27/06/2020

LEITURA ESPIRITUAL


São João

Cap. V



1 Depois disto, havia uma festa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém. 2 Em Jerusalém, junto à Porta das Ovelhas, há uma piscina, em hebraico chamada Betzatá. Tem cinco pórticos, 3 e neles jaziam numerosos doentes, cegos, coxos e paralíticos que esperavam o movimento da água. 4 É que o Anjo do Senhor, de tempos a tempos, descia à piscina e agitava a água. E assim, o primeiro que mergulhava, depois da agitação da água, ficava curado de qualquer mal de que estivesse atingido. 16 Por isso os judeus perseguiam Jesus,visto Ele fazer tais coisas ao Sábado. 17 Naquela altura Jesus replicou-lhes: O meu Pai continua a  realizar obras até agora, e Eu também continuo! 18 Perante isto, mais vontade tinham os judeus de o matar, pois não só anulava o Sábado, mas até chamava a Deus seu próprio Pai, fazendo-se assim igual a Deus. 19 Jesus tomou, pois, a palavra e começou a dizer-lhes: Em verdade, em verdade vos digo: o Filho, por si mesmo, não pode fazer nada, senão o que vir fazer ao Pai, pois aquilo que este faz também o faz igualmente o Filho.  20 De facto, o Pai ama o Filho e mostra-lhe tudo o que Ele mesmo faz; e há-de mostrar-lhe obras maiores do que estas, de modo que ficareis assombrados. 21 Pois, assim como o Pai ressuscita os mortos e os faz viver, também o Filho faz viver aqueles que quer. 22 O Pai, aliás, não julga ninguém, mas entregou ao Filho todo o julgamento, 23 para que todos honrem - o Filho como honram o Pai. Quem não honra o Filho não honra o Pai que o enviou. 24 Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não é sujeito a julgamento, mas passou da morte para a vida. 25 Em verdade, em verdade vos digo: chega a hora - e é já - em que os mortos hão-de ouvir a voz do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão, 26 pois, assim como o Pai tem a vida em si mesmo, também deu ao Filho o poder de ter a vida em si mesmo; 27 e deu-lhe o poder de fazer o julgamento, porque Ele é Filho do Homem. 28 Não vos assombreis com isto: é chegada a hora em que todos os que estão nos túmulos hão-de ouvir a sua voz, 29 e sairão: os que tiverem praticado o bem, para uma ressurreição de vida; e os que tiverem praticado o mal, para uma ressurreição de condenação. 30 Por mim mesmo, Eu não posso fazer nada: conforme ouço, assim é que julgo; e o meu julgamento é justo, porque não busco a minha vontade, mas a daquele que me enviou. 31 Se Eu testemunhasse a favor de mim próprio, o meu testemunho não teria valor; 32 há outro que testemunha em favor de mim, e Eu sei que o seu testemunho, favorável a mim, é verdadeiro. 33 Vós enviastes mensageiros a João, e ele deu testemunho da verdade. 34 Não é, porém, de um homem que Eu recebo testemunho, mas digo-vos isto para vos salvardes. 35 João era uma lâmpada ardente e luminosa, e vós, por um instante, quisestes alegrar-vos com a sua luz. 36 Mas tenho a meu favor um testemunho maior que o de João, pois as obras que o Pai me confiou para levar a cabo, essas mesmas obras que Eu faço, dão testemunho de que o Pai me enviou. 37 E o Pai que me enviou mantém o seu testemunho a meu favor. Nunca ouvistes a sua voz, nem vistes o seu rosto, 38 nem a sua palavra permanece em vós, visto não crerdes neste que Ele enviou. 39 Investigai as Escrituras, dado que julgais ter nelas a vida eterna: são elas que dão testemunho a meu favor. 40 Vós, porém, não quereis vir a mim, para terdes a vida! 41 Eu não ando à procura de receber glória dos homens; 42 a vós já vos conheço, e sei que não há em vós o amor de Deus. 43 Eu vim em nome de meu Pai, e vós não me recebeis; se outro viesse em seu próprio nome, a esse já o receberíeis. 44 Como vos é possível acreditar, se andais à procura da glória uns dos outros, e não procurais a glória que vem do Deus único? 45 Não penseis que Eu vos vou acusar diante do Pai; há quem vos acuse: é Moisés, em quem continuais a pôr a vossa esperança. 46De facto, se acreditásseis em Moisés, talvez acreditásseis em mim, porque ele escreveu a meu respeito. 47 Mas, se vós não acreditais nos seus escritos, como haveis de acreditar nas minhas palavras?

Comentários:

         Também a nós o Senhor nos diz constantemente: Levanta-te, sai desse torpor, desse comodismo em que estás mergulhado e anda, vem comigo. Muitos estão à tua espera para que os assistas nas suas necessidades, fales de salvação e de esperança, de amor e solidariedade, de fé e confiança. Não fiques deitado quando podes andar, não te detenhas metido em ti mesmo e nos teus problemas. Estão à tua espera para que os ajudes a resolver os deles. Levanta-te! Anda!
         Este acontecimento extraordinário que São João nos relata contem um detalhe que, penso, tem uma importância capital: «Senhor, não tenho ninguém que me meta na piscina quando se agita a água, pois, enquanto eu vou, algum outro desce antes de mim». Como é possível que durante trinta e oito anos ninguém tivesse ajudado este pobre homem? A indiferença perante os outros com quem nos cruzamos nos caminhos da vida, o alheamento – automático ou voluntário – das condições em que se encontra, das necessidades que possa ter, revelam uma dureza de coração e um egoísmo absolutamente incompatíveis com o que deve ser a atitude de um cristão para com o seu próximo. Pensemos, por momentos, que tal coisa se passaria connosco! Trinta e oito anos deitado numa enxerga porque ninguém reparou em mim?! «Vê lá: ficaste curado. Não peques mais, para que não te suceda coisa pior». Então, podemos concluir que a doença daquele homem seria como que um castigo dos seus pecados? Não! O que Jesus quer dizer com este aviso é que, de facto, a pior coisa que pode acontecer ao homem é exactamente o pecado porque se trata de uma ofensa a Deus e, conforme a sua gravidade, um corte de relações entre o Criador e a criatura. Uma situação incomparavelmente pior que qualquer doença ou limitação física. Tantas vezes estou à espera nem eu sei bem de quê! Que passe alguém e me fale, me pergunte se preciso de algo, se estou bem? Ou, estou, simplesmente ali, inerte, sem acção nem ânimo, mergulhado num torpor que me condiciona a vontade, o ânimo? E, Ele, o meu Jesus, passa por mim constantemente, mas como não dou sinal de vida, respeita a minha vontade, o meu querer estar assim. Na verdade, eu nem reparo nEle! Ah! Que miserável me sinto e que mal-agradecido! Um simples gesto, um olhar que fosse e Ele deter-Se-ia a perguntar-me o que preciso, o que desejo, o que me faz falta. E, eu, teria tudo, absolutamente, porque as Suas palavras - que são de vida eterna - tirar-me-iam do meu torpor e devolver-me-iam a vida, a acção, o interesse pelos outros e, sobretudo, a vontade de viver mais e melhor para cumprir, em tudo, a Sua Vontade Santa.
         Em toda a Sua Majestade Divina, Jesus apresenta-se aos que O interrogam. Esclarece todos os pontos essenciais da Fé não deixando dúvidas sobre a Sua figura e o Seu papel na história da Redenção humana. Ele tem, de facto, todo o poder e os atributos de Deus Pai, Criador e Senhor de todas as coisas. Impressiona-me, particularmente, o último versículo «Não posso por Mim mesmo fazer coisa alguma. Julgo se­gundo o que ouço, e o Meu juízo é justo, porque não busco a Minha vontade, mas a d'Aquele que Me enviou», porque, realmente, declara o Seu supremo respeito pela liberdade do homem que é, em última análise, quem escolhe o seu destino na Vida Eterna. Dá-me vontade de Lhe pedir - se fosse possível - que me coarcte essa liberdade e me coaja a ser santo; que não me deixe, a mim, a opção, porque, eu, pobre de mim, sou fraco e débil para fazer as escolhas correctas.Então digo-lhe, com o coração nas mãos: "Docere me facere voluntatem Tuam quia Deus meus es Tu”. Assim, e só assim, estarei seguro e a salvo de mim mesmo.
         Nós, cristãos de hoje, compreendemos perfeitamente estas palavras de Jesus que, talvez, aos que O ouviam naquela altura, não fossem muito esclarecedoras. Compreendemos porque sabemos que Jesus Cristo é a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade e que, esta, tem um só querer, uma só vontade, um só desígnio, ou seja, o que é do Pai é do Filho e do Espírito Santo. Então porquê estas palavras de Jesus? Pois, para que os circunstantes compreendessem e acreditassem que Ele, o Messias Salvador, era Deus Verdadeiro.
         É bastante difícil para quem não tem fé aceitar as palavras de Cristo quando fala de Si Próprio e da Santíssima Trindade. Mais que difícil, diria que é impossível, porque para aceitar é fundamental ter o coração disponível e sem preconceitos e, sobretudo, querer ouvir, desejar entender. Ter a noção clara de que há as barreiras próprias que os mistérios levantam e que não é possível ultrapassar sem a ajuda da fé. Pedir a fé será, pois, o recurso lógico de quem deseja compreender as palavras de Jesus Cristo. Aprofundar no Mistério da Santíssima Trindade pode parecer tarefa impossível, melhor dizendo, chegar a um conhecimento exacto. Mas, os cristãos, expressam no Credo – símbolo da sua Fé – que acreditam em Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo e, portanto, têm de aprofundar até onde for possível aquilo em que acreditam. Só a Fé não basta, haverá que pedir ao Espírito Santo os Dons de Ciência, Entendimento e Sabedoria para nos ajudar a, passo a passo, ir adentrando nessa realidade. Não tenhamos receio da tarefa ser por demais complexa – como todo o mistério, afinal, – nem tenhamos a pretensão de obter respostas conclusivas mas, o estudo e, sobretudo, a oração hão-de conduzir-nos – passo a passo – no caminho certo. É o que devemos fazer.
         Jesus não deixa sem resposta as questões levantadas pelos Seus opositores e, naturalmente que o faz para esclarecer os muitos que O ouvem. Sabe de sobejo que, aos fariseus e escribas não interessam para nada as Suas respostas, estão de tal forma aferrados aos seus próprios conceitos que nem sequer as ouvem. Aliás, talvez, até, preferissem que o Senhor não respondesse. Mas O Senhor não pode perder o ensejo para esclarecer e doutrinar com segurança e radicalidade absolutas expondo a verdade tal qual é.


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