11/03/2017

Leitura espiritual

A CIDADE DE DEUS

Vol. 2

LIVRO IX

CAPÍTULO XVII

Para conseguir a vida bem-aventurada que consiste na partici­pação do soberano bem, o homem precisa, não de um mediador tal com o demónio, mas apenas de um, tal com o é Cristo.

Admiro-me deveras por ver homens tão doutos, que têm na menor conta o que é corpóreo e sensível em comparação com o que é incorpóreo e inteligível, fazerem referência a contactos corpóreos a propósito da vida bem-aventurada. Onde é que pára o dito de Plotino:

E necessário fugir para a pátria muito amada, onde está
o Pai, onde estão todas as coisas. Mas em que consiste esta
fuga? Em tomarmo-nos semelhantes a Deus
[i].

Se, portanto, quanto mais nos aproximarmos de Deus, tanto mais nos tornamos a Ele semelhantes, a única maneira de nos afastarmos d’Ele será a de nos tornarmos dissemelhantes. Mas a este ser incorpóreo, eterno e imutá­vel a alma humana é tanto mais dissemelhante quanto mais presa está às coisas temporais e mutáveis.

Para sanar esta situação, com o nenhum a relação é possível entre a imortal pureza do alto e os seres mortais e impuros cá de baixo, evidentemente que é necessário um mediador. Mas tal mediador não tem que ter um corpo imortal próximo das realidades do alto e uma alma enferma semelhante às coisas cá de baixo (essa enfermidade torná-lo-ia mais cioso da nossa cura do que desejoso de nos curar) — mas sim adaptado à nossa baixeza pela mortalidade do seu corpo — de tal forma que a imortal justiça do seu espírito, que o mantém nas alturas, não pela distância mas pela sua perfeita semelhança com Deus, traga à obra da nossa purificação e da nossa libertação uma ajuda verdadeiramente divina.

Um Deus insusceptível de contaminação não pode recear o contágio do homem de que se revestiu — nem, sendo homem , o dos homens com os quais conviveu. São importantes, na verdade, estes dois ensina­mentos que, graças à sua encarnação, nos mostrou, para a nossa salvação: nem a carne pode contaminar a verdadeira divindade,
nem temos que julgar os demónios melhores do que nós porque não têm carne. É Este, como no-lo apresenta a Santa Escritura, o mediador entre Deus e os homens — o homem Cristo Jesus: pela sua divindade, é sempre igual ao Pai; pela sua humanidade, tornou-se a nós semelhante. Mas não é esta a ocasião para, conforme as nossas forças,
falarmos disto.

CAPÍTULO XVIII

A arteirice dos demónios, quando eles nos prometem por sua intercessão, o caminho para Deus, só pretende afastar os homens da verdade.

Os demónios, esses falsos e enganadores medianeiros, que em muitas das suas obras se revelam claramente míseros e ma­lignos pela torpeza do seu espírito, — procuram, mercê da distância a que se encontram e da agilidade dos seus corpos aéreos, distrair-nos e afastar-nos do aperfeiçoamento da alma: não nos abrem o caminho para Deus,
mas antes, com medo de que nele entremos, obstruem-no. Realmente, mesmo neste caminho corporal, — aliás falsíssimo e cheio de erros, em que a justiça não caminha, porque devemos subir para Deus não por elevação corporal mas por semelhança espiritual, isto é, incorpórea — , mesmo neste caminho corporal (que os amigos dos demónios ordenam, segundo a hierarquia dos elementos, estabelecendo os demónios do ar como medianeiros entre os deuses do éter e os homens da Terra), pensam que os deuses têm por fim principal não se deixarem contaminar pelo contacto dos homens, pondo entre ambos a distância
das suas moradas.

Desta maneira, julgam eles que é mais fácil serem os demónios contagiados pelos homens do que serem os homens purificados pelos demónios, e que os próprios deuses pode­riam ser contaminados se não estivessem protegidos pela sublimidade das suas moradas. Quem será tão desgraçado que se convença de que pode ser purificado por esta via em que os homens são contaminantes, os demónios contaminados e os deuses contamináveis — e não prefere escolher um caminho em que se evitem, antes do mais, os demónios, que contaminam, e em que Deus, que não pode ser contaminado, purifique os homens das
máculas para os fazer entrar na sociedade dos anjos, que
nunca foram contaminados?

CAPÍTULO XIX

O nome de demónio já nem entre os seus adoradores é tomado em bom sentido.

Para que não pareça que também nós discutimos palavras, pois que certos demonícolas (chamemos-lhes assim, como lhes chamam outros, entre os quais Labeão) pretendem que os seres a que eles chamam demónios sejam idênticos aos seres a que outros chamam anjos, —vejo-me na obrigação de discorrer um pouco acerca dos bons anjos, cuja existência eles negam, mas a quem preferem chamar bons demó­nios em vez de anjos.
Nós, porém, segundo a linguagem da Escritura, regra da nossa religião cristã, lemos que há anjos, uns bons e outros maus, mas nunca que há bons demónios. Onde quer que nas Escrituras se encontre esta palavra de daemones ou daemonia (demónios), trata-se sempre de espíritos maléficos. Este significado generalizou-se de tal forma que
mesmo entre aqueles que se chamam pagãos e que pretendem convencer-nos de que é necessário o culto de uma
multidão de deuses e de demónios, não há com certeza um
sequer, por muito letrado ou culto que seja, que se atreva
a dizer em tom de elogio, mesmo a um escravo

Tens demónio!

Ninguém duvida de que, a quem assim falar, só se lhe pode atribuir uma intenção injuriosa.

Que motivo nos pode, portanto, compelir, depois de termos ofendido com esta palavra todos ou quase todos os ouvidos, habituados com o estão a tomá-la em mau sentido, a explicar o que dissemos se, em pregando a palavra anjo, evitamos o inconveniente a que pode dar lugar a palavra demónio?


CAPÍTULO XX

Qualidade da ciência que toma os demónios orgulhosos.

A própria origem desta palavra, se consultarmos os livros divinos, nos fornece um notável ensinamento. Daemones— os demónios — (porque a palavra é grega) da sua ciência é que tomam o nome. Mas o Apóstolo, inspirado pelo Espírito Santo, diz-nos:

A ciência incha, mas a caridade edifica
[ii],

— palavra cujo único sentido verdadeiro é o de que a ciência não é útil se a caridade a não anima; sem a caridade, ela incha, isto é, leva à vã soberba como que cheia de vento. Nos demónios há, portanto, ciência sem caridade; por isso é que eles são tão inchados, isto é, tão soberbos que chegaram a reclamar honras divinas e culto religioso que sabem ser só devido ao verdadeiro Deus; e tanto quanto podem, reclamam esse culto junto de quem podem. A este orgulho dos demónios a que precisamente se submetera o género humano, opôs-se a humildade de
Deus manifestada em Cristo. Mas qual seja o poder desta humildade, é o que ignoram os homens cuja alma está inchada com a impureza da altivez e que são semelhantes aos demónios, não na ciência, mas na soberba.


CAPÍTULO XXI

Até que ponto se quis o Senhor tomar conhecido dos demónios.

Aliás, os próprios demónios o sabem; foram eles que
disseram ao Senhor revestido da enfermidade da carne:

Que há entre Ti e nós, Jesus de Nazaré? Vieste para
nos perder?
[iii]

Estas palavras mostram claramente com o era grande a sua ciência, mas nula a sua caridade. De Cristo temiam o castigo. Não amavam n’Ele a justiça. Conheceram-no na medida em que Ele o quis. Ele qui-lo na medida em que foi preciso. Mas eles não o conheceram, como os santos anjos que gozam da participação na sua eternidade, como Verbo de Deus que é. Conheceram-no como Ele tinha que se dar a conhecer para os atemorizar e para libertar do seu poder, de certo modo tirânico, os predestinados ao seu reino e à glória sempre verda­deira e verdadeiramente sempiterna. Deu-se, pois, a conhecer aos demónios, não por aquilo que é a vida eterna e a luz inalterável que ilumina os santos e cuja vista purifica os corações por meio da fé na sua pessoa — mas por certos efeitos temporais do seu poder, por certos sinais da sua presença tão escondida e que podiam ser mais perceptíveis aos sentidos angélicos, mesmo dos espíritos malignos, do que à fraqueza dos homens. Quando julgou conveniente atenuar estes sinais e esconder-se mais profundamente, o príncipe dos demónios, chegando a duvidar d ’Ele, tentou-O para saber se Ele era o Cristo, na medida em que o próprio Cristo quis ser tentado para proporcionar à humanidade de que era portador, um exemplo a imitar por nós. Mas, depois daquela tentação, quando, como está escrito, o serviam os anjos (os bons e santos anjos, claro está, terríveis e temíveis para
os anjos impuros), a sua grandeza cada vez mais se manifestava aos demónios, de tal forma que, por muito desprezível que parecesse n ’Ele a fraqueza da carne, ninguém ousava resistir às suas ordens.


(cont)

(Revisão da versão portuguesa por ama)





[i] Plotino, Hnéadas, I, VI, 8; II, 3.
[ii] I Cor., VIII, 1.
[iii] Mc 1, 22

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