26/11/2020

Leitura espiritual 26 Novembro

 

Evangelho

 

Jo XVIII, 19 -40

 

Jesus é interrogado

 

19 Então, o Sumo Sacerdote interrogou Jesus acerca dos seus discípulos e da sua doutrina. 20 Jesus respondeu-lhe: «Eu tenho falado abertamente ao mundo; sempre ensinei na sinagoga e no templo, onde todos os judeus se reúnem, e não disse nada em segredo. 21 Porque me interrogas? Interroga os que ouviram o que Eu lhes disse. Eles bem sabem do que Eu lhes falei.» 22 Quando Jesus disse isto, um dos guardas ali presente deu-lhe uma bofetada, dizendo: «É assim que respondes ao Sumo Sacerdote?» 23 Jesus replicou: «Se falei mal, mostra onde está o mal; mas, se falei bem, porque me bates?» 24 Então, Anás mandou-o manietado ao Sumo Sacerdote Caifás.

 

Nova negação de Pedro

25 Entretanto, Simão Pedro estava de pé a aquecer-se. Disseram-lhe, então: «Não és tu também um dos seus discípulos?» Ele negou, dizendo: «Não sou.» 26 Mas um dos servos do Sumo Sacerdote, parente daquele a quem Pedro cortara a orelha, disse-lhe: «Não te vi eu no horto com Ele?» 27 Pedro negou Jesus de novo; e nesse instante cantou um galo.

 

Jesus e Pilatos

28 De Caifás, levaram Jesus à sede do governador romano. Era de manhã cedo e eles não entraram no edifício para não se contaminarem e poderem celebrar a Páscoa. 29 Pilatos veio ter com eles cá fora e perguntou-lhes: «Que acusações apresentais contra este homem?» 30 Responderam-lhe: «Se Ele não fosse um malfeitor, não to entregaríamos.» 31 Retorquiu-lhes Pilatos: «Tomai-o vós e julgai-o segundo a vossa Lei.» «Não nos é permitido dar a morte a ninguém», disseram-lhe os judeus, 32 em cumprimento do que Jesus tinha dito, quando explicou de que espécie de morte havia de morrer. 33 Pilatos entrou de novo no edifício da sede, chamou Jesus e perguntou-lhe: «Tu és rei dos judeus?» 34 Respondeu-lhe Jesus: «Tu perguntas isso por ti mesmo, ou porque outros to disseram de mim?» 35 Pilatos replicou: «Serei eu, porventura, judeu? A tua gente e os sumos sacerdotes é que te entregaram a mim! Que fizeste?» 36 Jesus respondeu: «A minha realeza não é deste mundo; se a minha realeza fosse deste mundo, os meus guardas teriam lutado para que Eu não fosse entregue às autoridades judaicas; portanto, o meu reino não é de cá.» 37 Disse-lhe Pilatos: «Logo, Tu és rei!» Respondeu-lhe Jesus: «É como dizes: Eu sou rei! Para isto nasci, para isto vim ao mundo: para dar testemunho da Verdade. Todo aquele que vive da Verdade escuta a minha voz.» 38 Pilatos replicou-lhe: «Que é a verdade?» Dito isto, foi ter de novo com os judeus e disse-lhes: «Não vejo nele nenhum crime. 39 Mas é costume eu libertar-vos um preso na Páscoa. Quereis que vos solte o rei dos judeus?» 40 Eles puseram-se de novo a gritar, dizendo: «Esse não, mas sim Barrabás!» Ora Barrabás era um salteador.



 

Santo Agostinho

DE CIVITATE DEI[i]

 

LIVRO IX

 

CAPÍTULO IV

Opinião dos peripatéticos e dos estóicos acerca das perturbações da alma.

 

São duas as opiniões dos filósofos acerca dos movimentos da alma a que os Gregos chamam náS-rj e alguns dos nossos, como Cícero, cham a “perturbações” (perturbationes); outros chamam-lhes «disposições» (affectiones) ou “afectos” (affectus), e ainda outros, com o o citado Apuleio, “paixões” (passiones) — termo que melhor traduz a palavra grega. Dizem certos filósofos que estas perturbações, disposições ou paixões atingem mesmo o sábio. Mas, no sábio, elas são moderadas e submetidas à razão, cuja autoridade lhes impõe leis que, de certo modo, as contêm nos seus limites necessários. É este o sentimento quer dos platónicos quer dos aristotélicos, pois Aristóteles, fundador da escola peripatética, foi discípulo de Platão.

Segundo outros, como os estóicos, tais paixões nunca atingem o sábio. Cícero, porém, nos seus livros De finibus bonorum et malorum convence os estóicos de que estão em desacordo, mais em palavras do que na realidade, com os platónicos ou os peripatéticos. E que os estóicos recusam -se a chamar “bens” às comodidades corporais e exteriores, porque, a seu ver, não há para o homem “bem” fora da virtude: esta é que é a arte de viver bem e só reside na alma. Mas estes (os platónicos), usando de linguagem simples e corrente, chamam -lhes “bens”, embora, em comparação com a virtude, que assegura a rectidão da vida, os considerem pequenos e medíocres Cícero, De finibus bonorum et malorum, III, 3, 10.. Donde se conclui que, chame-lhes cada um com o quiser - “bens” ou “comodidades” -, ambos os têem igual estima, e nesta questão os estócos mais não procuram que a novidade das palavras.

Também a mim me parece que, quando se pergunta se as paixõs do espírito podem afectar o sáio ou se este está delas totalmente livre, a discussão versa mais sobre palavras do que sobre realidades. Parece-me, pois, que o sentimento dos estócos é idêntico ao dos platónicos e dos aristotélicos, se não quanto à expressão pelo menos quanto ao âmago da questão.

Para não me tornar demasiado extenso, ponho de parte outros argumentos e apenas exporei um que é bem revelador. Conta Aulo Gélio, varão de elegantíssimo estilo e de vasta e profunda erudição, no seu livro que tem por título Noctes Atticae (Noites Áticas), que, certo dia, viajava no mar com um reputado filósofo estóico. Esse filósofo, como mais larga e copiosamente refere Aulo Gélio e eu resumo aqui, ao ver o barco sacudido por um céu medonho e um mar perigosíssimo, devido ao medo começou a empalidecer. Isto foi notado pelos presentes, que, apesar da morte vizinha, curiosamente perguntavam se a alma de um filósofo se perturbaria. Depois, passada que foi a tempestade e quando a segurança deu aso à troca de impressões e mesmo de gracejos, um dos passageiros, faustoso rico asiático, increpou o filósofo por ter tido medo e empalidecido, ao passo que ele se manteve intrépido perante a morte iminente. Mas o outro contou-lhe a resposta do socrático Aristipo: este, ao ouvir, em iguais circunstâncias, as mesmas palavras de um indivíduo da mesma laia, respondeu-lhe que tinha feito muito bem em não se apoquentar com a vida de um velhaco, mas que devia recear pela vida de um Aristipo.

O rico ficou confundido com esta resposta, mas Aulo Gélio, não com vontade de atacar mas de aprender, logo perguntou ao filósofo qual a razão do seu pavor. Este, para satisfazer um homem inflamado do desejo de aprender, tirou da sacola um livro do estóico Epicteto, em que este consignava as suas ideias concordantes com os princípios de Zenão e Crisipo, fundadores, como se sabe, da escola estóica. Diz Aulo Gélio ter lido nesse livro que os estóicos admitem certas percepções da alma a que chamam «fantasias», de que não está em nosso poder saber em que condições e em que momento se produzem na alma.

Quando provêm de acontecimentos terríveis, espantosos, comovem fatalmente a alma do próprio sábio - e de tal sorte que, por momentos, também este experimenta o calafrio do medo e a angústia da tristeza, antecipando-se, por assim dizer, estas paixões ao exercício da inteligência e da razão, sem que, contudo, o espírito se contagie com o mal, as aprove ou nelas consinta. Isto é o que está em nosso poder, dizem os estóicos — e é nisto que reside a diferença entre a alma do sábio e a do néscio: no néscio, ela cede às paixões e aceita o assentimento da mente, ao passo que no sábio, embora se veja por necessidade a elas submetido, mantém com mente imperturbável o verdadeiro e estável juízo acerca do que deve apetecer e do que deve razoavelmente evitar. Estas ideias que Aulo Gélio recorda ter lido no livro de Epicteto e declara tê-las achado conformes com os princípios dos estóicos, expu-las, julgo eu, não com mais elegância do que aquele, mas, certamente, com maior concisão e clareza.

Se isto é assim, não há, ou quase não há diferença entre a opinião dos estóicos e a dos outros filósofos acerca das paixões e perturbações da alma. Tanto uns como outros defendem a mente e a razão do sábio, do domínio daquelas. Se os estóicos dizem que elas não atingem o sábio, é talvez porque jamais elas obscurecerão com algum erro ou mancharão com algum a nódoa essa sabedoria que o torna sábio: sem alterarem a serenidade da alma do sábio, podem afectar-lha com o que chamam os comodidade ou incomodidade, já que não querem chamar-lhes “bens” ou “males”.

 

Seguramente que, se na verdade o tal filósofo não desse qualquer apreço aos bens que sentia fugirem-lhe no naufrágio — tais como a vida e a saúde do corpo —, ele não teria tremido de pavor perante o perigo ao ponto de mostrar a sua palidez. Mas essa mesma emoção podia muito bem suportá-la mantendo-se firmemente convencido de que a vida e a saúde do corpo, ameaçadas de serem levadas pela furiosa tempestade, não são os bens que, como a justiça, tornam bons os que as possuem. Que se deva chamar-lhes, como eles dizem, não bens mas comodidades — é uma guerra de palavras e não uma questão sobre a realidade. Que interessa que se lhes chame, com maior exactidão, bens ou comodidades, se a ameaça de os perder faz igualmente empalidecer e tremer tanto o estóico como o peripatético, os quais, sem lhes darem o mesmo nome, os apreciam da mesma  forma? O certo é que tanto uns como outros declaram que, se fossem constrangidos a cometer um acto injusto ou criminoso que pusesse em perigo esses bens ou comodidades sem de outro modo poderem salvá-los, prefeririam perder tudo o que garante a saúde e a vida a violar a justiça, cometendo esse acto. Assim a mente, em que esta convicção está alicerçada, não permite que em si possa prevalecer perturbação alguma contra a razão, mesmo que essa perturbação se verifique nas regiões inferiores da alma; mais ainda: a razão exerce sobre elas o seu domínio, e — nelas não consentindo mas, pelo contrário, resistindo-lhes, — faz com que reine a virtude. É assim que Vergílio descreve Eneias quando diz: O seu espírito mantém-se inquebrantável e é em vão que as lágrimas correm (Vergílio, Eneida, IV, 449.).

 

 

 



[i] Santo Agostinho, De Civitate Dei é obra de Santo Agostinho, onde descreve o mundo, dividido entre o dos homens e o dos céus. Teria sido a obra preferida do imperador Carlos Magno. Uma das criações mais representativas do gênero humano. Data da primeira publicação: 426 d.C.

Assuntos: Filosofia cristã, Teologia cristã, Neoplatonismo

 

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