28/04/2017

Leitura espiritual

A Cidade Deus
A CIDADE DE DEUS


Vol. 2

LIVRO XII

CAPÍTULO XV

Condição temporal do género humano: Deus não a institui por uma decisão nova nem por uma vontade variável.

Que admira que, perdidos nos seus ciclos, não encontrem nem entrada nem saída. Ignoram quando começaram e quando devem acabar o género humano e a nossa condição mortal, incapazes que são de penetrar na sublimidade de Deus. Essa sublimidade de Deus — Ele próprio eterno e sem começo — fez surgir o tempo a partir de um começo, e ao homem, que ainda não tinha feito, fê-lo no tempo, em virtude, não de uma decisão nova e imprevista, mas imutável e eterna. Quem será capaz de sondar esta sublimidade insondável e de penetrar nessa sublimidade impenetrável — quando Deus, sem mudança de vontade, antes que algum homem fosse feito, institui no tempo o homem temporal e de um só homem multiplicou o género humano? Com razão o Salmo, depois de ter dito:

Tu, Senhor, nos conservarás, tu nos guardarás desde esta
geração até à eternidade,
[i]

volta-se contra aqueles cuja ímpia e estulta doutrina não reserva à alma nenhuma libertação nem nenhuma beatitude eterna e acrescenta:

Os ímpios andarão às voltas,[ii]

como se se dissesse: «Que crês tu então? Que pensas tu? Que compreendes? Será de acreditar que aprouve a Deus — a quem nada de novo pode acontecer, em quem nada é mutável — fazer de súbito este homem que, no passado, ao longo de uma eternidade sem fim, ainda não tinha feito?». Responde ele imediatamente, dirigindo-se ao pró­prio Deus:

Segundo a tua sublimidade multiplicaste os filhos dos
homens .
[iii]

Pensem os homens o que quiserem, diz ele, julguem, disputem como lhes aprouver!

Segundo a tua sublimidade,[iv]

que nenhum dos homens pode conhecer,

mulitiplicaste os filhos dos homens .[v]

É, realmente, um profundo mistério ter sempre existido e ter querido fazer o primeiro homem a partir de determinado tempo sem o ter feito antes, sem ter mudado de decisão e de vontade.

CAPÍTULO XVI

Para que Deus tenha podido ser sempre Senhor, teremos de pensar que sempre existiu necessariamente uma criatura da qual fosse senhor?
Em que sentido se chama sempre criado ao que
não pode chamar-se coeterno?

Eu é que, na verdade, não me atrevo a dizer que o Senhor Deus durante algum tempo não foi senhor; mas também não posso pôr em dúvida que o homem nem sempre existiu e que o primeiro homem foi criado a partir de determinado momento. Mas, quando eu pergunto de quem fora Deus sempre senhor se as criaturas não existiram sempre, receio afirmar seja o que for porque, ao examinar-me a mim mesmo, recordo o que está escrito:

Qual dentre os homens pode conhecer os desígnios de Deus?

Quem poderá pensar o que quer o Senhor?
Porque os pensamentos dos mortais são tímidos e incertas as nossas descobertas.

O corpo corruptível sobrecarrega a alma e a morada terrena acabrunha o espírito de múltiplos pensamentos.
[vi]

Destes pensamentos estou eu, nesta minha morada terrena, resolvendo tantos, (sim, tantos, porque entre eles ou fora deles há um, em que talvez não pense, que é o verdadeiro e que eu não posso descobrir): eu poderia dizer que houve sempre um a criatura de que podia ser senhor Aquele que sempre foi Senhor e jamais deixou de o ser — contanto que uma criatura exista depois da outra em diferentes momentos do tempo, para que não digamos haver alguma coeterna ao Criador, o que a fé e a sã razão condenam. É preciso evitar tanto a opinião absurda, alheia à luz da verdade, de que sempre existiram criaturas mortais através das vicissitudes dos tempos — desaparecendo umas, sucedendo-lhes outras, com o a opinião de que criaturas mortais não começaram a existir senão com a chegada do nosso século, quando também os anjos foram criados, se é verdade que é a eles que se refere a criação da primeira luz, ou melhor, a criação do Céu do qual foi dito:

No princípio fez Deus o céu e a terra.[vii]

Contudo, como estes anjos não existiram antes de terem sido feitos, se se diz que estes seres imortais sempre existiram, não se deve crer, todavia, que são coeternos a Deus. Se eu, porém, disser que os anjos não foram criados no tempo mas existiram antes de todos os tempos, para que Deus fosse seu senhor, Ele que nunca deixou de ser Senhor, — perguntar-me-ão ainda: Se eles foram feitos antes de todos os tempos, poderiam eles, já que foram teitos, ter existido sempre?

Parece que se deve responder assim: E porque não? Não dizemos com toda a propriedade que o que existe em todo o tempo existe sempre? Existiram, sim, em todo o tempo e até foram feitos antes de todos os tempos, — isto para o caso, pelo menos, de o tempo ter começado com o Céu e de eles existirem antes do Céu. Mas se o tempo existiu, não com o Céu mas antes do Céu, não se tratava, nesse caso, de um tempo marcado pelas horas, os dias, os meses, os anos (porque estas medidas dos períodos temporais, chamados correntemente e com propriedade «tempos», é manifesto que começaram com os movimentos dos astros: por isso, ao instituí-los, Deus disse:

E sirvam de sinais para marcarem os tempos, os dias,
os anos,
[viii]

__tratava-se de um tempo incluído em alguma mudança sucessiva cujas partes passam umas após as outras porque não podem ser simultâneas. Se, portanto, antes do Céu, alguma coisa de semelhante se realizou nos movimentos angélicos de modo que o tempo existiu desde então e os anjos desde o momento da sua criação se moveram no tempo, mesmo assim existiram desde todo o tempo pois que o tempo foi criado com eles. Quem poderá então dizer que o que existiu desde todos os tempos não existiu sempre?


(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] Salmo XI, 8.
[ii] Salmo XI, 9.
[iii] Salmo XI, 9.
[iv] Ibid
[v] Ibid
[vi] Sab. Salomão, IX, 13-15.
[vii] Gen., I,1.
[viii] Gen., I,14.

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