09/04/2013

Tratado dos actos humanos 85


Questão 19: Da bondade do acto interior da vontade.






Art. 10 ― Se a vontade humana, querendo um objecto, deve conformar-se sempre com a divina.

(I Sent., dist. XLVIII, a . 2, 3, 4, De Verit., q. 23, a . 8).

O décimo discute-se assim. ― Parece que a vontade humana, querendo um objecto, não deve sempre conformar-se com a divina.

1. ― Pois, não podemos querer o que ignoramos, porque o bem apreendido é o objecto da vontade. Ora, na maior parte das vezes, ignoramos o que Deus quer. Logo, a vontade humana não pode conformar-se com a divina, querendo um objecto.

2. Demais. ― Deus quer danar quem ele de antemão sabe que morrerá em pecado mortal. Se pois, o homem querendo um objecto, tivesse que conformar a sua vontade com a divina, teria de querer a própria danação, o que é inadmissível.

3. Demais. ― Ninguém é obrigado a querer nada contrário à piedade. Ora, às vezes, tal se daria se o homem quisesse o que Deus quer, assim iria contra a piedade um filho que quisesse a morte do pai, querida por Deus. Logo, o homem, querendo um objecto, não está obrigado a conformar a sua com a vontade de Deus.

1. Mas, em contrário, sobre aquilo do salmo (Sl 32, 1) ― aos rectos convém que o louvem ― diz a Glosa: Tem o coração recto quem quer o que Deus quer. Ora, todos estão obrigados a ter o coração recto. Logo, a querer o que Deus quer.

2. Demais. ― A forma da vontade, como de qualquer acto, provém do objecto. Se pois o homem deve conformar a sua vontade com a divina, isso há-de ser em relação ao objecto querido.

3. Demais. ― A discordância das vontades consiste em os homens quererem coisas diversas. Ora, quem tiver vontade oposta à divina tem-na má. Logo, tem má vontade quem, querendo um objecto, não a conforma com a divina.


Como do sobredito resulta 1 a vontade move-se para o objecto que lhe for proposto pela razão. Ora, acontece que esta aprecia um objecto diversamente, de modo que uma coisa boa, a uma luz não o é a outra. Donde, a vontade de quem quer o que lhe parece bom, é boa, e também será boa, a de quem não quer esse mesmo objecto por lhe parecer mau. Assim, o juiz tem vontade boa querendo a morte de um ladrão, que lhe parece justa, mas a vontade de outrém, p. ex., da esposa ou do filho, será também boa, não querendo a morte do mesmo, por ser má, por natureza.

Seguindo, pois, a vontade a apreensão da razão ou do intelecto, quanto mais geral for a noção do bem apreendido, tanto mais geral será o bem para o qual a vontade é movida, como se vê pelo exemplo aduzido. Pois o juiz, curando do bem comum, que é a justiça, quer a morte do ladrão, que lhe parece boa em relação ao estado comum, a esposa, porém, considerando o bem privado da família, quer que o seu marido, embora ladrão, não seja morto.

Ora, o bem de todo o universo é o que é apreendido por Deus, criador e governador do mesmo, e por isso, quer tudo de um ponto de vista universal, que é a sua bondade, bem de todo o universo. Ao passo que a apreensão da criatura, recai, por natureza, sobre algum bem particular, proporcionado à sua natureza. Ora, pode acontecer que uma coisa boa, num ponto de vista particular, não o seja, no ponto de vista universal, ou inversamente, como já se disse. E por isso pode dar-se que uma vontade seja boa, quando quer, particularmente considerada, uma coisa que contudo, universalmente considerada, Deus não quer, e inversamente. Donde vem que vontades diversas de homens diversos, querendo coisas opostas, podem ser boas, querendo-as por diversas razões particulares.

Não é porém recta a vontade do homem que quer um bem particular, quando não o referir ao bem comum, como fim, pois também o apetite natural de qualquer das partes deve ordenar-se ao bem comum do todo. Ora, do fim provém a como que razão formal de querer o que a ele se lhe ordena. Donde, quem quiser um bem particular com vontade reta há-de querê-lo materialmente, ao passo que há-de querer o bem comum divino, formalmente. Logo, a vontade humana querendo um objecto, tem de se conformar com a divina, formalmente, pois, tem de querer o bem divino e comum, não porém materialmente, pela razão já dita. Porém, num e noutro sentido, a vontade humana conforma-se, de certo modo, com a divina, porque, conformando-se com ela pela razão comum do objecto querido, conforma-se pelo fim último, e não se conformando, em relação ao objecto querido materialmente, conforma-se na ordem da causa eficiente, porque a inclinação própria consequente à natureza ou à apreensão particular de determinado objecto, todos os seres a receberem de Deus, causa eficiente. E por isso costuma dizer-se que, neste ponto, a vontade humana se conforma com a divina, porque quer aquilo que Deus quer que ela queira.

Mas há outro modo de conformidade, no ponto de vista da causa formal, quando o homem quer uma coisa pela caridade, como Deus quer. E esta conformidade também se reduz à formal, que se funda na ordem ao último fim, objecto próprio da caridade.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO. ― Segundo a razão comum de querer, podemos conhecer o objecto querido por Deus, pois sabemos que ele só quer o bem. Logo, quem quer uma coisa, sob qualquer razão de bem, tem a sua vontade conforme com a divina, quanto a essa razão. Mas em casos particulares, não sabemos o que Deus quer, e então não estamos obrigados a conformar a nossa vontade com a divina. No estado da glória, porém, todos veremos em particular a relação de tudo o que quisermos com a vontade de Deus, a esse respeito, e portanto teremos a vontade conforme com a de Deus, não só formal, mas também materialmente e em tudo.

RESPOSTA À SEGUNDA. ― Deus não quer a danação como tal, nem a morte, em si mesma, de ninguém, pois, quer que todos os homens se salvem (1 Tm 2, 4), mas quer-o em nome da justiça. E por isso basta neste ponto que o homem queira que seja garantida a justiça de Deus e a ordem da natureza.

Donde se deduz clara a RESPOSTA À TERCEIRA.

RESPOSTA À PRIMEIRA OBJECÇÃO EM CONTRÁRIO. ― Quem conforma a sua vontade com a divina, quanto à razão própria de querer, quer mais o que Deus quer do que quem a conforma quanto à coisa querida, porque a vontade move-se principalmente mais para o fim que para os meios.

RESPOSTA À SEGUNDA. ― A espécie e a forma de um acto funda-se mais na razão formal do objecto do que naquilo que nele existe materialmente.

RESPOSTA À TERCEIRA. ― Não há oposição de vontades quando pessoas diversas querem coisas diversas, não pela mesma razão. Mas haveria, se, pela mesma razão, o que é querido de um não o fosse de outro. Ora, tal não está em questão.

Nota: Revisão da tradução portuguesa por ama.
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Notas:
1. Q. 19, a. 3, 5.


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