Não abandones a tua leitura espiritual.
A leitura tem feito muitos santos.
(S. josemaria, Caminho 116)
Está aconselhada a leitura espiritual diária de mais ou menos 15 minutos. Além da leitura do novo testamento, (seguiu-se o esquema usado por P. M. Martinez em “NOVO TESTAMENTO” Editorial A. O. - Braga) devem usar-se textos devidamente aprovados. Não deve ser leitura apressada, para “cumprir horário”, mas com vagar, meditando, para que o que lemos seja alimento para a nossa alma.
Para ver, clicar SFF.
Evangelho: Mt 24, 23-41
Para ver, clicar SFF.
Evangelho: Mt 24, 23-41
23 «Então, se alguém vos disser: “Eis, aqui está o
Cristo”, ou “ei-lo acolá”, não deis crédito, 24 porque se levantarão
falsos cristos e falsos profetas, e farão grandes milagres e prodígios, de tal
modo que, se fosse possível, até os escolhidos seriam enganados. 25
Eis que Eu vos previno. 26 Se, pois, vos disserem: “Eis que ele está
no deserto”, não vades lá; “ei-lo no lugar mais retirado da casa”, não deis
crédito. 27 Porque, assim como o relâmpago sai do Oriente e brilha
até ao Ocidente, assim será a vinda do Filho do Homem. 28 Onde
estiver um cadáver aí se ajuntarão as águias. 29 «Logo depois da tribulação
daqueles dias, o sol escurecer-se-á, a lua não dará a sua luz, as estrelas
cairão do céu, e as potências dos céus serão abaladas. 30 Então
aparecerá o sinal do Filho do Homem no céu, e todos os povos da terra baterão
no peito, e verão o Filho do Homem vir sobre as nuvens do céu com grande poder
e majestade. 31 Mandará os Seus anjos com poderosas trombetas, e
juntarão os Seus escolhidos dos quatro ventos, de um extremo dos céus ao outro.
32 Compreendei isto por uma comparação tirada da figueira: Quando os
seus ramos estão tenros e as folhas brotam, sabeis que está próximo o Verão; 33
assim também quando virdes tudo isto, sabei que o Filho do Homem está para
breve, está às portas. 34 Em verdade vos digo que não passará esta
geração, sem que se cumpram todas estas coisas. 35 O céu e a terra
passarão, mas as Minhas palavras não hão-de passar. 36 «Quanto
àquele dia e hora, ninguém sabe nada, nem os anjos do céu, nem o Filho, mas só
o Pai. 37 Assim como aconteceu nos dias de Noé, assim será também a
segunda vinda do Filho do Homem. 38 Nos dias que precederam o
dilúvio os homens comiam e bebiam, casavam-se e casavam os seus filhos, até ao
dia em que Noé entrou na arca, 39 e não souberam nada até que veio o
dilúvio e os levou a todos. Assim acontecerá também na vinda do Filho do Homem.
40 «Então, de dois que estiverem no campo, um será tomado e o outro
será deixado. 41 De duas mulheres que estiverem a moer com a mó, uma
será tomada e a outra deixada.
Ioannes Paulus PP.
II
Fides et ratio
aos Bispos da
Igreja Católica
sobre as relações
entre Fé e Razão
…/4
34. Esta verdade, que Deus nos revela em
Jesus Cristo, não está em contraste com as verdades que se alcançam
filosofando. Pelo contrário, as duas ordens de conhecimento conduzem à verdade
na sua plenitude. A unidade da verdade já é um postulado fundamental da razão
humana, expresso no princípio de não-contradição. A Revelação dá a certeza
desta unidade, ao mostrar que Deus criador é também o Deus da história da
salvação. Deus que fundamenta e garante o carácter inteligível e racional da
ordem natural das coisas, sobre o qual os cientistas se apoiam confiadamente, 29 é o mesmo que Se revela como Pai de nosso
Senhor Jesus Cristo. Esta unidade da verdade, natural e revelada, encontra a
sua identificação viva e pessoal em Cristo, como recorda o apóstolo Paulo: «A
verdade que existe em Jesus» (Ef 4, 21; cf. Col 1, 15-20). Ele é a
Palavra eterna, na qual tudo foi criado, e ao mesmo tempo é a Palavra encarnada
que, com toda a sua pessoa, 30
revela o Pai (cf. Jo 1, 14.18). Aquilo que a razão humana procura «sem
o conhecer» (cf. Act 17, 23), só pode ser encontrado por meio de
Cristo: de facto, o que n'Ele se revela é a «verdade plena» (cf. Jo 1,
14-16) de todo o ser que, n'Ele e por Ele, foi criado e, por isso mesmo,
n'Ele encontra a sua realização (cf. Col 1, 17).
35. Tendo estas considerações gerais como
pano de fundo, é necessário agora examinar, de maneira mais directa, a relação
entre a verdade revelada e a filosofia. Tal relação requer uma dupla consideração,
visto que a verdade que nos vem da Revelação tem de ser, simultaneamente, compreendida
pela luz da razão. Só nesta dupla acepção é que será possível especificar a
justa relação da verdade revelada com o saber filosófico. Por isso, vamos
considerar, em primeiro lugar, as relações entre a fé e a filosofia ao longo da
história, donde será possível individuar alguns princípios, que constituem os
pontos de referência aos quais recorrer para estabelecer a correcta relação
entre as duas ordens de conhecimento.
CAPÍTULO
IV - A RELAÇÃO ENTRE A FÉ E A RAZÃO
1. As
etapas significativas do encontro entre a fé e a razão
36. Os Actos dos Apóstolos testemunham que
o anúncio cristão se encontrou, desde os seus primórdios, com as correntes
filosóficas do tempo. Lá se refere a discussão que S. Paulo teve com «alguns
filósofos epicuristas e estóicos» (17, 18). A análise exegética do
discurso no Areópago evidenciou repetidas alusões a ideias populares, predominantemente
de origem estóica. Certamente isso não se deu por acaso; os primeiros cristãos,
para se fazerem compreender pelos pagãos, não podiam citar apenas «Moisés e os profetas»
nos seus discursos, mas tinham de servir-se também do conhecimento natural de
Deus e da voz da consciência moral de cada homem (cf. Rom 1, 19-21; 2,
14-15; Act 14, 16-17). Como, porém, na religião pagã, esse conhecimento
natural tinha degenerado em idolatria (cf. Rom 1, 21-32), o Apóstolo
considerou mais prudente ligar o seu discurso ao pensamento dos filósofos, que
desde o início tinham contraposto, aos mitos e cultos misteriosos, conceitos
mais respeitosos da transcendência divina.
De facto, um dos cuidados que mais a peito
tiveram os filósofos do pensamento clássico, foi purificar de formas
mitológicas a concepção que os homens tinham de Deus. Bem sabemos que a
religião grega, como grande parte das religiões cósmicas, era politeísta,
chegando a divinizar até coisas e fenómenos da natureza. As tentativas do homem
para compreender a origem dos deuses e, nestes, a do universo tiveram a sua
primeira expressão na poesia. As teogonias permanecem, até hoje, o primeiro
testemunho desta investigação do homem. Os pais da filosofia tiveram por missão
mostrar a ligação entre a razão e a religião. Estendendo o olhar para os
princípios universais, deixaram de contentar-se com os mitos antigos e
procuraram dar fundamento racional à sua crença na divindade. Embocou-se assim
uma estrada que, saindo das antigas tradições particulares, levava a um
desenvolvimento que correspondia às exigências da razão universal. O fim que
tal desenvolvimento tinha em vista era a verificação crítica daquilo em que se
acreditava. A primeira a ganhar com esse caminho feito foi a concepção da
divindade. As superstições acabaram por ser reconhecidas como tais, e a
religião, pelo menos em parte, foi purificada pela análise racional. Foi nesta
base que os Padres da Igreja instituíram um diálogo fecundo com os filósofos
antigos, abrindo a estrada ao anúncio e à compreensão do Deus de Jesus Cristo.
37. Quando se menciona este movimento de
aproximação dos cristãos à filosofia, é obrigatório recordar também a cautela
com que eles olhavam outros elementos do mundo cultural pagão, como, por
exemplo, a gnose. A filosofia, enquanto sabedoria prática e escola de vida,
podia facilmente ser confundida com um conhecimento de tipo superior,
esotérico, reservado a poucos iluminados. É, sem dúvida, a especulações
esotéricas deste género que pensa S. Paulo, quando adverte os Colossenses: «Vede
que ninguém vos engane com falsas e vãs filosofias, fundadas nas tradições
humanas, nos elementos do mundo, e não em Cristo» (2, 8). Como são
actuais estas palavras do Apóstolo, quando as referimos às diversas formas de
esoterismo que hoje se difundem mesmo entre alguns crentes, privados do necessário
sentido crítico! Seguindo as pegadas de S. Paulo, outros escritores dos
primeiros séculos, particularmente Santo Ireneu e Tertuliano, puseram reservas
a uma orientação cultural que pretendia subordinar a verdade da Revelação à
interpretação dos filósofos.
38. Como vemos, o encontro do cristianismo
com a filosofia não foi fácil nem imediato. A exercitação desta e a frequência
das respectivas escolas foi vista mais vezes pelos primeiros cristãos como transtorno,
do que como uma oportunidade. Para eles, a primeira e mais urgente missão era o
anúncio de Cristo ressuscitado, que havia de ser proposto num encontro pessoal,
capaz de levar o interlocutor à conversão do coração e ao pedido do Baptismo.
De qualquer modo, isso não significa que ignorassem a obrigação de aprofundar a
compreensão da fé e suas motivações; antes pelo contrário. É injusta e preconceituosa
a crítica de Celso, quando acusa os cristãos de serem gente «iletrada e rude». 31 A explicação deste seu desinteresse
inicial tem de ser procurada noutro lado. Na realidade, o encontro com o
Evangelho oferecia uma resposta tão satisfatória à questão do sentido da vida,
até então insolúvel, que frequentar os filósofos parecia-lhes uma coisa sem
interesse e, em certos aspectos, superada.
Isto é, hoje, ainda mais claro, se se pensa
ao contributo dado pelo cristianismo, quando defende o acesso à verdade como um
direito universal. Derrubadas as barreiras raciais, sociais e sexuais, o cristianismo
tinha anunciado, desde as suas origens, a igualdade de todos os homens diante
de Deus. A primeira consequência deste conceito registou-se no tema da verdade,
ficando decididamente superado o carácter elitista que a sua busca tinha no
pensamento dos antigos: se o acesso à verdade é um bem que permite chegar a
Deus, todos devem estar em condições de poder percorrer esta estrada. As vias
para chegar à verdade continuam a ser muitas; mas, dado que a verdade cristã
tem valor salvífico, cada uma delas só pode ser percorrida se conduzir à meta
final, ou seja, à revelação de Jesus Cristo.
Como pioneiro dum encontro positivo com o
pensamento filosófico, sempre marcado por um prudente discernimento, há que
recordar S. Justino. Apesar da grande estima que continuava a ter pela
filosofia grega depois da sua conversão, afirmava decidida e claramente que
tinha encontrado, no cristianismo, «a única filosofia segura e vantajosa». 32 De forma semelhante, Clemente de
Alexandria chamava ao Evangelho «a verdadeira filosofia», 33 e, em analogia com a lei mosaica, via a
filosofia como uma instrução propedêutica à fé cristã 34 e uma preparação ao Evangelho. 35 Uma vez que «a filosofia anela por aquela
sabedoria que consiste na rectidão da alma e da palavra e na pureza da vida,
está aberta à sabedoria e tudo faz para a alcançar. No nosso meio, designam-se
por filósofos os que amam a sabedoria que é criadora e mestra de tudo, isto é, o
conhecimento do Filho de Deus». 36
Segundo este pensador alexandrino, a filosofia grega não tem como primeiro
objectivo completar ou corroborar a verdade cristã; a sua função é, sobretudo,
a defesa da fé: «A doutrina do Salvador é perfeita em si mesma e não precisa de
apoio, porque é a força e a sabedoria de Deus. A filosofia grega não torna mais
forte a verdade com o seu contributo, mas, porque torna impotente o ataque da
sofística e desarma os assaltos traiçoeiros contra a verdade, foi justamente
chamada sebe e muro de vedação da vinha». 37
39. Entretanto, na história deste
desenvolvimento, é possível constatar a assunção crítica do pensamento
filosófico por parte dos pensadores cristãos. No meio dos primeiros exemplos
encontrados, sobressai, sem dúvida, Orígenes. Contra os ataques lançados pelo
filósofo Celso, ele recorre à filosofia platónica para argumentar e
responder-lhe. Citando vários elementos do pensamento platónico, começa a
elaborar uma primeira forma de teologia cristã. Naquele tempo, a designação
mesma de teologia e a sua concepção como discurso racional sobre Deus ainda
estavam ligadas à sua origem grega. Na filosofia aristotélica, por exemplo, o
termo designava a parte mais nobre e o verdadeiro apogeu do discurso
filosófico. Mas, à luz da revelação cristã, o que anteriormente indicava uma
doutrina genérica sobre a divindade, passou a assumir um significado totalmente
novo, ou seja, a reflexão que o crente realiza para exprimir a verdadeira
doutrina acerca de Deus. Este novo pensamento cristão, que estava a
desenvolver-se, servia-se da filosofia, mas ao mesmo tempo tendia a
distinguir-se nitidamente dela. A história revela que o próprio pensamento
platónico, quando foi assumido pela teologia, sofreu profundas transformações,
especialmente em conceitos como a imortalidade da alma, a divinização do homem
e a origem do mal.
40. Nesta obra de cristianização do
pensamento platónico e neoplatónico, merecem menção particular os Padres
Capadócios, Dionísio chamado o Areopagita e sobretudo Santo Agostinho. O grande
Doutor ocidental contactara diversas escolas filosóficas, mas todas o tinham
desiludido. Quando se lhe deparou a verdade da fé cristã, então teve a força de
realizar aquela conversão radical a que os filósofos anteriormente contactados
não tinham conseguido induzi-lo. Ele mesmo refere o motivo: «Preferindo a
doutrina católica, já sentia, então, que era mais razoável e menos enganos o
sermos obrigados a crer o que não demonstrava, quer houvesse prova, mesmo que
esta não estivesse ao alcance de qualquer pessoa, quer a não houvesse. Seria
isto mais sensato do que zombarem da crença os maniqueístas, apoiados em
temerária promessa de ciência, para depois nos mandarem acreditar em inúmeras
fábulas tão absurdas que as não podiam provar». 38 Quanto aos platónicos, que
ocupavam lugar privilegiado nos pontos de referimento de Agostinho, este
censurava-os porque, embora conhecessem o fim para onde se devia tender,
tinham, porém, ignorado o caminho que lá conduzia: o Verbo encarnado. 39 O Bispo de Hipona conseguiu elaborar a
primeira grande síntese do pensamento filosófico e teológico, nela confluindo
correntes do pensamento grego e latino. Também nele a grande unidade do saber,
que tinha o seu fundamento no pensamento bíblico, acabou por ser confirmada e sustentada
pela profundidade do pensamento especulativo. A síntese feita por Santo
Agostinho permanecerá como a forma mais elevada de reflexão filosófica e
teológica que o Ocidente, durante séculos, conheceu. Com uma história pessoal
intensa e ajudado por uma admirável santidade de vida, ele foi capaz de
introduzir, nas suas obras, muitos dados que, apelando-se à experiência,
antecipavam já futuros desenvolvimentos de algumas correntes filosóficas.
41. De diversas formas, pois, os Padres do
Oriente e do Ocidente entraram em relação com as escolas filosóficas. Isto não
significa que tenham identificado o conteúdo da sua mensagem com os sistemas a
que faziam referência. A pergunta de Tertuliano: «Que têm em comum Atenas e
Jerusalém? Ou, a Academia e a Igreja?», 40
é um sintoma claro da consciência crítica com que os pensadores cristãos
encararam, desde as origens, o problema da relação entre a fé e a filosofia,
vendo-o globalmente, tanto nos seus aspectos positivos como nas suas
limitações. Não eram pensadores ingénuos. Precisamente porque viviam de forma
intensa o conteúdo da fé, eles conseguiam chegar às formas mais profundas da
reflexão. Por isso, é injusto e redutivo limitar o seu trabalho a mera transposição
das verdades de fé para categorias filosóficas. Eles fizeram muito mais;
conseguiram explicitar plenamente aquilo que resultava ainda implícito e preliminar
no pensamento dos grandes filósofos antigos. 41
Estes, conforme já disse, tiveram a função de mostrar o modo como a razão,
livre dos vínculos externos, podia escapar do beco sem saída dos mitos, para
melhor se abrir à transcendência. Uma razão purificada e recta era capaz de se
elevar aos níveis mais elevados da reflexão, dando fundamento sólido à
percepção do ser, do transcendente e do absoluto.
Aqui mesmo se insere a novidade operada
pelos Padres. Acolheram a razão na sua plena abertura ao absoluto e, nela,
enxertaram a riqueza vinda da Revelação. O encontro não foi apenas questão de
culturas, uma das quais, talvez seduzida pelo fascínio da outra; mas verificou-se
no íntimo da alma, e foi um encontro entre a criatura e o seu Criador.
Ultrapassando o fim mesmo para o qual inconscientemente tendia por força da sua
natureza, a razão pôde alcançar o sumo bem e a suma verdade na pessoa do Verbo
encarnado. Ao encararem as filosofias, os Padres não tiveram medo de reconhecer
tanto os elementos comuns como as diferenças que aquelas apresentavam relativamente
à Revelação. A percepção das convergências não ofuscava neles o reconhecimento
das diferenças.
42. Na teologia escolástica, o papel da
razão educada filosoficamente torna-se ainda mais notável sob o impulso da
interpretação anselmiana do intelectus fidei. Segundo o santo Arcebispo de
Cantuária, a prioridade da fé não faz concorrência à investigação própria da
razão. De facto, esta não é chamada a exprimir um juízo sobre os conteúdos da
fé; seria incapaz disso, porque não é idónea. A sua tarefa é, antes, saber
encontrar um sentido, descobrir razões que a todos permitam alcançar algum
entendimento dos conteúdos da fé. Santo Anselmo sublinha o facto de que o
intelecto deve pôr-se à procura daquilo que ama: quanto mais ama, mais deseja
conhecer. Quem vive para a verdade, tende para uma forma de conhecimento que se
inflama num amor sempre maior por aquilo que conhece, embora admita que ainda
não fizera tudo aquilo que estaria no seu desejo: «Ad te videndum factus sum;
et nondum feci propter quod factus sum». 42
Assim, o desejo da verdade impele a razão a ir sempre mais além; esta fica como
que embevecida pela constatação de que a sua capacidade é sempre maior do que
aquilo que alcança. Chegada aqui, porém, a razão é capaz de descobrir onde está
o termo do seu caminho: «Penso efectivamente que, quem investiga uma coisa
incompreensível, se deve contentar de chegar, pela razão, a reconhecer com a
máxima certeza a sua existência real, embora não seja capaz de penetrar, pela
inteligência, o seu modo de ser (...). Aliás, que há de tão incompreensível e
inefável como aquilo que está acima de tudo? Portanto, se aquilo de cuja
essência suprema discutimos até agora, ficou estabelecido sobre razões
necessárias, ainda que a inteligência não o possa penetrar de forma a conseguir
traduzi-lo em palavras claras, nem por isso vacila minimamente o fundamento da
sua certeza. Com efeito, se uma reflexão anterior compreendeu de maneira
racional que é incompreensível (rationabiliter comprehendit incomprehensibile
esse) o modo como a sabedoria suprema sabe aquilo que fez (...), quem explicará
como ela mesma se conhece e exprime, dado que sobre ela o homem nada ou quase
nada pode saber?». 43
Confirma-se assim, uma vez mais, a harmonia
fundamental entre o conhecimento filosófico e o conhecimento da fé: a fé requer
que o seu objecto seja compreendido com a ajuda da razão; por sua vez a razão,
no apogeu da sua indagação, admite como necessário aquilo que a fé apresenta.
2. A
novidade perene do pensamento de S. Tomás de Aquino
43. Neste longo caminho, ocupa um lugar
absolutamente especial S. Tomás, não só pelo conteúdo da sua doutrina, mas
também pelo diálogo que soube instaurar com o pensamento árabe e hebreu do seu
tempo. Numa época em que os pensadores cristãos voltavam a descobrir os
tesouros da filosofia antiga, e mais directamente da filosofia aristotélica,
ele teve o grande mérito de colocar em primeiro lugar a harmonia que existe
entre a razão e a fé. A luz da razão e a luz da fé provêm ambas de Deus:
argumentava ele; por isso, não se podem contradizer entre si. 44
Indo mais longe, S. Tomás reconhece que a
natureza, objecto próprio da filosofia, pode contribuir para a compreensão da
revelação divina. Deste modo, a fé não teme a razão, mas solicita-a e confia
nela. Como a graça supõe a natureza e leva-a à perfeição, 45 assim também a fé supõe e aperfeiçoa a
razão. Esta, iluminada pela fé, fica liberta das fraquezas e limitações
causadas pela desobediência do pecado, e recebe a força necessária para
elevar-se até ao conhecimento do mistério de Deus Uno e Trino. Embora sublinhando
o carácter sobrenatural da fé, o Doutor Angélico não esqueceu o valor da
racionabilidade da mesma; antes, conseguiu penetrar profundamente e especificar
o sentido de tal racionabilidade. Efectivamente, a fé é de algum modo «exercitação
do pensamento»; a razão do homem não é anulada nem humilhada, quando presta
assentimento aos conteúdos de fé; é que estes são alcançados por decisão livre
e consciente. 46
Precisamente por este motivo é que S. Tomás
foi sempre proposto pela Igreja como mestre de pensamento e modelo quanto ao
recto modo de fazer teologia. Neste contexto, apraz-me recordar o que escreveu
o meu Predecessor, o Servo de Deus Paulo VI, por ocasião do sétimo centenário
da morte do Doutor Angélico: «Sem dúvida, S. Tomás possuiu, no máximo grau, a coragem
da verdade, a liberdade de espírito quando enfrentava os novos problemas, a
honestidade intelectual de quem não admite a contaminação do cristianismo pela
filosofia profana, mas tão pouco defende a rejeição apriorística desta. Por
isso, passou à história do pensamento cristão como um pioneiro no novo caminho
da filosofia e da cultura universal. O ponto central e como que a essência da
solução que ele deu ao problema novamente posto da contraposição entre razão e
fé, com a genialidade do seu intuito profético, foi o da conciliação entre a
secularidade do mundo e a radicalidade do Evangelho, evitando, por um lado,
aquela tendência anti-natural que nega o mundo e seus valores, mas, por outro,
sem faltar às exigências supremas e inabaláveis da ordem sobrenatural». 47
44. Entre as grandes intuições de S. Tomás,
conta-se a de atribuir ao Espírito Santo o papel de fazer amadurecer, como
sapiência, a ciência humana. Desde as primeiras páginas da Summa theologiæ, 48 o Aquinate quis mostrar o primado daquela
sapiência que é dom do Espírito Santo e que introduz no conhecimento das
realidades divinas. A sua teologia permite compreender a peculiaridade da
sapiência na sua ligação íntima com a fé e o conhecimento de Deus: conhece por
conaturalidade, pressupõe a fé e chega a formular rectamente o seu juízo a
partir da verdade da própria fé: «A sapiência elencada entre os dons do
Espírito Santo é distinta da mencionada entre as virtudes intelectuais. De
facto, esta segunda adquire-se pelo estudo; aquela, pelo contrário,
"provém do alto", como diz S. Tiago. Mas é também distinta da fé,
porque esta aceita a verdade divina tal como é, enquanto é próprio do dom da
sapiência julgar segundo a verdade divina». 49
Mas, ao reconhecer a prioridade desta
sapiência, o Doutor Angélico não esquece a existência de mais duas formas
complementares de sabedoria: a filosófica, que se baseia sobre a capacidade que
tem o intelecto, dentro dos próprios limites naturais, de investigar a realidade;
e a sabedoria teológica, que se fundamenta na Revelação e examina os conteúdos
da fé, alcançando o próprio mistério de Deus.
Intimamente convencido de que «omnes verum
a quocumque dicatur a Spiritu Sancto est», 50
S. Tomás amou desinteressadamente a verdade. Procurou-a por todo o lado onde
pudesse manifestar-se, colocando em relevo a sua universalidade. Nele, o
Magistério da Igreja viu e apreciou a paixão pela verdade; o seu pensamento,
precisamente porque se mantém sempre no horizonte da verdade universal,
objectiva e transcendente, atingiu «alturas que a inteligência humana jamais
poderia ter pensado». 51 É, pois,
com razão que S. Tomás pode ser definido «apóstolo da verdade». 52 Porque se consagrou sem reservas à
verdade, no seu realismo soube reconhecer a sua objectividade. A sua filosofia
é verdadeiramente uma filosofia do ser, e não do simples aparecer.
3. O
drama da separação da fé e da razão
45. Quando surgiram as primeiras
universidades, a teologia começou a relacionar-se mais directamente com outras
formas da pesquisa e do saber científico. Santo Alberto Magno e S. Tomás,
embora admitindo uma ligação orgânica entre a filosofia e a teologia, foram os
primeiros a reconhecer à filosofia e às ciências a autonomia de que precisavam
para se debruçar eficazmente sobre os respectivos campos de investigação.
Todavia, a partir da baixa Idade Média, essa distinção legítima entre os dois
conhecimentos transformou-se progressivamente em nefasta separação. Devido ao
espírito excessivamente racionalista de alguns pensadores, radicalizaram-se as
posições, chegando-se, de facto, a uma filosofia separada e absolutamente autónoma
dos conteúdos da fé. Entre as várias consequências de tal separação, sobressai
a difidência cada vez mais forte contra a própria razão. Alguns começaram a
professar uma desconfiança geral, céptica ou agnóstica, quer para reservar mais
espaço à fé, quer para desacreditar qualquer possível referência racional à
mesma.
Em resumo, tudo o que o pensamento
patrístico e medieval tinha concebido e actuado como uma unidade profunda, geradora
dum conhecimento capaz de chegar às formas mais altas da especulação, foi
realmente destruído pelos sistemas que abraçaram a causa de um conhecimento
racional, separado e alternativo da fé.
46. As radicalizações mais influentes são
bem conhecidas e visíveis, sobretudo na história do Ocidente. Não é exagerado
afirmar que boa parte do pensamento filosófico moderno se desenvolveu num progressivo
afastamento da revelação cristã até chegar explicitamente à contraposição. No
século passado, este movimento tocou o seu apogeu. Alguns representantes do
idealismo procuraram, de diversos modos, transformar a fé e os seus conteúdos,
inclusive o mistério da morte e ressurreição de Jesus Cristo, em estruturas
dialécticas racionalmente compreensíveis. Mas a esta concepção, opuseram-se
diversas formas de humanismo ateu, elaboradas filosoficamente, que apontaram a
fé como prejudicial e alienante para o desenvolvimento pleno do uso da razão.
Não tiveram medo de se apresentar como novas religiões, dando base a projectos
que desembocaram, no plano político e social, em sistemas totalitários
traumáticos para a humanidade.
No âmbito da investigação científica,
foi-se impondo uma mentalidade positivista, que não apenas se afastou de toda a
referência à visão cristã do mundo, mas sobretudo deixou cair qualquer alusão à
visão metafísica e moral. Por causa disso, certos cientistas, privados de
qualquer referimento ético, correm o risco de não manterem, ao centro do seu
interesse, a pessoa e a globalidade da sua vida. Mais, alguns deles, cientes
das potencialidades contidas no progresso tecnológico, parecem ceder à lógica
do mercado e ainda à tentação dum poder demiúrgico sobre a natureza e o próprio
ser humano.
Como consequência da crise do racionalismo,
apareceu o niilismo. Enquanto filosofia do nada, consegue exercer um certo
fascínio sobre os nossos contemporâneos. Os seus seguidores defendem a pesquisa
como fim em si mesma, sem esperança nem possibilidade alguma de alcançar a meta
da verdade. Na interpretação niilista, a existência é somente uma oportunidade
para sensações e experiências onde o efémero detém o primado. O niilismo está
na origem duma mentalidade difusa, segundo a qual não se deve assumir qualquer
compromisso definitivo, porque tudo é fugaz e provisório.
Revisão da tradução portuguesa por ama
___________________________
Notas:
29 «[Galileu] declarou explicitamente que
as duas verdades, de fé e de ciência, não podem nunca contradizer-se,
"procedendo igualmente do Verbo divino a Escritura santa e a natureza, a primeira
como ditada pelo Espírito Santo, a segunda como executora fidelíssima das
ordens de Deus", segundo ele escreveu na sua carta ao Padre Benedetto
Castelli, a 21 de Dezembro de 1613. O Concílio Vaticano II não se exprime
diferentemente; retoma mesmo expressões semelhantes, quando ensina: "A
investigação metódica em todos os campos do saber, quando levada a cabo (...)
segundo as normas morais, nunca será realmente
oposta à fé, já que as realidades profanas
e as da fé têm origem no mesmo Deus" (Gaudium et spes, 36). Galileu
manifesta, na sua investigação científica, a presença do Criador que o
estimula, que Se antecipa às suas intuições e as ajuda, operando no mais
profundo do seu espírito » [João Paulo II, Discurso à Pontifícia Academia das
Ciências, a 10 de Novembro de 1979: L'Osservatore Romano (ed. portuguesa, de 25
de Novembro de 1979), 6].
30 Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm.
sobre a revelação divina Dei Verbum, 4.
31 Orígenes, Contra Celso 3, 55: SC 136,
130.
32 Diálogo com Trifão, 8, 1: PG 6, 492.
33 Stromata I, 18, 90, 1: SC 30, 115.
34 Cf. ibid. I, 16, 80, 5: SC 30, 108.
35 Cf. ibid. I, 5, 28, 1: SC 30, 65.
36 Ibid., VI, 7, 55, 1-2: PG 9, 277.
37 Ibid., I, 20, 100, 1: SC 30, 124.
38 Santo Agostinho, Confessiones VI, 5, 7:
CCL 27, 77-78.
39 Cf. ibid. VII, 9, 13-14: CCL 27,
101-102.
40 «Quid ergo Athenis et Hierosolymis? Quid
academiæ et ecclesiæ?» [De præscriptione hereticorum, VII, 9: SC 46, 98].
41 Cf. Congr. da Educação Católica, Instr.
sobre o estudo dos Padres da Igreja na formação sacerdotal (10 de Novembro de
1989), 25: AAS 82 (1990), 617-618.
42 Santo Anselmo, Proslogion, 1: PL 158,
226.
43 Idem, Monologion, 64: PL 158, 210.
44 Cf. S. Tomás de Aquino, Summa contra
gentiles, I, VII.
45 «Cum enim gratia non tollat naturam, sed
perficiat» [Idem, Summa theologiæ, I, 1, 8 ad 2].
46 Cf. João Paulo II, Discurso aos
participantes no IX Congresso Tomista Internacional (29 de Setembro de 1990):
L'Osservatore Romano (ed. portuguesa de 28 de Outubro de 1990), 9.
47 Carta ap. Lumen Ecclesiæ (20 de Novembro
de 1974), 8: AAS 66 (1974), 680.
48 «Præterea, hæc doctrina per studium
acquiritur. Sapientia autem per infusionem habetur, unde inter septem dona
Spiritus Sancti connumeratur» [Summa theologiæ, I, 1, 6].
49 Ibid., II, II, 45, 1 ad 2; cf. também II,
II, 45, 2.
50 Ibid., I, II, 109, 1 ad 1, que cita a
conhecida frase do Ambrosiaster, In prima Cor 12,3: PL 17, 258.
51 Leão XIII, Carta enc. ÆTERNI PATRIS (4
de Agosto de 1879): ASS 11 (1878-1879), 109.
52 Paulo VI, Carta ap. Lumen Ecclesiæ (20 de Novembro
de 1974), 8: AAS 66 (1974), 683.
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