(Cfr. Lc 8, 49-56)
«Por cima do meu
mar revolto levantou-se um nevoeiro espesso que me envolvia como num manto ou,
talvez, como uma mortalha bem à minha medida já que não conseguia mexer-me
minimamente. Queria muito tocar o nevoeiro, a sua textura, perceber de que era
feito. Parecia-me como que uma espuma das ondas do mar bravio, mas, ao mesmo
tempo, também se apresentava como uma nuvem etérea de uma tarde de Inverno, mas as minhas mãos não me obedeciam. Estavam onde
deviam estar, nas extremidades dos braços, aparentemente prontas e disponíveis
para o que fosse preciso, mas... não…, não conseguia movê-las, ou melhor,
moviam-se como se tivessem vontade própria, para coçar uma comichão no nariz, a
mão direita ia “viajar” até à nuca, depois ao pescoço e, quando lhe parecia, lá
tocava, então, no nariz. Entretanto, a esquerda, para carregar no botão do
telemóvel para atender uma chamada, encarava o serviço como algo tão difícil e
custoso que, normalmente, quem me chamava, desistia. ‘Nevoeiro e mar... Que
mais, Senhor, que mais mandas? Olha que eu... não posso, sou fraco, débil,
tenho medo!’
(AMA,
reflexões sobre o Evangelho, 2006)
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