29/03/2018

Leitura espiritual

TEMA 32. O Decálogo. O primeiro mandamento

Jesus Cristo ensinou que para se salvar é necessário cumprir os mandamentos, os quais expressam a substância da lei moral natural. O primeiro mandamento é duplo: o amor a Deus e o amor ao próximo por amor de Deus.

1. Os Dez Mandamentos ou Decálogo

Nosso Senhor Jesus Cristo ensinou que para se salvar é necessário cumprir os mandamentos. Quanto um jovem Lhe pergunta: «Mestre, que hei-de fazer de bom, para alcançar a vida eterna?» (Mt 19, 16). Ele responde: «Se queres entrar na vida eterna, cumpre os mandamentos» (Mt 19, 17). A seguir, cita alguns preceitos relacionados com o amor ao próximo: «Não matarás, não cometerás adultério, não roubarás, não levantarás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe» (Mt 19, 18-19). Estes preceitos, juntamente com os referentes ao amor a Deus que o Senhor menciona noutras ocasiões, formam os dez mandamentos da Lei divina (cf. Ex 20, 1-17; Catecismo, 2052). «Os três primeiros referem-se mais ao amor de Deus; os outros sete, ao amor do próximo» (Catecismo, 2067). Os dez mandamentos expressam a substância da lei moral natural (cf. Catecismo, 1955). É uma lei inscrita no coração dos homens, cujo conhecimento se obscureceu como consequência do pecado original e dos sucessivos pecados pessoais. Deus quis revelar algumas «verdades religiosas e morais que, de si, não são inacessíveis à razão» (Catecismo, 38) para que todos a possam conhecer de modo completo e certo (cf. Catecismo, 37-38). 
Revelou-se primeiro no Antigo Testamento e depois, plenamente, através de Jesus Cristo (cf. Catecismo, 2053-2054). A Igreja guarda a Revelação e ensina-a a todos os homens (cf. Catecismo, 2071). Alguns mandamentos estabelecem o que se deve fazer (p. ex., santificar os domingos e festas de guarda); outros assinalam o que nunca é lícito realizar (p. ex.; matar um inocente). Estes últimos indicam alguns actos que são intrinsecamente maus em função do seu próprio objecto moral, independentemente dos motivos ou intenções posteriores de quem os realiza e das circunstâncias que os acompanham[1]. «Jesus mostra que os mandamentos não devem ser entendidos como um limite mínimo a não ultrapassar, mas antes, como uma estrada aberta para um caminho moral e espiritual de perfeição, cuja alma é o amor (cf. Cl 3, 14)»[2]. Por exemplo, o mandamento «não matarás» contém em si não só a obrigação de respeitar a vida do próximo, mas também a de promover e fomentar o seu desenvolvimento e enriquecimento como pessoas. Não se trata de proibições que limitem a liberdade; mas de luzes que mostram o caminho do bem e da felicidade, libertando o homem do erro moral.
2. O primeiro mandamento

O primeiro mandamento é duplo: o amor a Deus e o amor ao próximo por amor de Deus. «”Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?” Jesus disse-lhe: “Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente. Este é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas”» (Mt 22, 36-40). Este amor chama-se caridade. Com este termo também se designa a virtude teologal cujo acto é o amor a Deus e aos outros por Deus. A caridade é um dom que o Espírito Santo infunde naqueles que são filhos adoptivos de Deus (cf. Rm 5, 5). A caridade há-de crescer ao longo da vida nesta terra por acção do Espírito Santo e com a nossa cooperação: crescer em santidade é crescer na caridade. A santidade não é outra coisa senão a plenitude da filiação divina e da caridade. Esta pode diminuir pelo pecado venial e mesmo perder-se pelo pecado mortal. A caridade tem uma ordem: Deus, os outros (por amor de Deus) e nós mesmos (por amor de Deus). O amor de Deus Amar a Deus como filhos significa: 
a) Escolhê-Lo como o fim último de tudo o que fazemos. Actuar em tudo por amor e para a sua glória: «Quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para glória de Deus» (1 Cor 10, 31). «Deo omnis gloria. - Para Deus toda a glória»[3]. Não deve haver um fim mais elevado do que este. Nenhum amor se pode colocar acima do amor de Deus: «Quem amar o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim. Quem amar o filho ou filha mais do que a mim, não é digno de mim» (Mt 10, 37). «Não há amor, senão o Amor!»[4]. Não pode existir um verdadeiro amor que exclua ou postergue o amor de Deus. b) Cumprir a vontade de Deus com obras: «Nem todo o que me diz: ‘Senhor, Senhor’ entrará no Reino do Céu, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está no Céu» (Mt 7, 21). A vontade de Deus é que sejamos santos (cf. 1 Ts 4, 3), que sigamos Cristo (cf. Mt 17, 5), cumprindo os seus mandamentos (cf. Jo 14, 21). «Queres deveras ser santo? – Cumpre o pequeno dever de cada momento faz o que deves e está no que fazes»[5]. Cumprila também quando exige sacrifício: «Não se faça a minha vontade, mas a tua» (Lc 22, 42). c) Corresponder ao seu amor por nós. Ele amou-nos primeiro, criou-nos livres e fez-nos seus filhos (cf. 1 Jo 4, 19). O pecado é rejeitar o amor de Deus (cf. Catecismo, 2094); todavia Ele perdoa sempre, entrega-se continuamente a cada um de nós.«É nisto que está o amor: não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele mesmo que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados» (1 Jo 4, 10; cf. Jo 3, 16). Ele «amou-me e a si mesmo entregou-se por mim» (Gl 2, 20). «Para corresponder a tanto amor, é preciso que haja da nossa parte uma entrega total do corpo e da alma»[6]. Não se trata de um sentimento, mas de uma determinação da vontade que pode estar ou não acompanhada de afectos. O amor a Deus leva-nos a procurar o diálogo pessoal com Ele. Esse diálogo é oração que por sua vez é amor. Pode revestir diversas formas[7]: a) «A adoração é a primeira atitude do homem que se reconhece criatura diante do seu Criador (Catecismo, 2628). É a atitude mais fundamental da religião (cf. Catecismo, 2095). «Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto» (Mt 4, 10). A adoração a Deus liberta-nos das diversas formas de idolatria que conduzem à escravidão. «Que a tua oração seja sempre um sincero e real acto de adoração a Deus»[8]. b) A acção de graças (cf. Catecismo, 2638), porque tudo o que temos e somos, d’Ele o recebemos para Lhe dar glória: «Que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, porque te glorias, como se não o tivesses recebido?» (1 Cor 4, 7).

c) A petição, a qual tem dois modos: o pedido de perdão pelo que nos separa de Deus (o pecado) e o pedido de ajuda para nós mesmos e para os outros, bem como para toda a Igreja e a humanidade inteira. Estas duas formas de petição manifestam-se no Pai Nosso: «…o pão nosso de cada dia nos dai hoje; perdoai-nos as nossas ofensas…». A petição do cristão está cheia de segurança, porque «foi na esperança que fomos salvos» (Rm 8, 24) e porque é um rogo filial, por meio de Cristo: «se pedirdes alguma coisa ao Pai em meu nome, Ele vo-la dará» (Jo 16, 23; cf. 1 Jo 5, 14-15). O amor manifesta-se também com o sacrifício, inseparável da oração: «a oração valoriza-se com o sacrifício»[9]. O sacrifício é o oferecimento a Deus de um bem sensível, em sua homenagem, como expressão da entrega interior da própria vontade, quer dizer, da obediência a Cristo. Cristo redimiu-nos pelo Sacrifício da Cruz, que manifesta a sua perfeita obediência até à morte (cf. Fl 2, 8). Os cristãos como membros de Cristo, podem co-redimir com Ele, unindo os nossos sacrifícios aos seus na Santa Missa (cf. Catecismo, 2100). A oração e o sacrifício constituem o culto a Deus. Chama-se culto de latria ou adoração, para o distinguir do culto aos anjos e aos santos, que é de dulia ou veneração, e do culto com que se honra Nossa Senhora, chamado hiperdulia (cf. Catecismo, 971). O acto de culto por excelência é a Santa Missa, prenúncio da liturgia celeste. O amor de Deus deve manifestarse na dignidade do culto: observância das prescrições da Igreja, «urbanidade da piedade»[10], cuidado e limpeza dos objectos. «Aquela mulher que, em casa de Simão o leproso, em Betânia, unge com rico perfume a cabeça do Mestre, recorda-nos o dever de sermos magnânimos no culto de Deus. – Todo o luxo, majestade e beleza me parecem pouco»[11].
3. A fé e a esperança em Deus

Fé, esperança e caridade são as três virtudes “teologais” (virtudes que se dirigem a Deus). A maior é a caridade (cf. 1 Cor 13, 13), que dá “forma” e “vida” sobrenatural à fé e à esperança (de modo semelhante como a alma dá vida ao corpo). Mas a caridade pressupõe nesta vida a fé, porque só pode amar a Deus quem O conhece; e pressupõe também a esperança, porque só pode amar a Deus quem coloca o seu desejo de felicidade na união com Ele. A fé é um dom de Deus, luz na inteligência que nos permite conhecer a verdade que Deus nos revelou e anuir com ela. Implica duas coisas: crer no que Deus revelou (o mistério da Santíssima Trindade e todos os artigos do Credo) e crer no próprio Deus que se revelou (confiar n’Ele). Não há nem pode haver oposição entre fé e razão. A formação doutrinal é importante para alcançar uma fé firme e para fortalecer o amor a Deus e aos outros por Deus: para a santidade e o apostolado. A vida de fé é uma vida apoiada na fé e coerente com ela. A esperança é também um dom de Deus que impulsiona a desejar a união com Ele, na qual se encontra a nossa felicidade, confiando que Ele nos dará a capacidade e os meios para a alcançar (cf. Catecismo, 2090). Nós, os cristãos, devemos estar sempre «alegres na esperança» (Rm 12, 12), porque se somos fiéis aguarda-nos a felicidade do Céu: a visão de Deus face a face (1 Cor 13, 12), a visão beatífica. «Se somos filhos de Deus, somos também herdeiros: herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo, pressupondo que com Ele sofremos, para também com Ele sermos glorificados» (Rm 8, 17). A vida cristã nesta terra é um caminho de felicidade, porque, pela graça, já aqui possuímos uma antecipação dessa união com a Santíssima Trindade, todavia é uma felicidade com dor, com cruz. A esperança torna-nos conscientes de que vale a pena! «Vale a pena arriscar a vida inteira! Trabalhar e sofrer, por Amor, para levar avante os desígnios de Deus, para co-redimir»[12]. Os pecados contra o primeiro mandamento são pecados contra as virtudes teologais: a) Contra a fé: o ateísmo, o agnosticismo, o indiferentismo religioso, a heresia, a apostasia, o cisma, etc. (cf. Catecismo, 2089). É também contrário ao primeiro mandamento pôr em perigo a própria fé, quer seja pela leitura de livros contrários à fé ou à moral, sem motivo proporcionado e sem a preparação suficiente; ou devido à omissão dos meios que a defendam. b) Contra a esperança: o desespero da própria salvação (cf. Catecismo, 2091) e, no extremo oposto, a presunção de que a misericórdia divina perdoará os pecados sem conversão nem contrição, ou sem necessidade do sacramento da Penitência (cf. Catecismo, 2092). É igualmente contrário a esta virtude colocar a esperança de felicidade em alguma coisa fora de Deus. c) Contra a caridade: qualquer pecado é contrário à caridade. No entanto, opõem-se directamente à caridade a rejeição de Deus bem como a tibieza: não O querer amar com todo o coração. Contrários ao culto a Deus são o sacrilégio, a simonia, certas práticas de superstição, a feitiçaria, etc., e o satanismo (cf. Catecismo, 2111-2128). 
4. Amor aos outros por amor a Deus

O amor a Deus deve compreender o amor àqueles que Deus ama. «Se alguém disser: “Eu amo a Deus”, mas tiver ódio ao seu irmão, esse é um mentiroso; pois aquele que não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. E nós recebemos dele este mandamento: quem ama a Deus, ame também o seu irmão» (1 Jo 4, 19-21). Não se pode amar a Deus sem amar todos os homens, criados por Ele à sua imagem e semelhança, e chamados para serem seus filhos pela graça sobrenatural (cf. Catecismo, 2069). «Com os filhos de Deus, temos de comportar-nos como filhos de Deus»[13]: Comportar-se como filho de Deus, como outro Cristo: «Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros; que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei. Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros» (Jo 13, 34-35). O Espírito Santo foi enviado aos nossos corações para que possamos amar como filhos de Deus, com o amor de Cristo (cf. Rm 5, 5). «Dar a vida pelos outros. Só assim se vive a vida de Jesus e nos fazemos uma só coisa com Ele»[14]. Ver nos outros filhos de Deus, o próprio Cristo: «Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes» (Mt 25, 40). Querer para eles o seu verdadeiro bem, o que Deus quer: que sejam santos e, por conseguinte, felizes. A primeira manifestação de caridade é o apostolado, bem como a preocupação pelas suas necessidades materiais. Compreender – sentir como próprias – as dificuldades espirituais e materiais dos outros. Saber perdoar. Ter misericórdia (cf. Mt 5, 7). «O amor é paciente, o amor é prestável, não é invejoso, não é arrogante nem orgulhoso, nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita nem guarda ressentimento. Não se alegra com a injustiça» (1 Co 13, 4-5). A correcção fraterna (cf. Mt 18, 15).
5. O amor a si mesmo por amor de Deus

O preceito da caridade menciona também o amor a si próprio: «Amarás a teu próximo como a ti mesmo» (Mt 22, 39). Há um amor recto de si mesmo: o amor de si por amor a Deus. Este amor conduz-nos a procurar para si próprio o que Deus quer: a santidade, logo a felicidade (com sacrifício nesta terra, com a cruz). Há também um desordenado amor de si próprio, o egoísmo, que é o amor de si próprio em si mesmo, não por amor de Deus
Significa colocar a própria vontade em lugar da de Deus e o próprio interesse acima do serviço aos outros. O amor recto a si próprio não tem lugar sem luta contra o egoísmo. Comporta abnegação, entrega de si próprio a Deus e aos outros. «Se alguém quiser vir comigo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Quem quiser salvar a sua vida, perde-la-á; mas, quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la» (Mt 16, 24-25). O homem «não se pode encontrar plenamente a não ser no sincero dom de si mesmo»[15].

JAVIER LÓPEZ
Bibliografia básica
- Catecismo da Igreja Católica, 2064-2132.
Leituras recomendadas
- Bento XVI, Enc. Deus Caritas est, 1-18, 25-XII-2005.  - Bento XVI, Enc. Spe Salvi, 30-XI-2007. - S. Josemaria, Homilias «Vida de Fé», «A Esperança do cristão», «Com a força do amor», em Amigos de Deus, 190-237.

Notas

[1] Cf. S. João Paulo II, Enc. Veritatis Splendor, 80, 6-VIII-1993. [2]Ibidem, 15. [3]S. Josemaria, Caminho, 780. [4]Ibidem, 417. [5]Ibidem, 815; cf. Ibidem 933. [6]S. Josemaria, Cristo que Passa, 87. [7]Cf. S. Josemaria, Caminho, 91. [8]S. Josemaria, Forja, 263. [9]S. Josemaria, Caminho, 81. [10]Ibidem, 541[11]Ibidem, 527; cf. Mt 26, 6-13. [12]S. Josemaria, Forja, 26. [13]S. Josemaria, Cristo que Passa, 36. [14]S. Josemaria, Via Sacra, XIV Estação. Cf. Bento XVI, Enc. Deus Caritas est, 25XII-2005, 12-15. [15]Concílio Vaticano II, Const. Gaudium et Spes, 24.