07/06/2017

Leitura espiritual

A CIDADE DE DEUS 

Vol. 2

LIVRO XV

CAPÍTULO VI

Doenças de que, como pena de pecado, sofrem mesmo os cidadãos da Cidade de Deus durante a peregrinação desta vida, e das quais Deus os cura.

Com efeito, esta doença, ou esta desobediência de que falámos no livro décimo quarto, é o castigo da primeira desobediência — e, portanto, não é uma natureza, mas um vício dela. Por isso é que se diz aos bons que avançam e vivem da fé nesta peregrinação:

Transportai mutuamente os vossos fardos e cumprireis assim a lei de Cristo [i];

e da mesma forma noutro lugar:

Corrigi os espíritos inquietos, consolai os pusilânimes, sustentai os débeis, sede pacientes para com todos, olhai que ninguém pague o mal com o mal [ii];

de igual modo noutro passo:

Se algum homem for surpreendido em falta, vós, que sois espirituais, recuperai-o com espírito de doçura. Mas acautela-te não sejas tu tentado [iii];

e noutro lugar:

Que o Sol se não esconda sobre a vossa cólera [iv];

e no Evangelho:

Se o teu irmão contra ti pecar, repreende-o a sós tu e ele [v] ·

e da mesma maneira, a propósito dos pecados em que é de recear o escândalo de muitos, diz o Apóstolo:

Repreende os que pecam na presença de todos para que todos tenham receio [vi].

Por isso é que, acerca do perdão mútuo, existem muitas prescrições e se exige cuidado especial para se manter a paz sem a qual ninguém poderá ver a Deus. Daí esse terror que inspira a condenação do servo a pagar os dez mil talentos que já lhe tinham sido perdoados, porque ele mesmo não quis perdoar um a dívida de cem dinheiros a um seu companheiro. Depois de ter contado esta parábola, Jesus acrescentou:

Assim fará vosso Pai celeste para convosco, se cada um de vós não perdoar ao seu irmão com todo o coração [vii].

Deste modo são curados os cidadãos da Cidade de Deus que peregrinam nesta Terra e suspiram pela paz da pátria do Alto. É, porém, o Espírito Santo que opera por dentro para tornar eficaz o remédio aplicado de fora.

Demais, embora o próprio Deus, valendo-se da criatura que lhe está sujeita, se dirija sob uma aparência humana aos sentidos humanos, quer aos do corpo, quer aos que tem os semelhantes, nos sonos, se não reger a inteligência e não actuar sobre ela por uma graça interior, de nada servirá ao homem toda a pregação da verdade. E o que Ele faz separando os «Vasos da Cólera» dos «Vasos da Misericórdia», por um a distribuição muito oculta, mas justíssima, que só Ele conhece. Sem dúvida que Deus nos ajuda de modos admiráveis e escondidos. Quando o pecado que habita nos nossos membros (ou antes a pena
do pecado) já não reina no nosso corpo mortal para o sujeitar aos seus desejos, nem nós apresentamos os nossos membros com o armas de iniquidade, conforme o preceito do Apóstolo — o homem, sob a direcção de Deus volta-se para o seu espírito que, por sua vez, deixa de se com prazer em si para o m al, se manterá no sereno domínio de si mesmo e reinará sem pecado algum na paz eterna, na saúde e na imortalidade perfeitas.


(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)



[i] Gál., VI, 2.
[ii] I Tess., V. 14-15.
[iii] Gál., VI. 1.
[iv] Ef„ IV, 26.
[v] Mt., XVIII, 15.
[vi] I Tim., V, 20.
[vii] Mt., XVIII, 35.

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