homem. Por isso, podemos e devemos perseverar na nossa vida interior de filhos do Pai que está nos Céus, sem darmos acolhimento ao desânimo e à desesperança. Gosto de mostrar como o cristão, na sua existência habitual e corrente, nos mais simples pormenores, nas circunstâncias normais do seu dia-a-dia, exercita a Fé, a Esperança e a Caridade, porque aí é que reside a essência da conduta de uma alma que conta com o auxílio divino e que, na prática dessas virtudes teologais, encontra a alegria, a força e a serenidade.

São estes os frutos da paz de Cristo, da paz que nos veio trazer o seu Coração Sagrado. Porque - digamo-lo mais uma vez - o amor de Jesus pelos homens é uma das profundidades insondáveis do mistério divino, do amor do Filho ao Pai e ao Espírito Santo. O Espírito Santo, laço de amor entre o Pai e o Filho, encontra no Verbo um coração humano.

Não é possível falar destas realidades centrais da nossa fé sem darmos pela limitação da nossa inteligência diante das grandezas da Revelação. No entanto, embora a nossa razão se encha de pasmo, cremos nelas com humildade e firmeza. Sabemos, apoiados no testemunho de Cristo, que essas realidades são assim mesmo. Que o Amor, no seio da Trindade, se derrama sobre todos os homens por intermédio do amor do Coração de Jesus.

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