26/10/2016

Leitura espiritual

Leitura Espiritual


Amigos de Deus



São Josemaria Escrivá

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Começai por contar o que não quereríeis que se soubesse. Abaixo o demónio mudo!
De uma coisa de nada, dando-lhe voltas e mais voltas, faz-se uma grande bola como com a neve, e acaba-se por ficar fechado lá dentro. Porquê?...
Abri a alma!
Asseguro-vos a felicidade, que é fidelidade à vocação cristã, se fordes sinceros.
A clareza e a simplicidade são disposições absolutamente indispensáveis.
Abramos pois, de par em par a nossa alma, de modo que o sol de Deus possa entrar e com ele a caridade do Amor.

Para se afastar da sinceridade total nem sempre é preciso má intenção; às vezes, basta um erro de consciência.
Há pessoas que formaram (isto é, deformaram) de tal modo a consciência que o seu mutismo, a sua falta de simplicidade lhes parece bom; até pensam que é bom calar.
Acontece que às vezes até receberam uma boa preparação e conhecem as coisas de Deus e talvez, por isso, se convençam de que é conveniente calar.
Enganam-se, porém, porque a sinceridade é sempre necessária e não cabem desculpas, ainda que pareçam boas.

Acabamos esta conversa, na qual tu e eu fizemos a nossa oração com o Nosso Pai, pedindo-lhe a graça de viver essa afirmação gozosa, que é a virtude cristã da castidade.

Pedimo-la por intercessão de Santa Maria, que é a pureza imaculada.
Recorramos a Ela, tota pulchra, seguindo um conselho que eu dava, há muitos anos, àqueles que se sentiam intranquilos no seu empenho diário por ser humildes, limpos, sinceros, alegres e generosos: Todos os pecados da tua vida parecem ter-se posto de pé. - Não desanimes. - Pelo contrário, chama por tua Mãe, Santa Maria, com fé e abandono de criança. Ela trará o sossego à tua alma.

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Ouve-se às vezes dizer que actualmente os milagres são menos frequentes.
Não se dará antes o caso de serem menos as almas que vivem vida de fé?
Deus não pode faltar à sua promessa: Pede-me e eu te darei as nações em herança.
 Os teus domínios irão até aos confins da terra.
O nosso Deus é a Verdade, o fundamento de tudo o que existe: nada se cumpre sem o seu querer omnipotente.

Como era no princípio, agora e sempre.
O Senhor não muda, não precisa de se mover para alcançar coisas que não possua.
Ele é todo o movimento, toda a beleza e toda a grandeza.
Hoje como outrora.
Passarão os céus como o fumo e a terra envelhecerá como um vestido, mas a minha salvação durará pela eternidade e a minha justiça durará para sempre.

Deus estabeleceu em Jesus Cristo uma nova e eterna aliança com os homens.
Pôs a sua omnipotência ao serviço da nossa salvação.
Quando as criaturas desconfiam, quando vacilam por falta de fé, ouvimos novamente Isaías anunciar em nome do Senhor: Será que o meu braço tenha ficado mais curto para vos salvar ou que já não tenha força para vos libertar?
Só com a minha ameaça, seco o mar e transformo os rios num deserto, até perecerem os seus peixes por falta de água e morrerem de sede os seus viventes.
Eu revisto os céus com um manto de sombra e cubro-os com um saco de luto.


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A fé é a virtude sobrenatural que predispõe a nossa inteligência a aderir às verdades reveladas, a responder afirmativamente a Cristo, que nos deu a conhecer plenamente o desígnio salvífico da Santíssima Trindade.
Deus, tendo falado outrora muitas vezes e de muitos modos a nossos pais pelos profetas, ultimamente, nestes dias, falou-nos por meio de seu Filho, a quem constituiu herdeiro de tudo, por quem criou também os séculos; o qual, sendo o resplendor da sua glória e a figura viva da sua substância, sustentando tudo com a sua poderosa palavra, depois de nos ter purificado dos nossos pecados, está sentado à direita da majestade no mais alto dos céus.

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Junto da piscina de Siloé

Gostaria que fosse Jesus quem nos falasse de fé, quem nos desse lições de fé.
Por isso, abriremos o Novo Testamento e viveremos com Ele algumas passagens da sua vida.
Efectivamente, Cristo não se poupou a esforços para, pouco a pouco, ensinar os seus discípulos, a fim de se entregarem com confiança ao cumprimento da Vontade do Pai.
Vai-os doutrinando com palavras e com obras.

Considerai o capítulo nono de S. João.
E, passando Jesus, viu um homem cego de nascença. E os seus discípulos perguntaram-lhe: Mestre, quem pecou, este ou os seus pais, para que nascesse cego?
Estes homens, apesar de estarem tão perto de Cristo, julgam mal aquele pobre cego.
Para que não vos admireis se, com o andar dos anos, ao servirdes a Igreja, encontrais discípulos do Senhor que se comportam assim convosco ou com outras pessoas.
Não vos preocupeis e não façais caso, como aquele cego.
Abandonai-vos de verdade nas mãos de Cristo; Ele não ataca, perdoa; não condena, absolve; não olha a doença com desinteresse, mas aplica-lhe o remédio com divina diligência.


Nosso Senhor cuspiu no chão, fez lodo com a saliva, untou com o lodo os olhos do cego e disse-lhe:
Vai e lava-te na piscina de Siloé, que quer dizer Enviado.
Foi ele, pois, e lavou-se, e voltou com vista.

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Que belo exemplo de firmeza na fé nos dá este cego!
Uma fé viva, operativa.
É assim que te comportas com os mandatos de Deus, quando muitas vezes estás cego, quando nas preocupações da tua alma se oculta a luz?
Que poder continha a água, para que os olhos ficassem curados ao serem humedecidos?
Teria sido mais adequado um colírio desconhecido, um medicamento precioso preparado no laboratório dum sábio alquimista.
Mas aquele homem crê, põe em prática o que Deus lhe ordena e volta com os olhos cheios de claridade.

Foi útil - escreveu S. Agostinho ao comentar esta passagem - que o Evangelista explicasse o sentido do nome da piscina, dizendo que significava Enviado.
Agora entendemos quem é este Enviado.
Se o Senhor não nos tivesse sido enviado, nenhum de nós teria sido liberto do pecado.
Temos de crer com fé firme em quem nos salva, neste Médico divino que foi enviado precisamente para nos curar.
E crer com tanto mais vigor quanto mais grave ou desesperada for a doença de que padeçamos.

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É preciso que adquiramos a medida divina das coisas, sem perder nunca o ponto de mira sobrenatural, e contando com que Jesus se serve também das nossas misérias, para que a sua glória resplandeça.
Por isso, quando sintais serpentear na vossa consciência o amor-próprio, o cansaço, o desânimo, o peso das paixões, reagi prontamente e ouvi o Mestre, sem vos assustardes perante a triste realidade que é cada um de nós; com efeito, enquanto vivermos, acompanhar-nos-ão sempre as debilidades pessoais.

Este é o caminho do cristão.
É necessário invocar sem descanso, com uma fé rija e humilde: Senhor, não te fies de mim!
Eu, sim, confio em Ti.
E ao pressentir na nossa alma o amor, a compaixão e a ternura com que Jesus Cristo nos olha - Ele não nos abandona - compreenderemos em toda a sua profundidade as palavras do Apóstolo: virtus in infirmitate perficitur; com fé no Senhor, apesar das nossas misérias - ou melhor, com as nossas misérias - seremos fiéis ao nosso Pai Deus e o poder divino brilhará, sustentando-nos no meio da nossa fraqueza.

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A Fé de Bartimeu

É S. Marcos quem nos conta, desta vez, a cura doutro cego.
Ao sair de Jericó, Ele com os seus discípulos e grande multidão, Bartimeu, o cego, filho de Timeu, estava sentado junto do caminho a pedir esmola.
Ouvindo aquele grande vozear das pessoas, o cego perguntou: o que é isto?
Responderam-lhe: é Jesus de Nazaré.
Então inflamou-se-lhe tanto a alma na fé em Cristo, que gritou: Jesus, Filho de David, tem piedade de mim.

Não te dá vontade de gritar, a ti que também estás parado na berma do caminho, desse caminho da vida que é tão curta; a ti, a quem faltam luzes; a ti, que necessitas de mais graça para te decidires a procurar a santidade?
Não sentes urgência em clamar: Jesus, Filho de David, tem piedade de mim?
Que bela jaculatória para repetires com frequência!

Aconselho-vos a meditar com vagar sobre as circunstâncias que precedem o prodígio, a fim de que conserveis bem gravada na vossa mente uma ideia muito nítida: como os nossos pobres corações são diferentes do Coração misericordioso de Jesus!
Isto ser-vos-á sempre muito útil, de modo especial na hora da prova, da tentação, e também na hora da resposta generosa nos pequenos afazeres do dia-a-dia ou nas ocasiões heróicas.

Muitos repreendiam-no para o fazer calar.
Tal como a ti, quando suspeitaste de que Jesus passava a teu lado. Acelerou-se o bater do teu coração e começaste também a clamar, movido por uma íntima inquietação.
E amigos, costumes, comodidade, ambiente, todos te aconselharam: cala-te, não grites!
Porque é que hás-de chamar por Jesus?
Não o incomodes!

Mas o pobre Bartimeu não os ouvia e continuava ainda com mais força: Filho de David, tem piedade de mim.
O Senhor, que o ouviu desde o começo, deixou-o perseverar na sua oração.
Contigo, procede da mesma maneira.
Jesus apercebe-se do primeiro apelo da nossa alma, mas espera. Quer que nos convençamos de que precisamos dele; quer que lhe roguemos, que sejamos teimosos, como aquele cego que estava à beira do caminho, à saída de Jericó.
Imitemo-lo.
Ainda que Deus não nos conceda imediatamente o que lhe pedimos e, apesar de muitos procurarem afastar-nos da oração, não cessemos de lhe implorar.


(cont)

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