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16/09/2015

Evangelho, comentário, L. espiritual


Tempo comum XXIV Semana


Evangelho: Lc 7, 31-35

«A quem, pois, compararei os homens desta geração? A quem são semelhantes? Assemelham-se a crianças que, sentadas na praça, se interpelam umas às outras, dizendo: 'Tocámos flauta para vós, e não dançastes! Entoámos lamentações, e não chorastes!' Veio João Baptista, que não come pão nem bebe vinho, e dizeis: 'Está possesso do demónio!' Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizeis: 'Aí está um glutão e bebedor de vinho, amigo de cobradores de impostos e de pecadores!' Mas a sabedoria foi justificada por todos os seus filhos.»

Comentário:

As palavras de Jesus Cristo são duras e muito directas. Refere a geração dos judeus que é a Sua, do Seu tempo.
Não pode haver duas interpretações e, de facto, a história parece confirmar esse comportamento dos judeus em relação a Jesus Cristo.
Todos? Não, evidentemente. Durante séculos o povo judaico carregou esse ónus e sofreu horrivelmente por causa disso mesmo, mas, no Século Vinte, São João Paulo II pôs as coisas no seu devido lugar.
Mas, mais que isso, temos de considerar o que muitos fizeram em nome da Fé Cristã: exactamente o mesmo ou, talvez, pior!
Aliás, o que continuamos a fazer, diariamente, nos tempos que correm, quando julgamos, sem critério que não temos ou sequer direito que não possuímos, que os outros – sejam quem forem – é que são os culpados das nossas próprias faltas e erros.

(ama, comentário sobre Lc 7, 31-35, V. Moura, 2013.09.13)


Leitura espiritual



CRISTO QUE PASSA

142
          
Intimidade com Maria

De uma maneira espontânea, natural, surge em nós o desejo de conviver com a Mãe de Deus, que é também nossa mãe; de conviver com Ela como se convive com uma pessoa viva, porque sobre Ela não triunfou a morte; está em corpo e alma junto a Deus Pai, junto a seu Filho, junto ao Espírito Santo.

Para compreendermos o papel que Maria desempenha na vida cristã, para nos sentirmos atraídos por Ela, para desejar a sua amável companhia com filial afecto, não são precisas grandes especulações, embora o mistério da Maternidade divina tenha uma riqueza de conteúdo sobre a qual nunca reflectiremos bastante.

A fé católica soube reconhecer em Maria um sinal privilegiado do amor de Deus.
Deus chama-nos, já agora, seus amigos; a sua graça actua em nós, regenera-nos do pecado, dá-nos forças para que, entre as fraquezas próprias de quem é pó e miséria, possamos reflectir de algum modo o rosto de Cristo.
Não somos apenas náufragos que Deus prometeu salvar; essa salvação já actua em nós.
A nossa relação com Deus não é a de um cego que anseia pela luz mas que geme entre as angústias da obscuridade; é a de um filho que se sabe amado por seu Pai.

Dessa cordialidade, dessa confiança, dessa segurança, nos fala Maria. Por isso o seu nome vai tão direito aos nossos corações.
A relação de cada um de nós com a nossa própria mãe pode servir-nos de modelo e de pauta para a nossa intimidade com a Senhora do Doce Nome, Maria. Temos de amar a Deus com o mesmo coração com que amamos os nossos pais, os nossos irmãos, os outros membros da nossa família, os nossos amigos ou amigas.
Não temos outro coração.
E com esse mesmo coração havemos de querer a Maria.

Como se comporta um filho ou uma filha normal com a sua Mãe?
De mil maneiras, mas sempre com carinho e confiança.
Com um carinho que se manifestará em cada caso de determinadas formas, nascidas da própria vida, e que nunca são algo de frio, mas costumes muito íntimos de família, pequenos pormenores diários que o filho precisa de ter com a sua mãe e de que a mãe sente falta, se o filho alguma vez os esquece: um beijo ou uma carícia ao sair ou ao voltar a casa, uma pequena delicadeza, umas palavras expressivas...

Nas nossas relações com a nossa Mãe do Céu, existem também essas normas de piedade filial, que são modelo do nosso comportamento habitual com Ela.
Muitos cristãos tornam seu o antigo costume do escapulário; ou adquirem o hábito de saudar (não são precisas palavras; o pensamento basta) as imagens de Maria que há em qualquer lar cristão ou que adornam as ruas de tantas cidades; ou dão vida a essa oração maravilhosa que é o Terço, em que a alma não se cansa de dizer sempre as mesmas coisas, como não se cansam os enamorados, e em que se aprende a reviver os momentos centrais da vida do Senhor; ou então habituam-se a dedicar à Senhora um dia da semana - precisamente este em que estamos reunidos: o sábado - oferecendo-lhe alguma pequena delicadeza e meditando mais especialmente na sua maternidade...

Há muitas outras devoções marianas que não é necessário recordar aqui neste momento.
Nem todas têm de fazer parte da vida de cada cristão - crescer em vida sobrenatural é algo de muito diferente de ir amontoando devoções - mas devo afirmar ao mesmo tempo que não possui a plenitude da fé cristã quem não vive alguma delas, quem não manifesta de algum modo o seu amor a Maria.

Os que consideram ultrapassadas as devoções à Virgem Santíssima dão sinais de terem perdido o profundo sentido cristão que elas encerram e esquecido a fonte donde nascem: a fé na vontade salvífica de Deus Pai; o amor a Deus Filho, que Se fez Homem realmente e nasceu de uma mulher; a confiança em Deus Espírito Santo, que nos santifica com a sua graça.
Foi Deus quem nos deu Maria e não temos o direito de rejeitá-la, mas devemos recorrer a Ela com amor e com alegria de filhos.

143
          
Tornarmo-nos crianças no amor de Deus

Consideremos atentamente este ponto, porque nos pode ajudar a compreender coisas muito importantes.
O mistério de Maria faz-nos ver que, para nos aproximarmos de Deus, é preciso tornarmo-nos pequenos.
Em verdade vos digo, - exclamou o Senhor dirigindo-Se aos seus discípulos - se não voltardes a ser como meninos, não podereis entrar no reino dos Céus.

Tornarmo-nos meninos...
Renunciar à soberba, à auto-suficiência; reconhecer que, sozinhos, nada podemos, porque necessitamos da graça, do poder do nosso Pai, Deus, para aprender a caminhar e para perseverar no caminho. Ser pequeno exige abandonar-se como se abandonam as crianças, crer como crêem as crianças, pedir como pedem as crianças.

Tudo isto aprendemos na intimidade com Maria.
A devoção à Virgem não é moleza; é consolo e júbilo que enche a alma precisamente porque exige o exercício profundo e íntegro da Fé, que nos faz sair de nós mesmos e colocar a nossa esperança no Senhor.
Iavé é o meu pastor - canta um dos salmos - e nada me faltará.
Em verdes prados me faz repousar, conduz-me junto das águas saborosas, reconforta a minha alma e guia-me por caminhos rectos, em virtude do seu nome. Ainda que eu vá por um vale tenebroso, nenhum mal temerei, porque Tu estás comigo.

Porque Maria é Mãe, a sua devoção ensina-nos a ser filhos - a amar deveras, sem medida; a ser simples, sem as complicações que nascem do egoísmo de pensar só em nós; a estar alegres, sabendo que nada pode destruir a nossa esperança.
O princípio do caminho que leva à loucura do amor de Deus é um confiado amor a Maria Santíssima.
Assim o escrevi já há muitos anos, no prólogo a uns comentários ao Santo Rosário, e desde então muitas vezes voltei a comprovar a verdade destas palavras.
Não vou fazer aqui muitas considerações para glosar esta ideia; convido-vos, sim, a fazerdes vós a experiência, a descobrirdes isso por vós mesmos, conversando amorosamente com Maria, abrindo-lhe o vosso coração, confiando-lhe as vossas alegrias e as vossas penas, pedindo-lhe que vos ajude a conhecer e a seguir Jesus.

144
          
Se procurais Maria, encontrareis Jesus.
E aprendereis a entender um pouco o que há nesse coração divino, que se aniquila, que renuncia a manifestar o seu poder e a sua majestade, para se apresentar sob a forma de escravo.
Falando humanamente, poderíamos dizer que Deus Se excede, pois não se limita ao que seria essencial e imprescindível para salvar-nos, mas vai mais além.
A única norma ou medida que nos permite compreender de algum modo essa maneira de actuar de Deus é reparar que não tem medida, ver que nasce de uma loucura de amor, que O leva a tomar a nossa carne e a carregar com o peso dos nossos pecados.

Como é possível dar-nos conta disto, advertirmos que Deus nos ama e não ficarmos também nós loucos de amor?
É necessário deixar que estas verdades da nossa fé nos vão penetrando na alma, até transformarem toda a nossa vida.
Deus ama-nos! O Omnipotente, o que fez os Céus e a Terra!

Deus interessa-Se pelas mais pequenas coisas das suas criaturas - pelas vossas e pelas minhas - e chama-nos, um a um, pelo nosso próprio nome.
Esta certeza que a Fé nos dá faz-nos olhar o que nos cerca a uma luz nova e, permanecendo tudo igual, leva-nos a ver que tudo é diferente, porque tudo é expressão do amor de Deus.

A nossa vida converte-se, desse modo, numa continua oração, num bom humor e numa paz que nunca se acabam, num acto de acção de graças desfiado ao longo das horas.
A minha alma glorifica a Senhor - cantou a Virgem Maria - e o meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador, porque olhou para a humilde condição da sua Serva. Por isso, desde agora todas as gerações me hão-de chamar bem-aventurada, porque fez em mim grandes coisas o Omnipotente, cujo nome é Santo.

A nossa oração pode acompanhar e imitar essa oração de Maria.
Tal como Ela, sentiremos desejo de cantar, de proclamar as maravilhas de Deus, para que a Humanidade inteira e todos os seres participem da nossa felicidade.

145 
         
Maria faz-nos sentir irmãos

Não podemos conviver filialmente com Maria e pensar apenas em nós mesmos, nos nossos problemas.
Não se pode tratar com a Virgem e ter, egoisticamente, problemas pessoais.
Maria leva a Jesus e Jesus é primogenitus in multis fratribus, primogénito entre muitos irmãos.
Conhecer Jesus, portanto, é compreendermos que a nossa vida não pode ter outro sentido senão o de entregar-nos ao serviço dos outros. Um cristão não pode reduzir-se aos seus problemas pessoais, pois tem de viver face à Igreja universal, pensando na salvação de todas as almas.

Deste modo, até aquelas facetas que poderiam considerar-se mais íntimas e privadas - a preocupação pelo progresso interior - não são, na realidade, individuais, visto que a santificação forma uma só coisa com o apostolado.
Havemos de esforçar-nos, na nossa vida interior e no desenvolvimento das virtudes cristãs, pensando no bem de toda a Igreja, dado que não poderíamos fazer o bem e dar a conhecer Cristo, se na nossa vida não se desse um esforço sincero por realizar os ensinamentos do Evangelho.

Impregnadas deste espírito, as nossas orações, ainda que comecem por temas e propósitos aparentemente pessoais, acabam sempre por ir ter ao serviço dos outros.
E, se caminharmos pela mão da Virgem Santíssima, Ela fará com que nos sintamos irmãos de todos os homens, porque todos somos Filhos desse Deus de que Ela é filha, esposa e mãe.

Os problemas dos outros devem ser os nossos problemas.
A fraternidade cristã deve estar bem no fundo da nossa alma, de tal modo que nenhuma pessoa nos seja indiferente.
Maria, Mãe de Jesus, que O criou, O educou e O acompanhou durante a sua vida terrena e agora está junto d'Ele nos Céus, ajudar-nos-á a reconhecer Jesus em quem passa ao nosso lado, tornado presente para nós nas necessidades dos nossos irmãos, os homens.

146
          
Naquela "romaria" de que vos falava ao princípio, enquanto caminhávamos até à ermida de Sonsoles, passámos junto a uns campos de trigo.
A messe brilhava ao sol, ondulada pelo vento. Veio-me então à memória um texto do Evangelho, umas palavras que o Senhor dirigiu ao grupo dos seus discípulos: Não dizeis vós que dentro de quatro meses chegará o tempo da ceifa? Pois Eu vos digo: erguei os olhos e vede; os campos estão brancos para a ceifa.
Lembrei-me uma vez mais de que o Senhor queria meter em nossos corações o mesmo empenho, o mesmo fogo que dominava o Seu.
E, de boa vontade, afastando-me um pouco do caminho, teria apanhado umas espigas que me serviriam para recordá-lo.

É preciso abrir os olhos, é preciso saber olhar ao nosso redor e perceber os chamamentos que Deus nos faz através daqueles que nos rodeiam.
Não podemos viver de costas para a multidão, encerrados no nosso pequeno mundo.
Não foi assim que Jesus viveu.
Os Evangelhos falam-nos muitas vezes da sua misericórdia, da sua capacidade de participar na dor e nas necessidades dos outros: compadece-Se da viúva de Naim, chora pela morte de Lázaro, preocupa-se com as multidões que O seguem e não têm que comer; compadece-Se sobretudo dos pecadores, dos que caminham pelo mundo sem conhecerem a luz nem a verdade.
Ao desembarcar, viu Jesus uma grande multidão e compadeceu-Se deles porque eram como ovelhas sem pastor. E começou então a ensiná-los demoradamente.

Quando somos verdadeiramente filhos de Maria, compreendemos essa atitude do Senhor, torna-se grande o nosso coração e ficamos penetrados de misericórdia.
Doem-nos então os sofrimentos, as misérias, os erros, a solidão, a angústia, a dor dos outros homens, nossos irmãos.
E sentimos a urgência de ajudá-los nas suas necessidades e de lhes falar de Deus para que saibam tratá-Lo como filhos e possam conhecer as delicadezas maternais de Maria.

(cont)



17/09/2014

Evang., Coment. Leit. Espiritual (Cong. Dout. da Fé Decl. Encarnação e Santíssima Trindade)

Tempo comum XXIV Semana

São Roberto Belarmino – Doutor da Igreja

Evangelho: Lc 7, 31-35

«A quem, pois, compararei os homens desta geração? A quem são semelhantes? Assemelham-se a crianças que, sentadas na praça, se interpelam umas às outras, dizendo: 'Tocámos flauta para vós, e não dançastes! Entoámos lamentações, e não chorastes!' Veio João Baptista, que não come pão nem bebe vinho, e dizeis: 'Está possesso do demónio!' Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizeis: 'Aí está um glutão e bebedor de vinho, amigo de cobradores de impostos e de pecadores!' Mas a sabedoria foi justificada por todos os seus filhos.»

Comentário:

As palavras de Jesus Cristo são duras e muito directas. Refere a geração dos judeus que é a Sua, do Seu tempo.
Não pode haver duas interpretações e, de facto, a história parece confirmar esse comportamento dos judeus em relação a Jesus Cristo.
Todos? Não, evidentemente. Durante séculos o povo judaico carregou esse ónus e sofreu horrivelmente por causa disso mesmo, mas, no Século Vinte, São  João Paulo II pôs as coisas no seu devido lugar.
Mas, mais que isso, temos de considerar o que muitos fizeram em nome da Fé Cristã: exactamente o mesmo ou, talvez, pior!
Aliás, o que continuamos a fazer, diariamente, nos tempos que correm, quando julgamos, sem critério que não temos ou sequer direito que não possuímos, que os outros – sejam quem forem – é que são os culpados das nossas próprias faltas e erros.

(ama, comentário sobre Lc 7, 31-35, V. Moura, 2013.09.13)

Leitura espiritual


Documentos do Magistério
SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ

DECLARAÇÃO PARA SALVAGUARDAR DE ALGUNS ERROS RECENTES
A FÉ NOS MISTÉRIOS DA ENCARNAÇÃO E DA SANTÍSSIMA TRINDADE *

 1. É necessário que o mistério do Filho de Deus feito homem e o mistério da Santíssima Trindade, que fazem parte das verdades principais da Revelação, iluminem, com a pureza da sua verdade, a vida dos cristãos. Mas, como estes mistérios foram impugnados por alguns erros recentes, a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé tomou a decisão de recordar e salvaguardar a fé, transmitida sobre estes mesmos mistérios.

2. A fé católica no Filho de Deus feito homem. Jesus Cristo, durante a Sua vida terrestre, manifestou, de diversos modos, com as palavras e com as obras, o mistério adorável da Sua pessoa. Depois de se ter tornado «obediente até à morte» [1], foi exaltado pelo poder de Deus, na ressurreição gloriosa, como convinha ao Filho «por meio do qual tudo» [2] foi criado pelo Pai. São João afirmou solenemente a seu respeito: «No princípio já existia o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus... E o Verbo fez-se homem» [3].

A Igreja conservou sempre, santamente, a fé no mistério do Filho de Deus feito homem, transmitindo-a «no decurso dos anos e dos séculos» [4], com uma linguagem cada vez mais explícita. Com efeito, no Sínodo de Constantinopla, que até hoje é recitado na celebração eucarística, ela professa a sua fé «em Jesus Cristo, Filho Unigénito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos... Deus verdadeiro de Deus verdadeiro... da mesma substância do Pai... que por nós, homens, e pela nossa salvação... se fez homem» [5]. O Concílio de Calcedónia decretou que se devia crer que o Filho de Deus foi gerado pelo Pai, segundo a Sua divindade, antes de todos os séculos e nasceu, no tempo, de Maria Virgem, segundo a Sua humanidade [6]. Além disso, este mesmo Concílio atribuiu o termo pessoa ou hypostasis ao único e mesmo Cristo, Filho de Deus, usando, porém, o termo natureza para designar a Sua divindade e a Sua humanidade. Com estas palavras, ensinou que estão unidas, na única pessoa do nosso Redentor, as duas naturezas, divina e humana, sem confusão e sem mudança, sem divisão e sem separação [7]. Do mesmo modo, o IV Concílio de Latrão ensinou que se deve crer e professar que o Filho Unigénito de Deus, eterno como o Pai, se tornou verdadeiro homem e é uma só pessoa em duas naturezas [8]. Esta é a fé católica que o II Concílio do Vaticano, de acordo com a Tradição constante de toda a Igreja, ensinou, recentemente, com muita clareza, em numerosas passagens dos seus documentos [9].

3. Alguns erros recentes sobre a fé no Filho de Deus feito homem.
São claramente opostas a esta fé as opiniões segundo as quais não nos foi revelado e nem se sabe que o Filho de Deus subsiste ab aeterno, no mistério de Deus, distinto do Pai e do Espírito Santo; e também as opiniões segundo as quais não tem sentido a afirmação de que Jesus Cristo tem uma só pessoa, gerada, antes dos séculos, pelo Pai, segundo a natureza divina, e, no tempo, de Maria Virgem, segundo a natureza humana; e, por fim, a asserção segundo a qual a humanidade de Jesus Cristo existe não como assumida na pessoa eterna do Filho de Deus, mas em si mesma, como pessoa humana, e, por conseguinte, o mistério de Jesus Cristo consiste no facto de Deus se revelar presente de um modo supremo na pessoa humana de Jesus.

Aqueles que pensam assim estão longe da verdadeira fé em Cristo, mesmo quando asserem que a singular presença de Deus em Jesus faz com que Ele seja a expressão suprema e definitiva da revelação divina, e não recuperam a verdadeira fé na divindade de Cristo, quando acrescentam que Jesus pode ser chamado Deus, porque Deus está sumamente presente naquela pessoa a que eles chamam a Sua pessoa humana.

4. A fé católica na Santíssima Trindade e no Espírito Santo.
Quando se nega o mistério da pessoa divina e eterna de Cristo, Filho de Deus, também se negam a verdade da Santíssima Trindade e, com ela, a verdade do Espírito Santo, que procede ab aeterno do Pai e do Filho, ou, por outras palavras, do Pai pelo Filho [10]. Por isso, considerando os erros recentes sobre esta doutrina, devem ser recordadas algumas verdades de fé na Santíssima Trindade e, particularmente, no Espírito Santo.

A segunda Carta aos Coríntios termina com esta admirável fórmula: «A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunicação do Espírito Santo sejam com todos vós» [11]. No mandato de baptizar, referido pelo Evangelho de São Mateus, são nomeados o Pai, o Filho e o Espírito Santo, como três que fazem parte do mistério de Deus e em cujo nome os novos fiéis devem ser regenerados [12]. Por fim, no Evangelho de São João, Jesus fala da vinda do Espírito Santo, deste modo: «Mas, quando vier o Consolador, que hei-de enviar-vos da parte do Pai, o Espírito da Verdade, que procede do Pai, Ele dará testemunho de Mim» [13].

Baseando-se nos dados da divina revelação, o Magistério da Igreja, o único que recebeu «a missão de interpretar autenticamente a palavra de Deus escrita ou transmitida» [14], professou, no Símbolo de Constantinopla, a sua fé «no Espírito Santo que é Senhor e dá a vida... e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado» [15]. Igualmente, o IV Concílio de Latrão ensinou a crer e a professar «que um só é o verdadeiro Deus,... Pai e Filho e Espírito Santo: três pessoas, mas uma única essência...: o Pai que não procede de ninguém, o Filho que procede sòmente do Pai, e o Espírito Santo que procede igualmente de ambos, sempre sem início e sem fim» [16].

5. Alguns erros recentes sobre a Santíssima Trindade e, particularmente, sobre o Espírito Santo.
É contrária à fé a opinião segundo a qual a revelação nos deixa em dúvida sobre a eternidade da Santíssima Trindade e, particularmente, sobre a existência eterna do Espírito Santo, como pessoa distinta, em Deus, do Pai e do Filho. É verdade que o mistério da Santíssima Trindade nos foi revelado na economia da salvação, principalmente em Cristo, que foi enviado ao mundo pelo Pai e que, juntamente com o Pai, envia ao Povo de Deus o Espírito que vivifica. Mas, por meio desta revelação, foi dada aos fiéis também a possibilidade de conhecer de algum modo a vida íntima de Deus, na qual «o Pai que gera, o Filho que é gerado e o Espírito Santo que procede» são «da mesma substância, iguais, do mesmo modo omnipotentes e eternos» [17].

6. Os mistérios da Encarnação e da Santíssima Trindade devem ser fielmente conservados e explicados.
O que é expresso nos documentos conciliares acima citados, sobre o único e mesmo Cristo Filho de Deus, gerado, antes dos séculos, segundo a natureza divina, e, no tempo, segundo a natureza humana, e sobre as pessoas eternas da Santíssima Trindade, pertence à verdade imutável da fé católica.

Isto não impede, certamente, que a Igreja considere como seu dever, levando também em consideração os novos modos de pensar dos homens, não deixar de envidar os seus esforços, a fim de que os mencionados mistérios sejam aprofundados, por meio da contemplação da fé e da investigação dos teólogos, e mais amplamente explicados, de um modo adequado. Mas, quando se cumpre a necessária tarefa de investigar, é preciso evitar diligentemente que estes mistérios arcanos sejam considerados num sentido diverso daquele segundo o qual «a Igreja os entendeu e entende» [18].

A verdade intacta destes mistérios é de suma importância para toda a revelação de Cristo, porque eles de tal modo fazem parte do seu núcleo, que, se forem alterados, também será falsificado o resto do tesouro da fé. A verdade destes mesmos mistérios é igualmente importante para a vida cristã, porque nada manifesta tão bem a caridade de Deus, da qual toda a vida dos cristãos deve ser uma resposta, como a Encarnação do Filho de Deus, nosso Redentor [19], e também porque «(aprouve a Deus, na Sua bondade e sabedoria, revelar-se a si mesmo e tornar conhecido o mistério da Sua vontade), por meio do qual os homens, através de Cristo, Verbo Encarnado, têm acesso ao Pai no Espírito Santo e n’Ele se tornam participantes da natureza divina» [20].

7. Portanto, com respeito às verdades que a presente Declaração defende, é dever dos Pastores da Igreja exigir a unidade na profissão de fé, do seu povo e, principalmente, daqueles que, em virtude do mandato que lhes foi confiado pelo Magistério, ensinam as ciências sagradas ou pregam a palavra de Deus.
Este dever dos Bispos faz parte do múnus que, divinamente, lhes foi confiado: de «conservar puro e íntegro o depósito da fé», em comunhão com o sucessor de Pedro, e de «anunciar incessantemente o Evangelho» [21]. Por causa do mencionado múnus, são obrigados a não permitir que os ministros da palavra de Deus se afastem da sã doutrina e a transmitam corrompida ou incompleta [22]. Com efeito, o povo confiado aos cuidados dos Bispos, e «do qual» eles «são responsáveis diante de Deus» [23], goza do «direito irrevogável e sagrado» de «receber a palavra de Deus, toda a palavra de Deus, da qual a Igreja nunca deixou de adquirir uma compreensão cada vez mais profunda» [24].

Além disso, os cristãos, e, principalmente, os teólogos, por causa do seu importante ofício e do seu necessário serviço na Igreja, devem professar fielmente os mistérios que são recordados na presente Declaração. Igualmente, sob a acção e a luz do Espírito Santo, os filhos da Igreja devem aceitar toda a doutrina da Igreja, sob a guia dos seus Pastores e do Pastor da Igreja universal [25], de modo que haja «uma singular colaboração de Pastores e fiéis, na conservação, no exercício e na profissão da fé recebida» [26].

O Sumo Pontífice, por divina Providência Papa Paulo VI, na Audiência concedida, no dia 21 de Fevereiro de 1972, ao subscrito Prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, ratificou e confirmou esta Declaração, que visa a salvaguardar a fé nos mistérios da Encarnação e da Santíssima Trindade, e ordenou que fosse publicada.

Roma, Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, 21 de Fevereiro de 1972, festa de São Pedro Damião.



Franjo Cardeal Šeper
Prefeito

Paul PHILIPPE
Arcebispo titular de Heracleopolis magna
Secretário

* L’Osservatore Romano, Edição semanal, 19 de Março de 1972, pág. 3. 9 (AAS 64 [1972], 237-241).
_____________________________________
Notas:
[1] Flp. 2, 8.
[2] 1 Cor. 8, 6.
[3] Jo. 1, 1 e 14 (cfr. 1, 18).
[4] I Concílio do Vaticano, Dei Filius, c. 4; DS 3020.
[5] Missal Romano; DS 150.
[6] Cfr. Concílio de Calcedónia, Definição; DS 301.
[7] Cfr. Ibid., 302.
[8] Cfr. IV Concílio de Latrão, Firmiter Credimus; DS 800 s.
[9] Cfr. II Concílio do Vaticano, Lumen Gentium, nn. 3, 7, 52, 53; Dei Verbum, nn. 2, 3; Gaudium et Spes, n. 22; Unitatis Redintegratio, n. 12; Christus Dominus, n. 1; Ad Gentes, n. 3; Paulo VI, Solene profissão de fé, em: AAS 60 (1968) 437.
[10]) Cfr. Concílio de Florenja, Laetentur Coeli; DS 1300.
[11] 2 Cor. 13, 13.
[12] Cfr. Mt. 28, 19.
[13] Jo. 15, 26.
[14] II Concílio do Vaticano, Dei Verbum, n. 10.
[15] Missal Romano; DS 150.
[16] IV Concílio de Latrão, Firmiter Credimus; DS 800.
[17] Ibid.
[18] I Concílio do Vaticano, Dei Filius, c. 4, can. 3; DS 3043; João XXIII, Alocução na abertura do II Concílio do Vaticano, em: AAS 54 (1962) 792; II Concílio do Vaticano, Gaudium et Spes, n. 62; Paulo VI, Solene profissão de fé, 4, em: AAS 60 (1968) 434.
[19] Cfr. 1 Jo. 4, 9s.
[20] II Concílio do Vaticano, Dei Verbum, n. 2; cfr. Ef. 2, 18; 2 Ped. 1, 4.
[21] PAULO VI, Exortação Apostólica Quinque iam anni, em: AAS 68 (1971) 99, e em: O.R. ed. port., 10 de Janeiro de 1971, p. 9.
[22] Cfr. 2 Tim., 4, 1-5; Paulo VI, ibid.; Sínodo dos Bispos, Assembleia de 1967, Relatório da Comissão Sinodal constituída para o exame das opiniões perigosas e do ateísmo, II, 3, e em: O.R. 30-31 de Outubro de 1967, p. 3.
[23] Paulo VI, ibid.
[24] Ibid.
[25] Cfr. II Concílio do Vaticano, Lumen Gentium, nn. 12 e 25; Sínodo dos Bispos, Assembleia de 1967, ibid., II, 4.
[1] II Concílio do Vaticano, Dei Verbum, n. 10.