07/06/2019

Leitura espiritual


CARTA ENCÍCLICA

HAURIETIS AQUAS

DO SUMO PONTÍFICE PAPA PIO XII
AOS VENERÁVEIS IRMÃOS PATRIARCAS, PRIMAZES,
ARCEBISPOS E BISPOS E OUTROS ORDINÁRIOS DO LUGAR
EM PAZ E COMUNHÃO COM A SÉ APOSTÓLICA

SOBRE O CULTO DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS


II

LEGITIMIDADE DO CULTO AO SANTÍSSIMO CORAÇÃO DE
JESUS
SEGUNDO A DOUTRINA DO NOVO TESTAMENTO E DA
TRADIÇÃO


3) O testemunho dos santos Padres em favor dos afectos sensíveis do Verbo encarnado


24. Os santos Padres, testemunhas verazes da doutrina revelada, advertiram muito oportunamente o que já Paulo apóstolo claramente significara, a saber: que o amor divino é como o princípio e a culminância da obra da encarnação e redenção.

Lê-se frequentemente nos seus escritos que Jesus Cristo tomou em Si a natureza humana perfeita, o nosso corpo frágil e caduco, para nos proporcionar a salvação eterna e manifestar, patentear em forma sensível o seu infinito amor a nós.

25. Fazendo-se eco da voz do Apóstolo das gentes, São Justino escreve o seguinte:

"Amamos e adoramos o Verbo nascido de Deus inefável e que não tem princípio; já que Ele se fez homem por nós para que, tornado participante das nossas doenças, nos proporcionasse o seu remédio",[1]

E São Basílio, o primeiro dos três Padres da Capadócia, afirma que os afectos sensíveis de Cristo foram verdadeiros e ao mesmo tempo santos:

"É manifesto que o Senhor possuiu os afectos naturais em confirmação da Sua verdadeira, e não fantástica, encarnação; é também manifesto que Ele repeliu como indignos da divindade os afectos viciosos, que mancham a pureza-da nossa vida".[2]

Igualmente, São. João Crisóstomo, luminar da Igreja antioquena, confessa que as emoções sensíveis de que o Senhor deu mostra provam irrecusavelmente Ela ter integralmente a nossa natureza humana:

"A não haver Ele possuído a nossa natureza, não teria experimentado, uma e mais vezes, a tristeza".[3]

Entre os Padres latinos, merecem lembrança os que hoje a Igreja venera como doutores máximos.

Santo Ambrósio afirma que a união hipostática é a origem natural dos afectos e sentimentos que o Verbo de Deus encarnado experimentou:

"Portanto, já que Ele tomou a alma, tomou as paixões da alma; pois Deus, como Deus que é, não podia perturbar-se nem morrer".[4]

São Jerónimo apoia nessas mesmas reacções o principal argumento para provar que Cristo assumiu realmente a natureza humana:

Nosso Senhor entristeceu-se realmente, para manifestar a Sua natureza humana.[5]

Particularmente Santo Agostinho faz notar a íntima união existente entre os sentimentos do Verbo encarnado e a finalidade da redenção humana:

"O Senhor revestiu-se dos afectos da fragilidade humana, do mesmo modo que aceitou a fragilidade da nossa carne e a morte desta, não por necessária coacção, mas sim pelo estímulo da Sua misericórdia, para assimilar a Si o Seu corpo; que é a Igreja, da qual Ele Se dignou ser a cabeça, ou seja, assimilar seus membros em seus santos e fiéis; de modo que, se por efeito das tentações humanas algum deles se entristecesse e sofresse, nem por isso pensasse estar privado do influxo da sua graça; e, assim como um coro fica alerta à voz que lhe dá o tom, assim também o Seu corpo soubesse da Sua cabeça que por si mesmos, tais movimentos não são pecado, senão somente indício da fragilidade humana ",[6]

Com maior concisão e não menor força estas passagens de São João Damasceno atestam a doutrina da Igreja:

"O Deus todo tomou todo o homem, e o todo Se uniu ao todo para proporcionar a salvação do homem todo.
De outra maneira Ele não teria podido sanar aquilo que não assumiu".[7]

"Tomou, pois, tudo para santificar tudo".[8]


PIO PP. XII.


(Revisão da versão portuguesa por AMA)

Notas:



[1] Apol. 2,13; PG 6, 465.
[2] Epist. 261, 3; PG 32, 972.
[3] In Joann. Homil. 63, 2; PG 59, 350.
[4] De fide ad Gratianum, II, 7, 56; PL 16, 594.
[5] Cf. Super Matth., 26, 37; PL 26, 205.
[6] Enarr. Ps. 87, 3; PL 37,1111.
[7] De Fide Orth., III, 6; PG 94,1006.
[8] Ibid., III, 20; PG 94,1081.

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