Leitura Espiritual Amar a Igreja |
São Josemaria Escrivá
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O fim da Igreja
São
Paulo, no primeiro capítulo da Epístola aos Efésios, afirma que o mistério de
Deus, anunciado por Cristo, se realiza na Igreja.
Deus
Pai pôs debaixo dos pés de Cristo todas as coisas, e constituiu-O cabeça de
toda a Igreja, que é o Seu corpo e o complemento d'Aquele que cumpre tudo em
todos.
O
mistério de Deus é, uma vez chegada a plenitude dos tempos, restaurar em Cristo
todas as coisas, assim as que há no céu, como as que há na terra.
Um
mistério insondável, de pura gratuitidade de amor: porque Ele mesmo nos
escolheu antes da criação do mundo, por amor, para sermos santos e imaculados
diante d'Ele.
O
amor de Deus não tem limites: o próprio São Paulo anuncia que o Nosso Salvador
quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade.
Este,
e não outro, é o fim da Igreja: a salvação das almas, uma a uma.
Para isso o Pai enviou o
Filho, e Eu envio-vos também a vós.
Daí o mandato de dar a
conhecer a doutrina e de baptizar, para que, pela graça, a Santíssima Trindade
habite na alma: foi-Me dado todo o poder no Céu e na terra.
Ide, pois, ensinai todas as
gentes, baptizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo,
ensinando-as a observar todas as coisas que vos mandei; e eis que Eu estou
convosco todos os dias até à consumação dos séculos.
São
as palavras simples e sublimes do final do Evangelho de S. Mateus: aí se
assinala a obrigação de pregar as verdades de fé, a urgência da vida
sacramental, a promessa da contínua assistência de Cristo à Sua Igreja.
Não
se é fiel a Nosso Senhor se se passa por cima destas realidades sobrenaturais:
a instrução na fé e na moral cristãs, a prática dos sacramentos.
Com
este mandato Cristo funda a Sua Igreja.
Tudo
o resto é secundário.
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Na Igreja está a nossa
salvação
Não
podemos esquecer que a Igreja é muito mais do que um caminho de salvação: é o
único caminho.
Ora
isto não foi inventado pelos homens, mas foi Cristo quem assim dispôs: o que crer e for baptizado, será salvo; o
que, porém, não crer, será condenado.
Por
isso se afirma que a Igreja é necessária, com necessidade de meio, para nos
salvarmos.
Já
no século II Orígenes escrevia: se alguém
quer salvar-se, venha a esta casa, para que possa consegui-lo... que ninguém se
engane a si mesmo: fora desta casa, isto é, fora da Igreja, ninguém se salva.
E S. Cipriano: se alguém tivesse escapado
(do dilúvio) fora da arca de Noé, então
poderíamos admitir que quem abandona a Igreja pode escapar da condenação.
Extra Ecclesiam, nulla salus.
É
o aviso contínuo dos Padres: fora da
Igreja católica pode encontrar-se tudo - admite Santo Agostinho - menos a salvação.
Pode ter-se honra, pode
haver Sacramentos, pode cantar-se o "aleluia", pode responder-se
"ámen", pode defender-se o Evangelho, pode ter-se fé no Pai, no Filho
e no Espírito Santo e, inclusivamente, até pregá-la.
Mas nunca, se não for na
Igreja católica, pode encontrar-se a salvação.
No
entanto, como se lamentava Pio XII há pouco mais de vinte anos, alguns reduzem
a uma fórmula vã a necessidade de pertencer à Igreja verdadeira para alcançar a
salvação eterna.
Este
dogma de fé integra a base da actividade corredentora da Igreja, é o fundamento
da grave responsabilidade apostólica dos cristãos. Entre os mandatos expressos
de Cristo determina-se categoricamente o de nos incorporarmos no Seu Corpo
Místico pelo Baptismo.
E
o nosso Salvador não só promulgou o mandamento de que todos entrassem na
Igreja, mas estabeleceu também que a Igreja fosse meio de salvação, sem a qual
ninguém pode chegar ao reino da glória celestial.
É
de fé que quem não pertence à Igreja não se salva; e que quem se não baptiza
não ingressa na Igreja.
A
justificação, depois da promulgação do Evangelho, não pode verificar-se sem o
lavacro da regeneração ou o seu desejo, estabelece o Concilio de Trento.
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É
esta uma contínua exigência da Igreja que se - por um lado - introduz na nossa
alma o aguilhão do zelo apostólico, por outro, manifesta também claramente a
misericórdia infinita de Deus para com as criaturas.
S.
Tomás explica assim:
O Sacramento do baptismo
pode faltar de dois modos. Em primeiro lugar, quando não se recebeu nem de
facto, nem de desejo. É o caso de quem não se baptizou nem quer baptizar-se.
Esta atitude, nos que têm
uso da razão, implica desprezo pelo Sacramento.
E, em consequência, aqueles
a quem falta desta forma o baptismo, não podem entrar no reino dos céus: já que
não se incorporam a Cristo nem sacramentalmente nem espiritualmente e
unicamente d'Ele é que procede a salvação.
Em segundo lugar, pode
também faltar o Sacramento do baptismo a uma pessoa, mas não o seu desejo, como
no caso daquele que, embora se deseje baptizar, é surpreendido pela morte antes
de receber o Sacramento.
A quem isto suceder, pode
salvar-se sem o baptismo actual e só com o desejo do Sacramento.
Este desejo procede da fé
que age pela caridade, através da qual Deus, que não ligou o seu poder aos
Sacramentos visíveis, santifica interiormente o homem.
Apesar
de ser completamente gratuita e de não se dever a ninguém por título algum - e
menos ainda depois do pecado-, Deus Nosso Senhor não recusa a ninguém a
felicidade eterna e sobrenatural: a Sua generosidade é infinita.
É
coisa notória que aqueles que sofrem de ignorância invencível acerca da nossa
santíssima religião, quando guardam cuidadosamente a lei natural e os seus
preceitos, esculpidos por Deus nos corações de todos, e estão dispostos a
obedecer a Deus e levam uma vida honesta e recta, podem alcançar a eterna, por
intermédio da acção operante da luz divina e da graça.
Só
Deus sabe o que se passa no coração de cada homem, e Ele não trata as almas em
massa, mas uma a uma.
Não
corresponde a ninguém nesta terra julgar sobre a salvação ou condenação eternas
num caso concreto.
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Mas
não esqueçamos que a consciência pode deformar-se de modo culpável,
endurecer-se no pecado e resistir à acção salvadora de Deus.
Daí,
a necessidade de pregar a doutrina de Cristo, as verdades de fé e as normas
morais; e daí também a necessidade dos Sacramentos, todos instituídos por Jesus
Cristo como causas instrumentais da Sua graça e remédio para as misérias
consequentes ao nosso estado de natureza caída.
Daí
se deduz também que convém recorrer frequentemente à Penitência e à Comunhão
Eucarística.
Fica,
portanto, bem concretizada a tremenda responsabilidade de todos na Igreja e
especialmente dos pastores com estes conselhos de S. Paulo:
Conjuro-te diante de Deus e
de Jesus Cristo que há-de julgar os vivos e os mortos, pela Sua vinda e pelo
Seu reino: prega a palavra de Deus, insiste a tempo e fora de tempo, repreende,
suplica, admoesta com toda a paciência e doutrina. Porque virá tempo em que os
homens não suportarão a sã doutrina, mas multiplicarão para si mestres conforme
os seus desejos, levados pelo prurido de ouvir doutrinas acomodadas às suas
paixões. E afastarão os ouvidos da verdade e os aplicarão às fábulas.
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Tempo de provação
Eu
não saberia dizer quantas vezes se cumpriram estas palavras proféticas do
Apóstolo. Mas só um cego deixaria de ver como actualmente se estão a verificar
quase à letra.
Rejeita-se
a doutrina dos mandamentos da Lei de Deus e da Igreja, tergiversa-se sobre o
conteúdo das bem-aventuranças dando-lhe um significado político-social: e quem
se esforça por ser humilde, manso e limpo de coração, é tratado como um
ignorante ou um atávico defensor de coisas passadas.
Não
se suporta o jugo da castidade e inventam-se mil maneiras de ludibriar os
preceitos divinos de Cristo.
Há
um sintoma que os engloba todos: a tentativa de desviar os fins sobrenaturais
da Igreja.
Por
justiça, alguns já não entendem a vida de santidade, mas uma luta política
determinada, mais ou menos tingida de marxismo, que é inconciliável com a fé
cristã.
Por
libertação, não admitem a batalha pessoal para fugir do pecado, mas uma tarefa
humana, que pode ser nobre e justa em si mesma, mas que carece de sentido para
o cristão quando implica a desvirtuação da única coisa necessária, a salvação
eterna das almas, uma a uma.
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Com
uma cegueira originada pelo afastamento de Deus - este povo honra-Me com os
lábios, mas o seu coração está longe de Mim-, fabrica-se uma imagem da Igreja
que não tem a menor relação com a que Cristo fundou.
Até
o Santo Sacramento do Altar - a renovação do Sacrifício do Calvário - é
profanado, ou reduzido a um mero símbolo daquilo a que chamam a comunhão dos
homens entre si.
Que
seria das almas, se Nosso Senhor não se tivesse entregado por nós até à última
gota do Seu precioso Sangue!
Como
é possível que se despreze esse milagre perpétuo da presença real de Cristo no
Sacrário?
Ficou
para que vivamos intimamente com Ele, para que O adoremos, para que nos
decidamos a seguir as suas pegadas, como penhor da glória futura.
Estes
tempos são tempos de provação e temos de pedir a Nosso Senhor, com um clamor
que não cesse, que os abrevie, que olhe com misericórdia para a Sua Igreja e
conceda novamente luz sobrenatural às almas dos pastores e às de todos os
fiéis.
Não
há motivo algum que leve a Igreja a empenhar-se em agradar aos homens, porque
nunca os homens - nem sós, nem em comunidade - darão a salvação eterna: quem
salva é Deus.
(cont)
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